terça-feira, 22 de janeiro de 2013

My comment on NPR's On The Media report on Al Jazeera's editorial independence


                
Dear Bob,
I am a big fan of this show, and have been following it for years now. So I was very disappointed with your reporting, if we can call it that, about Al Jazeera's entering into the US market. There was no reporting whatsoever, in fact, just the rerun of a guy who obviously does not like the network. Fair enough, but how about a voice for those who do like it? Instead, just a cold, dull, official statement.
But what really bothered me was the dishonesty. First, it does not require a lot of research to figure out that Al Jazeera Arabic and Al Jazeera English are two different, editorially independent entities - actually, a simple wiki search will tell you that. In your "reporting" (quote, unquote), neither you nor your totally biased interviewee bother to point that out to the listener. Second dishonesty is to use what is probably the most difficult story to cover today - the internal conflict in Syria - to illustrate a point. You know that journalists are not even allowed to enter the country? Besides, brave journalists, like Al Jazeera English Anita McNaught, did some courageous reporting on the ground in 2012.
The main issues, which OTM kept away from, are the hurdles for AJE to enter the US market, just because the government did not like its reporting. Now, even after members of the current administration have publicly praised AJE's reporting, private companies, such as Time Warner, are still wary of the AJE brand. A second issue of interest, from a media angle, is how AJE's global news coverage and plural debate will be received by the American audience. Is there a suppressed demand in the US for the kind of journalism AJE does?
Unfortunately, these are questions that remain unanswered by OTM. I am still hoping that OTM will do a good story on this subject.
Finally, an advice. Why don't you guys interview Richard Gizbert, the host of AJE's own OTM, the Listening Post? It would be a fantastic conversation.
Keep up the good work, I still love the show, expect when it talks about AJE.
Kind regards,
Bernardo Jurema
Jan. 15 2013 10:35 PM   

read my comment HERE in the On The Media webpage.          

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Una reflexión sobre la lectura

Es lugar común exaltar los beneficios de la lectura. No queda duda que es una ventaja al ciudadano lector. Pero es necesario calificar esa afirmación, que suele ser aceptada sin demasiada reflexión.

Antes de todo, vale resaltar que nadie es peor o mejor porque leer o no leer. La lectura es un camino al conocimiento, pero existen varios caminos y varios tipos de conocimiento – y eso no es ninguna novedad, puesto que Paulo Freire escribió su clásico “Pedagogía del oprimido” en 1968 –. La lectura es una entre varias formas de acceso a la información. Hay la historia oral, periodismo televisivo, cinema, radio, música, la acción práctica… Hay también diferentes tipos de conocimiento: la sabiduría popular, el conocimiento tradicional, el saber científico-teórico.

Por todo eso, el solo hecho de leer, por si solo, no significa necesariamente que alguien sea mejor que algún otro. La gran ventaja de esa forma de acceso a la información es la cantidad de conocimiento que se le posibilita a uno. La historia oral, necesariamente, uno tiene que estar cerca del anciano para escuchar las historias pasadas de generación a generación. La presencia física é un requerimiento. La lectura, por otro lado, permite que viajes a diferentes épocas, diferentes lugares, que veas al mundo por diferentes puntos de vista. Ingresar en una biblioteca es estar al lado de una multitud de modos de ver al mundo.

Pero ahí está otra cuestión de la lectura. Si uno suele leer el mismo punto de vista, o el mismo género de lectura, uno no aprovecha las posibilidades generadas por la lectura. Hay gente que critica la televisión, como un medio vulgar, inferior, inculto. Pero se trata de típico caso de culpar el mensajero por el mensaje. Así como hay malos programas de televisión, hay malos libros. No se puede criticar El Libro porque existe “Mein Kempf”! De la misma manera, hay programas de televisión – como algunas series de HBO, por ejemplo – que son arte en estado puro, son bellos y informativos a un solo tiempo.

Leer es importante además para que tengamos criterios a la información que nos llega, para que podamos poner las cosas en su debida perspectiva. Si conocemos la historia, y estamos a la par de lo que ocurre a través del mundo, luego podemos mejor comprender nuestro propio lugar en el mundo, nuestros logros y nuestros retos – tanto al nivel individual, como colectivo.

Como todo en la vida, leer sin curiosidad es casi inocuo. Ser curioso sobre el mundo – buscar leer el mundo en todas sus formas de expresión – ese es el verdadero lector.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Vovô Merval & Vovó Maidy


Escrevi esse texto na celebração dos 60 anos de casamento dos meus avós Merval e Maidy. Hoje republico em homenagem ao meu querido avô, que faleceu hoje, aos 93 anos.


Vovô Merval na cabeceira da mesa no apartamento, pequeno, tornado ainda menor pelo número de pessoas, lotado pela família num almoço de domingo, segurando, portentoso, a garrafa de 1 litro de Coca-cola. Naquela época, nos anos 80, a garrafa de 1L era de vidro e era "a" garrafa, e a criançada só tomava Coca nos fins de semana, e olhe lá! Também naquela época, éramos, nós netos, crianças em pleno processo de formação e socialização e aquela imagem se tornaria emblemática do conceito que viríamos a construir de autoridade e justiça: Coca-cola, só um copo, para que todos tivessem direito, e apenas para aqueles que comessem tudo!

Cresceríamos, a Coca-cola viria a tornar-se mais trivial, e os conceitos de autoridade e justiça, um pouco mais complexos. Mas, o senso de justiça e honestidade de Vovô permaneceria, tornar-se-ia um parâmetro. Ao amadurecermos, tomamos conhecimento de que "vovô" Merval é também o Professor Merval, com uma história de vida de altruística e desapegada dedicação à sociedade pernambucana, em especial à educação pública do nosso Estado.

Perceberíamos, então, que aqueles valores de honestidade e justiça se estendiam à sua vida pública. É bacharel em Direito, dedicou-se ao magistério, lecionando por mais de trinta anos em educandários recifenses, universidades Católica, Federal e FAFIRE. Exerceu funções técnicas e administrativas no governo do estado de Pernambuco. Na área federal exerceu a chefia de gabinete do Ministro do Interior e Justiça, além de ter integrado o Conselho Administrativo da Fundação Joaquim Nabuco. Ou seja, o que o destacava então, e o destaca ainda hoje, é que os mesmos princípios que regiam sua vida privada eram sua diretriz na vida pública.

E é este legado, de integridade moral, de justiça e de honestidade que vovô nos deixa; a herança mais valiosa que existe: um nome honrado.

À rigidez de vovô, se contrapunha a maleabilidade de Vovó Maidy. Nada mais contrastante com a Coca-cola na cabeceira da mesa do que vovó, após o almoço, enquanto vovô tirava sua clássica soneca vespertina, nos levando à dispensa da cozinha para que comessémos - prazer supremo! - Nescau com Leite Moça! Nada mais complementar em termos de valores!

Enquanto que com Vovô aprendíamos a importância do respeito à autoridade e à justiça, com Vovó aprendíamos que a isso devemos conjulgar certa dose de flexibilidade e solidariedade ao próximo.

O trabalho voluntário nas comunidades pobres circunvizinhas da Madalena, quando o voluntariado ainda não era moda nem requerido pelos "headhunters" de multinacionais, e que Vovó segue realizando incansavelmente até hoje, seria a extensão pública daquele seu comportamento familiar do Leite Moça.

É na família que apreendemos as normas sociais e morais por que nos guiaremos no resto de nossas vidas, seja em nossas vidas particulares quando formemos nossas próprias famílias, seja como cidadãos cientes de nossos direitos e deveres perante a sociedade.

Que privilégio, então, tivemos e temos nós, filhos, netos, bisnetos amigos e parentes, de dispor de dois dos melhores cidadãos, cristãos, seres humanos, em que nos espelhar e nos inspirar!

domingo, 20 de novembro de 2011

Debatendo Belo Monte

Um post de Jampa na sua página de Facebook gerou uma bela troca de idéias e informações entre ele e César sobre Belo Monte que vale à pena ser colocada aqui para registro e mais fácil acesso.

