domingo, 29 de novembro de 2009

Meio ano



Finalmente arrumo um tempinho para escrever algo. Já se passaram seis meses de Europa (06 de junho eu cheguei em St-Etienne) e de Londres (23 do mesmo mês, aterrisei em Stansted, um dos cinco aeroportos que atendem a cidade). Observei a evolução do verão, e a transição, em setembro, para o outono. O gradualismo das mudanças. Primeiro os dias vão se estendendo. Em um ponto, tem-se sol das 7 da manhã até depois das 9 da noite. Aos poucos, vai diminuindo. Dias cada vez menos longos, e depois cada vez mais curtos. Cada vez mais folhas amarelas nas árvores. Amarelas e laranjas. Laranjas e vermelhas. E depois essas folhas todas no chão. E o vento frio. 10 graus, mas sensação términa de 5. E quando se atravessa o Rio Tâmisa, piora. As idas e vindas de bicicleta, antes agradável; agora, com o vento que faz doer o esqueleto, apenas tolerável. Os olhos, antes deslumbrados e apreciativos da paisagem bela, fotogênica, harmônica e dinâmica, agora lacrimenjando – e não é pela beleza do que se vê. Daqui a pouco, o outono terá passado. Não restarão mais folhas que secar e cair. Minha roupa improvisada para o frio será insuficiente e inócua. A escuridão das 4 da tarde que mais parecem 8 da noite, cairá ainda mais cedo? O bom de pedalar, ao invés de me locomover de metrô, entrando e saindo de buraco feito tatu, é poder testemunhar, diariamente, a evolução desse processo.


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Depois que escrevi o parágrafo acima, fui dar uma googlada pra saber mais sobre pedalar em Londres. Descobri informações sobre pedalar no inverno - veja aqui. Além de dar dicas de segurança e aclamar as vantagens para a saúde física e mental do ciclismo, o site da Transports for London (TFL), a empresa pública de transportes da cidade, avisa que a cidade oferece serviços como curso de ciclismo urbano, para que as pessoas adquiram confiança para pedalar no escuro.


Mas antes que alguém se preocupe, é bem tranquilo pedalar por aqui. Veja esse vídeo institucional, que promove a bike como meio de transporte: veja aqui .


Interessante notar que a TFL presta serviços que vão além do ônibus. As seções do site indicam os serviços prestados à população. A noção de transporte público é ampla e pensada de modo a atender a todos: metrô, trem, ônibus, trem urbano, transporte fluvial, transporte assistido (para pessoas com dificuldade de locomoção), tramway, automóveis, bicicletas, pedestres, ônibus interurbanos e táxis.


Descobri, ainda, que Londres vai seguir o exemplo de Lyon, Paris e Barcelona, e vai ter um sistema de compartilhamento de bicicletas, começando no verão do ano que vem. O plano está aqui.


Esse outro vídeo, também é da TFL, tem por objetivo alertar os motoristas para que se lembrem de prestar atenção aos ciclitas. Obrigado! Veja aqui.


Essa requer maior conhecimento da língua, mas vale a pena, pelo humor: assista aqui .

Não sei se é por conta delas, mas o fato é que os motoristas aqui tendem a ser respeitosos conosco.


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Desde que as aulas começaram, em setembro, eu saí do leste da cidade e me mudei para o sudeste, que é mais central. Estou morando numa residência estudantil, chamada Sidney Webb House. O nome é uma homenagem ao fundador da London School of Economics and Political Science (Sidney e sua mulher, Beatrice, ambos sociólogos, fundaram a instituição no começo do século XX). Ele era educador e líder de importantes movimentos de esquerda da época. Suas bandeiras eram as reformas sociais e a questão da educação. Webb foi um dos fundadores do Partido Trabalhista inglês, tendo redigido parte do seu manifesto e inclusive foi Membro do Parlamento na década de 1920. Quem quiser conhecer mais sobre esse personagem interessante, de cuja existência só tomei conhecimento porque vim estudar na escola que ele fundou, é só visitar essa página: aqui .


