quinta-feira, 15 de março de 2007

Utopia recifense

Mesmo, porém, a essa fase de maior diferenciação social entre sobrados

e mucambos, correspondente à maior desintegração do sistema patriarcal

entre nós, não tem faltado elementos ou meios de intercomunicação entre

os extremos sociais ou de cultura. De modo que os antagonismos que não

foram nunca absolutos, não se tornaram absolutos depois daquela desin-

tegração.”

Gilberto Freyre (“Sobrados & mucambos”)



Fiquei muito impressionado, nessa minha última ida a Recife, como a cidade está crescendo de forma errada... O que me parece mais grave é a legitimidade desse modelo perverso perante a sociedade civl. Do ponto de vista do poder público, a situação não é tão mal. A atual gestão da Prefeitura do Recife tem tentado controlar o modo desordenado como a cidade vem crescendo – como a lei dos 12 bairros, que regularizou a construção do Derby atéApipucos, as melhorias do trânsito, a recuperação das praças públicas... A própria sociedade civil, no entanto, acha esse modelo de desenvolvimento normal e desejável. Ainda que ele não seja sustentável no longo prazo. A lei dos 12 bairros é boa e, embora tenha chegado tarde, acabou com a lei de “uso e abuso” do solo que era a regra até então – a situação, hoje, estaria ainda mais calamitosa. As construtoras agora miram sua ganância inescrupolosa naqueles bairros não contemplados pela lei – como o Rosarinho. É imprescindível que se regularize a cidade inteira. O Plano Diretor não tem essa função?


Os recifenses lidam cotidianamente com as conseqüências da verticalização desenfreada, do adensamento populacional sem limites, do crescimento desordenado. Me admira que não exista em Recife nenhum tipo de movimento ou mobilização em face desse problema. Ouve-se uma ou outra pessoa reclamando – sentadas na varanda de seus apartamentos. O processo de crescimento sem critério é aceito como algo dado, diante do qual nada se pode fazer – uma fatalidade da natureza. Há, ainda, aqueles que consideram esse tipo nefasto de desenvolvimento como “progresso”.

foto abaixo - utopia recifense?

Há, de fato, um embate ideológico. Acontece que só existe um lado divulgando as suas idéias. Onde estão os que não concordam com esse modelo? Eles precisam se manifestar também. Precisa haver um debate público. A imprensa pernambucana não questiona esse modelo, porque as páginas dos jornais estão entupidas de anúncios... anúncios das construtoras! Existe muita gente incomodada com a destruição por que está passando a cidade, mas essas pessoas não têm sido capazes de canalizar esse sentimento, de se mobilizar. Por outro lado, as construtoras são muito eficiente$ em divulgar seu ponto de vista (a idéia de verticalização como sinônimo de progresso e modernidade)... O jornal era para ser o meio propício que desse vazão a essa discussão. Mas, como venho falando, a nossa imprensa recifense é uma merda mesmo.
E além de ruim, é vendida. Então, já que não cumpre o seu papel, seria necessário uma verdadeira organizacão social.


Uma das bases do discurso ideológico desse modelo vertical de desenvolvimento é a questão da segurança. A violência e a verticalização são dois fenômenos que estão interligados. No entanto, tende-se a se ver apenas um lado dessa relação – a de que a verticalização seria causada pelo medo provocado pela violência. O movimento inverso, no entanto, creio que seja o determinante – a violência aumentou em decorrência das transformações urbanas por que passou a cidade. Esse modelo excludente, privatista dos espaços, divide mais a sociedade. Em "Sobrados & mocambos", Gilberto Freyre fala – nos anos 30!!! – do princípio desse processo de divisão social! Hoje, Recife vive as conseqüências do processo que Freyre tão lucidamente observou lá atrás. As classes mais abastadas se distanciam cada vez mais das classes pobres, aprofundando os antagonismos existentes, e o fato é que Recife e seus habitantes não passam incólumes a esse processo. Há conseqüências desse corte contemporâneo provocado pela exclusão total dos elementos de intercomunicação social a que alude Freyre. O fenômeno que ele batizou como “Sobrados & Mucambos” desdobrou-se no atual perverso “Espigões e Favelas”.


A Prefeitura também deveria enfrentar o embate ideológico, posicionar-se – defender, em suma, o interesse coletivo, em face do privado (muito bem defendido). Uma idéia seria criar uma comissão, no âmbito da administração local. É preciso que se coloque em pauta “qual a cidade que você quer”. Eu fui para a votação da lei dos 12 bairros. Não havia ninguém lá para apoiá-la! As construtoras, por sua vez, enviaram um bando de ônibus cheios de trabalhadores para protestar contra, porque seria uma “ameaça” ao emprego deles! Pura massa de manobra!.... Afinal, só seria uma ameaça mesmo à margem de lucro dos patrões deles! Os trabalhadores, eles, iriam continuar recebendo o mesmo salário de fome! Até agora, eles (as construtoras) estão venvcendo o embate ideológico, porque são os únicos que estão falando
e sendo ouvidos.

O mais maluco é que a postura dos empresários do setor é anti-capitalista. O que eles estão fazendo indica que a classe empresarial pernambucana do setor padece de grave e crônica falta de visão! A destruição a que estão submetendo a cidade talvez seja lucrativa no curto e médio prazo. Mas no longo prazo, como eles planejam ganhar dinheiro?! Na Europa, por exemplo, as construtoras ganham mais da metade de seus rendimentos com a restauração de construções antigas.... isso é falta de visão e falta de CRIATIVIDADE dos empresários recifenses desse setor.

Eu achei umas coisas positivas quando fui aí agora em dezembro. Acho que o trabalho da PCR está MUITO bom, no sentido da valorização dos espaços públicos. Fiquei surpreso em ver as praças SEM GRADES! Que coisa maravilhosa! A verdade é que é um contra-senso praça com grades. As praças e parques estão muito bem cuidadas. E o que é melhor: por conta disso, as pessoas estão utilizando! As academias da cidade também são algo muito interessante, no sentido de integrar, misturar as pessoas. É bonito ver de manhã um monte de gente da vizinhança fazendo exercícios, socializando, conhecendo os vizinhos, tudo sob a orientação de profissionais de nutrição e educação física. Paremos para reconhecer a dimensão de uma medida que, em tempos de neurose coletiva, logra tirar as classes médias de suas bolhas. Mas pensemos, sobretudo, que não podemos aguardar, comodamente sentados em nossas varandas, que o poder público, paternalisticamente, resolva todos os nossos problemas. Enquanto os setores insatisfeitos não se organizarem e não se mobilizarem – e o outro lado está muito bem organizado e mobilizado –, fica difícil imaginar um futuro otimista para a cidade do Recife.


PS: vai Jamildo, fala disso no teu blog!

Um comentário:

ana borba disse...

muito bom teu texto...
sou recifence, aspirante a urbanista... moro há um ano e meio longe da cidade... e onde vivo, vejo uma realidade completamente diferente e completamente possivel topos os dias. lamento muito pela cidade que amo... mas... säo vozes como a tua que fazem a diferenca!
=)