De pesos e medidasAlgo de muito, muito grave, sem precedentes, acaba de acontecer no Estado de São Paulo. Uma organização clandestina, cuja renda advem de tráfico de drogas e roubos, submeteu a população de uma Unidade da Federação a um estado de guerra, de
ataque terrorista. O maior, o mais rico Estado brasileiro. O local onde se concentram as bases industrial e financeira da nação. As autoridades públicas perderam o controle da situação, que perdurou enquanto assim o desejaram os líderes do
grupo criminoso semi-mafioso. E o Governador Lembo (PFL) garante, em entrevista, visivelmente incomodado diante dos questionamentos insistentes e do estarrecimento geral, que tudo "está sob controle" e que "não se preocupa com o futuro".
As populações ficaram alarmadas. Quer dizer, alguns mais que outros. O terror, finalmente, chegou aos grandes centros urbanos onde se concentra a riqueza nacional. Saiu da periferia. Chegou ao centro. Ao centro da cidade, e ao topo da agenda pública. O descontrole da segurança pública saiu da favela e, inopinadamente, invadiu os lares dos cidadãos das classes média e alta. O terror saiu da esfera do tolerável - dos pobres - e foi cruamente exposto entre a "opinião pública", ou os "formadores de opinião". Aqueles que ganham acima de 20 salários mínimos, e, em geral, são brancos. (E não é mais aquele roubo de trânsito, seqüestro relâmpago, essas coisas quotidianas, normais). Enfim, atingiu diretamente aqueles que, de fato, importam.
Os ataques terroristas terminaram apenas quando a advogada do líder do "movimento", Maroca, foi até o presídio, em avião da Polícia Militar de São Paulo, acompanhada de altas autoridades do Governo do Estado de São Paulo. Após a conversa entre a adovagada e seu cliente, as rebeliões nos presídios e o terror generalizado cessaram. Tudo volta ao normal, após o
acordo. Em seguida, o Governo paulista "dá o troco", e a Folha de São Paulo nos informa na manchete do dia que "Polícia prende 24 e mata 33 em 12h". São 24 e 33 "suspeitos". A
punição coletiva oficial prende e mata pretos e pobres, em geral inocentes, sempre anônimos, sempre da periferia -
os suspeitos usuais. Tudo volta ao normal. E a Polícia Militar do Estado de São informa a população que não pode revelar a lista com os nomes dos "suspeitos" sumariamente executados. Os defensores de direitos humanos não têm voz nos meios de comunicação, afinal, a Polícia Militar de São Paulo tem uma reputação ilibada em relação aos direitos humanos dos mais pobres.
A imprensa brasileira, por sua vez, diante de tal contexto de caos, trata o assunto de forma
muito responsável. Cheia de cuidados e zelo no tratar dessa "tragédia". A grande preocupação é "não politizar o debate". No congresso, os líderes do PSDB se exaltam com indignação pelo fato de o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro (PT-RS), ter constatado o óbvio, ao afirmar que "o governo Alckmin, o governo paulista, preferiu negociar com criminosos a aceitar a ajuda do governo". Na imprensa, ao contrário, ouvimos vários comentaristas e “pré-candidatos” afirmarem que "o problema é nacional" - ainda que nem na cidade do Rio de Janeiro, a cidade do tráfico de drogas, algo mesmo parecido com isso tenha acontecido. O problema é da “sociedade brasileira”. É de todos nós, tentam convencer-nos.
Esse cenário desolador, de
falência total do Estado, ocorre num estado que é governado pelo
mesmo partido – o
PSDB – há não menos que
12 anos. Oito dos quais sob a liderança de um mesmo governador – Geraldo
Alkmin – cujos principais subordinados da área de segurança pública continuam servindo sob o governo-tampão da coalizão PSDB-PFL.
Mas
a imprensa não vai, não quer politizar algo que é, por natureza, político. O que ocorre é conseqüência direta de políticas públicas que foram adotadas, ou deixaram de ser, pelos administradores públicos nos últimos anos... na última década. É
o grande legado da gestão tucano-pefelê ao Estado de São Paulo, é a grande obra, o grande projeto social –
a privatização radical da segurança pública.
É a mesma imprensa que responsabilizou exclusivamente e antes de qualquer processo legal que seja, que não hesitou em responsabilizar sumariamente, que não abriu mão de fazer ilações para encriminar o maior partido de esquerda do Brasil, o único com ligações orgânicas aos movimentos sociais, o PT, por tudo, sozinho - nos "informam", unânime e inequivocamente, que se tratou do "
maior escandâlo de corrupção do país". Ainda que o crime cometido tenha sido, pasmem, lançar mão da mesma tática de arrecadação de fundos para eleições que os demais partidos. Apesar de os fatos virem à tona justamente porque
as instituições estão funcionando melhor - a Polícia Federal investiga e prende criminosos, inclusive políticos; a Controladoria-Geral da União passou a funcionar de forma autônoma; há CPIs instaladas no Congresso Nacional.
O desrespeito para com o Presidente da República, Lula, fundador do PT, e oriundo, ele próprio, dos movimentos sociais, não vê limites. A capa da maior revista em circulação – e a que mais, segundo os acadêmicos da área de comunicação, desrespeita os mais elementares princípios do bom jornalismo – no país, estampa-o com um chute no traseiro por ter se portado de maneira serena e responsável numa delicada negociação internacional. Essa mesma empresa de publicações faz denúncia gravíssima contra o Presidente Lula e seus mais próximos assessores, e ela mesma reconhece que suas fontes são duvidosas (isso depois de mais de um ano de ferrenha oposição numa sistemática campanha denuncista, como "os dólares de Cuba", cuja apuração nunca foi levada adiante).
O que ocorre em São Paulo é
um escândalo jamas visto no país. E ocorre não porque as instituições estejam funcionando - mas por seu extremo oposto, a sua
inépcia crassa. Mas a responsabilidade, nesse caso, é do
partido dos donos dos principais meios de comunicação, cujo candidato à presidência é o ex-governador do Estado de São Paulo, o qual governou durante oito anos, e que no ano passado foi escolhido o candidato favorito dos empresários, segundo a capa de revista voltada à categoria e de propriedade da mesma semanal acima citada. Mas supor que as
holdings proprietárias dos meios de comunicação atuem de modo a defender o grupo político que representa seus interesses é coisa de chavista desvairado que quer "desunir" o país, nos dizem, repetidas vezes, esses mesmos meios de comunicação.
E agora entendemos porquê a "opinião publicada" ficou tão assustada com a proposta de um Conselho Nacional de Jornalismo – assim como há o Conselho Nacional de Justiça, que acabou de pôr fim à prática do nepotismo no Judiciário. Não –
o Quarto Poder não aceita contra-pesos ("checks and balances", como ensinou Montesquieu). "É anti-democrático", "é stalinista" (seja lá o que isso signifique!). E agora entendemos a razão da
discrepância gritante do tratamento dispensado, pela imprensa empresarial, a uma crise e à outra.