Tudo começou com Jampa lincando - e elogiando - esse artigo no seu mural do Facebook. Ao que se seguiu o diálogo abaixo:


Cesar Melo: Jampa, meu querido, vou discordar de você. Acho esse texto do Marcelo péssimo. De uma arrogância imensa, típica de quem acha que consultar o google é fazer "pesquisa", quando se tem um bibliografia imensa acerca do tema que o jornalista se deu o trabalho de pesquisar. Tem a arrogância digna dos colonizadores de achar que o território brasileiro, que a floresta é um "território vazio", uma coleção de árvores sem história. É muita ignorância antropológica. É impressionante que, na tentativa de ser irônico, fale das "baleias de xingu" (como que para fazer referência a espécies exóticas defendidas por ambientalistas), e não fala uma vez sequer dos seres humanos direta e indiretamente atingidos por Belo Monte: mais de 24 etnias de indígenas e seus modos de viver estão sendo ameaçados. Pra quê? Em nome de que desenvolvimento? Vejo gente dizendo que Belo Monte existe para que nós, classe média, possamos continuar usando nossos Ipods e laptops. Não é verdade. Belo Monte não está sendo construída para que a família pobre do Bolsa Família possa comprar um microondas! Belo Monte faz parte de um projeto que é resultado do lobby das indústrias eletro-intensivas, como a indústria do alumínio. Essa indústria tem como um dos principais lobistas a máfia dos Sarney, que domina a política energética do país há mais de 20 anos. Para transformar bauxita (mineral bastante abundante no Pará) em alumina, é necessário uma quantidade absurda de energia. O Brasil exporta a tonelada de alumínio primário por 1500 dólares e importa o mesmo alumínio mais trabalhado por 3000 a tonelada. Esse é o modelo de desenvolvimento por trás de Belo Monte. Nada novo. Economia neocolonial no seu estado puro, inclusive com as mesmas consequências para os povos indígenas que estão no meio do caminho.


Bernardo Jurema: césar, brigado por esse texto tão esclarecedor! Eu sabia que era contra a Belo Monte. Agora eu sei por quê sou. O único ponto com o qual concordo com o texto do Marcelo é no que diz respeito ao vídeo - é débil mental, não informa absolutamente nada, vazio, oco. Isso num tema complexo, como você apontou. Poderiam fazer um vídeo explicando, em imagens, o que você, com sua eloquência típica, colocou tão bem em palavras. Eu me recuso a usar aquele vídeo global metido a cool para mobilizar a nossa classe-merda. mas esse teu texto vale a pena sim ser distribuído.


Jampa Paulo Lima: Cesar, acato sua discordância e os esclarecimentos. Eu fui meio que na onda rápida de achar legal a maneira com que ele atacava a falta de informação do comercial. Mas ele ataca o video, sem dúvidas, com mais desinformação ainda. Para quem tiver tempo de ler algo interessante sobre Belo Monte recomendo esse documento.


Cesar Melo: Berna, acredito que o vídeo tem a função de apresentar o assunto para muita gente que sequer sabia da existência do problema. Mas concordo contigo que o vídeo é muito soft e despolitzado. É preciso politizar a questão. Não é uma questão meramente técnica. É uma questão política: que tipo de país a gente quer? que tipo de desenvolvimento a gente advoga? que futuro a gente vai querer para as próximas gerações. É importante explicitar quais são os atores políticos e econômicos envolvidos nessa briga. Jampa, obrigado pelo pdf. Vou dar uma olhada. Também te passo alguns textos, compilados pelo Idelber, sobre Belo Monte (aqui). Vale dar uma olhada, sobretudo no material dos professores Oswaldo Sevá e Celio Bermann. Gente que estuda politica energetica no pais ha anos.

Bernardo Jurema: aqui o vídeo original que esse daí imita.


Jampa Paulo Lima: Sim, obrigado Cesar. O relatório likado por mim foi indicado por Felipe, amigo que é biólogo e acompanha mais de perto essa questão. Antes de você, hoje pela manhã, ele já havia dado um puxão de orelha ao me alertar sobre a fragilidade do vídeo. Eu me sinto nesse caso muito como BJ, eu sabia que era contra sem ter muitos argumentos, porque acompanhava a questão muito por blogues como o do Sakamoto, que enfatiza a questão dos direitos humanos. Eu vou tentar ler essas coisas com mais calma depois... mas a olhada tá garantida!


Cesar Melo: Jampa, vale a pena ler esse trecho do estudo que vc me indicou. O estudo coincide com outros estudos que também li. Essa história de dizer que Belo Monte vai alagar APENAS 516 km2 é lorota para boi dormir. Segue o trecho: "Estes resultados nos conduzem a uma conclusão inevitável: seja viável ou não como empreendimento independente, o Complexo Hidrelétrico Belo Monte irá criar uma enorme pressão para a construção de mais barragens a montante. A própria Eletronorte prevê a utilização média de apenas 40% da capacidade instalada da usina. As simulações com o modelo HydroSim apontam uma taxa de utilização inferior a 20%.
Essa capacidade ociosa representa uma “crise planejada” e deve estimular permanentemente projetos de regularização de vazão do rio Xingu. Por exemplo, se a taxa de utilização fosse elevada até 80% (semelhante à situação de Itaipú), o incremento
no valor bruto da geração das turbinas de Belo Monte seria entre US$1,4 e US$2,3 bilhões/ano, justifi cando investimentos da ordem de US$11 bilhões a US$19 bilhões. Cus tos e Bene f í c ios do Compl exo Hidre l é t r ico Be lo Mont e : Uma Abordagem E conômico-Ambient a l 13
Em função disto, parece muito pouco realista o cenário de um CHE Belo Monte “sustentável”: uma única represa, extremamente produtiva e rentável, que impacte uma área reduzida e já bastante alterada.
Caso o CHE Belo Monte seja efetivado, devemos considerar um quarto cenário, mais realista no longo prazo. Esse inclui, no mínimo, a construção de uma barragem no sítio
Babaquara (agora denominada Altamira). O desenho original para esse aproveitamento indicava uma área alagada de 6.140 km², equivalente a 14 vezes o espelho d’água de
Belo Monte e cerca de 30 vezes a área de fl oresta que Belo Monte inundaria. O valor presente de emissões de gases de efeito estufa atingiria a cifra de US$547 milhões a
US$15/tonelada de carbono. Além disso, afetaria de forma direta as terras indíginas Araweté/Igarapé Ipixuna, Koatinemo, Arara, Kararaô, e Cachoeira Seca do Irirí, além da Floresta Nacional do Xingu"


Jampa Paulo Lima: Cesar, eu tinha lido essa parte do estudo. E achei bem significativo também, ainda nesse resumo executivo, o fato de se ressaltar os estudos de impacto mal feitos apresentados pelas empresas interessadas. Acho que para uma obra dessa envergadura ter estudos de impacto ambiental e social bem feitos seria o mínimo...Mas só essa nossa troca hoje aqui já valeu meu dia!


Gabrilha van der Flou: Obrigada por este debate meninos! vou tentar pesquisar um pouco mais... A energia tb tah dando pano pra manga aqui na França, em meio a campanha presidencial...

Gabrilha van der Flou: pra alimentar o debate e pros francophones ver cenario negawatts (associação francesa pra sair do nuclear) - aqui.


Cesar Melo: Acabei de ver que a maior hidroelética do mundo será construída na República Democrática do Congo. Os principais beneficiados serão os polós industriais e mineradores, além de centros urbanos da África do Sul e até da Europa que receberão energia gerada por essa hidroelética. Será uma Belo Monte africana. Eis aí um exemplo de colonialismo do século 21: veja aqui.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lógica falaciosa na cobertura sobre diretor da Al Jazeera

O artigo da jornalista Heloísa Villela, ilustrativo de certa interpretação dominante em setores da blogosfera, peca por lógica faliciosa. Clássico caso de post hoc ergo propter hoc - A falácia está em chegar-se a uma conclusão baseada unicamente na ordem dos acontecimentos, ao invés de tomar em conta outros fatores que possam excluir a conexão. Em outras palavras, "Desde que aquele evento seguiu-se a este, aquele evento deve ter sido causado por este".

O artigo na Foreign Policy, do correspondente baseado no Golfo, chega à seguinte conclusão: "What Wikileaks Tells Us About Al Jazeera: the portrait the leaked cables paint is not evidence of any sort of conspiracy so much as an organization struggling to maintain professional standards." (O que Wikileaks nos diz sobre a Al Jazeera: o retrato pintado pelos telegramas diplomáticos vazados não é evidência de qualquer tipo de conspiração, mas o de uma organização que luta para manter padrões profissionais".

O artigo do Guardian, escrito pelo editor do Oriente Médio, levanta a preocupação, esta sim legítima, com o futuro da rede, pois o substituto de Khanfar é membro da família real.

