segunda-feira, 10 de maio de 2010

O jogo político da radicalização


Já que não tenho escrito aqui, por falta de tempo, compartilho uma análise muito lúcida do atual quadro político brasileiro, feita por Gunter Zibell, comentarista no blog do Luis Nassif. Ele comentou esse comentário, feito por outro leitor do blog:

E se lembrarmos o período entre 2005 e 2006, q começou com o escândalo dos Correios e foi num crescendo até a história do dossiê das ambulâncias, podemos esperar que a onda provocada pela mídia anti-PT será mesmo mais parecida com uma marola do que com a tsunami que eles tanto desejam.

O problema é a exasperação crescente das elites culturais e políticas tradicionais, sempre dobrando as apostas ao invés de recolher as cartas. Se isso acontecer, podemos chegar perto de um cenário venezuelano. Cá com meus botões, acho que a maioria do empresariado acabaria enquadrando os políticos da direita para evitar o pior. Afinal, quem realmente se queima numa vitória do atual governo são os “intelectuais” e políticos ligados à manutenção do estado de coisas tradicional. O mundo está fugindo dos pés desse povo e acabar com o “descalabro” é a solução possível.

Ao que Gunter respondeu:

“O mundo está fugindo dos pés desse povo”

Boa frase. Creio que faz falta levar em conta os aspectos sociais e históricos. Com marchas e contramarchas a tendência geral ainda é a da desconcentração do poder. Mesmo que haja recuos nisso agora, há 2014, 2018, etc.

Não há modelos distintos sendo efetivamente contrapostos. O máximo que a proposta do PSDB se diferencia da de PT/PMDB é terceirização de funcionalismo. O resto é apresentação de currículo e portfolio, como agências de publicidade fazem ao disputar clientes. O dilema “neoliberalismo” x “social-democracia gerencialmente responsável” foi resolvido no exterior, não há porque reproduzi-lo aqui e agora.

Há poucas grandes questões que podem ser encaminhadas no médio prazo. Câmbio x juros seria uma, mas não é algo que dá para transformar em discurso político-eleitoral. Não enquanto há empresas devedoras em divisas que poderiam ser prejudicadas com especulações precipitadas. E, de qualquer modo, já sabemos o que ocorrerá.

E política monetária se refere a um conflito dentro do capital, entre quem empresta e quem toma emprestado, entre quem importa e quem exporta. Não é algo que se possa politizar do modo convencional, polarização, trabalhadores vs empresas, direita vs esquerda, etc. Há segmentos pró e contra uma política mais heterodoxa tanto na situação como na oposição. Mas como o mercado não é capaz de resolver, certamente haverá atuação do governo.

Outra questão seria a reforma tributária. É necessário simplificar, ampliar a base de arrecadação e desonerar o setor industrial.

Grandes questões, como a previdência, imigração estrangeira, reforma política, precisam ser pensadas antes. Se nada se pensou até agora, melhor não fazer às pressas e deixar para os políticos pensarem nos próximos anos.

O Brasil está em uma situação como há tempos não se via : conflitos sociais sendo minorados (ainda que de solução demorada), bônus demográfico (os próximos 10 a 20 anos ainda serão de aumento da População Economicamente Ativa como proporção do total), pré-sal, matriz energética equilibrada. Definindo-se uma política de recuperação industrial, de continuidade de investimentos em infraestrutura e de capacitação de mão-de-obra, dá para manter o crescimento por um bom tempo.

Há muito maior liberdade que nos tempos do governo militar. Talvez maior do que nunca, pois não há mais Lei de Imprensa, o que leva ao paroxismo da liberdade excessiva.

Maior repartição do “bolo” que nos tempos de G.V. e J.K., governos estes muito populares e desenvolvimentistas, mas concentradores de renda ou focados nas regiões urbanas do centro-sul.

Tanto em relação a indicadores sociais como econômicos ou de renda, é possível que nunca o país tenha estado menos distante do que agora dos padrões de países desenvolvidos, então o caminho é acertado. Há deficiências em educação, saúde e segurança, mas há propostas também.

Aí o que vemos : um país com orçamento crecente e relativa facilidade para administrar. Situação muito diversa da de 1989, 1998 e 2002 por exemplo. Quem não gostaria de estar no poder assim?

As eleições de 2002 e 2006 não foram nada benéficas para os partidos da coligação oposicionista. Na verdade, tirando a eleição presidencial, o resultado das urnas em 2010 para todos os demais cargos também não será de reversão dessa tendência.

2010 é, portanto, visto como uma oportunidade única para a oposição retomar sua visibilidade. Mesmo que não faça o presidente a campanha ajudará a estabilizar bancadas federal e estaduais. Mesmo que Lula ou o PT não desejem sua candidatura em 2014, deve ser recordado o quanto de capital político ele adquiriu nos últimos anos. Em 2014 Lula terá 68 anos (idade atual de Serra) e essa possibilidade é um fantasma aterrador para qualquer oposição.

Assim, o momento é agora. Deve ser por isso que em um país razoavelmente estável esteja se inoculando o discurso da radicalização, da polarização não fundamentada, da crítica superficial e repetitiva.

Grandes mudanças não são de se esperar de qualquer modo para o futuro próximo. Cabe ao eleitor identificar em quem mais ele confia, quem parece mais sincero.

Estava pensando hoje, no caminho de volta da casa de minha mãe. Qual será o mote principal este ano?

Credibilidade.


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o post no link original, Aqui.

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