sábado, 28 de março de 2009

Comentários no HuffPost

O comentário do presidente Lula no encontro com Gordon Brown, responsabilizando "blue-eyed bankers" pelo colpaso da economia global, deu o que falar lá na gringa. É bem interessante observar o debate que surgiu no HuffingtonPost (veja aqui)! É muito bom ver um debate sem aquele viés inevitável que sempre se toma aqui de jogo de futebol (PT x PSDB), que contamina qualquer tentativa de debate político saudável. Lá, sem as paixões partidárias que deturpam o diálogo, o debate gira em torno da substância do que Lula falou.

Alguns comentários do leitor posto aqui:

- o mais engraçado:

As a pale faced, blue-eyed person, I can heartily agree with this. I love the 'things white people like' blog... but if there's one thing we REALLY love, it's destroying the global economy. Unfortunately, holding a mid-range IT job hasn't given me much opportunity to fulfill my personal dreams of forcing at least 50% of the world population living on cat food (whiskas, not fancy feast!) and scraps from dumpsters... at least not direct opportunity. Fortunately, I was able to vote Republican repeatedly, helping bring Bush in office, which has resulted in more wealth destroyed than was created in entire history of civilization before him! 

Now excuse me while I go for a delightful walk outside. Maybe I can tell a homeless person "GET A JOB" or an immigrant "GO BACK TO MEXICO". Yes, there are few things more fun than being white.


- um a favor da frase do presidente:

Tell me how it is untrue historically. Maybe, he was just trying to shame. There is so much bad going on in the world. Why didn't we go to Sudan instead of Iraq? Why didn't we go to Rwanda instead of Yugoslavia? Do you know anything about what is going on in the Congo right now and why?


- um contra:

Highly generalized, unfitting and absurd accusation. I'm hoping this is something that was lost in translation.


- e um tão positivo, que dificilmente leríamos na imprensa nativa (ficou branco, mas dá pra ler passando com o mouse por cima... incompetência minha):

Lula's letting his rhetoric get ahead of him here, but this is a man who has always been a harsh critic of the sort of neoliberal economic platforms that are at the root of the global financial crisis. When he was elected president, the pundits were panicked that he would run the Brazilian economy, yet Brazil has eliminated its debt and has seen its GDP grow at the same rate as China's. If I'm the same room as all the G-20 leaders, Lula's the guy I'm most interested in hearing from.

    Reply   Posted 08:50 PM on 03/26/2009

No wonder ford motors opened their latest assembly plant there.

    Reply   Posted 09:09 PM on 03/26/2009

doesn't the majority of Brazil's automotive industry run on renewable fuel?

    Reply   Posted 08:57 PM on 03/26/2009

.....and has since the eighties

quarta-feira, 25 de março de 2009

A disputa política está saindo do armário

Aos poucos, a luta política vai emergindo, vem à tona. No Brasil, desde sempre, o debate programático tende a ser posto em segundo plano, em favor de disputas moralistas ou legalistas. Desde Dom Pedro II, pelo menos, que é assim. A Monarquia caiu não porque tenha deixado de defender políticas que favoreciam a sua base de apoio (os latifundiários e os credores), mas porque seria "podre" - a República seria uma necessidade moral. Desde então, a disputas, aqui, raramente se davam pela forma do que realmente eram: a retórica moralista escondia interesses bem prosaicos. 

Enquanto boa parte do eleitorado não participava do processo (até a década de 1980), ou, depois disso, enquanto o oligopólio midiático podia repassar sua versão sem correr o risco de ser questionado, essa maneira de disputar o poder funcionou. Agora, com o amadurecimento da Internet brasileira, isso começa a se tornar impraticável. A disputa política, no Brasil, está saindo do armário.

Os pontos desse emaranhado começam a se ligar. Em entrevista recente (veja aqui), FHC elogiou Daniel Dantas e Gilmar Mendes, e criticou o Delegado Protógenes Queiroz. (Se ele fosse mais atinado aos novos tempos, jamais teria falado o que falou. Qualquer pessoa familiarizada com YouTube, teria tido mais cuidado com quem elogia publicamente!). Inspirado nas opiniões do ex-presidente, o jornalista Luis Nassif esboça uma análise da história recente do país (aqui), colocando como o foco do jogo político atual a formação do Sistema Brasileiro de Inteligência - em que se opõem os grupos ligados aos criminosos do colarinho branco, Daniel Dantas à frente, e aqueles independentes. 

Vamos ver, no desenrolar da CPI dos Grampos, como se posicionam os grupos políticos em relação ao caso. Vai ficando cada vez mais difícil esconder o posicionamento atrás de posturas moralistas (isso funcionou no caso do suposto "mensalão"). FHC já se posicionou.

Um programa da TV Câmara entrevistou os jornalistas Leandro Fortes (Carta Capital) e Jaílson de Carvalho (O Globo), sobre as investigações da Satiagraha. É o que tem de mais esclarecedor sobre o tema. Por pressão de Gilmar Mendes (defensor da liberdade de imprensa), o site da TV Câmara retirou a entrevista do ar. Mas a pressão da blogosfera (Azenha e CartaCapital), fez com que a TV do Poder Legislativo voltasse atrás na decisão tão inócua quanto burra (veja aqui a entrevista ou então baixe aqui) . Queriam repetir, com essa história de Grampolândia, uma espécie de "Mensalão 2: redux". Se esqueceram de uma coisa - o país mudou desde então... Não colou.

Essa série de artigos, entrevistas e declarações recententes (aliás, que só têm tido a repercussão que tiveram graças aos blogs e ao YouTube) começam a tornar mais nítido o campo do jogo político brasileiro. Às vésperas das eleições de 2010, tal transformação, ainda que tardia e lenta, é muito bem vinda. Embora algumas pessoas ainda tenham receio, por exemplo, o jornalista/enólogo Renato Machado, aqui.

(Em tempo, a entrevista dos dois jornalistas é obrigatória para quem quiser entender o atual cenário político nacional.)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Interpretação de texto

encontrei por acaso um poema (sendo generoso) escrito entre o verão e a primavera de 2006. 



quando puxas-me ao teu seio,

e fico ali, te sentindo, bem no meio,

sei que a vida é bela, apenas sei-o:

quando estou ali, tudo leio.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Faoro, Furtado e o novo Brasil

 





Tem-se evidente paradoxo quando o instrumento de transformação da realidade é o mesmo que serve para defender a manutenção do status quo.