Em entrevista à Al Jazeera, o próprio ex-diretor-geral fala sobre a sua renúncia. Entre outras coisas, Khanfra frisou:

- Sofremos pressão sempre, os EUA bombardearam escritórios nossos, houve pressão para que não levássemos ao ar as fitas de Bin Laden, mas nós nunca mudamos nossa política;
- Temos diretrizes e política editorial claras, a AlJazeera não é um reflexo de uma única pessoa, não importa quem seja o diretor-geral;
- Eu completei meus 8 anos e eu acho que isso é suficiente para que qualquer gestor dê o seu melhor;
- sobre o que ele vai fazer em seguida: "Eu tenho um projeto que irei anunciar em breve"';
- O público é a segurança para a nossa independência. Nosso público é inteligente e politizado e vai mudar de canal se a integridade for perdida.

Ou seja, a tese, propalada em certos setores da blogosfera mundial, e repetida aqui pela jornalista da TV Record, é simplesmente desinformada, baseada em ilação. Parte de um pedaço, um fragmento de informação e daí extrapola-se para conclusões, no mínimo, precipitadas.

Vamos julgar baseado na cobertura da rede. Ela continua a sua filosofia de dar voz aos sem-voz? Ela vai cessar de questionar o status-quo? Ela vai deixar de apresentar uma pluralidade de pontos de vista, mesmo os que incomodem os poderosos de plantão?

Recomendo, para todos aqueles interessados em mídia global, o programa The Listening Post - espécie de "Observatório da Imprensa" da rede, apresentado pelo jornalista canadense Richard Gizbert - que irá ao ar sexta-feira à noite: o episódio dessa semana abordará a renúncia do diretor-geral da emissora.

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Atualizando: Aqui o episódio sobre a questão.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

É preciso despersonalizar o debate e compreender o processo

Meu amigo Jampa escreveu um texto sobre a situação política do seu pai, o ex-prefeito João Paulo Lima e Silva, e, por extensão, sobre a política pernambucana na última década. Trata-se de uma análise e um convite ao debate. Atendendo ao pedido, retorno a esse blog abandonado.

No primeiro parágrafo, ele estabelece uma analogia entre as transformações da ordem mundial e a realidade política local. “A vontade de falar mal do prefeito João da Costa é hoje o grande dínamo da socialização recifense”, explica. Nessa analogia, seria o prefeito do Recife os Estados Unidos? Não me convenceu a analogia – o que ocorre a nível global, seja economicamente com a crise da dívida, ou politicamente com as revoluções árabes, são processos de ruptura com o passado. Não vejo evidências disso no Brasil ou em Recife, e nenhuma é apresentada no texto. Entendo o processo político brasileiro atual como de aprofundamento, e não de quebra, do regime democrático.

Uma interpretação equivocada da causa do isolamento político do ex-prefeito João Paulo pode ser a razão que tenha levado Jampa a conclusões, a meu ver, equivocadas.

Na sua narrativa, exposta em seu texto no blog e em comentários no Twitter e no Facebook, João Paulo seria um Dom Quixote, lutando contra monstros dentro do PT, que teriam medo de sua pureza política e de sua popularidade. Cita-se uma pesquisa que indicaria que João Paulo seria eleito o próximo prefeito, “independente do partido em que estivesse”. Pode até ser verdade, mas é mera especulação. O próprio ex-prefeito, se fosse depender de pesquisa, jamais teria sido sequer eleito em 2000 – quero dizer apenas que projetar para o futuro números do passado não é empírico; até porque em boa medida trata-se de “recall”. Em seguida, ataca o PT local, taxando-o como “neo-oligarquia”. Diante da falta de exemplo ou de alguma explicação sobre o que se quer dizer com isso, resta-me a questão: mas não são partidos políticos, em certa medida, oligárquicos por definição?

Mas vamos adiante. Ele explica que João Paulo “foi educado politicamente numa tradição de esquerda que entendia o partido como setor de vanguarda da sociedade, que munido de disciplina revolucionária e organicidade ideológica, atingiria os seus objetivos” – seja lá o que “disciplina revolucionária” e “organicidade ideológica” de fato signifiquem. O PT de Pernambuco, por outro lado, seria “um lugar sem nenhuma organicidade ideológica e cheio de interesses particulares”. João da Costa, ao afastar-se do ex-prefeito e aliar-se à cúpula do PT estadual, teria “traído” os nobres ideais do ex-mentor e isso explicaria o insucesso da sua gestão.

Diante dessa inevitável disputa entre o bem e o mal, não restaria ao ex-prefeito senão arrumar uma legenda de aluguel e lançar-se à prefeitura, para salvar a todos dos péssimos políticos pernambucanos. É uma narrativa conveniente, pois exime João Paulo de qualquer responsabilidade – seu isolamento político no PT e fora dele seria devido a fatores externos a ele, nada que estaria sob seu controle; o fiasco da gestão João da Costa tampouco lhe diz respeito. A lógica interna do texto leva inexoravelmente a essa conclusão: a única solução é ele mesmo, apesar e a despeito de todos.

O problema, a meu ver, é que a premissa mesma é que está errada. Essa narrativa da vitimização não me convence porque se João Paulo é vitima de qualquer coisa, é de suas próprias escolhas e ações políticas no passado.

A primeira eleição de João Paulo, em 2000, foi tão imprevisível quanto emocionante. Mais importante, não foi uma vitória que ocorreu no vácuo. O PT vinha crescendo eleitoralmente no Recife no decorrer de toda a década de 1990 e tinha vários setores da sociedade civil organizada mobilizados. Não foi uma vitória pessoal. Foi uma campanha auto-financiada: contribuições dos eleitores ou repasses do próprio partido. E buscou-se compor com as várias correntes do PT. Apesar das dificuldades, o primeiro mandato de João Paulo refletiu essas características de forma clara: foi um governo de cunho francamente popular e de enfrentamento ao status-quo. João Paulo compôs com vários setores do próprio PT, que ocuparam espaço na sua gestão, e de outros partidos. As grandes marcas dos oito anos de João Paulo na verdade se restringem – todas elas – ao primeiro mandato: a inversão do trânsito em Boa Viagem, a regulamentação do transporte público (o fim do transporte clandestino), a Lei dos 12 Bairros, o Programa Guarda-Chuva, habitação popular, aumento do Bolsa Família, a criação do SAMU e das Academias da Cidade.

Infelizmente, o segundo mandato não foi uma continuação do primeiro. Dessa vez, a campanha foi bancada essencialmente pelo setor da construção civil. João Paulo, prefeito bem avaliado e com acesso a financiamento, talvez tenha julgado que poderia prescindir dos aliados políticos. Ao contrário do primeiro mandato, no segundo não buscou compor com as várias correntes do partido ou com aliados de outros partidos. O primeiro mandato tratou-se de uma verdadeira frente popular; já o segundo foi estritamente de João Paulo. E as grandes “marcas” do segundo mandato estão mais para cicatrizes: a reforma da Conde da Boa Vista, a construção das torres gêmeas e o infame parque de Boa Viagem. Nada mais a apresentar.

Em 2006, João Paulo queria ser candidato a governador, mas encontrava-se isolado dentro (e fora) do PT – encontrava-se isolado, não: isolou-se. Humberto Costa foi candidato, sofrendo campanha difamatória braba, e sem o apoio de João Paulo (que diz ser homem de partido, mas fez corpo mole...). Em 2008, mais uma vez o ex-prefeito agiu de forma unilateral. Ao invés de buscar construir um consenso no partido, impôs um nome de sua estrita confiança, alguém do seu círculo pessoal. O PT estadual teve que engolir.

Sem mandato, João Paulo foi alçado à secretaria estadual, mas não durou muito tempo e logo entrou em desavença com o governador Eduardo Campos. João da Costa, constatando o isolamento, colocou o seu próprio interesse político à frente do interesse pessoal de João Paulo. Afinal, o que teria João Paulo a oferecê-lo? Que importantes setores da sociedade civil organizada, ou do sistema político-partidário, ou do próprio PT, João Paulo representa de verdade? Se João Paulo é um político tão astuto quanto Jampa gostaria de crer, o que explica sua crassa incapacidade de agregar e compor, tanto no PT como fora dele, no decorrer da última década? Afinal, política de verdade vai bem além do voto.

