quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Viva o progresso!

Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora...
e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.



Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.

Comunidade? Eis aí um conceito que se desconhece em Recife. Prevalece a lei do cada um por si. Essa é a grande questão da cidade, sobre a qual ninguém falou. Os principais problemas da cidade se devem à subordinação do público ao privado. A iniciativa privada é que dita o ritmo, a intensidade e a direção do crescimento de Recife. O poder público corre atrás desesperadamente, fazendo arremedos de intervenções e equipamentos urbanos. Que sempre ficam prontos quando é tarde demais. O bem coletivo não é levado em conta, em detrimento de interesses particulares. São uns poucos - donos de casarões antigos, especuladores imobiliários, construtoras... O resto, todo mundo, paga o preço muito caro do lucro deles. E então onde antes numa rua qualquer havia 5 casas, de repente elas somem e em seus lugares emergem 5 mondrongos de 27 andares, 4 apartamentos por andar, 2 ou 3 vagas de estacionamento. Faça aí a matemática. A infra-estrutura viária, a tubulação do esgoto, outros equipamentos urbanos como parques etc, permanecem os mesmos de antes!

Aí fica agora todo mundo falando de crise em Wall Street. E a crise das grandes cidades brasileiras? E a crise de Recife? Recife está seguindo um rumo que é inviável. Este estado de coisas não é fruto do acaso, não é um acidente da natureza. Quer entender o que está acontecendo em Wall Street? Olhe em sua volta: Recife materializou o que ocorreu lá virtualmente. Esse estado de coisas é resultado de escolhas que foram feitas, e que continuam sendo feitas, e de uma certa ideologia hegemônica que permeia a nossa sociedade e que o legitima. A mesma lógica que levou à crise financeira mundial está por trás do caos urbano em que está se transformando o Recife. É a ausência radical de regras, é o capitalismo selvagem, predador. Pode-se destruir e construir em Recife à vontade. É o Estado-mínimo em prática. Na verdade, está mais para Estado seletivo. Quem é vítima da violência policial sabe bem que o Estado, muitas vezes, de mínimo não tem nada: ele pode ser monstruosamente grande. É a privatização dos lucros, a partir do espaço público, e a socialização dos prejuízos, porque somos todos os contribuintes que pagamos pelas conseqüências da verticalização sem limites. Regras! Eu quero regras!

Aliás, regras... Isso é algo que vai além da capacidade cognitiva do cidadão recifense. Estamos a matarmos uns aos outros. As regras, quando existem, são solenemente desrespeitadas. Fica evidente por onde se passa na cidade. Aliás, transportar-se em Recife poderia ser considerado um esporte radical. Emoção pura. Dirigir por aqui , como disse um amigo, é como entrar num trem fantasma: surpresas e obstáculos surgem de todos os lados... isso na melhor das hipóteses, quando o trânsito de fato flui! Sem falar do assalto que as classes médias fazem às águas públicas, enquanto 2/3 da população da cidade padece de falta d'água crônica! A lista é infindável. Assalto a mão armada na frente de prédio é NADA comparado com todas as outras violências implícitas e explícitas que sofre a maioria dos recifenses em favor de uma minoria mesquinha.

Todos os nossos problemas temos resolvidos, nós "classes média e alta" (vista a carapuça quem quiser), os problemas coletivos de forma individual e privada. O prédio foi uma solução para a moradia. O carro, para o transporte. A cidade do Recife é (mal) feita pro morador de prédio usuário do carro. Priu. O resto são inconvenientes que enfeiam o Canal de Setúbal no Natal ou que envergonham os visitantes na Centro ou que roubam minha carteira na Agamenon. E tome grade e muro e câmeras de vigilâncias e guaritas e vidro fumê. Outro dia fui com uns amigos, andando, até o Plaza Shopping. Surgiu o questionamento - por que não resolvem a fedentina do canal que passa ali ao lado. Eu apontei pra passarela que liga o edifício garagem ao prédio do shopping e falei: olha ali, resolveram sim.

O modelo urbano recifense é intrinsecamente excludente. O recifense (das classes médias e altas) não anda a pé. Andar a pé em Recife é uma experiência sui-generis. Porque ou você vai se achar numa cidade fantasma ou então no Marrocos. Toda semana vou almoçar na casa de um tio que mora no Parnamirim. São 15 minutos a pé da minha casa até a dele. Uns 7 de bicicleta. Riem da minha cara: tá liso diga! Para eles, é incompreensível que alguém, por escolha, não use o carro. As classes abastada da cidade têm vergonha da cidade em que vivem. Nunca andam na rua da Imperatirz, jamais pisarão num mercado público. O negócio é Shopping Recife. O negócio, mesmo, seria Miami, ou pelo menos São Paulo. Mas o Shopping Recife já está de bom tamanho. E tome prédio. E tome carro. Vivemos numa sociedade desintegrada, e cada vez mais indo nessa direção.

