terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Aljazeera
Quase todo mundo já ouviu falar da Aljazeera, mas quase ninguém assistiu. No Brasil é impossível ter acesso ao canal, pois ele não está disponível no cardápio oferecido pelo monopólio de TV por assinatura (SKY e DirecTV pertencem ambas ao mesmo grupo... o NewsCorp, do ultra-consevador australiano-americano Rupert Murdoch, à qual também pertence a famigerada FoxNews). Melhor dizendo: era impossível. Graças ao glorioso YouTube, a rede árabe de notícias, em sua versão de língua inglesa, está disponível para qualquer pessoa que tenha acesso à Internet. Foi mal, Murdoch. Quem quiser seguir a programação da rede, vá aqui.
Vale realmente a pena. Não há nada semelhante, em qualidade e em variedade. A abordagem é plural, há espaço para os diferentes pontos de vista, sob uma perspectiva de fato global. Um caso exemplar é o programa "Listening Post", sobre a cobertura da imprensa internacional na semana antecedente: veja aqui - parte 1 e parte 2.
Não surpreende, e ilustra bem as diferenças da visão empresarial de cada uma, que toda a programação de todas as redes de TV sob o guarda-chuva das empresas de Murdoch sejam proibidas de ser veiculadas no YouTube... E nem vale a pena comparar o jornalismo nativo com o da Aljazeera... não dá.
sábado, 12 de janeiro de 2008
O documentário “Midnight movies: from the margin to the mainstream” é antes de tudo um registro histórico de uma época – final dos anos 60, decorrer dos 70 – e as transformações da indústria cultural em função do contexto sócio-econômico, dos conflitos políticos e do avanço tecnológico nela ocorridos.
É o fim de um período em que um moviemnto de vanguarda, independete, seja formal, seja substancialmente, tinha que ralar muito até ser incorporado ou aceito no “sistema”. Não havia youtube, MP3 ou I-Pod – ao contrário, prevalecia forte centralização social, econômica, política, cultural. Velhos tempos não tão distantes.
Os paralelos possíveis com o Brasil contemporâneo atestam a riqueza desse filme. Me fez pensar, particularmente, em como o fosso social brasileiro reflete-se em nossa produção áudio-visual em geral, e em nosso cinema em particular.
O típico cinesasta tupiniquim é de classe-média ou alta, faz filmes para os seus pares, bancados pelo dinheiro público (o meu, o seu... o deles). As classes pobres não têm acesso a cultura cinematográfica (“capital cultural”, bagagem cultural), o que os impede tanto de apreciar esse tipo de expressão, quanto, sobretudo, de tornarem-se realizadores eles próprios. Ou seja, não temos cineastas de origem popular ou que tenha desenvolvido/dominado uma linguagem cinematográfica popular tipicamente brasileira (assim como as novelas têm sido historicamente). Não há diálogo. Quando isso ocorre, como MV Bill, é na forma da denúncia social. Falta diálogo intersocial, ou o há de modo assimétrico.
Os poucos casos exitosos tratam justamente, de alguma forma, da fratura social: “Cidade de Deus”, “Dois filhos de Francisco”, “Carandiru”, “Tropa de Elite”, a série “Cidade dos Homens”, a novela “Vidas opostas” da Record. Conflitos sociais – eis a característica básica que define o país, e, igualmente, a nossa restrita produção áudio-visual reakmente popular. Talvez seja esse tipo de cinema que fazemos melhor porque é o mais original, o mais ligado ao Brasil real – e não é à tôa que funcionam inclusive comercialmente. Filmes de violência (sendo esta sempre ligada às desigualdades sociais) está para a cinematografia nacional assim como o biquini na moda, as havaianas nos calçados e a bossa nova na música: legitimamente brasileiro, é o que nos distingue no mundo, é nossa contribuição original para a humanidade.
Ao invés de lamentar-se por mais verbas do Estado – sempre ele, essa puta velha de quem todos querem se aproveitar – precisamos refletir mais a fundo o porquê da falta de público – e conseqüentemente de autonomia – do cinema nacional. Distribuir grana é a melhor solução? Uma avaliação seria necessária, mas a julgar pelo fraco desempenho das bilheterias, não estamos na direção correta. A história das “midnight movie sessions” mostra uma solução de mercado para o problema da falta de distribuição. Mas isso numa sociedade com cultura de cinema e dinheiro para gastar. Que tipo de política seria mais eficaz aqui?
Os setores que pensam cultura no país tendem a espelhar-se no caso francês, defendendo a intervenção estatal na defesa da cultura nacional. O modelo brasileiro de incentivos fiscais ao cinema fracassou em torná-lo popular e auto-sustentável. Uma alternativa deve ser pensada. Na Índia, um país cuja realidade social é muito mais próxima da nossa do que a francesa, a indústria do cinema floresceu. “Bollywood” é um fenômeno de massa. Lá, os filmes são de fato populares (veja o trecho de um típico filme indiano, ao final do texto). No entanto, nos debates sobre o tema, falamos da França mas ignoramos por completo o exemplo indiano. Eu também desconheço como se desenvolveu o cinema indiano até chegar ao que é hoje, mas sei que, lá, há salas de exibição inclusive nos bairros pobres. Para o Brasil, penso em algo que mexa nas duas pontas – na distribuição, com mais salas de bairros, de um lado, e na formação de público, com a descentralização de “cinemas da Fundaj”, do outro.
Cinema popular indiano, um exemplo pro Brasil:
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Nesse Papai Noel aí, eu acredito!
Eu nunca engoli bem esse negócio de Natal. Desde pequeno. Lembro-me de uma árvore que, na terceira série, eu e meus coleguinhas tivemos que decorar para a data festiva:
-- Tia Rejane, por que algodão?
-- É neve.
Como assim?! Que porra é neve? Como, se aqui está fazendo 30 graus! E pelo que aprendi no Catecismo, não havia neve nem pinheiros na terra de Jesus.
Muito provavelmente, eu não elaborei todos esses sofisticados questionamentos naquele momento, aos oito anos de idade. Mas o estranhamento, sim, já estava lá.
Todo esse espírito natalino, no Brasil em geral, e no Nordeste em particular, é totalmente descontextualizado, fora de lugar – é falso, artificial.
Neve, pinheiro, renas, trenós, chaminés, “jingle bells”... nada disso nos diz respeito, nada disso nos pertence, nada disso nos é original e por isso é tudo tão inadequado. Por que temos que macaquear o que vem de fora? Que vergonha é essa de nos assumirmos? Que tipo de colonização mental revela esse comportamento mimético acrítico? O mais lamentável é que não é por falta de matéria-prima. No Brasil-real, as classes populares têm os autos natalinos – como o cavalo marinho, o pastoril...