João Paulo, agora, sofre por seus próprios erros políticos. O fracasso da gestão João da Costa é seu fracasso. Foi sua incompetência política de fazer alianças dentro e fora do partido que o deixou isolado e que o levou a impor goela abaixo do partido seu principal ex-assessor, que parece ser bem incompetente. Mudar de partido não vai resolver nenhum desses problemas que o colocaram nessa situação. Pode até vir a ser eleito. Mas vai continuar isolado e refém dos interesses privados que ditaram o seu segundo mandato e o do seu sucessor.

A análise de Jampa personaliza a política recifense em torno da figura do seu pai. Além de levar aos erros de análise acima expostos, o mais grave é que isso despolitiza o debate. O caos urbano em que vive o Recife, hoje, não pode ser atribuído exclusivamente ao atual prefeito. É o resultado de toda uma visão de mundo hegemônica e de interesses materiais de poderosos grupos econômicos no estado. Nos últimos 30 anos, o único momento em que houve uma reação organizada e institucionalizada à força desses setores que destroem a cidade em nome de um falso progresso foi justamente na primeira gestão João Paulo. A segunda gestão já foi totalmente servil aos interesses privados. João da Costa é a continuidade da política subordinada aos interesses da construção civil e das empresas de ônibus. As gestões João Paulo diferem mais entre si do que a segunda com relação ao governo João da Costa.

Eu espero que venha sangue novo em 2012. João Paulo já teve a sua oportunidade. Fui eleitor de João Paulo e votei no candidato dele. Mas, agora, precisamos de alguém que reavive aquele 2000. O debate que precisamos não é encontrar heróis quixotescos ou buscar analogias onde não as há – devemos, isto sim, buscar entender como até uma figura como João Paulo foi incapaz de enfrentar os interesses arraigados que subvertem o poder público, corrompem-no e, ao fazê-lo, destroem a cidade em benefício do lucro fácil de uma ínfima minoria. Despersonalizar o debate e compreender o processo, eis o que proponho.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lula faz defesa enfática do Estado de Bem-Estar Social

"Não existe possibilidade de criarmos o Estado do Bem-Estar social se não tiver produção, riqueza e trabalho. Os países que têm mais política social, mais Estado do Bem-Estar social são exatamente os Estados que têm uma carga tributária condizente com a necessidade de fazer justiça para o seu povo"

- LULA


Discurso de Lula em Genebra em 22/06/2009



terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lições de um jornalista colombiano

Estamos cansados de saber dos constantes conflitos de Chávez com a mídia engajada na Venezuela. Mas conhecemos pouco sobre o que se passa na vizinha Colômbia. Ali, um oligopólio midiático com ligações umbelicais ao governo Uribe e ao atual (a família Santos, do ex-ministro da Defesa e presidente recém-eleito Juán Manuel Santos, é dona dos principais jornais do país), dispensa um tratamento gentil ao governo. Um jornalista colombiano durante dez anos apresentou o programa Contravía, oferecendo visões alternativas em relação ao conflito armado do país, dando voz aos diferentes grupos envolvidos, mas por isso mesmo desafiando a narrativa oficial do governo (os fins justificam os meios na luta contra o terrorismo) e repetida pela mídia. O seu programa incomodava, apesar da pequena audiência. O jornalista Holman Morris passou dez anos sofrendo ameaças de grupos paramiltares, pois fora tachado pelo próprio Uribe como "terrorista", por dar voz a outras partes envolvidas no conflito. Por fazer jornalismo, virou dissidente. O carimbo de terrorista, na Colômbia, é senha para os grupos direitistas paramilitares "defender a nação da ameaça terrorista". Talvez, o que Uribe estivesse querendo esconder é o custo social da sua guerra contra o terror interna. A Colômbia é o segundo país do mundo com mais "deslocados internos", que é um nome pomposo para dizer refugiados domésticos. O primeiro é o Sudão. Ou então incomode a Uribe que se discuta abertamente em seu país a questão dos falsos positivos. São inocentes - pobres, jovens das áreas rurais - assassinados pelo próprio exército para aumentar os números do "sucesso" da guerra contra o terror - bancada, aliás, com o dinheiro americano, por meio do Plano Colômbia. O jornalista agora recebeu uma bolsa da faculdade de jornalismo da Harvard e vai lá para realizar estudos, mas também, diz ele, para poder viver momentos de paz e tranquilidade com sua família, o que fui impossível durante os dez anos em que trabalhou na Colômbia. Em outras palavras, exilou-se.

Essa história é importante por três motivos.

1. A nossa imprensa se inquieta tanto com os excessos de Chávez na Venezuela, e eles são reais e, de fato, preocupantes. No entanto, os excessos do governo Uribe são solenemente ignorados. No máximo, são relegados ao segundo plano. Por que a cumplicidade? Ou é apenas ignorância? E qualquer dos casos, é mau jornalismo.

2. O segundo motivo é entender o perigo da falta de livre acesso a informação. Uma imprensa oligópolica reflete-se, politicamente, no oligopólio do controle da agenda e da narrativa construída. Uma mídia plural, desconcentrada, pulveriza a capacidade de qualquer único agente ter um predomínio completo sobre ambos. Os custos sociais do cerceio à livre informação na Colômbia são monstruosos.

3. Também é importante ter consciência do que está ocorrendo no resto do mundo para colocar o Brasil atual não só numa perspectiva histórica - com relação ao seu passado - mas também internacional - em relação aos movimentos no resto do mundo. O momento no Brasil é de imensa liberdade de expressão - porém os meios para expressá-las ainda estejam concentrados, ainda que em decadência. Qualquer pessoa que acusar ameaça a liberdade de imprensa no Brasil está mentindo. Pelo simples fato de que a nós, brasileiros, a história de Holman Morris nos parece tão absurda. E isso é um ótimo sinal de onde nos encontramos hoje.


Aqui segue uma entrevista do próprio Morris, em que ele resume a perseguição que sofreu de Uribe simplesmente por exercer jornalismo independente. Uma boa lição para os jornalistas do Brasil.

Colombian journalist reflects on US visa dispute - Cambridge - Your Town - Boston.com

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Wikileaks

A maioria das pessoas ainda têm uma mentalidade do século 20. Mas a era da Internet transformou, e segue transformando, substancialmente a maneira como informação é distribuída. O vazamento de documentos sigilosos revelando o que realmente está ocorrendo no campo de batalha afegão (veja aqui a reportagem do diário londrino The Guardian) é indício dos novos tempos - trata-se simplesmente do maior vazamento de dados da história do exército americano.

Entender o que é e como funciona Wikileaks é essencial para qualquer pessoa que queira entender como será, daqui pra frente, a relação entre governos e grandes corporações e a comunidade global ao lidar com controle de informação. O movimento inexorável é de maior transparência. O objetivo do site é tornar público toda informação que seja considerada como de interesse público.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O oligopólio midiático e o espantalho da ameaça à democracia

Meu comentário a um post patético do correspondente em Brasília do Estadão - leia aqui o post.



esse post é um exemplo do jornalismo parcial apontado pelo presidente.

estranho é uma imprensa, como a nossa, oligopólica e ideologicamente pouco plural, e que se alinha partidariamente.

o problema não é falar de "mensalão" ou deixar de falar. o problema é que tais escândalos só ocorrem de um lado. o psdb governa SP há quase duas décadas, e a imprensa carioca-paulista não encontra nada de errado por lá.

o problema não é denunciar ou não o dossier. o problema é que ninguém nunca viu o tal dossier, que na verdade são capítulos de um livro de um respeitado jornalista que vem fazendo uma coisa rara no brasil: jornalismo investigativo. há uns dois anos.

esses dois exemplos, apontados pelo blogueiro, ilustram bem o que causa a falta de pluralidade na mídia brasileira: impera uma versão - partidária - em detrimento de outras leituras da realidade.

e qualquer crítica à prática jornalista praticada por esse oligopólio é vista como "ameaça à democracia". e aí se entende, que a preocupação é com reformas que induzam à democratização do espaço midiático, que proporciona mais vozes, mais visões de mundo e mais representatividade da imensa diversidade geográfica, cultural e política desse país, que não se restringe ao eixo avenida paulista-jardim botânico!

esse jornalismo supercial, interesado, partidário e pouco plural é muito mais um obstáculo à democracia do que as críticas procedentes do principal líder político do país!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Berlam e Banda Larga

Tem um novo cantor no pedaço - Berlam e Banda Larga. Trata-se de uma boa novidade. Berlam é um excelente intérprete, performático e, o melhor de tudo, as suas músicas apresentam letras tão inteligentes como não se via há muito tempo na música brasileira. Achei algumas músicas suas no YouTube, e espero encontrar mais no futuro.



