sábado, 29 de maio de 2010

Compartilhamento de dados e acesso a cultura

A troca de dados on-line é uma das grandes transformações do século 21 porque democratiza o acesso à informação e a produtos culturais que, se fossem depender da lógica do mercado apenas, permaneceriam restritos a círculos ínfimos de iniciados. O acesso ilimitado a dados, em todas as suas manifestações - vídeo, música, texto, fotos - tem o poder de propagação da informação. No momento em que se cobra por esse acesso, automaticamente o alcance potencial da informação é limitado. Um consumidor mais bem informado é um consumidor necessariamente melhor.

Um estudo recente (leia AQUI artigo publico no The Independent) indicou que aquelas pessoas que costumam baixar música gratuitamente na Internet são os que mais gastam consumindo música. O detalhe é qual é o tipo de música e produtos culturais os quais eles consomem. Não são mais aquelas da cultura de massa - e isso é provavelmente o que mais incomoda as grandes corporações - não a distribuição gratuita em si. Afinal, o criador, o artista, ele só tem a ganhar com a disseminação de seu trabalho. É o intermediário que deixa de ganhar e é isso que incomoda a indústria fonográfica.

Um exemplo disso é o cineasta chileno radicado na França, Alejandro Jodorowsky - um grande diretor e roterista. E se ele fosse depender do mercado, eu jamais teria tido acesso a ele. Foi graças à Internet e ao compartilhamento de dados gratuito que eu tive acesso ao trabalho dele. Sua obra nunca iria passar na televisão, nunca iria passar no multiplex. Se não fosse pelo compartilhamento, eu não teria tomado conhecimento do trabalho dele e estaria me limitando como pessoa, cidadão e consumidor.

Jodorowsky, inclusive, é um dos grandes diretores do século 20, indiscutivelmente. O trabalho dele é essencialmente cinematográfico. As histórias que ele conta, por meio de imagens, não poderiam ser contadas de nenhuma outra forma - livro, pintura, o que for. Cada cena, cada imagem, transborda de signifcados; tem muitas leituras possíveis e só poderiam ser contadas cinematograficamente - o que é mais do que se pode dizer do que boa parte dos cineastas. Por seus filmes, ampliei minha visão do mundo, adquiri informações que me tornaram um cidadão mais crítico e um consumidor cultural mais exigente.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

PT versus PSDB

O que está em jogo nessas eleições não é um concurso de Miss Simpatia ou uma mera seleção de currículos. Estão em jogo dois modelos de desenvolvimento que tiveram oito anos cada para implementar suas idéias. O governo da coalizão liderada pelo PSDB estabeleceu a estabilidade macroecômica, transformando o país qualitativamente. Sem dúvida, foi um divisor de águas. A partir daquele momento, o chamado imposto inflacionário, que corroía o poder de compra dos setores populares, desbancarizados, foi eliminado, proporcionando um ganho de renda. Por outro lado, o setor empresarial passava a ter condições para planejar com um horizonte temporal mais alargado.

O povão e o setor privado foram os grande vencedores desse processo. Em contra-partida, a quantidade dos empregos gerados era pouca e a qualidade, precária. Isso porque um dos pilares da estabilidade era a política monetária que visava a manter o câmbio apreciado. Isso tirava o incentivo de investimento e da demanda. Emperrando o consumo, evitava que a inflação crescesse. Ou seja, um dos elementos essenciais daquele modelo dependia justamente de uma punição para os setores populares, por conta da precarização do emprego (trabalho informal) assim como para o setor privado, que não tinha incentivos para se individar e investir no setor produtivo. Era mais vantajoso e menos arriscado aplicar o dinheiro. Ao mesmo tempo, os juros altos aumentavam a dívida pública, que também aumentava para manter os juros altos. O perfil da dívida pública era inerentemente instável, porque estava exposta ao Dólar, ficando a mercê das oscilações do mercado internacional.

A estabilidade, sob esse modelo, tinha óbvios custos sociais para vários setores.