Tome Papai Noel. Ele não faz parte do imaginário popular (não fazia; agora, até faz); e, para que fizesse, seria necessário uma nova idumentária condizente com a nossa terra, para início de conversa! Uma crítica construtiva:
Aliás, todo o “clima natalino” precisaria passar por um banho de loja, para se adequar. Tudo isso para não mencionar que o significado real da festa – o nascimento de Jesus – se perde (embora isso não ocorra nos autos natalinos populares!) em detrimento do aspecto meramente comercial, consumista – apesar e a despeito de toda a retórica paz e amor tão comum.
Essa história toda apenas comprova um dos traços marcantes da sociedade brasileira – ou, pelo menos, daquele setor “que conta”, o Brasil-oficial: a hipocrisia. Como sempre, não se assume o discurso verdadeiro, escondendo-o por trás de uma retórica “bacana”. Nem nos assumimos como consumistas – como os americanos, por exemplo; nem nos reconhecemos como cristãos praticantes – a exemplo dos muçulmanos que realizam o Rajj, agora. Usamos a retórica cristã para vender...
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Assim como o espantalho do filme, a oposição precisa urgentemente de um cérebro.
No segundo Governo Vargas, o democrático, a política nacionalista imperou. Se hoje temos o maior parque industrial da América Latina e somos auto-suficientes em petróleo, muito se deve à determinação do Presidente Vargas. Não obstante, àquela época seu governo estava longe de ser unanimidade – a UDN liderava agressiva e intransigente oposição; corrupção era a principal acusação.
JK aprofundou a industrialização nacional (ainda que aliada ao capital internacional); Jango expandiu e diversificou nossas relações comerciais com o mundo e incluiu novos setores sociais no processo político. A oposição conservadora, numa sistemática campanha desestabilizadora contra esses governos progressistas, fazia do combate à corrupção sua principal bandeira.
Novamente, testemunhamos hoje os setores conservadores recorrerem à mesma tática de outrora, pondo em evidência sua inequívoca genealogia udenista. O espantalho da corrupção é levantado, ocultando-se a real agenda, para opor-se a um governo inequivocamente progressista. A quem interessa, por exemplo, que ao invés de discutir-se políticas públicas, os jornais tratem de terceiro mandato?
Faz parte do jogo. Surpreende, no entanto, que setores da própria esquerda brasileira sirvam de linha auxiliar da direita nessa estratégia tão velha. Seja por má-fé – como no caso de Roberto Freire e seu partido –, seja por ingenuidade política e falta de senso histórico e prático – caso do Psol –, ou, ainda, por puro radicalismo – MST e quetais.
Fazer dessa questão a principal bandeira, como vêm fazendo a oposição conservadora PFL/PSDB e seus prepostos (PPS, Psol), é política miúda, imediatista. É falta de perspectiva histórica porque atribui-se demasiada importância a pessoas, não levando em conta as forças profundas do processo histórico – o avanço gradual das instituições republicanas como reflexo do avanço sócio-cultural da própria sociedade brasileira.
O discurso moralista anti-corrupção, que visa tirar a legitimidade da opinião oposta, despolitizando o debate, busca, em verdade, dissimular o embate político latente, tornando a “corrupção” ou a “moralidade” meros instrumentos de luta partidária contra a situação dominante. Será isso por falta de discurso ou falta de vontade de que este seja revelado? A oposição conservadora se mostra, agindo dessa forma, atávica e sem cérebro.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Esse lance da não aprovação da CPMF foi um golpe baixo da oposição, que colocou interesses partidários à frente dos nacionais. Ainda que o Governo precise defender-se melhor: o que os conservadores chamam de "gastos" a serem reduzidos, eu considero "investimentos sociais" inadiáveis. Me fez lembrar dois texto que escrevi no ano passado, onde diferenciava a oposição conservadora ao Governo Lula da oposição progressista sofrida pelo Governo FHC. Vale a pena ver de novo, permanecem pertinentes. Os números da economia e da popularidade do governo falam por si só e explicam melhor que qualquer análise o ímpeto radical da oposição de direita. Não funcionou no primeiro mandato; será que funcionará agora?
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Falar mal de político é tão fácil quanto jogar peteca: é só dar um tapa
O esporte predileto dos analistas políticos, estejam eles nas páginas de jornais ou nas mesas de bar... ou em blogues!, é meter o cacete nos nossos parlamentares. Jogo fácil, até covarde. É como jogar peteca. Duro é ter uma visão menos maniqueísta dos fatos.
O Congresso Nacional é um espaço fantástico de expressão democrática. Plural, ainda que majoritariamente conservador, ele reflete muito o nosso povo. Me preocupam as reações manifestadas por certos setores da sociedade sempre que as decisões ali tomadas não satisfazem aos seus interesses ou visões de mundo. O que determina o grau de legitimidade das instituições não é o resultado final obtido, mas que o devido processo tenha sido respeitado. Trata-se de uma visão autoritária aquela que vê como ilegítimo um resultado apenas porque este não lhe satisfaz.
Boa parte das críticas feitas ao CN parecem revelar, subjacente, um viés autoritário, um certo temor à democracia – medo de povo, que, por meio do voto direto e secreto, e em geral legítimo, escolheu estes que aí estão para os representarem. Digo isso para defender uma instituição de cuja linha ideológica preponderante entre seus membros eu discordo frontalmente.
sábado, 1 de dezembro de 2007


É permitido proibir, se você for um juiz em Brasília! Mas, e mijar, pode?!
E se cada cidadão pudesse afixar placas proibitivas em locais públicos, a seu bel-prazer, a fim de inibir atitudes ou comportamentos tidos como indesejáveis?
Se fôssemos todos um juiz de Brasília, assim seria a realidade. Placas por todos os cantos, contra tudo. Num shopping da cidade (o Pier 21), num pátio externo, o corajoso juiz insurgiu-se contra um fumante, que estaria baforando em sua cara. O estimado juiz obrigou o shopping em questão a instalar placas – ostensivamente espalhadas – na área ao ar livre. São placas hostis, agigantadas, com ilustrações enormes e letras garrafais. Mesmo em horário de pouco movimento e, portanto, amplos espaços vazios, acender um cigarrinho ali é, certamente, um constrangimento.
