sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Corvos e espantalhos

Assim como o espantalho do filme, a oposição precisa urgentemente de um cérebro.


No segundo Governo Vargas, o democrático, a política nacionalista imperou. Se hoje temos o maior parque industrial da América Latina e somos auto-suficientes em petróleo, muito se deve à determinação do Presidente Vargas. Não obstante, àquela época seu governo estava longe de ser unanimidade – a UDN liderava agressiva e intransigente oposição; corrupção era a principal acusação.


JK aprofundou a industrialização nacional (ainda que aliada ao capital internacional); Jango expandiu e diversificou nossas relações comerciais com o mundo e incluiu novos setores sociais no processo político. A oposição conservadora, numa sistemática campanha desestabilizadora contra esses governos progressistas, fazia do combate à corrupção sua principal bandeira.


Novamente, testemunhamos hoje os setores conservadores recorrerem à mesma tática de outrora, pondo em evidência sua inequívoca genealogia udenista. O espantalho da corrupção é levantado, ocultando-se a real agenda, para opor-se a um governo inequivocamente progressista. A quem interessa, por exemplo, que ao invés de discutir-se políticas públicas, os jornais tratem de terceiro mandato?


Faz parte do jogo. Surpreende, no entanto, que setores da própria esquerda brasileira sirvam de linha auxiliar da direita nessa estratégia tão velha. Seja por má-fé – como no caso de Roberto Freire e seu partido –, seja por ingenuidade política e falta de senso histórico e prático – caso do Psol –, ou, ainda, por puro radicalismo – MST e quetais.


Fazer dessa questão a principal bandeira, como vêm fazendo a oposição conservadora PFL/PSDB e seus prepostos (PPS, Psol), é política miúda, imediatista. É falta de perspectiva histórica porque atribui-se demasiada importância a pessoas, não levando em conta as forças profundas do processo histórico – o avanço gradual das instituições republicanas como reflexo do avanço sócio-cultural da própria sociedade brasileira.


O discurso moralista anti-corrupção, que visa tirar a legitimidade da opinião oposta, despolitizando o debate, busca, em verdade, dissimular o embate político latente, tornando a “corrupção” ou a “moralidade” meros instrumentos de luta partidária contra a situação dominante. Será isso por falta de discurso ou falta de vontade de que este seja revelado? A oposição conservadora se mostra, agindo dessa forma, atávica e sem cérebro.

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