E pra quem gostou e quiser conhecer mais o trabalho, aqui é a página Myspace.


sábado, 29 de maio de 2010

Compartilhamento de dados e acesso a cultura

A troca de dados on-line é uma das grandes transformações do século 21 porque democratiza o acesso à informação e a produtos culturais que, se fossem depender da lógica do mercado apenas, permaneceriam restritos a círculos ínfimos de iniciados. O acesso ilimitado a dados, em todas as suas manifestações - vídeo, música, texto, fotos - tem o poder de propagação da informação. No momento em que se cobra por esse acesso, automaticamente o alcance potencial da informação é limitado. Um consumidor mais bem informado é um consumidor necessariamente melhor.

Um estudo recente (leia AQUI artigo publico no The Independent) indicou que aquelas pessoas que costumam baixar música gratuitamente na Internet são os que mais gastam consumindo música. O detalhe é qual é o tipo de música e produtos culturais os quais eles consomem. Não são mais aquelas da cultura de massa - e isso é provavelmente o que mais incomoda as grandes corporações - não a distribuição gratuita em si. Afinal, o criador, o artista, ele só tem a ganhar com a disseminação de seu trabalho. É o intermediário que deixa de ganhar e é isso que incomoda a indústria fonográfica.

Um exemplo disso é o cineasta chileno radicado na França, Alejandro Jodorowsky - um grande diretor e roterista. E se ele fosse depender do mercado, eu jamais teria tido acesso a ele. Foi graças à Internet e ao compartilhamento de dados gratuito que eu tive acesso ao trabalho dele. Sua obra nunca iria passar na televisão, nunca iria passar no multiplex. Se não fosse pelo compartilhamento, eu não teria tomado conhecimento do trabalho dele e estaria me limitando como pessoa, cidadão e consumidor.

Jodorowsky, inclusive, é um dos grandes diretores do século 20, indiscutivelmente. O trabalho dele é essencialmente cinematográfico. As histórias que ele conta, por meio de imagens, não poderiam ser contadas de nenhuma outra forma - livro, pintura, o que for. Cada cena, cada imagem, transborda de signifcados; tem muitas leituras possíveis e só poderiam ser contadas cinematograficamente - o que é mais do que se pode dizer do que boa parte dos cineastas. Por seus filmes, ampliei minha visão do mundo, adquiri informações que me tornaram um cidadão mais crítico e um consumidor cultural mais exigente.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

PT versus PSDB

O que está em jogo nessas eleições não é um concurso de Miss Simpatia ou uma mera seleção de currículos. Estão em jogo dois modelos de desenvolvimento que tiveram oito anos cada para implementar suas idéias. O governo da coalizão liderada pelo PSDB estabeleceu a estabilidade macroecômica, transformando o país qualitativamente. Sem dúvida, foi um divisor de águas. A partir daquele momento, o chamado imposto inflacionário, que corroía o poder de compra dos setores populares, desbancarizados, foi eliminado, proporcionando um ganho de renda. Por outro lado, o setor empresarial passava a ter condições para planejar com um horizonte temporal mais alargado.

O povão e o setor privado foram os grande vencedores desse processo. Em contra-partida, a quantidade dos empregos gerados era pouca e a qualidade, precária. Isso porque um dos pilares da estabilidade era a política monetária que visava a manter o câmbio apreciado. Isso tirava o incentivo de investimento e da demanda. Emperrando o consumo, evitava que a inflação crescesse. Ou seja, um dos elementos essenciais daquele modelo dependia justamente de uma punição para os setores populares, por conta da precarização do emprego (trabalho informal) assim como para o setor privado, que não tinha incentivos para se individar e investir no setor produtivo. Era mais vantajoso e menos arriscado aplicar o dinheiro. Ao mesmo tempo, os juros altos aumentavam a dívida pública, que também aumentava para manter os juros altos. O perfil da dívida pública era inerentemente instável, porque estava exposta ao Dólar, ficando a mercê das oscilações do mercado internacional.

A estabilidade, sob esse modelo, tinha óbvios custos sociais para vários setores.

Quando o governo petista assumiu, em Janeiro de 2003, o quadro era preocupante. Os juros vinham em linha crescente, chegando ao absurdo de 26,5%; a inflação passava dos dois dígitos, atingindo 12,5%; o lucro da Petrobrás decrescia havia 3 anos consecutivos; o PIB teve o pífio incremento de 2,3%; as reservas internacionais seriam negativas se não fosse pelo aporte do FMI; o rendimento médio mensal vinha em queda pelo menos desde 1996; a dívida pública em relação ao PIB já passava dos 50%. Todos esses dados alarmantes não eram frutos do acaso. Eram a base mesma dos 8 anos de um modelo que, como legado positivo ao país, deixou a estabilidade macroeconômica. Mas ao preço de estagnação, falta de investimento público e privado, vulnerabilidade externa.

Todos esses dados começam a mudar a partir de 2003. Novamente, isso não é fruto do acaso. Um novo modelo começou a ser implantado. A inflação manteve-se bem abaixo dos dois dígitos, caindo de 12,5% em 2002 para 5,9% em 2008. O lucro da Petrobras apresentou uma evolução constante entre 2003 e 2008. Em 2008, o PIB cresceu 5,9%, acima da média mundial. As reservas internacionais hoje atingiram níveis sem precedentes, passando dos 250 bilhões de dólares. A dívida com o FMI foi quitada, e o perfil da dívida foi melhorado, diminuindo drasticamente a exposição ao dólar, para ficar menos vulnerável a eventos vindo de fora (como a crise financeira mundial, por exemplo). O rendimento médio mensal apresenta uma linha de constante crescimento, a partir de 2003. A relação dívida/PIB caiu para 38% em 2008, sofrendo pequena subida em 2009 por conta das medidas rápidas e eficientes adotadas pelo governo federal para proteger o Brasil da crise mundial. Os juros apresentam uma linha decrescente, baixando dos incríveis 27,5% para em torno de 10% atualmente.


O que é significante é que o elemento básico desse modelo é que ele se baseia na distribuição de renda e na inclusão social. Esse é o motor, abastecido com diversas políticas distributivas - expansão do crédito, programas de transferência de renda, expansão e interiorização dos ensinos técnico e universitário, expansão dos serviços de assistência de saúde, como Programa Saúde da Família. Mais de 20 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, enquanto outras 30 milhões subiram degrau acima para compor a nova classe média. A inclusão social e econômica, por meio de políticas públicas eficientes, tem sido o motor do atual modelo. As políticas adotadas são um meio para se atingir um fim, que é a melhoria de vida dos brasileiros. É a construção de um Estado de Bem-Estar Social - com a institucionalização das políticas sociais, juntamente com a implantação de infra-estrutura do país sob planejamento estratégico do Estado mas com capital público e privado - gerando novas indústrias, novos modais de transportes, novos pólos regionais de desenvolvimento - que somados vêm dando impulso à atual fase de crescimento. Não é apenas que, no Governo do PT, o Brasil cresceu mais. O Brasil cresceu mais e melhor. O fato de que 12 milhões de empregos foram criados nos últimos sete anos e meio se torna ainda mais auspicioso quando se considera que boa parte deles é formal - de carteira assinada e todos os direitos sociais que isso implica.

Agora, em outubro, o povo brasileiro vai se deparar com a escolha entre esse dois modelos. Serra personifica o modelo tucano, e o seu governo em São Paulo é um bom exemplo. Dilma representa o modelo petista.

Todos os dados desse texto podem ser conferidos nesse link: http://lulavsfhc.tumblr.com/page/1 .

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Debatendo o Estado de Bem-Estar Social

O E-mail "Kit do Brasileiro" gerou um debate entre meus primos. À resposta de Diogo, que postei abaixo, um primo respondeu o seguinte:

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Devemos ajudar, claro, mas qual é o cursor de formação de mão de obra que o lula implantou, não adianta só o assistencialismo tem que evoluir a população, investir mais em educação basica e menos em publicidade e assistencialismo. tem que estimular a produtividade e não a vagabundagem, talvez dai da europa o brasil esteja parecendo lindo mas a realidade no interior dos estados mais pobres eh outra, niguem quer mais trabalhar pois ja ganha o suficiente do governo. Hoje em dia eh mais vantagem para quem tem dois filhos ou mais estar preso do que arrumar um emprego de pedreiro, pois tem o auxilio do governo de R$ 800,00 por filho. Acho que o Lula foi um otimo presidente em alguns aspectos mas nesse ponto não acho que viciar a população em auxilio do governo gastando muito dinheiro com isso e não gastando nem perto disso com educação eh uma bomba relogio. Não existe desenvolvimento sustentavel sem educação. Educação eh o principio basico de sustentação para qualquer nação, sem educação nem plano de governo tem futuro, muito menos o assistencialismo. NENHUM FILHO VIVE DE MESADA PARA O RESTO DA VIDA, UMA HORA ELE TEM QUE ANDAR COM AS PROPRIAS PERNAS!!!!