Voltando ao início dessas linhas... e se cada um de nós pudesse sair por aí, a torto e a direito, ditanto o que os outros podem ou – sobretudo! – não podem fazer! Meu palpite é que não iria sobrar comportamento algum aceito. Além de tornar o ambiente público visualmente poluído (chamem o Kassab!). Eu mesmo teria uma lista de coisas que me incomodam! Ah, se eu fosse um juiz de Brasília...
Pensando bem, se eu fosse um juiz de Brasília, iria mandar pôr apenas uma placa – uma só e bastaria: “proibido babacas”. Pronto. De uma só tacada, resolvia tudo. Nem o babaca do fumante desrespeitoso que ignora o bem-estar coletivo e o direito alheio a não inalar fumaça, nem o babaca do juiz que encarna o que há de mais atrasado da tradição patriarcal brasielira, achando que o espaço público é extensão do seu tribunal. Que se vayan todos los babacas!
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
O Adult Swim é TV no seu auge. Uma das melhores programações da TV atualmente, em se tratando de animações. Eis aqui um trecho de Sealab 2021 (Laboratório Submarino 2021) :
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
O “incidente diplomático” - só pra ser “diplomático” - provocado pela verborragia chavista tem sido interessante em mais de um sentido. Um dos assuntos sobre o qual o evento lançou luz foi o debate que ora vivenciamos no Brasil: TV pública versus TV estatal.
É interessante comparar a abordagem da Telesur, a TV de Chávez, com a TVE, o canal público espanhol. O texto no site da Telesur – leia aqui – é um primor de jornalismo parcial. Toda a matéria é permeada por citações do... dono da TV, qual seja, o próprio Chávez. Lá no final, uma nova fonte... O vice-presidente cubano! O teor do artigo é justificando o injustificável, procurando dar uma razão àquilo que não faz sentido. A intervenção de Chávez foi grosseira, grotesca, leviana. Não se acusa sem prova e, tendo-as, não se faz daquele modo nem naquelas circunstâncias. O coronel Chávez se comportou perante chefes de Estado como se estivesse na sua Venezuela. Lá, sim, ele manda e desmanda. Só há uma versão possível dos fatos – a oficial, a dele próprio, como vimos na exemplar matéria da Telesur. Pluralidades de idéias só mesmo na medida em que sejam idéias oriundas da cabeça do próprio chefe.
Na versão chavista, o coronel venezuelano estava legitimamente defendendo seu país, denunciando uma verdade absoluta. O fato de Chávez sofrer críticas se deve à manipulação dos grandes meios de comunicação, como se a cena grotesca protagonizada pelo caudilho não se bastasse em si. Nem a Globo, nos seus piores momentos, é assim. É como se sempre ela entrevistasse os Marinho...
Por outro lado, temos a reportagem da TVE, a TV pública espanhola – veja aqui. Vemos um jornalismo completo, onde vários lados são mostrados. A fala do Coronel Chávez é mostrada na íntegra, inclusive com legendas para que possamos entendê-lo. Também vemos toda a fala do primeiro-ministro Zapatero, inclusive ele tentando falar e sendo reiteradamente interrompido pelo caudilho petroleiro. Isso não é só anti-diplomático; trata-se de falta de educação doméstica! E prepotência digna de ditador. Aliás, é notável a classe com que Zapatero se saiu nessa insólita situação. A frieza que manteve, mesmo lidando com um ogro, dando-lhe de fato uma aula de comportamento democrático (tanto teórica quanto prática). Mas a reportagem da TV pública espanhola não termina aí. Ao final, temos um político do partido conservador PP, de oposição ao socialista Zapatero, que faz críticas contundentes à política externa governista. Eis aí uma coisa impensável na TV de Chávez: dar voz aos dissidentes... só se for voz de prisão!
Tudo isso é bastante pedagógico no momento em que estamos a discutir, no Brasil, a TV Brasil, a nova TV pública a ser criada pelo Governo. Dia 12 de Dezembro ela entra no ar. Fiquemos atentos e vigilantes para que siga o caminho europeu, não o venezuelano.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Cortaram o pau de Rogéria
Polícia moral? cortaram o pau de Rogéria!
Um dos grandes temas na Câmara dos Deputados nessa semana foi o pau de Rogéria. O ocorrido comprova a caretice reinante no Congresso Nacional. E, como estamos numa democracia, e os representantes do povo não surgiram do vácuo, é um reflexo revelador do conservadorismo social que prevalece na sociedade brasileira. Se é que restava alguma dúvida a esse respeito...
O Congresso tem uns três espaços, pelo menos, onde são expostas regularmente as mais variadas exposições. Em geral, passam batida. Ninguém teria tomado conhecimento dessa mostra de fotografias, não fosse o celeuma causado pelos burocratas da instituição. Pior do que a caretice é a burrice: ninguém iria ficar sabendo do pau de Rogéria se a exibição não houvesse sido cancelada. Foi cancelada por causa do pau de Rogéria! Isso é um acinte, uma afronta à liberdade de expressão. Isso tem nome: censura.
O caso do pau de Rogéria é sintomático. E ocorreu na mesma semana em que a Comissão de Constituição e Justiça rejeitou Projeto de Lei de autoria do deputado Gabeira que visava a regulamentação dos profissionais do sexo. O problema não é nem que tenha sido rejeitado – eu não esperava diferente resultado. Mas sim os argumentos trazidos pelos nossos legisladores. E não venham dizer que é o despreparo dos nossos políticos! A fala do nosso preparado prefeito Bob Magal, jurista de renome... estadual, vá lá, deu vergonha aos pernambucanos presentes: Deus fez que a gente nascesse pelo sexo. Ou seja: nada de trepar por prazer, que Bob condena – isso nos choca, embora não surpreenda, vindo do prefeito que quis proibir a construção do consolo de D. Jane.
Teria sido saudável um debate de nível um pouquinho mais elevado. Um deputado refutou o projeto dizendo que a prostituta “dá porque quer dar” e um outro, “o brasileiro não apóia essa aberração” - nunca foi na Domingos Ferreira, esse aí. Maluf disse que prostituição é coisa de país atrasado – e superfaturamento, não?, eu perguntaria; e que o puritanismo é a causa do desenvolvimento americano (se esqueceu de Las Vegas). E um outro imbecil propôs que se retomasse o debate daqui a quinze anos, pois “quem sabe até lá já tenhamos eliminado isso do Brasil” - esse é o JK do falso moralismo: quer acabar em 15 anos a profissão mais antiga da humanidade! Seu Plano de Metas: Cinco milênios em 15 anos! Outro se autoproclamou defensor das famílias brasileiras – ao que Gabeira prontamente questionou se o nobre colega não achava que as/os prostitutas/os também não teriam famílias que sustentar. E tudo o que o projeto propunha era algo tão prosaico como o fato de que as prostitutas pudessem pagar INSS, para terem direito a aposentadoria...
