terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lições de um jornalista colombiano

Estamos cansados de saber dos constantes conflitos de Chávez com a mídia engajada na Venezuela. Mas conhecemos pouco sobre o que se passa na vizinha Colômbia. Ali, um oligopólio midiático com ligações umbelicais ao governo Uribe e ao atual (a família Santos, do ex-ministro da Defesa e presidente recém-eleito Juán Manuel Santos, é dona dos principais jornais do país), dispensa um tratamento gentil ao governo. Um jornalista colombiano durante dez anos apresentou o programa Contravía, oferecendo visões alternativas em relação ao conflito armado do país, dando voz aos diferentes grupos envolvidos, mas por isso mesmo desafiando a narrativa oficial do governo (os fins justificam os meios na luta contra o terrorismo) e repetida pela mídia. O seu programa incomodava, apesar da pequena audiência. O jornalista Holman Morris passou dez anos sofrendo ameaças de grupos paramiltares, pois fora tachado pelo próprio Uribe como "terrorista", por dar voz a outras partes envolvidas no conflito. Por fazer jornalismo, virou dissidente. O carimbo de terrorista, na Colômbia, é senha para os grupos direitistas paramilitares "defender a nação da ameaça terrorista". Talvez, o que Uribe estivesse querendo esconder é o custo social da sua guerra contra o terror interna. A Colômbia é o segundo país do mundo com mais "deslocados internos", que é um nome pomposo para dizer refugiados domésticos. O primeiro é o Sudão. Ou então incomode a Uribe que se discuta abertamente em seu país a questão dos falsos positivos. São inocentes - pobres, jovens das áreas rurais - assassinados pelo próprio exército para aumentar os números do "sucesso" da guerra contra o terror - bancada, aliás, com o dinheiro americano, por meio do Plano Colômbia. O jornalista agora recebeu uma bolsa da faculdade de jornalismo da Harvard e vai lá para realizar estudos, mas também, diz ele, para poder viver momentos de paz e tranquilidade com sua família, o que fui impossível durante os dez anos em que trabalhou na Colômbia. Em outras palavras, exilou-se.

Essa história é importante por três motivos.

1. A nossa imprensa se inquieta tanto com os excessos de Chávez na Venezuela, e eles são reais e, de fato, preocupantes. No entanto, os excessos do governo Uribe são solenemente ignorados. No máximo, são relegados ao segundo plano. Por que a cumplicidade? Ou é apenas ignorância? E qualquer dos casos, é mau jornalismo.

2. O segundo motivo é entender o perigo da falta de livre acesso a informação. Uma imprensa oligópolica reflete-se, politicamente, no oligopólio do controle da agenda e da narrativa construída. Uma mídia plural, desconcentrada, pulveriza a capacidade de qualquer único agente ter um predomínio completo sobre ambos. Os custos sociais do cerceio à livre informação na Colômbia são monstruosos.

3. Também é importante ter consciência do que está ocorrendo no resto do mundo para colocar o Brasil atual não só numa perspectiva histórica - com relação ao seu passado - mas também internacional - em relação aos movimentos no resto do mundo. O momento no Brasil é de imensa liberdade de expressão - porém os meios para expressá-las ainda estejam concentrados, ainda que em decadência. Qualquer pessoa que acusar ameaça a liberdade de imprensa no Brasil está mentindo. Pelo simples fato de que a nós, brasileiros, a história de Holman Morris nos parece tão absurda. E isso é um ótimo sinal de onde nos encontramos hoje.


Aqui segue uma entrevista do próprio Morris, em que ele resume a perseguição que sofreu de Uribe simplesmente por exercer jornalismo independente. Uma boa lição para os jornalistas do Brasil.

Colombian journalist reflects on US visa dispute - Cambridge - Your Town - Boston.com

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Wikileaks

A maioria das pessoas ainda têm uma mentalidade do século 20. Mas a era da Internet transformou, e segue transformando, substancialmente a maneira como informação é distribuída. O vazamento de documentos sigilosos revelando o que realmente está ocorrendo no campo de batalha afegão (veja aqui a reportagem do diário londrino The Guardian) é indício dos novos tempos - trata-se simplesmente do maior vazamento de dados da história do exército americano.

