Eu me lembro de ter lido a declaração de um membro do COI sobre a candidatura Rio 2004, nos anos 90. Em tom crítico, ele falou algo nessa linha: trata-se de buscar uma cidade para as olimpíadas, não as olimpíadas para uma cidade.
Vendo o Pan-07, fica claro o que ele queria dizer. O evento foi vendido (literalmente) para a sociedade brasileira como a panacéia que iria resolver os problemas da cidade... mais um pouquinho, e era do país inteiro!
Os argumentos dos defensores são bastante emocionais, para não dizer irracionais. “O Rio é a cara do Brasil”, “a cidade tem muitos hotéis”, “a paisagem é linda”. Francamente, beiram o desvairio. O problema desses argumentos é que a realidade, ora bolas!, insiste em se impor.
O Rio é, afinal de contas, uma das cidades mais problemáticas do Brasil e das Américas. É preciso listar? Não bastasse a crônica crise de segurança pública, o trânsito é complicado e a maior parte da população vive em comunidades onde a ausência do Estado é a característica básica... Todo esse contexto social frágil sob péssimos gestores públicos (Sérgio Cabral vem quebrar esse traço tão marcante das sociedades carioca e fluminense).
Dada essa realidade caótica, haja abstração para justificar a realização dos jogos panamericanos no Rio. É mais do que uma irresponsabilidade realizar um evento desse porte numa cidade como o Rio, com tantos e tão graves problemas sociais e urbanos. É imoral gastar-se quase R$ 5 bilhões para construir quadras de esgrima, pistas de hipismo e campos de beisebol (que não prestam) numa cidade onde recentemente houve – só pra ficar num exemplo – o colapso total do sistema público de saúde.
Temos cidades com condições ideais para realizar tais eventos, como Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis... Cidades que, inclusive, deveriam ser premiadas, com eventos assim, por sucessivas gestões competentes.
Não é o Pan que resolverá os problemas do Rio. Ele apenas os clamufará, abafará. Ou, pior – os explicitará. Alguém está surpreso com os superfaturamentos? E com a desorganização dos ingressos? E com as obras inacabadas? E com a panaquice de César Maia? Não era óbvio que tudo isso iria acontecer?
É de políticas públicas, como as recém anunciadas pelos governos federal e estadual, que o Rio precisa. Auto-estima e auto-imagem não se resolvem desse modo superficial – isso é como plástica em pessoas mal-resolvidas... resolve até a próxima ruga. “Amadurecimento” não se atinge de fora para dentro, mas sim por processo interno, de dentro para fora. No plano individual, seria como uma pessoa que se casa e se acha mais madura só por isso... Pan é perfumaria. E das caras.

Acho relevante essa discussão. Num país de recursos escassos e problemas de sobra, nunca é demais discutir-se como são invertidos os recursos públicos. E com a candidatura dessa mesma cidade para as Olimpíadas e do país para a Copa do Mundo, refletir o Pan torna-se obrigatório. É interessante registrar, também, que essa talvez seja a primeira vez que eu e Diogo discordamos substancialmente.
Para melhorar-se a auto-estima coletiva e nossa imagem lá fora, faz-se mais necessário medidas como as do Governo Federal de combate à corrupção. Temos repercussão dessa natureza lá fora: veja aqui.
Realizar eventos para os quais não temos condições, como esses jogos pan-americanos, apenas contribui para reações negativas, como essa matéria aqui.
Para se ter uma idéia do que anda acontecendo por lá, veja o blog A verdade do Pan.
O editorial da Folha de São Paulo, do dia 15 de Julho, também está bem interessante.
E, por fim, alguém ainda agüenta trocadalhos do carilho com o prefixo "pan"? Panta que o pariu!





Belo texto. Bom saber que nem tudo é solidão, e quando se grita na multidão, umas cinco pessoas se voltam pra você e se identificam com sua dor. Esse clima de apatia política da sociedade de consumo faz sentido em sociedades pós-industriais, onde os conflitos sociais foram abafados e conciliados pela umbrela do estado do bem estar social e por uma sensação de prosperidade e afluência generalizada. Incompreensível que esse mesmo sentimento assole a juventude de classe média do Brasil, país ainda enredado num violento apartheid social, onde só em Pernambuco 4000 pessoas são assassinadas por ano e onde muitas pessoas - pobres sobretudo - vivem em estado de sítio, sem liberdade de ir e vir em suas comunidades dominadas pelo crime, sem direito à educação e à saúde. É mais fácil e mais romântico lutar contra generais puritanos como Médici e Geisel do que reconhecer a falta de liberdade e democracia real na qual vivem inúmeras pessoas (pobres) no Brasil. Somos apolíticos, como se a política tivesse dado tudo o que teria a dar, quando a realidade se apresenta de outra maneira. A grande batalha é a simbólica, a batalha da linguagem, da nomeação. Falta-nos um Camus, um Beckett, alguém que diga que o absurdo é absurdo, alguém que conclame o senso de urgência e balance os corações de uma geração tão preconcemente pragmática e satisfeita com tão pouco. Vivemos numa situação absolutamente surreal: um baile alegre no salão nobre de um Titanic que afunda. Ninguém tem coragem de dizer que o rei está nu. Chamar o absurdo de absurdo. Pra isso que precisamos de gente como você, João. De artistas, de teatro. Pra nomear as coisas.