Os dois eventos parecem descolados, mas são tributários do mesmo problema de fundo: o conservadorismo social da sociedade brasileira. A mesma que maciçamente votou contra o desarmamento, que é contra a legalização das drogas e que se opõe sequer a discutir a questão do aborto. E, como todo conservadorismo social, o moralismo vai de mãos dadas com a hipocrisia. E vamos, assim, retardando a resolução de problemas. É a ideologia conservadora à frente do pragmatismo para enfrentar as questões nacionais. Tudo pelo status-quo, parece ser o lema dessa turma do atraso.
Mas esse é o preço que se paga por termos democracia, que fique bem claro. Prefiro mil vezes esse atraso do que medidas impostas de cima para baixo. Sobre esses temas e outros não há consenso na sociedade - e quando há é pela continuidade. Necessitamos mais debates, mais discussões. E, nesse sentido, vejo progresso. Repito: esse pensamento retrógrado explicitado nessa semana é reflexo da visão de mundo de boa parte dos brasileiros. Somos uma sociedade de comportamento liberal, ou melhor, libertino, mas de retórica conservadora, “correta”. Isso tem a ver com nossa herança histórica. Leva tempo para mudar. No meio tempo, vamos nos divertindo com espetáculos patéticos como esses.
domingo, 4 de novembro de 2007



Neston? Existem mil maneiras de expressar a sua espiritualidade. Invente uma.
Na época em que Jesus viveu, era comum toda sorte de crendices e superstições. Uma variedade de gente vagava pelas terras. movida pelos mais diferentes motivos. Muitos eram os que se clamavam “filho de Deus” ou que afirmavam ter ligação direta com o divino. O que destacou Jesus dos outros “malucos” de então foi sua atitude política: Jesus opunha-se, pacificamente – o que o distinguia dos outros combatentes dissidentes –, ao regime romano opressor do povo da Judéia. Num comportamento altamente subversivo, ele se misturava com todos os tipos de excluídos e desvalidos e desprezava o poder esmagador dos ditadores estrangeiros. As escrituras sagradas foram escritas posteriormente, agregando novos valores e costumes das épocas em que estavam sendo elaboradas.
Todo o esforço da Igreja, por meio dos seus ritos esquisitos e dogmas obsoletos, vem no sentido de ressaltar apenas aquilo que era cultural – costumes e modos – e portanto específico daquele tempo e lugar. Tirando-se aquela tradição de seu devido contexto histórico, a atitude política de Jesus, que era o que o distinguia e que tornava a sua mensagem revolucionária e universal, e que é o essencial de sua mensagem tão pungente, é totalmente escanteada da estória oficial católica.
Sem contar as práticas anacrônicas. O celibato por exemplo. As evidências históricas indicam que os apóstolos contemporâneos de Jesus eram casados. Aí porque, alguns séculos depois, apareceu algum papa misógino, deu-se início a essa prática bizarra. Outro dia um padre italiano “saiu do armário”. Não entendi nada. Mas como pode um padre ser gay se ele não pode trepar?! “Ah, é que eu fico pensando em meninos quando bato uma punheta antes de dormir (e depois do Pai Nosso)”. Só se for! Isso para não mencionar as crendices católicas. Virgem Maria?! Imaculada concepção?! Pobre José... Todos duvidam do seu taco!
Essa coisa de desacoplar a fala e a história de Jesus da realidade na qual ele estava inserido e aplicá-las automaticamente aos dias de hoje leva a uma visão míope e tosca do mundo à nossa volta. Esse é o perigo – e a fonte – de todo fundamentalismo, pois leva as palavras ao pé da letra, sem colocá-las em seu devido contexto histórico; vê-se o passado distante sob o prisma do hoje em dia.
Olhe em sua volta e veja se você descobre quem será o Jesus de daqui a 500 anos. Há quem diga Gandhi. Heloísa Helena saiu do páreo depois que seu dente fugiu ao vivo (veja aqui). Eu ainda estou na dúvida entre o Bispo Edir Macedo, Che Guevara e Mickey Mouse.
(Depois de escrever isso aqui, apareceu a Veja com a capa de Che, revelando o “verdadeiro” Che – aparentemente, a historiografia oficial é esquerdista demais e então é necessário o revisionismo – o que apenas reforça as chances dele. Me fez pensar também como é que seria a cobertura da Veja há dois mil anos atrás... Seria algo nas linhas: “O baderneiro, mulambento e cabeludo hiponga fica distribuindo pão e vinho para os pobres ignorantes que, em conseqüência desse assistencialismo retrógrado, o adoram. Ao mesmo tempo, tenta, com essa sua demagogia esquerdóide atroz, desestabilizar o bondoso regime da nobre e iluminada elite romana.” E por aí vai...).
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Útil cultura inútil
As voltas que o mundo dá. Ou as voltas que se dá no mundo. Ambas as frases se aplicam a Guilherme Rocha. Filho de diplomata, passou a vida dando voltas no mundo e, emancipando-se, decidiu continuar a vida pelegrina. Depois de ter vivido entre Brasília e Johanesburg, Paris e Xangai, Guilherme abandonou a faculdade americana e, numa espécie de busca às origens, foi continuar o curso superior na terra natal dos pais. A volta ao Recife foi carregada de simbolismo, e vista com certo "étonnement" por seu pai: ele havia entrado no Itamaraty por considerar essa "a forma mais eficaz de sair de Recife". As voltas que o mundo dá... Mas Guilherme não parou lá. Depois de 9 meses trabalhando em Lisboa, juntando uma poupança, partiu numa jornada de estimados 10 meses, tendo início o seu périplo em Belém, sendo o objetivo atingir a Califórnia - ou até onde permita suas economias... ou sua paciência. Suas aventuras podem ser acompanhadas no seu blogue, o Globum.
E eis que sua paciência se esgotou ali no Panamá (também, depois de três dias caminhando no meio da mata sob chuva torrencial... tá louco!), no quarto mês, por aí. Os relatos no blogue, infelizmente, cessaram bem antes. A boa nova é que o blogue voltou à ativa. Com uma nova proposta: o autor vai garimpar informações diversas, tipo cultura inútil, catadas na infinita rede mundial, e compartilhar conosco. Com seu texto conciso, sem frescuras, divertido e despretensioso, é uma boa pedida. O post do retorno trata do “revival” dos drive-ins. Achei essa iniciativa arretada, porque pega propostas e novidades gringas, que em geral escapam do escopo da imprensa tradicional, e nos apresenta com um enfoque próprio. Essa idéia mesmo do drive-in (vão lá ler) é algo que poderia muito bem ser aplicado no Brasil, como política pública ou iniciativa privada, no sentido de popularizar o cinema.