Entender o que é e como funciona Wikileaks é essencial para qualquer pessoa que queira entender como será, daqui pra frente, a relação entre governos e grandes corporações e a comunidade global ao lidar com controle de informação. O movimento inexorável é de maior transparência. O objetivo do site é tornar público toda informação que seja considerada como de interesse público.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O oligopólio midiático e o espantalho da ameaça à democracia

Meu comentário a um post patético do correspondente em Brasília do Estadão - leia aqui o post.



esse post é um exemplo do jornalismo parcial apontado pelo presidente.

estranho é uma imprensa, como a nossa, oligopólica e ideologicamente pouco plural, e que se alinha partidariamente.

o problema não é falar de "mensalão" ou deixar de falar. o problema é que tais escândalos só ocorrem de um lado. o psdb governa SP há quase duas décadas, e a imprensa carioca-paulista não encontra nada de errado por lá.

o problema não é denunciar ou não o dossier. o problema é que ninguém nunca viu o tal dossier, que na verdade são capítulos de um livro de um respeitado jornalista que vem fazendo uma coisa rara no brasil: jornalismo investigativo. há uns dois anos.

esses dois exemplos, apontados pelo blogueiro, ilustram bem o que causa a falta de pluralidade na mídia brasileira: impera uma versão - partidária - em detrimento de outras leituras da realidade.

e qualquer crítica à prática jornalista praticada por esse oligopólio é vista como "ameaça à democracia". e aí se entende, que a preocupação é com reformas que induzam à democratização do espaço midiático, que proporciona mais vozes, mais visões de mundo e mais representatividade da imensa diversidade geográfica, cultural e política desse país, que não se restringe ao eixo avenida paulista-jardim botânico!

esse jornalismo supercial, interesado, partidário e pouco plural é muito mais um obstáculo à democracia do que as críticas procedentes do principal líder político do país!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Berlam e Banda Larga

Tem um novo cantor no pedaço - Berlam e Banda Larga. Trata-se de uma boa novidade. Berlam é um excelente intérprete, performático e, o melhor de tudo, as suas músicas apresentam letras tão inteligentes como não se via há muito tempo na música brasileira. Achei algumas músicas suas no YouTube, e espero encontrar mais no futuro.



E pra quem gostou e quiser conhecer mais o trabalho, aqui é a página Myspace.


sábado, 29 de maio de 2010

Compartilhamento de dados e acesso a cultura

A troca de dados on-line é uma das grandes transformações do século 21 porque democratiza o acesso à informação e a produtos culturais que, se fossem depender da lógica do mercado apenas, permaneceriam restritos a círculos ínfimos de iniciados. O acesso ilimitado a dados, em todas as suas manifestações - vídeo, música, texto, fotos - tem o poder de propagação da informação. No momento em que se cobra por esse acesso, automaticamente o alcance potencial da informação é limitado. Um consumidor mais bem informado é um consumidor necessariamente melhor.

Um estudo recente (leia AQUI artigo publico no The Independent) indicou que aquelas pessoas que costumam baixar música gratuitamente na Internet são os que mais gastam consumindo música. O detalhe é qual é o tipo de música e produtos culturais os quais eles consomem. Não são mais aquelas da cultura de massa - e isso é provavelmente o que mais incomoda as grandes corporações - não a distribuição gratuita em si. Afinal, o criador, o artista, ele só tem a ganhar com a disseminação de seu trabalho. É o intermediário que deixa de ganhar e é isso que incomoda a indústria fonográfica.

Um exemplo disso é o cineasta chileno radicado na França, Alejandro Jodorowsky - um grande diretor e roterista. E se ele fosse depender do mercado, eu jamais teria tido acesso a ele. Foi graças à Internet e ao compartilhamento de dados gratuito que eu tive acesso ao trabalho dele. Sua obra nunca iria passar na televisão, nunca iria passar no multiplex. Se não fosse pelo compartilhamento, eu não teria tomado conhecimento do trabalho dele e estaria me limitando como pessoa, cidadão e consumidor.