Embora Reinaldo Azevedo provavelmente discorde de mim (ufa!), achei a homenagem meio fora de lugar. O prédio em que vivo é horripilante. Não é que seja particularmente feio. Não é. Ao contrário do meu bairro, muito charmoso, o prédio é trivial. Lembra uma prisão. O conjunto de apartamentos fecha-se em um quadrado, com janelas para fora e para o pátio interno. Por sorte, a minha janela dá para a rua. Vejo prédios, o parque, pedestres e carros eventuais, e a árvore que hoje encontra-se calva. O percurso entre a entrada na portaria até o quarto requer que sete portas sejam abertas (e fechadas). Com a bicicleta é ainda pior, porque, tendo que guardá-la, o número de portas a serem abertas (e depois fechadas) sobe para 10! Quase não se vê gente no pátio. Tem uma espécie de área comum/bar/sala de TV, mas que eu raramente vou. Lá é o único lugar que se percebe que somos centenas a compartilhar esse ambiente. Tampouco vejo meus vizinhos de andar. Bizarro. Parece, às vezes que moro só no prédio.

Quem quiser ver onde moro, é só seguir esse link: veja aqui. Tem o dispositivo “Minha Rua”, por meio do qual é possível ver imagens de satélite do prédio e dos arredores.


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O ambiente na LSE é bastante estimulante intelectualmente. Cerca de 50% do corpo dissente é de estrangeiros (de fora do Reino Unido). Esse número sobe para mais de 60% se contarmos apenas os pós-graduandos, que compõem a maioria. Fora isso, a própria forma de ensino busca nivelar por cima. Para cada classe, temos 1 hora de “lecture” (palestra), onde o professor dá a sua aula propriamente dita – sempre com powerpoint, que é disponibilizado na internet para que possamos consultá-lo. Cada sala é equipada com computador, projetor, e demais recursos tecnológicos. Depois da palestra, temos os seminários de cada aula, onde ocorre o debate dirigido dos textos daquela aula específica. Ou seja, lemos, ouvimos e discutimos sobre os temas abordados. De vez em quando temos que fazer apresentações.

Na aula de Introdução à Ciência Comparada, por exemplo, cada semana estudamos uma abordagem teórica. Sempre lemos um texto substancial, ou seja, sobre a teoria apresentada. E dois textos empíricos, nos quais a teoria é posta em prática. Desse modo, aprendemos não só de que se trata a teoria em questão, mas também como é a sua aplicação, quais as suas vantagens e quais as suas limitações.


Os textos estão listados no site da disciplina na intranet da universidade (acesso restrito aos estudantes e professores). Lá podemos ver todo o programa do curso, semana por semana, assim como os textos obrigatórios e recomendados. A maior parte deles está disponível em versão digital, cuja leitura é possível pelo computador ou imprimindo, na universidade, com o direito autoral devidamente reconhecido. Quando a leitura só existe em livro, podemos ver no site da biblioteca um mapa que indica exatamente onde o livro está localizado. A biblioteca abre às 7 da manhã (eu acho) e fica aberta até meia-noite, todos os dias.


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A coerência estética da cidade é impressionante. Vê-se algo que permanece, que é perene. Reconheço, na cidade, a história vivida nela. As várias épocas convivem. O passado mais remoto está ao lado do agora. E isso, apesar dos incendêndios e das bombas, que detonaram boa parte do centro. Mas foram incapazes de quebrar esse espírito.


O passado, em sendo latente, não é, porém, uma âncora a fazer com que as coisas evoluam arrastadamente. Ele dota o processo de um sentido de continuidade. Mas vive em harmonia com o dinamismo criativo que transforma a cidade constantamente. Londres está em obras, desde que cheguei aqui. Não me refiro ao nordeste da cidade, onde estão construindo as novas instalações para sediar as Olimpíadas de 2012. Me refiro a pequenas obras, públicas e privadas. Sempre tem algum conjunto de prédios antigos sendo restaurado. Ou cabos e canos sendo instalados. Calçadas sendo adaptadas para as bicicletas. E essas pequenas obras se movem semanalmente. Cada dia, nota-se um pequeno avanço. Em poucas semanas, agora em frente à residência tem toda uma calçada com ciclovia readaptada. Não teve inauração nem placas. Estão mantendo a cidade funcionando. Simplesmente. Continuidade, não continuação. A cidade é, e não apenas está, em plena transformação.