Compartilho aqui uma breve análise feita por um tio meu, empresário de Recife, há alguns meses, sobre a atual conjuntura econômica. Foi uma resposta a um artigo de Luis Nassif sobre a valorização do Real.
Esse assunto que o Nassif se refere é um bocado complicado mesmo. Minha sensação é que nós estamos no limite do prazo de validade de alguns instrumentos do sistema capitalista que está em vigor, especialmente com a chegada da India e da China ao processo. A China é o caso mais caricato, sistema político centralizado, partido único, sem eleição, mas ninguém reclama. Capitalista todo, no entanto câmbio fixo, economia estatizada, o Estado é sócio das grandes corporações, corrupção endêmica, não respeita propriedade indústrial, na prática, de ninguém. Educação em alta, talvez esta seja a chave de tudo, não o câmbio ou qualquer outra variável económica, o grande valor a ser agregado na produção é o conhecimento.
A Exploração intensa de reservas minerais, na China, indústrias defasadas tecnologicamente, mas num grau de eficiência que ninguém entende como é obtido, uns dizem que é a promiscuidade com o Estado, mas o Estado tem superávits, outros dizem que são os ganhos de escala do mercado interno, outros dizem que é a mão de obra barata, e por aí vai. O facto é que essa conjuntura toda tem mandado o meio ambiente por lá pras picas e a economia cresce tanto que incomoda a eles mesmos. Ainda assim nem sequer 20% da população deles participa desse processo, imagine quando novas parcelas forem se agregando à aurora capitalista.
Não é fácil avaliar o reflexo dessas questões económicas, sobretudo cambiais, a que você se refere, mais parece uma rosca sem fim de cosequencias, em várias direções e em sentidos diversos, alguns positivos e outros negativos. Os analistas económicos costumam, cada um, defender uma certa tendência, e os que acertam, depois contam a história e dizem que tudo previram atempadamente, e os que erraram calam e a gente esquece do que eles disseram à época.
Nào sou alarmista, nem realista, acho que o homem molda a realidade, sou otimista, acho que vamos achar uma saída. Mas, aí deve ser ou o decrescimento, que me mandaste outro dia, e então mudaremos a visão do mundo que prevalece hoje ou, nos próximos 50 anos, acho que a tecnologia nos arranjará outro mundo, porque este estará fatalmente exaurido, mesmo que a China e a India desacelerem e o o PAC empac.
domingo, 21 de outubro de 2007
Meu pai comenta a palestra do Presidente Lula a empresários em Luanda:Ontem assistir uma palestra/discurso de Lula, aqui em Luanda. Foi um sucesso, o publico (empresários brasileiros e angolanos) riu e aplaudiu várias vezes.
Os negócios entre Brasil e Angola duplicaram, da primeira vinda dele, em 2003, até hoje. O Brasil é hoje o quarto maior exportador para Angola: passou de USD 2,6 Bi, para USD 5 Bi. Também é hoje o terceiro maior importador de Angola (por causa do Petróleo). Ele se disse indignado que Portugal (segundo maior exportador para Angola) exporte tanto material de construção para Angola e o Brasil, tão pouco! Também citou exemplo da Coreia do Sul, de quem os angolanos acabam de encomendar uma plataforma marítima para exploracão de Petróleo. Virou-se para os empresarios brasileiros desse setor e perguntou o que eles estavam a fazer, que não vieram aqui oferecer as plataformas brasileiras?! Enfim, o povo ria e aplaudia, mas eu fiquei surpreso dele citar nome de países – achei que era pouco “diplomático”…
Foi ótimo.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
ridículo cotidiano
ridículo cotidiano,
composto de ridículas
partículas.
cachorro de sapato
casa de gato
aquário.
o mundo pode ser tão feio
pombos são ratos com asas
e reviram o lixo, como vira-latas.
o mundo pode ser tão belo
olha aquela menina
andando na areia da praia, de chinelo.
Nem nada
E eu que pensava que aquele teu sorriso era o princípio.
Não era nada, nada
nem sinal, nem indício.
Era apenas eu, cavando meu buraco,
avançando para a beira do meu precipício.
perda
Não há perda que não doa,
que não faça arder o coração,
que não derrame lágrima.
Se há perda que não dói,
que não arde o coração,
que não derrame lágrima...
Isso não é perda, não é nada.
Foi apenas ilusão.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Amanhã, 12 de outubro é feriado. É Dia de quê, mesmo? Ontem cheguei a conversar sobre a quantidade de feriados existentes em nosso calendário. E, para um Estado teoricamente laico, é impressionante a quantidade de feriados santos existentes por estas bandas: carnaval, semana santa, páscoa, dia de padroeiras e santos, natal... fiquei curioso sobre a história por trás da Padroeira do Brasil, esta santidade que me permitirá ir amanhã a Ilha Grande curtir um final de semana prolongado.
Fiquei decepcionado com o que li. Não reclamarei do fato de ter esta folga na sexta-feira, mas achei uma farsa essa história. Segue abaixo extrato de sua história:

“Em meados de 1717, chegou a Guaratinguetá a notícia de que o conde de Assumar, D. Pedro de Almeida e Portugal, governador da então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, passaria pela povoação a caminho de Vila Rica (atual cidade de Ouro Preto), em Minas Gerais.
Desejosos de obsequiá-lo com o melhor pescado que obtivessem, os pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves lançaram as suas redes no rio Paraíba do Sul. Depois de muitas tentativas infrutíferas, descendo o curso do rio chegaram a Porto Itaguaçu, a 12 de Outubro. Já sem esperança, João Alves lançou a sua rede nas águas e apanhou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição sem a cabeça. Em nova tentativa apanhou a cabeça da imagem. Envolveram o achado em um lenço e, animados pelo acontecido, lançaram novamente as redes com tanto êxito que que obtiveram copiosa pesca.
Durante quinze anos a imagem permaneceu na residência de Felipe Pedroso, onde as pessoas da vizinhança se reuniam para orar. A devoção foi crescendo entre o povo da região e muitas graças foram alcançadas por aqueles que oravam diante da imagem. A fama dos poderes extraordinários de Nossa Senhora foi se espalhando pelas regiões do Brasil. A família construiu um oratório, que logo se mostrou pequeno. Diante do aumento no número de fiéis, em 1834 foi iniciada a construção de uma igreja maior - a atual Basílica Velha.