Jodorowsky, inclusive, é um dos grandes diretores do século 20, indiscutivelmente. O trabalho dele é essencialmente cinematográfico. As histórias que ele conta, por meio de imagens, não poderiam ser contadas de nenhuma outra forma - livro, pintura, o que for. Cada cena, cada imagem, transborda de signifcados; tem muitas leituras possíveis e só poderiam ser contadas cinematograficamente - o que é mais do que se pode dizer do que boa parte dos cineastas. Por seus filmes, ampliei minha visão do mundo, adquiri informações que me tornaram um cidadão mais crítico e um consumidor cultural mais exigente.

--







terça-feira, 18 de maio de 2010

PT versus PSDB

O que está em jogo nessas eleições não é um concurso de Miss Simpatia ou uma mera seleção de currículos. Estão em jogo dois modelos de desenvolvimento que tiveram oito anos cada para implementar suas idéias. O governo da coalizão liderada pelo PSDB estabeleceu a estabilidade macroecômica, transformando o país qualitativamente. Sem dúvida, foi um divisor de águas. A partir daquele momento, o chamado imposto inflacionário, que corroía o poder de compra dos setores populares, desbancarizados, foi eliminado, proporcionando um ganho de renda. Por outro lado, o setor empresarial passava a ter condições para planejar com um horizonte temporal mais alargado.

O povão e o setor privado foram os grande vencedores desse processo. Em contra-partida, a quantidade dos empregos gerados era pouca e a qualidade, precária. Isso porque um dos pilares da estabilidade era a política monetária que visava a manter o câmbio apreciado. Isso tirava o incentivo de investimento e da demanda. Emperrando o consumo, evitava que a inflação crescesse. Ou seja, um dos elementos essenciais daquele modelo dependia justamente de uma punição para os setores populares, por conta da precarização do emprego (trabalho informal) assim como para o setor privado, que não tinha incentivos para se individar e investir no setor produtivo. Era mais vantajoso e menos arriscado aplicar o dinheiro. Ao mesmo tempo, os juros altos aumentavam a dívida pública, que também aumentava para manter os juros altos. O perfil da dívida pública era inerentemente instável, porque estava exposta ao Dólar, ficando a mercê das oscilações do mercado internacional.

A estabilidade, sob esse modelo, tinha óbvios custos sociais para vários setores.

Quando o governo petista assumiu, em Janeiro de 2003, o quadro era preocupante. Os juros vinham em linha crescente, chegando ao absurdo de 26,5%; a inflação passava dos dois dígitos, atingindo 12,5%; o lucro da Petrobrás decrescia havia 3 anos consecutivos; o PIB teve o pífio incremento de 2,3%; as reservas internacionais seriam negativas se não fosse pelo aporte do FMI; o rendimento médio mensal vinha em queda pelo menos desde 1996; a dívida pública em relação ao PIB já passava dos 50%. Todos esses dados alarmantes não eram frutos do acaso. Eram a base mesma dos 8 anos de um modelo que, como legado positivo ao país, deixou a estabilidade macroeconômica. Mas ao preço de estagnação, falta de investimento público e privado, vulnerabilidade externa.

Todos esses dados começam a mudar a partir de 2003. Novamente, isso não é fruto do acaso. Um novo modelo começou a ser implantado. A inflação manteve-se bem abaixo dos dois dígitos, caindo de 12,5% em 2002 para 5,9% em 2008. O lucro da Petrobras apresentou uma evolução constante entre 2003 e 2008. Em 2008, o PIB cresceu 5,9%, acima da média mundial. As reservas internacionais hoje atingiram níveis sem precedentes, passando dos 250 bilhões de dólares. A dívida com o FMI foi quitada, e o perfil da dívida foi melhorado, diminuindo drasticamente a exposição ao dólar, para ficar menos vulnerável a eventos vindo de fora (como a crise financeira mundial, por exemplo). O rendimento médio mensal apresenta uma linha de constante crescimento, a partir de 2003. A relação dívida/PIB caiu para 38% em 2008, sofrendo pequena subida em 2009 por conta das medidas rápidas e eficientes adotadas pelo governo federal para proteger o Brasil da crise mundial. Os juros apresentam uma linha decrescente, baixando dos incríveis 27,5% para em torno de 10% atualmente.