Quando o governo petista assumiu, em Janeiro de 2003, o quadro era preocupante. Os juros vinham em linha crescente, chegando ao absurdo de 26,5%; a inflação passava dos dois dígitos, atingindo 12,5%; o lucro da Petrobrás decrescia havia 3 anos consecutivos; o PIB teve o pífio incremento de 2,3%; as reservas internacionais seriam negativas se não fosse pelo aporte do FMI; o rendimento médio mensal vinha em queda pelo menos desde 1996; a dívida pública em relação ao PIB já passava dos 50%. Todos esses dados alarmantes não eram frutos do acaso. Eram a base mesma dos 8 anos de um modelo que, como legado positivo ao país, deixou a estabilidade macroeconômica. Mas ao preço de estagnação, falta de investimento público e privado, vulnerabilidade externa.

Todos esses dados começam a mudar a partir de 2003. Novamente, isso não é fruto do acaso. Um novo modelo começou a ser implantado. A inflação manteve-se bem abaixo dos dois dígitos, caindo de 12,5% em 2002 para 5,9% em 2008. O lucro da Petrobras apresentou uma evolução constante entre 2003 e 2008. Em 2008, o PIB cresceu 5,9%, acima da média mundial. As reservas internacionais hoje atingiram níveis sem precedentes, passando dos 250 bilhões de dólares. A dívida com o FMI foi quitada, e o perfil da dívida foi melhorado, diminuindo drasticamente a exposição ao dólar, para ficar menos vulnerável a eventos vindo de fora (como a crise financeira mundial, por exemplo). O rendimento médio mensal apresenta uma linha de constante crescimento, a partir de 2003. A relação dívida/PIB caiu para 38% em 2008, sofrendo pequena subida em 2009 por conta das medidas rápidas e eficientes adotadas pelo governo federal para proteger o Brasil da crise mundial. Os juros apresentam uma linha decrescente, baixando dos incríveis 27,5% para em torno de 10% atualmente.


O que é significante é que o elemento básico desse modelo é que ele se baseia na distribuição de renda e na inclusão social. Esse é o motor, abastecido com diversas políticas distributivas - expansão do crédito, programas de transferência de renda, expansão e interiorização dos ensinos técnico e universitário, expansão dos serviços de assistência de saúde, como Programa Saúde da Família. Mais de 20 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, enquanto outras 30 milhões subiram degrau acima para compor a nova classe média. A inclusão social e econômica, por meio de políticas públicas eficientes, tem sido o motor do atual modelo. As políticas adotadas são um meio para se atingir um fim, que é a melhoria de vida dos brasileiros. É a construção de um Estado de Bem-Estar Social - com a institucionalização das políticas sociais, juntamente com a implantação de infra-estrutura do país sob planejamento estratégico do Estado mas com capital público e privado - gerando novas indústrias, novos modais de transportes, novos pólos regionais de desenvolvimento - que somados vêm dando impulso à atual fase de crescimento. Não é apenas que, no Governo do PT, o Brasil cresceu mais. O Brasil cresceu mais e melhor. O fato de que 12 milhões de empregos foram criados nos últimos sete anos e meio se torna ainda mais auspicioso quando se considera que boa parte deles é formal - de carteira assinada e todos os direitos sociais que isso implica.

Agora, em outubro, o povo brasileiro vai se deparar com a escolha entre esse dois modelos. Serra personifica o modelo tucano, e o seu governo em São Paulo é um bom exemplo. Dilma representa o modelo petista.

Todos os dados desse texto podem ser conferidos nesse link: http://lulavsfhc.tumblr.com/page/1 .

segunda-feira, 17 de maio de 2010

CBN entrevista Dilma

Vale a pena escutar Dilma respondendo às perguntas de Heorodoto Barbeiro, Lúcia Hipólito e Míriam Leitão: Aqui.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Debatendo o Estado de Bem-Estar Social

O E-mail "Kit do Brasileiro" gerou um debate entre meus primos. À resposta de Diogo, que postei abaixo, um primo respondeu o seguinte:

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Devemos ajudar, claro, mas qual é o cursor de formação de mão de obra que o lula implantou, não adianta só o assistencialismo tem que evoluir a população, investir mais em educação basica e menos em publicidade e assistencialismo. tem que estimular a produtividade e não a vagabundagem, talvez dai da europa o brasil esteja parecendo lindo mas a realidade no interior dos estados mais pobres eh outra, niguem quer mais trabalhar pois ja ganha o suficiente do governo. Hoje em dia eh mais vantagem para quem tem dois filhos ou mais estar preso do que arrumar um emprego de pedreiro, pois tem o auxilio do governo de R$ 800,00 por filho. Acho que o Lula foi um otimo presidente em alguns aspectos mas nesse ponto não acho que viciar a população em auxilio do governo gastando muito dinheiro com isso e não gastando nem perto disso com educação eh uma bomba relogio. Não existe desenvolvimento sustentavel sem educação. Educação eh o principio basico de sustentação para qualquer nação, sem educação nem plano de governo tem futuro, muito menos o assistencialismo. NENHUM FILHO VIVE DE MESADA PARA O RESTO DA VIDA, UMA HORA ELE TEM QUE ANDAR COM AS PROPRIAS PERNAS!!!!

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Resposta de Diogo:

nao poderia concordar mais que educação agora deve ser a prioridade de qualquer governante que venha a assumir. tem razao. mas se dermos uma olhada na tabela abaixo, veremos que nos ultimos anos tivemos uma boa evolução nesta área com programas como o fundeb e com a construçao de forma descentralizada de escolas de nivel superior e técnica. vejam os numeros relativos a educação abaixo. mas uma pergunta geral: se voces fossem cortadores de cana e recebessem um salario minimo para um trabalho que nao lhes dá benefícios sociais, nao paga hora extra, etc, e pudessem ganhar um pouco menos sem ter que trabalhar, o que voces escolheriam? quem sou eu para chamar de preguiçoso a pessoa que escolhe pela segunda; acho que eu faria o mesmo. ou o empregador melhora as condiçoes de trabalho, ou o trabalhador, que agora tem a opção de nao trabalhar e receber dinheiro, vaza. nao necessariamente por preguiça; aqui é uma questão de dignidade.

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Minha resposta:


é importante nos informarmos antes de fechar uma opinião a respeito de algum tema.

1. todas as democracias desenvolvidas do mundo têm algum tipo de Estado do Bem-Estar Social, como Diogo descreveu a amiga dele. Uma das características de uma sociedade socio-economicamente desenvolvida é a existência de instituições que garantam um nível mínimo de bem-estar para toda a população. As políticas sociais implantadas no Governo Lula são o princípio desse processo, que na maior parte dos países desenvolvidos foi construído a partir do pós-guerra.

2. quantos por cento do PIB é investido no Bolsa Família? E quantos porcento em educação? Menos de 1% do PIB é direcionado ao BF, enquanto que algo em torno de 5% é investido em educação. Uma coisa não exclui a outra.

3. O fortalecimento do mercado interno tem dado dinamismo à economia brasileira e ajudou a proteger o país da crise mundial; o papel do BF nesse processo foi fundamental:
http://www.goldenlight.biz/jornal/economia/leitura.php?id=3107 . Ou seja, ao analisarmos os custos do BF, devemos levar em conta quanto essa política vem contribuindo pro desenvolvimento econômico e social do país.

4. como diogo apontou, foram construídas centenas de escolas técnicas atendendo as demandas de cada região. Ipojuca é um bom exemplo disso:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=12179


5. a informação repassada na mensagem sobre o bolsa-presidiário é falsa. 798,30 é o valor MÁXIMO que se pode receber em reclusão, e apenas pessoas que JÁ são seguradas pela Previdência Social (ou seja, que já trabalhavam com carteira ssinada antes da reclusão) podem receber esse benefício, que vai para os DEPENDENTES do preso. Essa informação consta do link repassado na própria mensagem...