Em 6 de Novembro de 1888, a Princesa Isabel visitou pela segunda vez à basílica e ofertou à santa uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, juntamente com um manto azul. No ano de 1894, chegou a Aparecida um grupo de padres e irmãos da Congregação dos Missionários Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que acorriam aos pés da imagem para rezar com a Senhora "Aparecida" das águas.
A 8 de Setembro de 1904, a imagem foi coroada, solenemente, por D. José Camargo Barros. Em 1929, Nossa Senhora foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial, por determinação do Papa Pio XI.”
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
Desde o seu princípio, penso que o partido liderado por Heloísa Helena já nasceu fadado ao fracasso. Para não colocar em termos tão taxativos, melhor seja dizer que o partdo é destinado a ocupar um espaço marginal na política brasileira.
Isso porque o seu núcleo embrionário tem origens em setores específicos da sociedade. Seu DNA é sindicalista e só – falta-lhe organicidade e representatividade. O partido pode ser considerado, numa definição técnica, como “de elite”, pois foi criado de cima para baixo, por parlamentares. Parlamentares estes que foram expulsos do PT por contrariarem a orientação partidária, a qual ia de encontro aos interesses das suas constituintes, qual seja, certos setores do sindicalismo mais retrógrado.
Em 1985, o PT havia fechado questão pela abstenção na eleição presidencial indireta. Certo ou errado, a bancada do partido, então minúscula, daria voz a setores da sociedade insatisfeitos com aquela situação. Uns dois deputados votaram em Tancredo e foram expulsos por isso. Em 2004, com a maior bancada do Congresso, a mesma punição foi aplicada aos dissidentes.
Fazer parte de um partido político significa aderir à sua macro-agenda programática. Cada parlamentar tem sua micro-agenda, representando certos setores e interesses variados da sociedade. Os parlamentares que criaram o PSOL o fizeram porque viram sua micro-agenda – individual, particular – ser contrariada, com a necessária Reforma da Previdência. O PSOL é um partido de micro-agenda – e esse é seu vício de nascença – cuja constituinte essencial são setores sindicais mais conservadores, aos quais se agregam setores da classe média média suscetíveis ao seu discurso moralista (aquela mesma que compra produtos piratas e contrabandeados enquanto expressa indignação com a corrupção – alheia – em correntes de e-mail). O PSOL representa interesses particulares assim como qualquer outro partido político. O que o diferencia dos partidos tradicionais de centro e de direita e o aproxima dos de esquerda é a ativa vida partidária (e mesmo isso vem mudando, como observa-se a tentativas no PFL e no PSDB de estimular uma mínima cultura partidária).
O reflexo da micro-agenda psolista é a atuação do partido: restringe-se à fácil “questão ética” (afinal, quem se lhe opõe?). Mas isso é muito pouco para que uma agremiação pretenda se consolidar como num partido, de fato, expressivo. Pois é válido se perguntar como se posiciona o partido em relação a outras grandes questões nacionais – tão importantes quanto, senão mais do que o monotema psolista –, às políticas do Governo Lula, por exemplo, na Cultura, na Saúde, na Educação, na distribuição de renda ou na política externa? Não se sabe.
O discurso estridente, raivoso da líder máxima do partido, sob um verniz supostamente popular, não encontra ressonância alguma na população, senão em segmentos sindicais e na pequena burguesia com complexo de culpa mais sujeita à sua demagogia moralista (juntos, chegam aos 6% que teve sua candidata no ano passado). O PSOL é, afinal de contas, resquício de infantilismo político, característico daquela esquerda anacrônica incapaz de exercer o poder; imaturidade remanescente dos primórdios da redemocratização, conseqüência de seu distanciamento, desconexão total em relação à sociedade brasileira contemporânea. A rejeição primitiva a “tudo isso que está aí” não encontra respaldo numa população em que os 10% mais pobres tiveram aumento de quase 60% em sua renda, no primeiro mandato Lula (segundo pesquisa da FGV). Pela primeira vez no país, a proporção de miseráveis caiu abaixo dos 20% da população (IBGE). O moralismo prepotente de um Ivan Valente ou a retórica endiabrada e auto-suficiente de uma Luciana Genro não encontram eco no povão, ficando restrito o seu alcance ao Leblon de Manoel Carlos e César Maia.
O maior erro do partido, porém, é a sua incapacidade de tirar lições da história recente do Brasil. A sociedade brasileira vem se aperfeiçoando aos poucos, nas últimas duas décadas. As transformações vêm se dando sem se centrar em uma pessoa específica e sem voluntarismos: são orgânicas.
A representatividade do PT, que soube evoluir e tornar-se um partido governante de esquerda, não vinha de seus setores demagógicos e moralistas (daí vinha apenas sua visibilidade). Mas sim, dos seus setores mais ligados à sociedade civil organizada. O ineditismo da formação do PT advém da diversidade de micro-agendas nele contidas. Esta ligação intrínseca aos movimentos sociais se traduz em posicionamentos adotados no Congresso Nacional e em políticas públicas implementadas quando no governo.
Não é à toa que dentre as áreas do Governo Lula que são mais bem avaliadas, tanto por técnicos quanto pelo povo, estão aquelas em que mais há envolvimento da sociedade civil organizada: por exemplo, nos Ministérios do Desenvolvimento Social, na Cultura, na Educação e na Saúde. Isso para não falar nas políticas setoriais (as dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos quilombolas...).
A pobreza do discurso moralista único, encampado pelo PSOL, revela ainda outro erro de análise. A corrupção não se acaba nunca (até na Finlândia ela existe), nem diminui da noite para o dia. Ela é dirimida com o fortalecimento das instituições. E isso vem claramente ocorrendo no Brasil. Temos um governo mais transparente e uma sociedade menos tolerante com certos comportamentos até recentemente tidos como lugares-comum.