O que é significante é que o elemento básico desse modelo é que ele se baseia na distribuição de renda e na inclusão social. Esse é o motor, abastecido com diversas políticas distributivas - expansão do crédito, programas de transferência de renda, expansão e interiorização dos ensinos técnico e universitário, expansão dos serviços de assistência de saúde, como Programa Saúde da Família. Mais de 20 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, enquanto outras 30 milhões subiram degrau acima para compor a nova classe média. A inclusão social e econômica, por meio de políticas públicas eficientes, tem sido o motor do atual modelo. As políticas adotadas são um meio para se atingir um fim, que é a melhoria de vida dos brasileiros. É a construção de um Estado de Bem-Estar Social - com a institucionalização das políticas sociais, juntamente com a implantação de infra-estrutura do país sob planejamento estratégico do Estado mas com capital público e privado - gerando novas indústrias, novos modais de transportes, novos pólos regionais de desenvolvimento - que somados vêm dando impulso à atual fase de crescimento. Não é apenas que, no Governo do PT, o Brasil cresceu mais. O Brasil cresceu mais e melhor. O fato de que 12 milhões de empregos foram criados nos últimos sete anos e meio se torna ainda mais auspicioso quando se considera que boa parte deles é formal - de carteira assinada e todos os direitos sociais que isso implica.

Agora, em outubro, o povo brasileiro vai se deparar com a escolha entre esse dois modelos. Serra personifica o modelo tucano, e o seu governo em São Paulo é um bom exemplo. Dilma representa o modelo petista.

Todos os dados desse texto podem ser conferidos nesse link: http://lulavsfhc.tumblr.com/page/1 .

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Debatendo o Estado de Bem-Estar Social

O E-mail "Kit do Brasileiro" gerou um debate entre meus primos. À resposta de Diogo, que postei abaixo, um primo respondeu o seguinte:

**

Devemos ajudar, claro, mas qual é o cursor de formação de mão de obra que o lula implantou, não adianta só o assistencialismo tem que evoluir a população, investir mais em educação basica e menos em publicidade e assistencialismo. tem que estimular a produtividade e não a vagabundagem, talvez dai da europa o brasil esteja parecendo lindo mas a realidade no interior dos estados mais pobres eh outra, niguem quer mais trabalhar pois ja ganha o suficiente do governo. Hoje em dia eh mais vantagem para quem tem dois filhos ou mais estar preso do que arrumar um emprego de pedreiro, pois tem o auxilio do governo de R$ 800,00 por filho. Acho que o Lula foi um otimo presidente em alguns aspectos mas nesse ponto não acho que viciar a população em auxilio do governo gastando muito dinheiro com isso e não gastando nem perto disso com educação eh uma bomba relogio. Não existe desenvolvimento sustentavel sem educação. Educação eh o principio basico de sustentação para qualquer nação, sem educação nem plano de governo tem futuro, muito menos o assistencialismo. NENHUM FILHO VIVE DE MESADA PARA O RESTO DA VIDA, UMA HORA ELE TEM QUE ANDAR COM AS PROPRIAS PERNAS!!!!