A Geração de 1930, grupo composto por intelectuais que pensaram criticamente o Brasil sob diversas perspectivas, deixou marcas indeléveis não só na produção acadêmica subsequente, mas também na maneira como a sociedade brasileira compreende a si mesma. Muito do que esses pensadores destacaram como problemas permanece, em geral, como temas centrais no país. As disparidades regionais, apontadas por Celso Furtado, no seminal “Formação Econômica do Brasil”, como o grande entrave para o desenvolvimento econômico nacional ainda se encontram irresolvidas.

 

A pífia integração da economia brasileira, decorrente das disparidades econômicas e regionais, é o grande entrave para o desenvolvimento integral da economia nacional. A inclusão de mais brasileiros na sociedade de consumo, que corresponde ao incremento do mercado consumidor, é fundamental, segundo Furtado, para a inserção competitiva do país na economia mundial. Para que esse fim fosse atingido, caberia ao Estado função preponderante de indutor do processo.

 

A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), sob os auspícios de Furtado, na segunda metade do Governo Kubitschek, visava, justamente, a exercer essa função de promotor ou de coordenador do desenvolvimento da região, integrando-a ao eixo econômico sul-sudeste. O Golpe Militar, em 1964, no entanto, interrompeu esse processo, que ainda se encontrava em fase incipiente. Retomando a tradição do Estado patrimonialista descrito por Raymundo Faoro, outro integrante da Geração de 1930, a Sudene, sob o regime autoritário, se torna instrumento de manutenção do poder por parte das oligarquias regionais.

 

A história da Sudene comprova a perspicácia analítica tanto de Furtado, como a de Faoro. Mas indica, também, a sua contradição intrínseca, que lhe foi fatal: segundo Furtado, o Estado seria, por vocação, o indutor do desenvolvimento regional; para Faoro, o Estado patrimonialista seria, por definição, instrumento de manutenção do poder dos estamentos sociais superiores. Tem-se evidente paradoxo quando o instrumento de transformação da realidade é o mesmo que serve para defender a manutenção do status quo.

 

A abertura política dos anos de 1980 dá início a um processo de redemocratização, bem ao gosto dos militares: lento, gradual e seguro. Nas duas décadas seguintes ao fim da ditadura militar, observa-se, no Brasil, a paulatina inclusão de novos setores sociais no processo político-decisório. Exemplo mais eloquente disso é a extensão do direito ao voto aos analfabetos, pela primeira vez na história do país. São lançadas as bases do atendimento público universal de saúde (o SUS). A sociedade civil se organiza em partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e organizações não-governamentais e se manifesta por meio de instituições democráticas existentes.

 

O processo de redemocratização, iniciado com a abertura política dos anos de 1980, aprofundado com a abertura econômica dos anos de 1990, culmina, nos anos de 2000, com o princípio de redistribuição da riqueza nacional. A desconcentração da renda se dá tanto social, quanto regionalmente. O Nordeste, assim como as camadas sociais mais baixas em todo o país, cresceu a taxas acima da média nacional. O crescimento em níveis chineses de regiões e setores sociais historicamente mantidos à margem dos ciclos de expansão econômica prévios é consequência direta de políticas públicas adotadas. Políticas como a valorização do salário mínimo, o Programa Bolsa Família, a ampliação da oferta de micro-crédito, o Pronaf, levaram a uma inclusão de mais brasileiros à sociedade de consumo. O aumento do mercado consumidor doméstico significa a integração das regiões periféricas à economia nacional. Isso porque a parcela mais pobre da população encontra-se nessas regiões.

 

A história recente do Brasil corrobora a análise de Celso Furtado. O crescimento econômico brasileiro da última década, ao contrário do de ciclos passados de expansão, é baseado no incremento do mercado consumidor doméstico, que ocorreu, por sua vez, em consequência de políticas públicas adotadas pelo governo brasileiro. O fato de a sociedade brasileira estar realizando aquilo antevisto por Furtado (inclusão social e desenvolvimento regional com base em políticas públicas redistributivas) talvez signifique, por fim, que esteja superando o Estado patrimonialista definido por Faoro.



segunda-feira, 2 de março de 2009

A velha nova Europa?

Motivado por esse artigo do Nassif, um amigo francês me enviou a seguinte resposta, que publico abaixo. Eu concordo basicamente com as observações dele e acho interessante que ele toca em alguns pontos sob uma perspectiva fora do lugar comum. Como estrangeiro que vive no Brasil, também tende a ver pontos positivos no nosso país, quando nós sofremos daquela velha síndrome de vira-lata, que não aprecia nada de si mesmo. Segue o texto:


Cara, não concordo nem um pouco com o texto, acho que a Europa se afunda ano após ano.

O período pós guerra foi do meu ponto de vista o mais cruel em termos de globalização : 30 anos de crescimento nas costas do terceiro mundo explorando matéria prima baratissima e ficando com todos os processos agregando valor, mantendo no poder governos ditatoriais e ainda se gabando de modelo de humanismo !

Aos poucos, está acabando a submissão, agora econômica, do novo mundo e as conseqüências são terríveis para a Europa que, em nome do igualitarismo, se recusa a assumir uma lógica de mérito e competição.

Os USA vão ficar baleados, mas está no DNA deles reagirem, inovar, competir... basta ver sua historia e como eles reagiram a todo que os abalou. A Europa, já é outra coisa, coloca acima de tudo o bem estar e consequentemente poucos esforços : pense nos numerosos velhos europeus não dispostos a evoluírem com seu tempo e reverem seus hábitos ou aos jovens “rebeldes” querendo trabalhar pouco e ainda ganhar 10 vezes mais que um Brasileiro ou um Indiano, sem falar do Chinês.

Eu votei no Sarkosy, porque acho urgente que tenha reformas na França para que a queda não seja muito brutal, e vejo que não tem jeito, é preciso tanta cautela para reformar o país que seriam necessários 10 mandatos para chegarmos lá.