Em suma, o PSOL encontra-se na contra-mão da história. Por trás de seu discurso pretensamente universalista e francamente arrogante, a verdade é que o partido surgiu por e para defender interesses de grupos particulares. Restrito à sua base eleitoral ínfima e não-representativa da sociedade brasileira, não irá muito além disso que é hoje (aqueles 6%), servindo antes como linha auxiliar da direita (ao atuar sistematicamente no Congresso ao lado do PFL, PSDB e PPS) do que como ativo colaborador da luta pela adoção de uma macro-agenda progressista no país.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Não é o Agreste pernambucano, mas bem que poderia ser
Em recente entrevista ao caderno “Mais”, da Folha de S. Paulo, o professor Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém, discorre sobre as inúmeras possibilidades, correntes e futuras, do uso medicinal do THC – o princípio ativo da maconha. Há alguns meses, uma reportagem no Correio Brasiliense noticiou a prisão de um jovem do Lago Sul por ter sido encontrado em sua casa quatro jarros com a erva. O rapaz, na melhor das hipóteses, pegará cinco anos de prisão.
O contraste gritante é ilustrativo. Em outra reportagem recente, a inglesa The Economist destaca o crescente uso comercial dos mais diversos produtos derivados da maconha.
A política repressiva anti-drogas, adotada desde sempre no Brasil, por imposição americana, é burra em mais de um aspecto:
desrespeita a liberdade individual, ao legislar algo relacionado a uma questão comportamental, estritamente pessoal;
a-se algo que, na pior das hipóteses, é um problema de saúde pública e cujos principais problemas sociais derivam justamente de sua ilegalização;
a atitude repressiva penaliza desproporcionalmente os mais fracos, aqueles que estão na base da cadeia produtiva do produto, deixando impunes os que de fato lucram com os altos preços, inflacionados justamente pela ilegalização (que, ao interferir no mercado, oprime a oferta);
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m, dessa forma, à perseguição dos setores sociais mais frágeis, que, por mero uso de divertimento, ou pela venda como fonte de renda numa economia de escassas oportunidades de trabalho decente, se tornam alvo fácil de uma polícia que é mal treinada e mal remunerada, cujo comportamento abusivo é o padrão;
e, last but not least, é uma política hipócrita, porque ilegaliza a maconha com base em argumentas pretensamente moralistas, mas a mesma lei é extremamente permissiva e libertina com drogas que causam danos sociais bem maiores, como o cigarro e o álcool, para não mencionar os remédios, mas que contam com lobbies poderosíssimos.
Maconha nasce no Nordeste que nem mato. Ao invés de queimar quilos de maconha para efeitos puramente midiáticos, por quê não fazer com que as universidades federais da região estudem os usos medicinais e comerciais, gerando renda e conhecimento científico na região? Diz-se que a fibra do canhâmo é mais resistente do que o algodão – e a própria Economist, que não é nenhuma panfletária da causa, indica que a indústria americana do Nylon é uma das empresas por trás do lobby pela permanência da atual política. O óleo de sua semente também tem um alto potencial energético – bem oportuno nesses tempos de busca por eficazes combustíveis de origem orgânica.
Até setores da própria sociedade americana já estão se mexendo para não ficar para trás. Em países asiáticos, que não se deixam tutelar por políticas americanas que não prezam pela preocupação do desenvolvimento autóctone dos outros países, já estão avançando nessas pesquisas e na venda da fibra do canhâmo para o mercado americano (que ainda não pode cultivar a erva). Enquanto isso, nós estamos ficando para trás no produto que temos uma imensa vantagem comparativa, apenas por seguir uma política estúpida e ineficaz que atende apenas a interesses econômicos e geopolíticos estritamente americanos. Até quando vai prevalecer essa insensatez?
Para mais informações sobre a cannabis sativa, veja esse vídeo que conta sua história e seus usos tradicionais (em inglês).
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
A sociedade brasileira, muito sabiamente, elegeu o Lula moderado de 2002, não o Lula radical de 1989. Se alguém ainda tem dúvida – e certos setores à direita e à esquerda do espectro político, por razões opostas, o têm – de que o Presidente Lula, ao assumir em 2003, tinha a opção de agir radicalmente diferente do que está fazendo, vejamos então quais seriam essas possíveis alternativas.
A eleição de Evo Morales na Bolívia é análoga à hipótese de Lula ter sido eleito naquela sua primeira tentativa. Imaturo e inexperiente politicamente, tem se equilibrado entre retórica extremada e a necessidade urgente de compor com os setores sociais que lhe são antagônicos. A tendência é um tortuoso processo de moderação – pelo qual Lula passou como candidato e não como presidente eleito.
Outra alternativa teria sido a de recorrer a uma retórica raivosa que enfatizasse o conflito de classes, instigando o ódio entre compatriotas, passando por cima das instituições e apelando ao culto à personalidade, estabelecendo contato direto com as massas – Lula teria legitimidade para isso. Essa teria sido uma saída fácil, embora irresponsável, no auge da crise política de 2005, por exemplo. Teríamos embarcado no caminho sem volta daquilo que hoje ocorre na Venezuela chavista. Ao invés do confronto entre os setores sociais, da polarização perversa e destrutiva, o Presidente Lula busca a conciliação, o concenso, o acordo. Ao invés de buscar a briga, o Presidente Lula busca o diálogo. Ao invés do apelo personalista e imediatista, o Governo Lula estabelece planos de longo prazo (como o Plano de Desenvolvimento da Educação) e políticas públicas de Estado.
Uma outra possibilidade, ainda, teriam sido as políticas públicas irresponsáveis, que visassem resultados imediatos, ainda que insustentáveis no longo prazo – como o que ocorre na Argentina. O Presidente Lula optou – frise-se, foi uma opção política – por tomar medidas impopulares, mas absolutamente necessárias (aperto fiscal, restrição monetária), no começo do seu governo, revertendo os índices macroeconômicos negativos, alguns dos quais catastróficos, herdados da grave crise de desequilíbrio fiscal de 2001/02. Não tivemos medidas imediatistas e inconseqüentes, como as que agora levam à crise de abastecimento de energia e inflação crescente na Argentina, conseqüência direta das políticas adotadas há quatro anos pelo Presidente Nestor Kirchner e seu “populismo macroeconômico”.
Tampouco vivemos período de incerteza política ou de fraqueza das instituições – problemas que atualmente afetam boa parte da nossa vizinhança. Agora mesmo, o Procurador-Geral da República, indicado pelo próprio presidente, acaba de ter sua denúncia, embasada em provas recolhidas pela Polícia Federal, contra ex-membros do Governo e dos partidos da base aliada acatada pelos 10 ministros do STF, seis dos quais tendo sido igualmente apontados por Lula, o que indica que foram escolhas independentes e apartidárias. Tudo como deveria ser, só que “nunca antes na História desse país” o foram, dessa forma sistematizada – ou já esquecemos do “engavetador-geral da República”?