6. também é interessante saber quais são os valores do Bolsa Família. Essa informação pode ser encontrada facilmente na internet:
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/fc_beneficiario/beneficio/qual-o-valor-do-beneficio-pago-as-familias-do-pbf/

o valor varia de 15 a 95 reais por mês por família, de acordo com a renda mensal da família (pobre ou muito pobre) e número de membros (de 1 a 3 ou mais). Uma família pequena - 1 membro - e com renda mensal per capita de 60 a 120 reais (pobre), recebe 15 reais por mês. Uma família grande (3 membros ou mais), com renda mensal per capita de até 60 reais (muito pobre), recebe do Estado brasileiro 95 reais. É importante ter esses valores em mente antes de fazer julgamento sobre pessoas que vivem numa realidade tão diferente da nossa. Os trabalhos que as pessoas recusam em geral são sub-empregos que exploram mão-de-obra extremamente barata, em serviços sazonais (não dura o ano inteiro), em condições sub-humanas (tem gente que morre de exaustão no corte da cana), por um salário de miséria. Antes do BF, o cidadão se submetia a esse tipo de coisa por total falta de opção. Agora, como Diogo apontou, o cidadão tem uma escolha: entre fazer um trabalho merda e não fazer nada. E o empregador também: se quer trabalhador, que ofereça condições de trabalho mais dignas.

7. Pela primeira vez em décadas, o fluxo migratório mudou: o Nordeste deixou de ser exportador populacional para o Sul-Sudeste e, agora, recebe mais gente do que manda embora. Isso é um dos efeitos da série de políticas públicas implantadas no Nordeste nos últimos oito anos, dentre as quais o BF é uma das mais importantes. Os programas sociais fixam os cidadãos em sua terra.

8. por fim, não podia deixar de responder ao seu comentário. Não achamos que o Brasil esteja lindo. Temos problemas seculares que não se resolvem da noite pro dia. Mas acreditamos que o caminho para a melhoria do nosso país passa pela construção de um Estado do Bem-Estar Social, como é o caso de todos os países ricos. E esse processo foi iniciado sob Lula, e tem gerado um ciclo econômico positivo. E a aprovação dessas políticas não é só da gente que está longe, mas de 80% dos brasileiros, que estão aí. Mesmo longe, estamos mais em sintonia com o nosso povo do que algumas pessoas que estão no brasil....



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Resposta ao "Kit do Brasileiro"

Está circulando um e-mail na Internet brasileira entitulado "Kit do Brasileiro". É um protesto da classe-média, que se julga injustiçada e sobre-taxada.

Aqui está o conteúdo da mensagem, seguida pelas respostas minha e a de Diogo:

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KIT DO BRASILEIRO

*Vai transar?*
O governo dá camisinha.



*Já transou?*
O governo dá a pílula do dia seguinte.



*Teve filho?*
O governo dá o Bolsa Família..



*Tá desempregado? *
O governo dá Bolsa Desemprego.



*Vai prestar vestibular?*
O governo dá o Bolsa Cota.



*Não tem terra?*
O governo dá o Bolsa Invasão e ainda te aposenta.




*RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO?*
a partir de 1º/1/2010 O GOVERNO DÁ O
AUXÍLIO RECLUSÃO?

*esse é novo*

Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa que, é de R$798,30
"por filho" para sustentar a família, já que o
coitadinho não pode trabalhar para sustentar os filhos por estar preso.

Não acredita?

Confira no site da Previdência Social.


Portaria nº 48, de 12/2/2009, do INSS

(
http://www.previden ciasocial. gov.br/conteudoD inamico.php? id=22)

*Mas experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece!*




"Trabalhe duro, pois milhões de pessoas que vivem do Fome-Zero e do Bolsa-Família, sem trabalhar, dependem de você"

Se vc é brasileiro passe adiante.

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Eu respondi o seguinte para a minha prima, que me enviou essa denúncia:

por esse e-mail a conclusão que se chega é: ser pobre no brasil é massa!!! fiquei com uma pena enorme dos meus familiares: tudo bem de vida, deve ser um horror!