Quando passei a viver fora da França, fiquei enjoado do discurso populista da esquerda francesa que quer defender o encanador francês contra o polonês, o agricultor francês contra o brasileiro... quer dizer que a justiça social vale apenas para os sortudos que nasceram na França e que o resto do mundo pode morrer de fome, ou pelo menos ficar sem oportunidade de desenvolvimento, saúde, educação para efetivamente passar a ser um competidor ?

Não entendo como a justiça social pode enxergar fronteiras. Isto passa longe do meu entendimento.

Gordon Brown, Sarko ou Merkel não são grandes figuras políticas... bem que eu queria, mas até em sua terra respectiva, eles tem aprovação popular mínima e provavelmente vão rodar nas próximas eleições contra populistas que prometerão aumentar o salário mínimo para compensar o aumento dos preços consequente da limitação das importações de carne brasileira e de têxtil chinês. Aí vai o déficit publico pro espaço e a competitividade europea para o chão e aí sim, a França terá como única opçãp se tornar um museu-restaurante, graças a sua linda paisagem, seu clima simpático e seus monumentos cults. Agora, vamos ver se os franceses vão querer ser assistente do chef na cozinha ou garçom... Duvido.

Um pouco amargo, este meu depoimento ?!

Na verdade, foi bem espontâneo. Acordei de bom humor, mas li as noticias ontem a noite : sindicatos fechando uma estação de trem em Paris por 1 dia. Meio milhão de pessoas reféns de meia dúzia de funcionários públicos preguiçosos... Jovens dos liceus fazendo greve sem bem saber porque e muitas ações antisemitas em prol do conflito Israelo palestinens. A oposição esquerdista bitolada na liceça maternidade de uma ministra árabe que teve um filho solteira. Devo ter dado hazar, mas a situação me pareceu desanimadora, sem falar das perspectivas econômicas !

Até REcifilis não deve ser tão ruim ! ah ah

Abração e feliz 2009

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Bom dia Recifilis !
ta certo que foi um pouco entusiasta no meu pessimismo.

O equilibro entre humanismo e assistencialismo é tenuo, mas é uma busca que é preciso manter sempre, concordo.

Os rednecks americanos deixados por trás agora estão descobrindo nem o terço da miséria que eles espalharam pelo mundo afora com seu colonialismo econômico e protecionismo comercial. Mas, enfim, ninguém merece passar por isto...

Estou achando o governo do Lula com a proposta mais coerente hoje no mundo entre ideal de melhor redistribuição de renda e a pratica de um mundo competitivo.

O foda é que leva tempo e que neste intervalo, vão se algumas gerações sacrificadas.

Mas me parece o modelo mais robusto, menos populista, mais pragmático... quem diria nas direitas do mundo, neh ?!

Vc sempre é bem vindo em Sampa, inclusive para ganhar uns trocados de babá da Malu ! ah ah

Abraço e até logo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Teto de zinco

minha mãe conta uma história lá de luanda:


Não me perguntem por que. Casa nova, recém construída, toda bem apetrechada – um luxo. Mas o teto é de zinco. Talvez para fazer a gente pensar nas imensas disparidades da cidade. É verdade que o zinco não é qualquer zinco. É daquelas chapas grandes, duras, com um ondeado esparço, quase quadrado, com o metal brilhando. E não daquelas pequenas, de ondulações estreitas, de metal sem brilho. Estas tão comuns nos musseques daqui de Luanda.

Pois bem, houve noites, desde que chegamos que escutamos estalos. Barulhos estranhos, secos, alto. Isto aconteceu umas 4 vezes durante esta nossa curta estadia na nova casa (estamos aqui desde o dia 6 de janeiro, com uma semana fora, neste período). Mas eram estalos altos e secos, como se algo estivesse quebrando.

Saíamos do local onde estivéssemos, à procura noutros cômodos da casa do que poderia ter ocorrido.Alma não é. Pensamos na rede elétrica, pensamos no ar-condicionado, pensamos do no-break da televisão.... Da ultima vez chegamos a colocar em duvida a engenharia angolana, e saímos a procura de rachaduras na casa. E essa idéia estava sendo nossa explicação mais plausível até esta quieta manhã de domingo!

Depois de noite bem dormida, eis que me deparo com um bichinho marrom caído, inerte no chão do banheiro. Não ouso tocar. Ajudado por minha miopia e adicionado pela fobia a baratas, cheguei mais perto: bicho miúdo, cabeça fina, arrodeado de pedaços de plástico branco. Olhei para o teto, e vi um orifício e pensei – que bichinho danado roeu o gesso! Tava lá um buraco, meio ovalado, com uma moldura amarronzada no seu entorno, quebrando a monotonia do branco imaculado do teto novinho.

Chamo depressa meu herói: Val, chegue aqui! O que será isso. Ele cochilava tranquilamente deitado no tapete da sala. Só ele ousa tocar e pegar o bichinho marron nas suas mãos... e me diz: aninha, isso é bala. Só então eu aproximo o bichinho pra melhor focalizá-lo, uuff, menino é uma bala! Uma bala perdida que veio se achar no nosso banheiro!!

Por volta da meia-noite, Val novamente ouviu o estalo e outros barulhos. Levantou-se, olhou os cômodos como de hábito. Como de hábito eu havia deixado meu computador ligado, como de hábito ele desligou, com receio que fosse algo na rede elétrica. E voltou para cama, onde eu já nem me dava conta do que ocorria.

Hoje os estalos estão finalmente explicados! A casa não cai! Mas nosso teto de zinco deve estar uma peneira!!

Seguem as fotos para comprovar.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cartas à Folha de S. Paulo

Estava pesquisando o arquivo da Folha e encontrei as quatro cartas minhas que foram publicadas na Folha de São Paulo no passado. Fica aí a título de curiosidade! Interessante que só um tema era importante o bastante para me fazer escrever à Folha! A única carta que abordava outro assunto... foi pra defender Cristovam Buarque! As voltas que o mundo dá! Em minha defesa, digo apenas que escrevi outras cartas que nunca chegaram a ser publicas. Eu acho.