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Resposta de Diogo:

nao poderia concordar mais que educação agora deve ser a prioridade de qualquer governante que venha a assumir. tem razao. mas se dermos uma olhada na tabela abaixo, veremos que nos ultimos anos tivemos uma boa evolução nesta área com programas como o fundeb e com a construçao de forma descentralizada de escolas de nivel superior e técnica. vejam os numeros relativos a educação abaixo. mas uma pergunta geral: se voces fossem cortadores de cana e recebessem um salario minimo para um trabalho que nao lhes dá benefícios sociais, nao paga hora extra, etc, e pudessem ganhar um pouco menos sem ter que trabalhar, o que voces escolheriam? quem sou eu para chamar de preguiçoso a pessoa que escolhe pela segunda; acho que eu faria o mesmo. ou o empregador melhora as condiçoes de trabalho, ou o trabalhador, que agora tem a opção de nao trabalhar e receber dinheiro, vaza. nao necessariamente por preguiça; aqui é uma questão de dignidade.

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Minha resposta:


é importante nos informarmos antes de fechar uma opinião a respeito de algum tema.

1. todas as democracias desenvolvidas do mundo têm algum tipo de Estado do Bem-Estar Social, como Diogo descreveu a amiga dele. Uma das características de uma sociedade socio-economicamente desenvolvida é a existência de instituições que garantam um nível mínimo de bem-estar para toda a população. As políticas sociais implantadas no Governo Lula são o princípio desse processo, que na maior parte dos países desenvolvidos foi construído a partir do pós-guerra.

2. quantos por cento do PIB é investido no Bolsa Família? E quantos porcento em educação? Menos de 1% do PIB é direcionado ao BF, enquanto que algo em torno de 5% é investido em educação. Uma coisa não exclui a outra.

3. O fortalecimento do mercado interno tem dado dinamismo à economia brasileira e ajudou a proteger o país da crise mundial; o papel do BF nesse processo foi fundamental:
http://www.goldenlight.biz/jornal/economia/leitura.php?id=3107 . Ou seja, ao analisarmos os custos do BF, devemos levar em conta quanto essa política vem contribuindo pro desenvolvimento econômico e social do país.

4. como diogo apontou, foram construídas centenas de escolas técnicas atendendo as demandas de cada região. Ipojuca é um bom exemplo disso:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=12179


5. a informação repassada na mensagem sobre o bolsa-presidiário é falsa. 798,30 é o valor MÁXIMO que se pode receber em reclusão, e apenas pessoas que JÁ são seguradas pela Previdência Social (ou seja, que já trabalhavam com carteira ssinada antes da reclusão) podem receber esse benefício, que vai para os DEPENDENTES do preso. Essa informação consta do link repassado na própria mensagem...

6. também é interessante saber quais são os valores do Bolsa Família. Essa informação pode ser encontrada facilmente na internet:
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/fc_beneficiario/beneficio/qual-o-valor-do-beneficio-pago-as-familias-do-pbf/

o valor varia de 15 a 95 reais por mês por família, de acordo com a renda mensal da família (pobre ou muito pobre) e número de membros (de 1 a 3 ou mais). Uma família pequena - 1 membro - e com renda mensal per capita de 60 a 120 reais (pobre), recebe 15 reais por mês. Uma família grande (3 membros ou mais), com renda mensal per capita de até 60 reais (muito pobre), recebe do Estado brasileiro 95 reais. É importante ter esses valores em mente antes de fazer julgamento sobre pessoas que vivem numa realidade tão diferente da nossa. Os trabalhos que as pessoas recusam em geral são sub-empregos que exploram mão-de-obra extremamente barata, em serviços sazonais (não dura o ano inteiro), em condições sub-humanas (tem gente que morre de exaustão no corte da cana), por um salário de miséria. Antes do BF, o cidadão se submetia a esse tipo de coisa por total falta de opção. Agora, como Diogo apontou, o cidadão tem uma escolha: entre fazer um trabalho merda e não fazer nada. E o empregador também: se quer trabalhador, que ofereça condições de trabalho mais dignas.

7. Pela primeira vez em décadas, o fluxo migratório mudou: o Nordeste deixou de ser exportador populacional para o Sul-Sudeste e, agora, recebe mais gente do que manda embora. Isso é um dos efeitos da série de políticas públicas implantadas no Nordeste nos últimos oito anos, dentre as quais o BF é uma das mais importantes. Os programas sociais fixam os cidadãos em sua terra.

8. por fim, não podia deixar de responder ao seu comentário. Não achamos que o Brasil esteja lindo. Temos problemas seculares que não se resolvem da noite pro dia. Mas acreditamos que o caminho para a melhoria do nosso país passa pela construção de um Estado do Bem-Estar Social, como é o caso de todos os países ricos. E esse processo foi iniciado sob Lula, e tem gerado um ciclo econômico positivo. E a aprovação dessas políticas não é só da gente que está longe, mas de 80% dos brasileiros, que estão aí. Mesmo longe, estamos mais em sintonia com o nosso povo do que algumas pessoas que estão no brasil....



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Resposta ao "Kit do Brasileiro"

Está circulando um e-mail na Internet brasileira entitulado "Kit do Brasileiro". É um protesto da classe-média, que se julga injustiçada e sobre-taxada.

Aqui está o conteúdo da mensagem, seguida pelas respostas minha e a de Diogo:

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KIT DO BRASILEIRO

*Vai transar?*
O governo dá camisinha.



*Já transou?*
O governo dá a pílula do dia seguinte.



*Teve filho?*
O governo dá o Bolsa Família..



*Tá desempregado? *
O governo dá Bolsa Desemprego.



*Vai prestar vestibular?*
O governo dá o Bolsa Cota.



*Não tem terra?*
O governo dá o Bolsa Invasão e ainda te aposenta.




*RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO?*
a partir de 1º/1/2010 O GOVERNO DÁ O
AUXÍLIO RECLUSÃO?

*esse é novo*

Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa que, é de R$798,30
"por filho" para sustentar a família, já que o
coitadinho não pode trabalhar para sustentar os filhos por estar preso.

Não acredita?

Confira no site da Previdência Social.


Portaria nº 48, de 12/2/2009, do INSS

(
http://www.previden ciasocial. gov.br/conteudoD inamico.php? id=22)

*Mas experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece!*




"Trabalhe duro, pois milhões de pessoas que vivem do Fome-Zero e do Bolsa-Família, sem trabalhar, dependem de você"

Se vc é brasileiro passe adiante.

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Eu respondi o seguinte para a minha prima, que me enviou essa denúncia:

por esse e-mail a conclusão que se chega é: ser pobre no brasil é massa!!! fiquei com uma pena enorme dos meus familiares: tudo bem de vida, deve ser um horror!

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Mas a resposta definitiva veio de Diogo:


é nao, bernardo... ajudar quem nasceu fudido e sem perspectiva é puro assistencialismo. quem nasceu na pobreza tem mais que se fuder, mesmo; e se sair dela é por mérito (ou porque é ladrão, traficante, bispo evangélico, etc). nós que temos berço devemos nos preocupar é conosco e garantir que os pobres fiquem na merda para continuarem a servir-nos, roubar-nos, agredi-nos.

aqui na suiça, por exemplo: uma amiga desempregada ganha do governo 4.500 reais por mes (se tivesse sido empregada antes, ganharia 80% do seu salario anterior); ela faz cursos de alemão pago pelo governo; ela faz curso de história da arte também subsidiado pelo governo; ela tem descontos em operas, teatros, cinemas, etc, com a carteirinha de desempregada dela. mesmo assim, pergunta se ela quer continuar desempregada. .. A resposta é "não". mas eu acredito que isto explica porque a suiça é um país horrível de se morar, muito perigoso, desigual.

temos que guardar o que temos de melhor no nosso sistema:

- que nós, ricos, continuemos a ter acesso a boa educação particular e à universidade gratuita (ou paga, tanto faz... desde que pobre fique fora);
- que nós continuemos a comprar camisinhas e usar anti-concepcionais enquanto pobre bota mais pobre no mundo (se nao tiverem dinheiro para comprar algum anticoncepcional, que parem de trepar);
- que desempregado seja tratado como deve: um preguiçoso, sem perspectiva que deve ser devidamente preparado para a delinquencia;
- cota pra nego?? nada disso... a historia nos diz em entrelinhas que nego nasceu pra se arrombar, entao porque colocarmos na universidade? para interagir conosco, ricos?? nao, nao... continuemos a pensar em argumentos para manter o status-quo (nós sempre em cima, e nego e pobre se fudendo);
- fome zero e bolsa familia? pra quê? afinal, eu nao morro de fome... alias, nunca passei fome. e como só acredito no que vejo, nao creio que isto seja um problema do Brasil.

de novo, quem é pobre é porque fez por merecer e tem mais é que ultrapassar esta barreira sozinho. afinal, o brasil é o país das oportunidades e da igualdade social e nao tem problema nenhum que justifique esses programas sociais.