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Mas a resposta definitiva veio de Diogo:


é nao, bernardo... ajudar quem nasceu fudido e sem perspectiva é puro assistencialismo. quem nasceu na pobreza tem mais que se fuder, mesmo; e se sair dela é por mérito (ou porque é ladrão, traficante, bispo evangélico, etc). nós que temos berço devemos nos preocupar é conosco e garantir que os pobres fiquem na merda para continuarem a servir-nos, roubar-nos, agredi-nos.

aqui na suiça, por exemplo: uma amiga desempregada ganha do governo 4.500 reais por mes (se tivesse sido empregada antes, ganharia 80% do seu salario anterior); ela faz cursos de alemão pago pelo governo; ela faz curso de história da arte também subsidiado pelo governo; ela tem descontos em operas, teatros, cinemas, etc, com a carteirinha de desempregada dela. mesmo assim, pergunta se ela quer continuar desempregada. .. A resposta é "não". mas eu acredito que isto explica porque a suiça é um país horrível de se morar, muito perigoso, desigual.

temos que guardar o que temos de melhor no nosso sistema:

- que nós, ricos, continuemos a ter acesso a boa educação particular e à universidade gratuita (ou paga, tanto faz... desde que pobre fique fora);
- que nós continuemos a comprar camisinhas e usar anti-concepcionais enquanto pobre bota mais pobre no mundo (se nao tiverem dinheiro para comprar algum anticoncepcional, que parem de trepar);
- que desempregado seja tratado como deve: um preguiçoso, sem perspectiva que deve ser devidamente preparado para a delinquencia;
- cota pra nego?? nada disso... a historia nos diz em entrelinhas que nego nasceu pra se arrombar, entao porque colocarmos na universidade? para interagir conosco, ricos?? nao, nao... continuemos a pensar em argumentos para manter o status-quo (nós sempre em cima, e nego e pobre se fudendo);
- fome zero e bolsa familia? pra quê? afinal, eu nao morro de fome... alias, nunca passei fome. e como só acredito no que vejo, nao creio que isto seja um problema do Brasil.

de novo, quem é pobre é porque fez por merecer e tem mais é que ultrapassar esta barreira sozinho. afinal, o brasil é o país das oportunidades e da igualdade social e nao tem problema nenhum que justifique esses programas sociais.

VOTE SERRA! ele é preparado. afinal, viu como sao paulo nao tem problemas de enchente, segurança e educação?

Já o Lula... Viu o que ele fez com o Brasil, né? copa, olimpiadas, quitaçao de dívida a FMI (o Brasil virou credor do FMI , agora... um absurdo!!), reduçao da pobreza, crescimento economico, etc...

se liguem minha gente. e pensem com cuidado nos pobres e negros quando forem votar. temos que manter essa gente longe de nosso circulo e mais: jamais ajudá-los!! afinal, eles sao pobres e negros.

Saudaçoes do primo distante

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

O jogo político da radicalização


Já que não tenho escrito aqui, por falta de tempo, compartilho uma análise muito lúcida do atual quadro político brasileiro, feita por Gunter Zibell, comentarista no blog do Luis Nassif. Ele comentou esse comentário, feito por outro leitor do blog:

E se lembrarmos o período entre 2005 e 2006, q começou com o escândalo dos Correios e foi num crescendo até a história do dossiê das ambulâncias, podemos esperar que a onda provocada pela mídia anti-PT será mesmo mais parecida com uma marola do que com a tsunami que eles tanto desejam.

O problema é a exasperação crescente das elites culturais e políticas tradicionais, sempre dobrando as apostas ao invés de recolher as cartas. Se isso acontecer, podemos chegar perto de um cenário venezuelano. Cá com meus botões, acho que a maioria do empresariado acabaria enquadrando os políticos da direita para evitar o pior. Afinal, quem realmente se queima numa vitória do atual governo são os “intelectuais” e políticos ligados à manutenção do estado de coisas tradicional. O mundo está fugindo dos pés desse povo e acabar com o “descalabro” é a solução possível.

Ao que Gunter respondeu:

“O mundo está fugindo dos pés desse povo”

Boa frase. Creio que faz falta levar em conta os aspectos sociais e históricos. Com marchas e contramarchas a tendência geral ainda é a da desconcentração do poder. Mesmo que haja recuos nisso agora, há 2014, 2018, etc.