São Paulo, domingo, 22 de fevereiro de 2004

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PAINEL DO LEITOR
Drogas 
"Geralmente se escreve muito nesse espaço do leitor para criticar a atuação dos nossos legisladores. E geralmente as críticas são bastante fundamentadas. Nossos representantes às vezes se esquecem do que são e a quem devem representar. No entanto é imperativo, para ser justo, parabenizá-los pela aprovação do projeto que cria o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Trata-se de um avanço da nossa legislação, que fica, a partir de agora, mais moderna e condizente com a realidade da sociedade brasileira. A hipocrisia que geralmente prevalece no Brasil quando se discute a questão das drogas deu lugar ao bom senso. É uma surpresa bastante bem-vinda. Tomara que essa ousadia e essa coragem de enfrentar as críticas dos setores conservadores se expandam para outros campos de atuação do nosso Congresso Nacional. Desta vez, os deputados estão de parabéns." 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 

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São Paulo, sexta-feira, 28 de novembro de 2003

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PAINEL DO LEITOR

Drogas 
"A leitora Neli Aparecida de Faria, em carta publicada nesta seção em 10/11, defende que são os "usuários sociais da droga" que "alimentam os traficantes", ecoando assim o senso comum predominante. É claro que os usuários têm uma parcela de responsabilidade no problema, mas vê-los como "financiadores" do narcotráfico serve apenas para desvirtuar o debate do seu verdadeiro foco. Antes de mais nada, por que certas drogas são ilegais e outras não?" 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 

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São Paulo, domingo, 18 de maio de 2003

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PAINEL DO LEITOR

Drogas 
"Gostaria de parabenizar a ousadia e a coragem desta Folha por enfrentar o preconceito enraizado na nossa sociedade ao defender a descriminalização de drogas leves ("Dilema das drogas", Opinião, pág. A2, 12/5). Além de tocar na questão da saúde, a Folha poderia ter ampliado o debate para questionar o viés político da criminalização das drogas. 
Seguindo a diretriz da política repressiva norte-americana, nós aqui não avançamos nada no combate ao narcotráfico. A experiência no mundo nos mostra que a política liberalizante é a mais eficaz. Essa é a tendência nos países mais modernos. Suíça, Inglaterra, Portugal e Holanda à frente já implantaram políticas descriminalizantes com resultados bastante positivos. Agora, o Canadá também adota medidas similares. 
O Brasil poderia muito bem voltar-se para esses exemplos bem-sucedidos, adaptando-os à nossa realidade social, econômica e cultural." 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 


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São Paulo, sexta-feira, 22 de março de 2002

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PAINEL DO LEITOR

Cristovam Buarque 
"É revoltante a notícia de que o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque está inelegível por três anos. Que lei arbitrária é essa? O governo federal mistura descaradamente propaganda oficial do governo com propaganda do candidato do governo. Aqui em Pernambuco, ninguém sabe quando é propaganda oficial do Estado ou quando é propaganda do partido do governador. Mas só Cristovam é punido. Por quê?" 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 

sábado, 20 de dezembro de 2008

E la nave va...


“Mi dicono: ‘fá la cronaca, raconta quello che succede!’

E chi lo sa quello che succede?”

 

(“Me disseram: ‘faça a crônica, conte o que aconteceu!’

E quem sabe o que aconteceu?”).

 

O jornalista, in “E la nave va”, F. Fellini


Tem sido interessantíssimo observar a desconstrução por que vem passando a narrativa oficiosa em relação aos supostos grampos do STF. A versão de Gilmar Mendes/Veja, endossada automaticamente pelas grandes empresas de comunicação, começa rapidamente a ir por terra. Boa parte desse desmonte se deve ao trabalho dos principais blogueiros do país (aqui, aqui ou aqui, por exemplo). Aos poucos, desmonta-se a farsa. A primeira narrativa era a de que a Abin teria grampeado o STF. Assim, a saída de cena de Paulo Lacerda, o então diretor-geral do órgão de serviço secreto brasileiro, seria imprescindível. A Veja divulgou o suposto grampo, a conversa teoricamente gravada entre Gilmar Mendes e o senador pefelista Demóstenes Torres. 

A gravação do suposto grampo nunca apareceu. A Veja nunca divulgou a fonte da transcrição. O novo relatório da Polícia Federal conclui que não houve grampo no STF - leia aqui. Ou a Veja e o presidente do STF foram ingênuos e caíram numa armação montada por alguém (quem seria? Aqui já há uma hipótese). Ou então a armação foi montada pela própria dupla GM-Veja (a dúvida, nesse caso, seria com que intuito o teriam feito). Uma coisa é certa: a narrativa mudou substancial e definitivamente.

O processo de construção de uma narrativa única que Veja/GM tentou montar agora é muito semelhante ao que ocorreu durante o caso do suposto "mensalão". Ali, como aqui, jogou-se uma teoria (narrativa), e toda a grande imprensa corporativa foi a reboque. A diferença, agora, são, basicamente, duas. Uma, é que, realmente, havia irregularidades no caso do suposto mensalão (embora não exatamente como a narrativa oficial queria nos fazer crer). Outra, é que hoje há uma imprensa mais independente (ou pelo menos mais plural) - em boa parte localizada na Internet - e que tem feito um trabalho fantástico de questionar e desmontar a narrativa oficial. Isso é uma mudança recente e incrível. 

Talvez, olhando para trás daqui a alguns anos, possamos identificar nesse período que vivemos agora como sendo o momento de inflexão, quando o pensamento único deixa de ser hegemônico. Apenas três anos atrás, provavelmente a Veja e Gilmar Mendes teriam conseguido passar incólumes. Enganar a patuléia, no Brasil, está destarte mais difícil. Aos trancos e barrancos, avançamos...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mexe, mexe, mexe, mexe

Mexe, mexe, mexe 
Mexe, mexe, mexe 
Por que a arte de mexer vem desde os tempos da pedra
lascada
Todo mundo mexia, todo mundo requebrava
Todo mundo sacudia, todo mundo balançava
E cantava

Mexe, mexe, mexe, mexe
mexe, mexe, mexe, mexe
("Mexe mexe", mundo livre s/a)


Parece até que essa música da mundo livre s/a é o melô do sistema partidário brasileiro... É uma piada de mau gosto esses nossos representantes... Hoje, amanhecemos com a notícia de que a Comissão de Constituição e Justiça aprovou mudanças no nosso sistema político - dentre as quais, as mais importantes são o fim da reeleição e a extensão dos mandatos de 4 para 5 anos.