VOTE SERRA! ele é preparado. afinal, viu como sao paulo nao tem problemas de enchente, segurança e educação?

Já o Lula... Viu o que ele fez com o Brasil, né? copa, olimpiadas, quitaçao de dívida a FMI (o Brasil virou credor do FMI , agora... um absurdo!!), reduçao da pobreza, crescimento economico, etc...

se liguem minha gente. e pensem com cuidado nos pobres e negros quando forem votar. temos que manter essa gente longe de nosso circulo e mais: jamais ajudá-los!! afinal, eles sao pobres e negros.

Saudaçoes do primo distante

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sete meses

A BBC – British Broadcasting, é a rede de TV e rádio pública da Inglaterra. Trata-se de um dos órgãos de imprensa mais tradicionais e respeitados, no país e no mundo. De uns anos pra cá, tem posto em prática uma política de valorização dos sotaques das diferentes regiões do Reino Unido. Até há pouco, o sotaque londrino era o oficial – assim como a Globo instituiu o “carioquês” como a língua oficial do Brasil: qualquer vestígio de regionalismo deveria ser prontamente eliminado. Hoje, na BBC, ouve-se o inglês escocês, galês, irlandês, inglês do norte, inglês do sudeste... Acabou-se a imposição de “dialeto oficial”. Muito bom em termos de multiculturalismo e tal. Mas uma dificuldade a mais para se habituar ao sotaque britânico, que na verdade são múltiplos.


Para financiar a BBC e torná-la independente dos governos de plantão – trata-se de uma emissora pública, não estatal – a fonte de recursos provem de uma anuidade paga por todos os donos de TVs do Reino Unido. Os cegos pagam só a metade. Ainda não sei se o mesmo desconto se aplica aos surdos. Os mudos não têm do que reclamar: nem poderiam.


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Existe uma tradição na Inglaterra que é a de ex-alunos fazerem doações às faculdades em que se formaram. É uma mescla de reconhecimento e gratidão altruístico à instituição acadêmica que os preparou, exibicionismo (“veja como sou bem sucedido e posso fazer essa doação”), e um nada desinterassado intuito de fortalecer a marca da universidade que, afinal de contas, consta do seu currículo. Um desses presentes de ex-alunos transformou-se num mascote não oficial da LSE: um pengüim de um metro. O mimo destronou o “beaver”, o mascote oficial. Talvez num sinal claro da ironia britânica (pode-se atribuir qualquer esquisitice dos ingleses a isso, afinal de contas!), muito melhor o símbolo-mor da breguice (ou, mais adequado dizer, do kitsche) do que o mais convencional e careta beaver. Há uns anos atrás, uns alunos da LSE, após excesso de “pints”, vandalizaram o campus da principal universidade rival – a King’s College. Em represália, estudantes do KC arrancaram e fizeram sumir o estimado pengüim da LSE! As inúmeras câmeras de segurança espalhadas pela cidade – a Inglaterra é o país com o maior número de câmeras de segurança per capita – foram incapazes de desvendar o mistério. Até hoje não se sabe que fim levou a pobre estátua da ave polar. Recentemente, outro pingüim foi adquirido e recolocado no seu devido lugar, dessa vez preso a uma base de concreto reforçada. A volta do mascote trouxe alegria aos estudantes.


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Estou muito orgulhoso do meu sistema imunológico. Desde que cheguei a Londres que não me gripei. Já entro na terceira estação totalmente são. Desde o outono que diversas vezes o silêncio da biblioteca é interrompido pela sinfonia de tosses, espirros, pigarros e outros sons corporais indicativos de saúde precária. Não sei se são os anitcorpos tropicais ou o fato de quase não usar o metrô lotado, ou por pedalar diariamente... o fato é que meu organismo tem reagido bravamente às transições climáticas. E isso porque até recentemente estava despreparado para o inverno londrino, com minhas roupas de frio de há mais de dez anos. Recentemente fui às compras e me equipei. Agora, sim, estou pronto a aguentar o frio. E realizar aquela frase de um amigo inglês, que disse que não existe mau tempo, mas sim roupa inadequada. E sistema imunológica deficiente, acrescento eu!


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Existe na univerisade clube para todos os temas, imagináveis e inimagináveis e até da categoria “que porra é isso?!” (WTF). Outro dia falarei disso. Um dos clubes – que aqui eles chamam de “society” – que faço parte é a “Rowing Society” (clube de remo). Toda a gestão, financeira e organizacional, de cada clube é realizada pelos próprios estudantes. Todo sábado pegamos um trem na Waterloo Station, uma das maiores, e vamos beirando o Tâmisa em direção oeste, até Chiswik, para o local onde os barcos das universidades de Londres ficam guardados. Remamos durante em torno de uma hora. Diferente de quando remava em Brasília, onde um funcionário fazia todo o trabalho “chato” de consertar o barco, lavá-lo, colocá-lo dentro d’água e retirá-lo depois, toda a responsabilidade de manutenção dos barcos cabe a nós, estudantes. Tampouco contatva eu com orientação técnica. Então, embora tenha três anos de experiência de remo (entre o rio Capibaribe e o Lago Paranoá), só agora, no Rio Tâmisa, venho recebendo instruções adequadas. Durante a semana, realizamos treinos “em terra”, no ginásio da universidade. Remar no Tâmisa é incrível. A paisagem é linda, com casas vitorianas e outras mais recentes, do século 20, à margem do rio. Também tem parques à beira do rio, como o Kew Gardens, um dos maiores da cidade. Tem uma linha de metrô e trem urbano que atravessa o rio bem acima da gente e, enquanto remamos, vez por outra é comum vermos os vagões passando sobre nossas cabeças. Ao nosso lado, sempre há um sem-número de patos e gaivotas; e recentemente as comportas de um canal foram abertas especialmente para que um casal de gansos pudessem adentrar no rio, pomposamente, como se estivessem a desfilar. O rio é amplamente utilizado, e não só pelas aves. Tem vários barcos-residências, daqueles tão comuns em Amsterdã. Também barcos maiores, de passeios turísticos. E barcos de remo e caiaques, para o uso esportivo. Os usuários têm várias idades. Na primeira ocasião que remei no Tâmisa, no barco individual, fui ultrapassado por uns três coroas, com barbas e cabelos totalmente alvos. Me deixaram pra trás com facilidade. O vento, mais gelado a cada novo sábado, só incomoda na hora de pôr o barco no rio, com os pés descalços a congelar dentro d’água. Depois de cinco minutos de remada, esquece-se do frio. Que só voltará a incomodar novamente na hora de retirar o barco d’água, quando novamente temos que pôr os pés nus dentro d’água