**
Resposta de Diogo:

nao poderia concordar mais que educação agora deve ser a prioridade de qualquer governante que venha a assumir. tem razao. mas se dermos uma olhada na tabela abaixo, veremos que nos ultimos anos tivemos uma boa evolução nesta área com programas como o fundeb e com a construçao de forma descentralizada de escolas de nivel superior e técnica. vejam os numeros relativos a educação abaixo. mas uma pergunta geral: se voces fossem cortadores de cana e recebessem um salario minimo para um trabalho que nao lhes dá benefícios sociais, nao paga hora extra, etc, e pudessem ganhar um pouco menos sem ter que trabalhar, o que voces escolheriam? quem sou eu para chamar de preguiçoso a pessoa que escolhe pela segunda; acho que eu faria o mesmo. ou o empregador melhora as condiçoes de trabalho, ou o trabalhador, que agora tem a opção de nao trabalhar e receber dinheiro, vaza. nao necessariamente por preguiça; aqui é uma questão de dignidade.

**
Minha resposta:


é importante nos informarmos antes de fechar uma opinião a respeito de algum tema.

1. todas as democracias desenvolvidas do mundo têm algum tipo de Estado do Bem-Estar Social, como Diogo descreveu a amiga dele. Uma das características de uma sociedade socio-economicamente desenvolvida é a existência de instituições que garantam um nível mínimo de bem-estar para toda a população. As políticas sociais implantadas no Governo Lula são o princípio desse processo, que na maior parte dos países desenvolvidos foi construído a partir do pós-guerra.

2. quantos por cento do PIB é investido no Bolsa Família? E quantos porcento em educação? Menos de 1% do PIB é direcionado ao BF, enquanto que algo em torno de 5% é investido em educação. Uma coisa não exclui a outra.

3. O fortalecimento do mercado interno tem dado dinamismo à economia brasileira e ajudou a proteger o país da crise mundial; o papel do BF nesse processo foi fundamental:
http://www.goldenlight.biz/jornal/economia/leitura.php?id=3107 . Ou seja, ao analisarmos os custos do BF, devemos levar em conta quanto essa política vem contribuindo pro desenvolvimento econômico e social do país.

4. como diogo apontou, foram construídas centenas de escolas técnicas atendendo as demandas de cada região. Ipojuca é um bom exemplo disso:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=12179


5. a informação repassada na mensagem sobre o bolsa-presidiário é falsa. 798,30 é o valor MÁXIMO que se pode receber em reclusão, e apenas pessoas que JÁ são seguradas pela Previdência Social (ou seja, que já trabalhavam com carteira ssinada antes da reclusão) podem receber esse benefício, que vai para os DEPENDENTES do preso. Essa informação consta do link repassado na própria mensagem...

6. também é interessante saber quais são os valores do Bolsa Família. Essa informação pode ser encontrada facilmente na internet:
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/fc_beneficiario/beneficio/qual-o-valor-do-beneficio-pago-as-familias-do-pbf/

o valor varia de 15 a 95 reais por mês por família, de acordo com a renda mensal da família (pobre ou muito pobre) e número de membros (de 1 a 3 ou mais). Uma família pequena - 1 membro - e com renda mensal per capita de 60 a 120 reais (pobre), recebe 15 reais por mês. Uma família grande (3 membros ou mais), com renda mensal per capita de até 60 reais (muito pobre), recebe do Estado brasileiro 95 reais. É importante ter esses valores em mente antes de fazer julgamento sobre pessoas que vivem numa realidade tão diferente da nossa. Os trabalhos que as pessoas recusam em geral são sub-empregos que exploram mão-de-obra extremamente barata, em serviços sazonais (não dura o ano inteiro), em condições sub-humanas (tem gente que morre de exaustão no corte da cana), por um salário de miséria. Antes do BF, o cidadão se submetia a esse tipo de coisa por total falta de opção. Agora, como Diogo apontou, o cidadão tem uma escolha: entre fazer um trabalho merda e não fazer nada. E o empregador também: se quer trabalhador, que ofereça condições de trabalho mais dignas.

7. Pela primeira vez em décadas, o fluxo migratório mudou: o Nordeste deixou de ser exportador populacional para o Sul-Sudeste e, agora, recebe mais gente do que manda embora. Isso é um dos efeitos da série de políticas públicas implantadas no Nordeste nos últimos oito anos, dentre as quais o BF é uma das mais importantes. Os programas sociais fixam os cidadãos em sua terra.