Sem nem entrar no mérito da questão... pelo amor de Deus, vamos brincar de deixar alguma coisa se institucionalizar, hein? Que tal isso, pra variar? O que dá mais raiva é a motivação por trás dessas mudanças. Antes fosse aquele jeito brasileiro de ir resolvendo os problemas no improviso, por meio de tentativa e erro... O lance é que é tudo para atender interesses particulares! Em 1997, a reeleição foi votada a toque de caixa, para atender ao grupo político do momento - a coligação em torno de FHC. Agora, para atender a outros grupos, que não querem ficar esperando na fila da sucessão, vão acabar com algo que só agora os eleitores brasileiros estavam começando a se acostumar.

Francamente! E tudo isso a despeito dos mesmos eleitores que essa corja diz representar! Ora, se formos ver a percentagem de prefeitos reeleitos nesse ano (67%, segundo este site), é justo concluir que a sociedade brasileira aprova o instituto da reeleição. Entre os cientistas políticos, há bons argumentos a favor e contra tal mecanismo. O que fica claro é que mais essa mudança não vem com o intuito de aperfeiçoar o sistema político brasileiro, tornando-o mais claro e representativo... Vem, isso sim, apenas para fazer a fila andar. Afinal, Aécio é novo mas não quer esperar 8 anos até que possa suceder ao Serra... e por aí vai. Enquanto isso, a reforma política de verdade, substancial... jaz em alguma gaveta do Congresso...

Aproveito para fazer uma defesa enfática da reeleição. Em primeiro lugar, o povo aprova. Além disso, é um mecanismo eficiente de beneficiar o bom gestor e punir o mau, de modo democrático. Aquele gestor que, aos olhos do eleitorado, não fez um bom trabalho, vai para casa depois de apenas 4 anos de mandato. Aquele que tiver seu trabalho aprovado pela população, continua. O argumento de que a reeleição favorece quem está no poder é falha em mais de um sentido. Há o ônus de se estar no poder - todos os problemas da cidade podem ser atribuídos ao incumbente. Por outro lado, nada impede que a máquina (ou o "bônus" do poder) seja usado em favor de um aliado do mandatário incumbente. A história recente mostra que não há nada garantido. Aqui mesmo, em 2000, o candidato incumbente a reeleição, Roberto Magalhães, competiu com apoio dos governos estadual, federal, do poder judiciário local e da imprensa - e perdeu. Marta Suplicy, em 2004, também foi incapaz de se reeleger, assim como todos os governadores do Rio Grande Sul desde que a reeleição foi adotada.

Mas minha raiva nem é com o fato de que algo bom esteja em vias de se acabar... mas é a motivação que move os deputados federais. Como sempre, em nosso país, interesses particulares prevalecem em detrimento do interesse público. Lastimável. Triste do país que tem essa classe política. Galera, pelo menos disfarcem! Finjam algo remotamente parecido com um debate público! Pelo menos isso, pelo mínimo de respeito ao povo, façam um teatrinho! 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Notícia e contexto

Notícia não é só o fato. Notícia é o fato inserido num contexto. O fato, por si só, não tem significado. Para que tenha sentido, é preciso que faça parte de uma narrativa. A narrativa pode até estar errada, ser manipulada, mas só assim o fato isolado passa a ter sentido.

O incidente recente dos sapatos jogados contra o presidente W. Bush, no Iraque, proporcionam um exemplo bastante eloqüente de como um mesmo "fato" pode ser abordado de maneiras diferentes. A reportagem da CNN, embora mais longa, é menos informativa e menos contextualizada historicamente. A reportagem da Al Jazeera, por outro lado, vai até o começo da guerra, mostra outros casos que explicam a ofensa que o sapato representa na cultura árabe.

Pena que não tenhamos tanto material jornalístico disponível no YouTube brasileiro... Comparações desse tipo poderiam ser bastante pedagógicas. A investigação sobre Daniel Dantas, que envolve jornalistas, políticos e juízes - todos os quatro poderes da república - tem sido noticiada de formas divergentes por diferentes meios de comunicação. O mesmo "fato" oferece diferentes narrativas... Algo análogo ocorreu no caso do "mensalão" (entre aspas, mesmo). Nesse caso, deu-se uma única, exclusiva narrativa oficial. Até hoje, quem ousar narrar aqueles fatos de forma alternativa é tido como petista lunático.

Quem ousasse dizer que era preciso ir a fundo, às origens do problema, ou era xingado de petista (como eu sou até hoje), ou perdeu o emprego (como Franklin Martins, despedido pela Globo por repetir a pergunta proibida "De onde veio o dinheiro?"). A narrativa oficial era que a corrupção do "mensalão" seria algo restrito ao PT e ao Governo Lula. Passados três anos e meio desde as acusações de Roberto Jefferson, sabemos que a história é mais complexa. Hoje, no caso Daniel Dantas, graças ao trabalho sério do Juiz De Sanctis, do delegado Protógenes, de publicações como a Carta Capital e de jornalistas como Bob Fernandes e Luiz Nassif, temos uma pluralidade de narrativas mais amplamente aceitas.

Sem contar que os blogs vêm ganhando cada vez mais importância nessa construção de narrativas alternativas. Hoje, tem entrevista do presidente do STF, o ilustre Gilmar Mendes, no Roda Viva (na TV de Serra). Um dos melhores textos que você lerá a esse respeito não está em nenhum jornalão... está na blogosfera: aqui.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Carta ao Diário de Pernambuco

Pesquisando meu arquivo, encontrei uma carta que escrevi ao Diário de Pernambuco em Outubro de 2003. A carta, obviamente, nunca foi publicada... Posto aqui no blogue, porque aqui a ADEMI (ainda) não patrocina, então posso criticá-los abertamente, por enquanto (hahaha).



Prezado Editor,


O Diário de Pernambuco, que se diz um jornal sério, deveria ter
vergonha pelo encarte publicado nesta segunda-feira dedicado à
construção civil.