Essa transcendência temporal não ocorre apenas no plano material. Nada encorpora mais essa perenidade dinânimica do que a instituição da Monarquia. Incrível que tenha conseguido permanecer relevante até os dias de hoje. Agora há pouco, a Rainha abriu as sessões no parlamento: veja aqui as imagens . A Fala da Rainha é uma cerimônia anacrônica e excêntrica, em que a Chefe-de-Estado sai de charrete de seu castelo e vai até o Parlamento. O percurso entre a charrete e a House of Commons é cheio de firulas e convenções esquisitas – mas totalmente respeitadas. Ela lê o plano do governo incumbente. Tira-se, assim, o caráter efêmero dos governos, provendo-os com a ideia de continuidade do Estado, por meio de sua chefe. Nas questões de Governo, o pau quebra no Parlamento, em discursos emocionantes e emocionados, permeados do melhor humor britânico (os membros do Parlamento ficam tirando onda uns dos outros), veja aqui. Tem poucas coisas tão divertidas quanto assistir a um debate desses, convehamos. Quando a Rainha fala, no entanto, expressa o Estado e está acima das divisões partidárias.


O modo de urbanização inglês expressa isso que vemos na maneira de fazer política. A liberdade econômica existe, mas tem limites: que é a garantia da essência da cidade. Transformação, sim. Não destruição.


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De vez em quando sinto falta daquelas mágicas do terceiro mundo. A roupa suja que, milagrosamente, aparece limpa, passada e dobrada em cima da cama. A louça que nunca fica suja. As refeições sempre prontas e saborosas, sem o menor esforço. Aqui, não temos nenhuma dessas mágicas. Até em restaurantes, muitas vezes temos que retirar os pratos da mesa. Daqui a pouco vamos ter que lavar a louça.


Até agora, só vi uma mágica de primeiro mundo. Dois dos meus três pullovers encolheram!


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Existem dois tipos de cidade. Aquelas onde os habitantes a arruinam para os visitantes; e aquelas onde os visistantes a arruinam para os habitantes. Londres, sem dúvida, encaixa-se nessa segunda categoria.


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Veja aqui as fotos do Outono Londrino. Quem quiser, é possível ver, no mapa ao lado direito das fotos, a localização exata onde as fotos foram tiradas.


London Scenes - autum 09



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O quinta mês


Mensagem para o ombudsman da Folha de São Paulo

Enviei a seguinte mensagem para o ombudsman da Folha de São Paulo hoje. Publicarei aqui caso receba resposta.



----- Mensagem encaminhada ----
De: Bernardo Jurema
Para: ombudsman@uol.com.br
Enviadas: Sábado, 28 de Novembro de 2009 21:34:35
Assunto: jornalismo tosco



Prezado Ombudsman,

Gostaria de expressar, por meio dessa mensagem, meu total repúdio à decisão deste jornal de dar espaço para acusação completamente infundada em relação ao Presidente da República.

É de mau gosto e é mau jornalismo. Chama a atenção a diferença de tratamento. Desde os anos 1990 que se sabe que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tinha um filho bastardo. A questão apresentava um aspecto de interesse público, que era a troca de favores entre a Presidência da República e as Organizações Globo, empregadora da mãe da criança. As grandes empresas de comunicação do país, entre elas esta Folha, tomaram a decisão editorial de não divulgar a notícia. Imagino eu que por respeito ao então Presidente Cardoso.

Diante desse tratamento, é chocante ver a Folha publicar um ataque grotesco, baseado numa conversa particular, cujo teor foi desmentido por todas as outras fontes. O fato que gerou tanta repercussão é um não-fato (aqui, deveria ter acrescentado: pois ninguém corrobora a versão do autor da acusação). O único fato - o ex-presidente fez uma piada de humor negro numa conversa privada com colegas de trabalho - não é notícia: é antigo, não teve qualquer consequência no momento ou depois, enfim, não tinha à época, nem tem agora, qualquer interesse público.

É vergonhoso para o país ter um de seus maiores jornais praticar esse tipo vulgar e tosco de jornalismo. E levanta dúvidas sobre que tipo de interesses estariam por trás da decisão editorial da Folha de dar espaço - e, portanto, credibilidade - a acusação tão chula. Além de desrespeitosa e mentirosa, tira o foco da agenda pública nacional das verdadeiras questões que o país enfrenta. É um desserviço à Nação, portanto. Indignante, lastimável, nojento, repugnante são alguns dos adjetivos que me vêm à mente. A Folha deve explicações (qual o interesse jornalístico dessa não-notícia?) e desculpas pelo desrespeito aos seus leitores, ao Presidente e ao Brasil, que merecemos todos melhor que isso.