O privilégio de ter um presidente como o Lula, e não como seus congêneres vizinhos, é resultado da sabedoria da sociedade brasileira, que escolheu isso – o Lula eleito em 2002 e reeleito em 2006, a despeito da campanha contrária por parte da grande imprensa corporativa – minoritária mas barulhenta –, foi o Lula moderado e conciliador, e não o radical e intransigente de 1989. Nesse sentido, Lula tem cumprido plenamente a tarefa da qual foi incumbido pelo povo brasileiro, que será o legado deixado por seu governo: princípio do processo de redistribuição da renda nacional, nos planos social e regional; inversão do processo de desmonte do Estado (concuros públicos); observância e respeito pelas instituições econômicas e político-democráticas existentes; fortalecimento dos órgão de combate à corrupção (PF, PGR, STF); e a inclusão de movimentos sociais e populares no processo político-decisório (as conferências setoriais, temáticas e regionais).
A sociedade brasileira encontra-se num constante processo de transformação nos últimos 20 anos. Aos poucos, vamos resolvendo certos problemas prementes e encarando novos desafios. Nos anos 80, tratava-se de consolidar a redemocratização. Nos anos 90, atingir e manter a estabilidade econômica consumiu nossas energias. Nos anos 2000, começamos a enfrentar nosso déficit social. Vamos aprofundando a democracia, por meio de progressiva inclusão social. Se hoje o setor público de saúde enfrenta problemas, devemos nos lembrar que em parte isso sucede porque hoje ele atende muito mais gente do que quando o SUS foi concebido nos anos 80. E é graças à estabilidade atingida sob FHC que Lula pôde estabelecer o programa civilizador que é o Bolsa Família e que o ministro da Educação, Fernando Hadad, pôde fazer um planejamento para as escolas brasileiras com vistas a daqui a 20 anos! Muita gente ainda não percebe o fenômeno em marcha. Isso acontece porque costuma-se olhar o presente baseando-se em premissas do passado, o que é natural.
O fato de as mudanças não ocorrerem de forma homogênea em todas as frentes faz com que algumas pessoas não se dêem conta de que elas estão ocorrendo, ainda que em ritmos e graus diferenciados em áreas diferentes – o que é absolutamente normal sob o regime democrático, que requer a constante composição de forças.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Caetano na 'Rolling Stones'
A reportagem da Rolling Stones Brasil do mês de Agosto sobre Caetano Veloso está excelente. Ele avisa lá no meio da oito páginas (entre texto e ensaio fotográfico): “Eu adoro dar entrevistas. (...) Gosto de falar, falo sobre qualquer assunto, é só me perguntar que saio respondendo”. Ainda bem. Ficamos sabendo como funciona os bastidores da atual turnê e sobre o processo de criação do belíssimo “Cê”. É divertido saber, por exemplo, Jorge Mautner teve uma crise de choro ao ouvir “Odeio”: “Mautner acha bonito que, na hora que entra o refrão dizendo 'odeio você', a canção, em vez de subir, desça e fique mais terna. Então dizia: 'A gente sabe que dizer 'odeio você' é a maneira mais próxima de dizer 'amo você'. Parece um carinho'.”A entrevista, porém, vai mais a fundo. O que fica evidente é que poucas pessoas entendem tão bem este país como Caetano. O que não é de surpreender, quando levamos em conta a própria concepção e o legado do tropicalismo. A entrevista apenas reforça esta percepção, além de indicar a sua capacidade de se manter contemporâneo, antenado à época em que vive (como sempre, isso se reflete na sua música: “Cê” é atual tanto na temática como na sonoridade). Fica claro também como Caetano é coerente em sua visão de mundo e como isso se reflete na sua vasta obra.
Numa certa passagem, Caetano critica a geração roqueira dos anos 80 (foi provocado a isso pelo entrevistador), pela negação das referências nacionais. Em suas palavras:
“Não sei se isso é necessário [destronar quem veio antes]. Talvez isso seja contraproducente, porque você entra na coisa parecendo que já não está acreditando tanto no seu taco. Penso como Jorge Luis Borges: 'Um grande autor inventa seus precursores'. Ele fala que muita coisa anterior a Kafka passou a ser mais interessante depois dele. Que o passado foi muito mais influenciado por Kafka que o futuro – ou pelo menos tão influenciado quanto. Eu falava [em um texto escrito, nunca publicado] sobre essa questão dessa primeira grande geração de músicos de rock que funcionou no Brasil em todos os níveis: comercialmente, culturalmente, de personalidade. Foi quando o rock dominou pela primeira vez o panorama da coisa brasileira. Mas os precursores disso pareciam para eles não existir. Nem Roberto, nem Erasmo, nem Celly Campelo. Não tinha nada. Nem Raul Seixas, nem Rita Lee, nada. Só Paula Toller deu atenção à Rita: é a exceção que confirma a regra. É uma falta de vontade de admitir esse desenvolvimento orgânico da criatividade brasileira, do que acontece aqui de fato. E como isso vai encorpando. Cada um tem um desejo de se desvencilhar de tudo isso e se vincular automaticamente a um modelo de língua inglesa. 'Não tenho nada a ver com Raul Seixas, nem com Roberto e Erasmo, nem com os tropicalistas, nem com a música brasileira. Mas tenho tudo a ver com Joy Divison ou The Smiths'. Parece que que tem que ser uma adesão imediata a alguma coisa que é forte no munda da cultura de massa dominante”.
Trata-se de uma análise original, lúcida e sólida da música brasileira dos anos 80. No entanto, a força dessa linha de raciocínio vai muito além disso. Trata-se de uma análise precisa da sociedade brasileira, aquela velha coisa de que sempre ouvimos falar – “o brasileiro tem memória curta”. É o nosso descaso com o passado, seja ele imaterial (pensamentos, filosofias... neoliberalismo à Collor de Melo, por exemplo) ou material (a arquitetura, por exemplo: o que é a verticalização do Recife senão a adoção acrítica de um modelo de crescimento inorgânico e estrangeiro?). O brasileiro tende a pensar que o Big Bang aconteceu na semana passada, e que o Brasil nasceu ontem, no vácuo (espacial e temporal). É a eterna espera pelo Salvador da Pátria; a idéia ingênua de que as coisas acontecerão num passe de mágica. É a tentativa constante de transpor automaticamente conceitos e planos teóricos estrangeiros. É a impaciência relativa ao fortalecimento natural (orgânico) das instituições. Parafraseando Caetano: é uma falta de vontade de admitir esse desenvolvimento orgânico da sociedade brasileira!
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Homem