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Todos os dias a LSE oferece uma quantidade imensa de palestras. São convidados das mais diversas áreas de atuação, ligados a temas das ciências sociais (economia, política, políticas públicas, etc). E geralmente são convidados respeitados em suas devidas áreas de atuação. Integrantes de governos, empresários, acadêmicos, jornalistas, oriundos das mais diversas partes do planeta. Para se ter uma ideia, alguns nomes previstos para janeiro de 2010: o ministro da fazenda da Suécia, Anders Borg; o economista indiano e nobel de economia, professor Amartya Sen; e um ex-ministro inglês, James Purnell. Até agora só fui a um evento: a palestra do presidente Rafael Correa, do Equador. Seu discurso foi muito interessante e me fez olhá-lo com outros olhos. Equivocadamente, e repetindo o cacoete dos grandes meios de comunicação mundiais, tendia a colocá-lo no mesmo balaio de gato chavista. Sua crítica ao neoliberalismo é bem embasada, o que não deveria causar estranhamento, pois ele pós-graduou-se nos Estados Unidos, e teria sido mais controversa um ano e meio atrás; hoje suas críticas são quase consensuais. O aspecto mais importante de sua crítica é a de que um programa eivado de ideologia tivesse a pretensão de ser aplicado em todas as partes do mundo e resolver todos os problemas, da Tailândia ao Equador, da Rússia à Argentina. Uma panacéia que poderia ser aplicada em todas as partes, a despeito de especificidades históricas e culturais.Também reclamou da ideia de que o mercado resolve tudo. Contou uma história engraçada para ilustrar esse ponto. Uma mulher está perdida no deserto, a ponto de morrer de sede. Encontra um homem que tem água e está disposto a ajudá-la. Com uma condição: em troca da água, que salvará sua vida, a mulher deve transar com ele. Pela lógica da teoria econômica clássica, houve aí uma troca em que os dois agentes obtiveram os seus objetivos. A eficiência foi, portanto, máxima. Do ponto de vista moral, no entanto, é evidente o descalabro: a água deveria ter sido dada sem condições. A analogia é forte, mas muito acertada e ilustra fielmente a assimetria que tem historicamente caracterizado as relações econômicas e políticas entre os países ricos e aqueles em desenvolvimento.


As políticas empreendidas por seu governo seguem a linha da social-democracia, muito ao estilo daquelas levadas a cabo pelo governo petista. Seu ponto fraco é sua retórica “bolivariana”; Correa tenta, pelo discurso, dar uma unidade transnacional, que não é lastreada nos fatos, às políticas chavistas. Suas políticas internas são neokeynesianas, assemelhando-se mais às de Lula, na medida em que visam a incentivar a demanda agregada como meio de promover redistribuição de renda e crescimento econômico. Mas, em seu discurso, o presidente equatoriano busca associar-se a Chávez, classificando suas políticas como sendo o que ele chama de “socialismo do século 21”. Essa frase é desprovida de significado, porque o que ele faz não guarda qualquer semelhança com socialismo de século algum, nem tampouco com as políticas desastradas e desastrosas implantadas por seu colega venezuelano. Outro erro é vir falar de socialismo no continente que o experimentou no século 20 e cuja experiência não foi nada agradável.


Detalhe: todas as palestras são disponibilizadas em podcast na página da LSE: veja aqui.


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Estou fazendo um estágio desde o começo do semestre no gabinete de uma deputada do Labour Party (o tradicional Partido Trabalhista britânico, um dos primeiros desse gênero a emergir no mundo). Aqui o voto é distrital, ou seja, cada membro do Parlamento (MP, que é como eles chamam os “deputados federais”) representa uma circunscrição específica. É como se cada bairro de Recife, por exemplo, tivesse seu próprio representante no Congresso Nacional. O sistema distrital é chamado, na literatura da Ciência Política, de “majoritário”, diferente do nosso sistema de grandes distritos (cada estado é um distrito eleitoral no Brasil), que é “proporcional” (cada coligação elege um número de representantes proporcional à quantidade de votos recebida). A vantagem do sistema majoritário é a representatividade geográfica: cada microrregião tem um representante no Parlamento. Outra vantagem é o fato de que o eleitor sabe exatamente quem é o seu representante e, portanto, sabe a quem recorrer sempre que tiver problemas a tratar ou questões a colocar. Por outro lado, há uma distorção intrínseca ao regime majoritário. Emily Thornberry, membro do Parlamento para quem trabalho, se elegeu com uma diferença de meros 400 votos! O sistema proporcional, por definição, reflete de forma mais fiel o sentimento dos eleitores.


O atual governo trabalhista, liderado por Gordon Brown, sofre por fadiga material (os trabalhistas estão no poder desde 1993!) e falta de liderança – digamos que Brown não é o político mais empolgante do mundo. As eleições, que devem ocorrer em abril ou maio, serão disputadíssima. Os “tories” (conservadores) são favoritos, embora a diferença entre eles e os trabalhistas esteja diminuindo e, na última enquete, já tenha caído abaixo dos dois dígitos. Mesmo que o Labour não consiga a maioria dos votos, é possível que permaneça no poder em função de uma potencial aliança com o terceiro partido que vem ganhando força nos últimos anos, os Liberais Democratas (LibDems). Ainda não consegui encaixá-los no espectro político, mas, pelo que entendi, eles tendem a ser ortodoxos na economia e progressistas socialmente. Ou seja, estariam à esquerda dos Tories e à direita do Labour. Mas não é tão simples: em muitas questões, estão à esquerda também do Labour: por exemplo, são contra as guerras (Iraque, Afeganistão), e a favor de política liberalizante em relação às drogas. O LibDem tende a ser mais popular entre os mais jovens. Num sistema proporcional, certamente teriam mais representantes do que no atual sistema majoritário, que tende a incentivar o bipartidarismo (o eleitor se sente impelido a não votar num terceiro partido, preferindo votar num dos dois grandes de modo a não “desperdiçar” o seu voto).


Trabalho no gabinete da constituinte, no bairro que a MP Thornberry representa (Islington South). É interessante porque aprendo muito sobre os hábitos de trabalho britânicos, mas também sobre como funciona na prática o sistema político do país. Recebemos demandas as mais variadas da população local. Os temas mais comuns são pessoais, geralmente ligados a imigração e moradia. Mas também acontece de algum eleitor escrever sobre problemas que não são pessoais, como um que escreveu sobre uma propaganda de um banco que oferecia cartão de crédito com taxas que ele julgava serem abusivas. Uma das minhas funções é ler as correspondências dos eleitores, registrá-las num banco de dados, repondê-las e encaminhar algum tipo de solução a seu problema, fazendo o meio-de-campo entre o eleitor e o órgão governamental que trata do problema levantado pelo eleitor.


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Um hábito que adquiri em Londres é ver diariamente o site do The WeatherChannel. Lá, vejo a temperatura, a sensação térmica, a velocidade do vento e a probabilidade de precipitação, hora a hora. É bastante útil para planejar minhas locomoções ciclísticas pela cidade e evitar de pedalar durante algum toró.


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Vários colegas meus foram para Copenhaguem durante a conferência climática. Um deles, alemão, me contou, via Facebook, algumas coisas que testemunhou por lá e acho interessante compartilhar com vocês, com tradução minha: “Eu vi Serra, ao vivo. Cara, espero que ele não se torne seu presidente. Talvez seja porque o inglês dele é lento, mas ele me pareceu muito pouco dinâmico. Eu não vi Lula ao vivo, vi retransmitido ao vivo num telão – seu discurso foi muito, muito melhor. Sinto inveja de seu país. Ele ofereceu mais do que qualquer outro país, pelo menos dos países mais importantes. Ele foi muito aplaudido pela platéia que o assistiam pelo telão”.


É interessante ouvir depoimentos como esse, sem o filtro da imprensa – um relato direto, sem intermediários – e sem filtro partidário – ele é alemão, não fala português e não tem nenhuma ligação com o Brasil, exceto pelo futebol.


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Já que é período natalino, uma notícia natalina. Tem um programa de TV no Reino Unido chamado “The X Factor”. Nunca vi, mas suponho que seja algo no estilo de “Ídolos”. A cada ano, o vencedor do programa lança uma música que, automaticamente, se torna a canção mais popular do Natal (e por isso é chamada de “Christmas Number 1”). Tem sido assim há pelo menos cinco anos, desde que esse programa existe. Acontece que esse ano surgiu um movimento na Internet para combater o poderio comercial do programa. Escolheram uma música do Rage Against The Machine, “Killing in the name”, dos anos 1990. Quando me inscrevi no grupo Facebook, havia em torno de 500,000 associados. Agora, já passa de 1 milhão! Mais impressionante: esse movimento, totalmente virtual e orgânico, contra uma estrutura pesada da indústria cultural de massa, saiu vencedor: pela primeira vez em anos, a música campeã da parada de sucessos natalina não foi aquela oriunda do programa “The X Factor”: foi a música da banda americana! Quem quiser obter mais informações sobre mais esse exemplo do poder da Internet diante das instituições (econômicas, políticas, culturais) tradicionais, vale a pena visitar a página Facebook do grupo.


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- sobre o sexto mês