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Bernardo Jurema

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ATUALIZAÇÃO


----- Mensagem encaminhada ----
De: "ombudsma@uol.com.br"
Para: bernajurema@yahoo.com.br
Cc: ombconfirmado@folhasp.com.br
Enviadas: Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009 18:16:53
Assunto: OMBUDSMAN FOLHA SP

Caro Sr. Bernardo:

Obrigado pelos seus comentários, que estou encaminhando aos jornalistas responsáveis pela seção para que os levem em conta.

Um abraço,

Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo
Al. Barão de Limeira, 425 - 8o. andar
01202-900 - São Paulo - SP
Telefone: 0800 159000
Fax: (11) 3224-3895
ombudsma@uol.com.br
http://www.folha.com.br/ombudsman/

domingo, 22 de novembro de 2009

Meio-ambiente em pauta

Acabo de publicar texto sobre meio-ambiente no blogue JAMPA2010. Quem quiser conferir e comentar, é só ir aqui. Para além de slogans e atos simbólicos, precisamos de medidas concretas que modifiquem o comportamento dos cidadãos, principalmente os de classe-média, que são os grandes responsáveis pela imensa pegada ecológica do "brasileiro médio".

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Entrevista imperdível

Mais uma excelente entrevista do Presidente Lula. Ele chega ao final do mandato no auge da sua forma. E com uma novidade em relação aos primeiros anos do seu governo: enfrentando a narrativa que o PiG impôs à sociedade brasileira em relação a seu governo. Tem também o lado mais humano que a imprensa tende a deixar de lado. Um registro importante. E as histórias da infância e juventude jogam luz sobre sua postura política como estadista. Freud vive.

Parabéns ao Kennedy Alencar, pelo belo trabalho.

Entrevista imperdível: assista aqui.

Aproveitando o embalo, outra ótima entrevista do presidente, dada ao Finantial Times, na semana passada: leia aqui .




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novo post no blog de JAMPA

Tive uma conversa recentemente com um amigo meu sobre a candidatura de Jampa. Baseado nessa conversa, escrevi o texto que publico hoje no blog Jampa2010. Clique aqui para lê-lo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Eu na Aljazeera

Participei de um dos meus programas favoritos na Aljazeera, o Listening Post - que trata da cobertura da imprensa mundial dos principais temas de cada semana. Mandei um comentário sobre a estratégia da Administração Obama de enfrentar a FoxNews.


Aqui está o vídeo: assista aqui. Minha fala começa no minuto 8:50, mas vale a pena ver a reportagem inteira.


Aqui coloco a íntegra do comentário enviado:


I think that Obama's approach is both intelligent and transparent. His administration is spelling out exactly what it is going to do. Whether you agree with it or not, this is rare in any government. The way it is now, Fox has a disproportional power of influencing the agenda of public debate. FoxNews itself opted for political confrontation: it has a political agenda and behaves like a political actor. This is a political fight for agenda-setting. The White House is attempting to diminish Fox's ability to exert influence over the public debate agenda. Obama’s advisor for green jobs, Van Jones, was a victim of Fox’s assassination of reputation strategy. Instead of waiting for Fox’s attacks on the next target and then react to it, the White House took the offensive. And why shouldn’t they? As long as they're doing it openly and within the law, there's no problem. It's very different from the hidden manipulations the former administration used in order to control and set the public debate agenda.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Há vida inteligente no Congresso Nacional

Finalmente um sopro refrescante de um debate inteligente e útil para a sociedade! Se eu votasse em São Paulo, já teria candidato a deputado federal!

Coloco aqui uma entrevista com o deputado Paulo Teixeira, do PT de São Paulo. Assume posição corajosa, que enfrenta tabu no Brasil, mas que está de acordo com as políticas mais progressistas no mundo. Depois que Gabeira tucanou, abandonando suas bandeiras tradicionais e adotando a estérea bandeira moralista que lhe garante presença na capa de Veja, ainda tem gente tentando mudar as coisas!

Espero que essa lei seja aprovada. Vamos ficar de olho.

Pra ver a entrevista é só clicar aqui.

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O blog do Paulo Teixeira, um bom mecanismo para acompanharmos o desenrolar dessa história.