O encarte, que se queria “jornalístico”, mais parecia uma peça
publicitária das empresas do setor. As pseudo-matérias todas elas eram
congratulatórias, acríticas e totalmente parciais. Uma análise
superficial do encarte indica que as normas mais básicas de qualquer
manual de jornalismo foram solenemente ignoradas e desrespeitadas.


Só se registrou um lado da história – o do setor da construção civil.
Todas as fontes citadas são empresários ou “consultores” do setor. Não
se entrevistou nenhum urbanista, arquiteto, professor universitário,
sindicatos dos trabalhadores do setor, administrador público ou
representante da sociedade civil. Se pegou a opinião de um determinado
setor, e se tomou como a verdade geral.


As matérias – todas elas – ressaltam o “papel social”, os empregos
gerados, o crescimento do setor, a “luta contra o desperdício”,
a “busca pela qualidade” etc. Nada contra isso – são fatos importantes
e devem ser reportados. No entanto, é injustificável – e beira a falta
de ética – o fato de que nada, absolutamente nada, tenha sido dito a
respeito dos problemas sociais enfrentados pela cidade com a
verticalização desenfreada, os engarrafamentos cada vez mais
freqüentes, o sistema de esgoto sobrecarregado, os consumidores
prejudicados pelas construtoras incompetentes que quebram, a falta de
planejamento urbano do Recife etc. Talvez se outros segmentos da
sociedade tivessem sido lembrados pelos jornalistas que fizeram as
matérias, tais pontos tivessem sido abordados. Parcialidade em
jornalismo resulta nisso: a distorção da realidade. Também não ficamos
sabendo o que os nossos governantes estão planejando ou fazendo em
relação aos problemas apontados pelas construtoras.


Essa parcialidade escancarada seria normal se o encarte fosse um
informe publicitário. Choca e preocupa que um meio de comunicação
importante como o DP subestima a inteligência e capacidade crítica de
seus leitores e queiram vender isso como jornalismo. Ainda mais quando
a ADEMI vem fazendo uma pesada campanha publicitária multi-mídia
(rádio, TV, out-door...) a favor da verticalização do Recife.


Os jornalistas do DP foram usados como garotos-propaganda da entidade.
E os leitores foram enganados porque, ao lerem seu jornal se depararam
com uma propaganda revestida de jornalismo.


Os empresários querem lucro. É o interesse legítimo deles. Que não
venham, portanto, se passar por arautos da democracia, da justiça
social e do planejamento urbano. O trabalho de planejar a cidade cabe
ao poder público, e cabe a cada setor da sociedade pressionar por seus
interesses legítimos... Só que nenhum outro segmento tem o poder
econômico para veicular campanha multi-mídia... Ou pagar um encarte no
jornal.


Bernardo Jurema
Estudante de Ciências Sociais - UFPE

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Movimentos sociais, lá e cá

A analogia entre a eleição de Lula em 2002 e a de Obama agora é realmente muito rica. Nessa entrevista aqui, a jornalista/ativista, Naomi Klein (esposa de um dos melhores jornalistas da Al Jazeera, Avi Lewis) trata da relação ambígua entre o movimento social progressista americano e o quase-presidente Obama. Organizações como a Moveon que tinham uma agenda própria de demandas, se engajaram na campanha democrata. Como irá o movimento se comportar diante de um eventual Governo Obama?


domingo, 2 de novembro de 2008

E a esperança venceu o medo

O Lula deles.


Obama e Lula representam o melhor que os sistemas políticos de seus países são capazes de produzir, por meio de seus instrumentos, mecanismos, incentivos e barreiras, canalizando aquilo que há de mais progressista em suas respectivas sociedades.


Assim como Lula para o Brasil, Obama será o grande líder dessa época. Lá, como cá, tão cedo se verá outro líder com semelhante inteligência política e poder de comunicação. Ambos marcarão uma época não só pela carga simbólica intrínseca a suas eleições (precisamente no que se refere à questão sócio-econômica no Brasil e racial, nos Estados Unidos). Mas também porque encarnam o que há de mais novo e original em termos de políticas públicas em seus países. Ambos os casos denotam também a capacidade de renovar-se de cada sociedade. Entre a fundação do PT e a chegada de Lula ao poder, passaram-se 20 anos. Nos Estados Unidos, em 20 meses Obama saiu da condição de azarão à de franco favorito a dois dias do pleito, passando pela férrea maratona que são as primárias. Os críticos do sistema político americano deveriam parar para refletir um pouco sobre o significado dessa diferença. Também depõe a favor do projeto de reforma política empacado no Congresso. Um político como Obama jamais emergeria do nosso sistema partidário tal como ele é hoje, por exemplo.


A vitória de obama é a vitória de uma geração sobre a outra (olha aqui, por exemplo). É a contemporaneidade, com o que tem de melhor a oferecer - cosmopolitanismo, pragmatismo, tecnologia, tolerância, inteligência, racionalidade - sobre a mentalidade ultrapassada, bipolar, ideológica, arrogante dos últimos anos. Obama marcará esta época pelas suas políticas públicas imaginativas e inovadoras, colocando a favor do setor público americano o que os americanos têm de mais avançado em termos de tecnologia social. É a social-democracia à americana de volta e com força total.


Não é precoce antever o papel essencial que terá o presidente Obama em desencadear um processo de transformação em seu país e, conseqüentemente, no mundo. Sua campanha, que revolucionou nos meios assim como na mensagem, é a melhor evidência do que podemos esperar de sua presidência.


É sempre melhor acreditar na esperança a sucumbir diante do medo. Os americanos seguem o caminho brasileiro. Bem vindo ao clube.


(Embora eu prefira o Lula deles ao nosso Obama!)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Viva o progresso!

Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora...
e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.



Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.

Comunidade? Eis aí um conceito que se desconhece em Recife. Prevalece a lei do cada um por si. Essa é a grande questão da cidade, sobre a qual ninguém falou. Os principais problemas da cidade se devem à subordinação do público ao privado. A iniciativa privada é que dita o ritmo, a intensidade e a direção do crescimento de Recife. O poder público corre atrás desesperadamente, fazendo arremedos de intervenções e equipamentos urbanos. Que sempre ficam prontos quando é tarde demais. O bem coletivo não é levado em conta, em detrimento de interesses particulares. São uns poucos - donos de casarões antigos, especuladores imobiliários, construtoras... O resto, todo mundo, paga o preço muito caro do lucro deles. E então onde antes numa rua qualquer havia 5 casas, de repente elas somem e em seus lugares emergem 5 mondrongos de 27 andares, 4 apartamentos por andar, 2 ou 3 vagas de estacionamento. Faça aí a matemática. A infra-estrutura viária, a tubulação do esgoto, outros equipamentos urbanos como parques etc, permanecem os mesmos de antes!