Se tudo isso fosse só uma questão estética (prédio alto é feio, carro é feio), eu nem diria nada. Poderia-se dizer que se trata apenas de questão de gosto... Para a maioria das pessoas, não importa que a cidade fique toda igualzinha a Boa Viagem. As particularidades de cada bairro, reflexo de histórias específicas, pode ser considerada frescura babaca burguesa sentimentalóide nostálgica... Pode, pode, não nego isso não. Mas reflete um descaso total com o futuro. Agora mesmo, o mar está avançando sobre os prédios de Piedade e Candeias e sobre o calçadão de Boa Viagem. Se lá atrás, nos anos 70, houvesse uma preocupação com uma ocupação mais racional da orla os problemas mais graves que estão ocorrendo e que vai piorar poderiam ter sido evitados.

Tem gente preocupada em Recife com essas questões? Tem. Muita gente boa. Muita gente jovem. Mas essas pessoas estão por aí, soltas, desarticuladas. Não há uma voz política. Estamos perdendo a batalha ideológica em prol de um Recife mais humano onde o bem coletivo passe a sobrepor-se aos interesses particulares. Quem sabe em 2012 poderemos votar em algum candidato a vereador preocupado com essas coisas?

Ou então vamos oficializar logo essa parada: Moura Dubeux para prefeito do Recife!

- - - - - - - - -
Já abordei esse assunto antes:

- Recife ruirá

- Privatizaram o horizonte!

- Utopia recifense

- A Terra Prometida da casta-média brasileira

domingo, 5 de outubro de 2008

Bola de cristal

Há exatamente um ano fiz uma previsão sobre as eleições de Jaboatão. Em comentário a esse post (veja aqui, rolando até o final do texto). Se referindo ao Deputado Paulo Rubem, eu falei, naquela ocasião - "a eleicão do ano que vem, dificilmente ele passará dos 10% (minha opinião totalmente não empírica). vamos ver." Dito e feito. Fui até generoso. PR teve 5,42%, confirmando a fidelidade das pesquisas de intenção de voto que apontavam para isso mesmo. Aliás, via de regra no Brasil inteiro as pesquisas tëm sido um bom instrumento para captar tendëncias e sentimentos da população. Mais reflexões sobre os resultados de hoje ficam pra depois. Queria só registrar aqui o poder de bola de cristal desse blogue. Uau.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O "sushi nazi" de Recife

Tem um episódio de Seinfeld sobre o "soup nazi" (olha aqui). O personagem, um argentino, faz uma sopa divina, que ele trata como obra de arte. Ele tem regras bem rigorosas em seu estabelecimento. Mas a clientela se submete a esse tratamento autoritário porque a sopa é tão gostosa que justifica o martírio.

Pois bem, Recife tem também seu próprio "soup nazi". No nosso caso, trata-se do "sushi nazi" - Wadamon. Seu restaurante era no Espinheiro. Depois de uns 30 assaltos, ele fechou o local e voltou para Osaka. Agora, acabo de descobrir que Wadamon, o sushi nazi de Recife, está de volta. O local é bem simples, familiar. O atendimento é simpático, embora bastante demorado. É o próprio Wada, como os clientes mais fiés carinhosamente o chamam, quem prepara cuidadosamente cada prato. Alguns inclusive diferente do que estamos acostumados a ver nos restaurantes japoneses aqui. Segundo ele, porque seus pratos são mais autenticos. Prepare-se, quando for lá, para duas coisas - pratos maravilhosos e serviço demorado. O negócio familiar é refletido na lerdeza do atendimento. Que é perfeitamente compensado pela qualdiade do que se come. Além disso, Wada vai ensinar a maneira correta de se comer sushi. Daí o apodo que nós colocamos - o sushi nazi. Por exemplo, não se deve molhar o arroz no soyo em hipótese algum, só a carne e só um pedaço. E deve-se comer o sushi com a mão.

Mas não se preocupe. Se comer errado ele não vai expulsar vocë, como o soup nazi. Como sempre no Brasil, esses fenömenos chegam aqui sempre mais moderados! Mas fica a dica - aproveitemos antes que Wada tenha seu local assaltado novamente e retorne para sua natal Osaka! Ah, fica naquela rua por trás do Fiteiro, no Parnamirim. Buen provecho!