Não há modelos distintos sendo efetivamente contrapostos. O máximo que a proposta do PSDB se diferencia da de PT/PMDB é terceirização de funcionalismo. O resto é apresentação de currículo e portfolio, como agências de publicidade fazem ao disputar clientes. O dilema “neoliberalismo” x “social-democracia gerencialmente responsável” foi resolvido no exterior, não há porque reproduzi-lo aqui e agora.

Há poucas grandes questões que podem ser encaminhadas no médio prazo. Câmbio x juros seria uma, mas não é algo que dá para transformar em discurso político-eleitoral. Não enquanto há empresas devedoras em divisas que poderiam ser prejudicadas com especulações precipitadas. E, de qualquer modo, já sabemos o que ocorrerá.

E política monetária se refere a um conflito dentro do capital, entre quem empresta e quem toma emprestado, entre quem importa e quem exporta. Não é algo que se possa politizar do modo convencional, polarização, trabalhadores vs empresas, direita vs esquerda, etc. Há segmentos pró e contra uma política mais heterodoxa tanto na situação como na oposição. Mas como o mercado não é capaz de resolver, certamente haverá atuação do governo.

Outra questão seria a reforma tributária. É necessário simplificar, ampliar a base de arrecadação e desonerar o setor industrial.

Grandes questões, como a previdência, imigração estrangeira, reforma política, precisam ser pensadas antes. Se nada se pensou até agora, melhor não fazer às pressas e deixar para os políticos pensarem nos próximos anos.

O Brasil está em uma situação como há tempos não se via : conflitos sociais sendo minorados (ainda que de solução demorada), bônus demográfico (os próximos 10 a 20 anos ainda serão de aumento da População Economicamente Ativa como proporção do total), pré-sal, matriz energética equilibrada. Definindo-se uma política de recuperação industrial, de continuidade de investimentos em infraestrutura e de capacitação de mão-de-obra, dá para manter o crescimento por um bom tempo.

Há muito maior liberdade que nos tempos do governo militar. Talvez maior do que nunca, pois não há mais Lei de Imprensa, o que leva ao paroxismo da liberdade excessiva.

Maior repartição do “bolo” que nos tempos de G.V. e J.K., governos estes muito populares e desenvolvimentistas, mas concentradores de renda ou focados nas regiões urbanas do centro-sul.

Tanto em relação a indicadores sociais como econômicos ou de renda, é possível que nunca o país tenha estado menos distante do que agora dos padrões de países desenvolvidos, então o caminho é acertado. Há deficiências em educação, saúde e segurança, mas há propostas também.

Aí o que vemos : um país com orçamento crecente e relativa facilidade para administrar. Situação muito diversa da de 1989, 1998 e 2002 por exemplo. Quem não gostaria de estar no poder assim?

As eleições de 2002 e 2006 não foram nada benéficas para os partidos da coligação oposicionista. Na verdade, tirando a eleição presidencial, o resultado das urnas em 2010 para todos os demais cargos também não será de reversão dessa tendência.

2010 é, portanto, visto como uma oportunidade única para a oposição retomar sua visibilidade. Mesmo que não faça o presidente a campanha ajudará a estabilizar bancadas federal e estaduais. Mesmo que Lula ou o PT não desejem sua candidatura em 2014, deve ser recordado o quanto de capital político ele adquiriu nos últimos anos. Em 2014 Lula terá 68 anos (idade atual de Serra) e essa possibilidade é um fantasma aterrador para qualquer oposição.

Assim, o momento é agora. Deve ser por isso que em um país razoavelmente estável esteja se inoculando o discurso da radicalização, da polarização não fundamentada, da crítica superficial e repetitiva.

Grandes mudanças não são de se esperar de qualquer modo para o futuro próximo. Cabe ao eleitor identificar em quem mais ele confia, quem parece mais sincero.

Estava pensando hoje, no caminho de volta da casa de minha mãe. Qual será o mote principal este ano?

Credibilidade.


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o post no link original, Aqui.