Aí fica agora todo mundo falando de crise em Wall Street. E a crise das grandes cidades brasileiras? E a crise de Recife? Recife está seguindo um rumo que é inviável. Este estado de coisas não é fruto do acaso, não é um acidente da natureza. Quer entender o que está acontecendo em Wall Street? Olhe em sua volta: Recife materializou o que ocorreu lá virtualmente. Esse estado de coisas é resultado de escolhas que foram feitas, e que continuam sendo feitas, e de uma certa ideologia hegemônica que permeia a nossa sociedade e que o legitima. A mesma lógica que levou à crise financeira mundial está por trás do caos urbano em que está se transformando o Recife. É a ausência radical de regras, é o capitalismo selvagem, predador. Pode-se destruir e construir em Recife à vontade. É o Estado-mínimo em prática. Na verdade, está mais para Estado seletivo. Quem é vítima da violência policial sabe bem que o Estado, muitas vezes, de mínimo não tem nada: ele pode ser monstruosamente grande. É a privatização dos lucros, a partir do espaço público, e a socialização dos prejuízos, porque somos todos os contribuintes que pagamos pelas conseqüências da verticalização sem limites. Regras! Eu quero regras!

Aliás, regras... Isso é algo que vai além da capacidade cognitiva do cidadão recifense. Estamos a matarmos uns aos outros. As regras, quando existem, são solenemente desrespeitadas. Fica evidente por onde se passa na cidade. Aliás, transportar-se em Recife poderia ser considerado um esporte radical. Emoção pura. Dirigir por aqui , como disse um amigo, é como entrar num trem fantasma: surpresas e obstáculos surgem de todos os lados... isso na melhor das hipóteses, quando o trânsito de fato flui! Sem falar do assalto que as classes médias fazem às águas públicas, enquanto 2/3 da população da cidade padece de falta d'água crônica! A lista é infindável. Assalto a mão armada na frente de prédio é NADA comparado com todas as outras violências implícitas e explícitas que sofre a maioria dos recifenses em favor de uma minoria mesquinha.

Todos os nossos problemas temos resolvidos, nós "classes média e alta" (vista a carapuça quem quiser), os problemas coletivos de forma individual e privada. O prédio foi uma solução para a moradia. O carro, para o transporte. A cidade do Recife é (mal) feita pro morador de prédio usuário do carro. Priu. O resto são inconvenientes que enfeiam o Canal de Setúbal no Natal ou que envergonham os visitantes na Centro ou que roubam minha carteira na Agamenon. E tome grade e muro e câmeras de vigilâncias e guaritas e vidro fumê. Outro dia fui com uns amigos, andando, até o Plaza Shopping. Surgiu o questionamento - por que não resolvem a fedentina do canal que passa ali ao lado. Eu apontei pra passarela que liga o edifício garagem ao prédio do shopping e falei: olha ali, resolveram sim.

O modelo urbano recifense é intrinsecamente excludente. O recifense (das classes médias e altas) não anda a pé. Andar a pé em Recife é uma experiência sui-generis. Porque ou você vai se achar numa cidade fantasma ou então no Marrocos. Toda semana vou almoçar na casa de um tio que mora no Parnamirim. São 15 minutos a pé da minha casa até a dele. Uns 7 de bicicleta. Riem da minha cara: tá liso diga! Para eles, é incompreensível que alguém, por escolha, não use o carro. As classes abastada da cidade têm vergonha da cidade em que vivem. Nunca andam na rua da Imperatirz, jamais pisarão num mercado público. O negócio é Shopping Recife. O negócio, mesmo, seria Miami, ou pelo menos São Paulo. Mas o Shopping Recife já está de bom tamanho. E tome prédio. E tome carro. Vivemos numa sociedade desintegrada, e cada vez mais indo nessa direção.

Se tudo isso fosse só uma questão estética (prédio alto é feio, carro é feio), eu nem diria nada. Poderia-se dizer que se trata apenas de questão de gosto... Para a maioria das pessoas, não importa que a cidade fique toda igualzinha a Boa Viagem. As particularidades de cada bairro, reflexo de histórias específicas, pode ser considerada frescura babaca burguesa sentimentalóide nostálgica... Pode, pode, não nego isso não. Mas reflete um descaso total com o futuro. Agora mesmo, o mar está avançando sobre os prédios de Piedade e Candeias e sobre o calçadão de Boa Viagem. Se lá atrás, nos anos 70, houvesse uma preocupação com uma ocupação mais racional da orla os problemas mais graves que estão ocorrendo e que vai piorar poderiam ter sido evitados.

Tem gente preocupada em Recife com essas questões? Tem. Muita gente boa. Muita gente jovem. Mas essas pessoas estão por aí, soltas, desarticuladas. Não há uma voz política. Estamos perdendo a batalha ideológica em prol de um Recife mais humano onde o bem coletivo passe a sobrepor-se aos interesses particulares. Quem sabe em 2012 poderemos votar em algum candidato a vereador preocupado com essas coisas?

Ou então vamos oficializar logo essa parada: Moura Dubeux para prefeito do Recife!

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Já abordei esse assunto antes:

- Recife ruirá

- Privatizaram o horizonte!

- Utopia recifense

- A Terra Prometida da casta-média brasileira

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O "sushi nazi" de Recife

Tem um episódio de Seinfeld sobre o "soup nazi" (olha aqui). O personagem, um argentino, faz uma sopa divina, que ele trata como obra de arte. Ele tem regras bem rigorosas em seu estabelecimento. Mas a clientela se submete a esse tratamento autoritário porque a sopa é tão gostosa que justifica o martírio.

Pois bem, Recife tem também seu próprio "soup nazi". No nosso caso, trata-se do "sushi nazi" - Wadamon. Seu restaurante era no Espinheiro. Depois de uns 30 assaltos, ele fechou o local e voltou para Osaka. Agora, acabo de descobrir que Wadamon, o sushi nazi de Recife, está de volta. O local é bem simples, familiar. O atendimento é simpático, embora bastante demorado. É o próprio Wada, como os clientes mais fiés carinhosamente o chamam, quem prepara cuidadosamente cada prato. Alguns inclusive diferente do que estamos acostumados a ver nos restaurantes japoneses aqui. Segundo ele, porque seus pratos são mais autenticos. Prepare-se, quando for lá, para duas coisas - pratos maravilhosos e serviço demorado. O negócio familiar é refletido na lerdeza do atendimento. Que é perfeitamente compensado pela qualdiade do que se come. Além disso, Wada vai ensinar a maneira correta de se comer sushi. Daí o apodo que nós colocamos - o sushi nazi. Por exemplo, não se deve molhar o arroz no soyo em hipótese algum, só a carne e só um pedaço. E deve-se comer o sushi com a mão.

Mas não se preocupe. Se comer errado ele não vai expulsar vocë, como o soup nazi. Como sempre no Brasil, esses fenömenos chegam aqui sempre mais moderados! Mas fica a dica - aproveitemos antes que Wada tenha seu local assaltado novamente e retorne para sua natal Osaka! Ah, fica naquela rua por trás do Fiteiro, no Parnamirim. Buen provecho!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A oposição estilou

A oposição conservadora às forças progressistas que controlam os governos do Recife e de Pernambuco perdeu o embate na esfera política. Os representantes da direita que não aderiram às forças progressistas vêm sendo paulatinamente postos à margem do jogo partidário, pela escolha dos eleitores.

O último resquício da oposição de direita em Pernambuco é o Judiciário - não por acaso, o menos sujeito ao escrutínio popular. Sem opção, desprovidas de propostas e de um discurso que encontrem ressonância na sociedade, as forças reacionárias do estado apelaram para a judicialização da disputa política.

A acusação é frágil e não se sustenta. Difícil responsabilizar o então secretário municipal, João da Costa, pelo uso escuso de duas contas pessoais de e-mail. Algo análogo ocorreu em São Paulo reccentemente, quando funcionários do prefeito Kassab teriam repassado mensagens eletrônicas para servidores municipais. A sentença, ademais, é incoerente. Porque se o juiz Nilson Nery viu por bem responsabilizar o secretário pela ação de seus subalternos, por que não seguir subindo na hierarquia até o prefeito João Paulo? É altamente questionável que esse ato isolado de envio de e-mails por parte de dois indivíduos seja abusivo ou mesmo que represente um claro desequilíbrio político e econômico em prol do candidato da situação.

Margarida Cantarelli tinha um logotipo laranja e preto quando, em 1986, foi candidata a senadora pelo PFL. Agora, como desembargadora, ao tornar legal a divulgação de informação protegida sob sigilo de justiça, serve de laranja da oposição para obscurecer a disputa política na cidade e demonstra ser adepta da fidelidade partidária. Nilson Nery, que acatou a representação fajuta do MPPE, mostrou fidelidade canina àqueles que o colocaram nessa mamata. Acusem-no do que quiser, menos de ingrato!

A arbitrariedade do juiz não é sem propósito. A menos que se acredite que foi a primeira vez que algo do gênero tenha ocorrido na cidade... Até o blogue jarbista de Jamildo reconhece o tratamento, digamos, diferenciado dispensado aos adversários políticos daqueles que deveriam zelar pelo cumprimento da lei - basta ver aqui. Sem contar que a divulgação de dados sigilosos não é vista da mesma forma indignada... Dois pesos e duas medidas.

Em instâncias superiores, tal sentença, por precária, cairá. O intuito, no entanto, não é fazer justiça. Trata-se de fazer política por outros meios. O timing, a menos de duas semanas das eleições, não poderia ser mais conveniente. A oposição (partidária, é preciso lembrar) já tenta propagar a desinformação, divulgando por meio de carros de som e panfletos apócrifos a cassação da candidatura governista de João da Costa. Ora, o fato é que, enquanto couber recursos, a candidatura permanece. Mas, como já foi dito, não se trata, em absoluto, de se fazer justiça. A oposição estilou.

***

Resta saber como a população interpretará os acontecimentos. Vejo três cenários potenciais:

1 - Contingente significativo do eleitorado verá a decisão judicial como indicação de que o candidatao João da Costa é corrupto, não presta. Decide votar em outro candidato. Dependendo da intensidade desse movimento, isso pode apenas causar o advento do segundo turno ou, mais radicalmente, reverter as atuais tendências de intenção de votos.

2 - As intenções de votos se manterão inalteradas. A decisão do juiz de oposição apenas reforçará as posições já tomadas. Aqueles que se opõem ao candidato do PT, verão na decisão a confirmação de suas idéias, enquanto que os que o apoiam verão o fato como mais um episódio da luta política.

3 - Movimento em direção ao candidato perseguido pelo Judiciário. O episódio pode ser visto como perseguição política, jogo baixo, e atrair novos eleitores. Ademais, é possível que a radicalização da oposição funcione no sentido de trazer o Presidente Lula para participar de ato de campanha ainda no primeiro turno. Isso poderia trazer um importante impulso no sentido de definir de uma vez por todas a disputa.


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E se você quiser saber quem é Nilson Nery, o que fazia antes de ser indicado para o TJPE, quem o indicou, em que ano foi aprovado na Assembléia Legislativa, etc... Desista. Não há em parte alguma da Internet qualquer informação sobre a história recente. Nem adianta entrar na página do TJPE. Pois se você conseguir passar adiante da feiúria e bagunça da página inicial, desejo boa sorte para quem se arriscar pelos meandros labirínticos de um site típico do poder menos transparente da república. O site reflete bem a realidade...

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Vale lembrar que o Poder Judiciário não é a única esfera em que a oposição de direita mantém controle. Na imprensa, o quarto poder, também prevalecem. Basta ver o teor das manchetes dos jornais hoje. O destaque dos três jornais locais foi para a "cassação" - o que de fato não houve. Para que possa se consumar, precisaria que todos os recursos tivessem sido exauridos. E esta foi uma decisão em primeira instância. Meros detalhes?