8. por fim, não podia deixar de responder ao seu comentário. Não achamos que o Brasil esteja lindo. Temos problemas seculares que não se resolvem da noite pro dia. Mas acreditamos que o caminho para a melhoria do nosso país passa pela construção de um Estado do Bem-Estar Social, como é o caso de todos os países ricos. E esse processo foi iniciado sob Lula, e tem gerado um ciclo econômico positivo. E a aprovação dessas políticas não é só da gente que está longe, mas de 80% dos brasileiros, que estão aí. Mesmo longe, estamos mais em sintonia com o nosso povo do que algumas pessoas que estão no brasil....



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Resposta ao "Kit do Brasileiro"

Está circulando um e-mail na Internet brasileira entitulado "Kit do Brasileiro". É um protesto da classe-média, que se julga injustiçada e sobre-taxada.

Aqui está o conteúdo da mensagem, seguida pelas respostas minha e a de Diogo:

**

KIT DO BRASILEIRO

*Vai transar?*
O governo dá camisinha.



*Já transou?*
O governo dá a pílula do dia seguinte.



*Teve filho?*
O governo dá o Bolsa Família..



*Tá desempregado? *
O governo dá Bolsa Desemprego.



*Vai prestar vestibular?*
O governo dá o Bolsa Cota.



*Não tem terra?*
O governo dá o Bolsa Invasão e ainda te aposenta.




*RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO?*
a partir de 1º/1/2010 O GOVERNO DÁ O
AUXÍLIO RECLUSÃO?

*esse é novo*

Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa que, é de R$798,30
"por filho" para sustentar a família, já que o
coitadinho não pode trabalhar para sustentar os filhos por estar preso.

Não acredita?

Confira no site da Previdência Social.


Portaria nº 48, de 12/2/2009, do INSS

(
http://www.previden ciasocial. gov.br/conteudoD inamico.php? id=22)

*Mas experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece!*




"Trabalhe duro, pois milhões de pessoas que vivem do Fome-Zero e do Bolsa-Família, sem trabalhar, dependem de você"

Se vc é brasileiro passe adiante.

**

Eu respondi o seguinte para a minha prima, que me enviou essa denúncia:

por esse e-mail a conclusão que se chega é: ser pobre no brasil é massa!!! fiquei com uma pena enorme dos meus familiares: tudo bem de vida, deve ser um horror!

**
Mas a resposta definitiva veio de Diogo:


é nao, bernardo... ajudar quem nasceu fudido e sem perspectiva é puro assistencialismo. quem nasceu na pobreza tem mais que se fuder, mesmo; e se sair dela é por mérito (ou porque é ladrão, traficante, bispo evangélico, etc). nós que temos berço devemos nos preocupar é conosco e garantir que os pobres fiquem na merda para continuarem a servir-nos, roubar-nos, agredi-nos.

aqui na suiça, por exemplo: uma amiga desempregada ganha do governo 4.500 reais por mes (se tivesse sido empregada antes, ganharia 80% do seu salario anterior); ela faz cursos de alemão pago pelo governo; ela faz curso de história da arte também subsidiado pelo governo; ela tem descontos em operas, teatros, cinemas, etc, com a carteirinha de desempregada dela. mesmo assim, pergunta se ela quer continuar desempregada. .. A resposta é "não". mas eu acredito que isto explica porque a suiça é um país horrível de se morar, muito perigoso, desigual.

temos que guardar o que temos de melhor no nosso sistema:

- que nós, ricos, continuemos a ter acesso a boa educação particular e à universidade gratuita (ou paga, tanto faz... desde que pobre fique fora);
- que nós continuemos a comprar camisinhas e usar anti-concepcionais enquanto pobre bota mais pobre no mundo (se nao tiverem dinheiro para comprar algum anticoncepcional, que parem de trepar);
- que desempregado seja tratado como deve: um preguiçoso, sem perspectiva que deve ser devidamente preparado para a delinquencia;
- cota pra nego?? nada disso... a historia nos diz em entrelinhas que nego nasceu pra se arrombar, entao porque colocarmos na universidade? para interagir conosco, ricos?? nao, nao... continuemos a pensar em argumentos para manter o status-quo (nós sempre em cima, e nego e pobre se fudendo);
- fome zero e bolsa familia? pra quê? afinal, eu nao morro de fome... alias, nunca passei fome. e como só acredito no que vejo, nao creio que isto seja um problema do Brasil.

de novo, quem é pobre é porque fez por merecer e tem mais é que ultrapassar esta barreira sozinho. afinal, o brasil é o país das oportunidades e da igualdade social e nao tem problema nenhum que justifique esses programas sociais.

VOTE SERRA! ele é preparado. afinal, viu como sao paulo nao tem problemas de enchente, segurança e educação?

Já o Lula... Viu o que ele fez com o Brasil, né? copa, olimpiadas, quitaçao de dívida a FMI (o Brasil virou credor do FMI , agora... um absurdo!!), reduçao da pobreza, crescimento economico, etc...

se liguem minha gente. e pensem com cuidado nos pobres e negros quando forem votar. temos que manter essa gente longe de nosso circulo e mais: jamais ajudá-los!! afinal, eles sao pobres e negros.

Saudaçoes do primo distante

**

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sete meses

A BBC – British Broadcasting, é a rede de TV e rádio pública da Inglaterra. Trata-se de um dos órgãos de imprensa mais tradicionais e respeitados, no país e no mundo. De uns anos pra cá, tem posto em prática uma política de valorização dos sotaques das diferentes regiões do Reino Unido. Até há pouco, o sotaque londrino era o oficial – assim como a Globo instituiu o “carioquês” como a língua oficial do Brasil: qualquer vestígio de regionalismo deveria ser prontamente eliminado. Hoje, na BBC, ouve-se o inglês escocês, galês, irlandês, inglês do norte, inglês do sudeste... Acabou-se a imposição de “dialeto oficial”. Muito bom em termos de multiculturalismo e tal. Mas uma dificuldade a mais para se habituar ao sotaque britânico, que na verdade são múltiplos.


Para financiar a BBC e torná-la independente dos governos de plantão – trata-se de uma emissora pública, não estatal – a fonte de recursos provem de uma anuidade paga por todos os donos de TVs do Reino Unido. Os cegos pagam só a metade. Ainda não sei se o mesmo desconto se aplica aos surdos. Os mudos não têm do que reclamar: nem poderiam.


**


Existe uma tradição na Inglaterra que é a de ex-alunos fazerem doações às faculdades em que se formaram. É uma mescla de reconhecimento e gratidão altruístico à instituição acadêmica que os preparou, exibicionismo (“veja como sou bem sucedido e posso fazer essa doação”), e um nada desinterassado intuito de fortalecer a marca da universidade que, afinal de contas, consta do seu currículo. Um desses presentes de ex-alunos transformou-se num mascote não oficial da LSE: um pengüim de um metro. O mimo destronou o “beaver”, o mascote oficial. Talvez num sinal claro da ironia britânica (pode-se atribuir qualquer esquisitice dos ingleses a isso, afinal de contas!), muito melhor o símbolo-mor da breguice (ou, mais adequado dizer, do kitsche) do que o mais convencional e careta beaver. Há uns anos atrás, uns alunos da LSE, após excesso de “pints”, vandalizaram o campus da principal universidade rival – a King’s College. Em represália, estudantes do KC arrancaram e fizeram sumir o estimado pengüim da LSE! As inúmeras câmeras de segurança espalhadas pela cidade – a Inglaterra é o país com o maior número de câmeras de segurança per capita – foram incapazes de desvendar o mistério. Até hoje não se sabe que fim levou a pobre estátua da ave polar. Recentemente, outro pingüim foi adquirido e recolocado no seu devido lugar, dessa vez preso a uma base de concreto reforçada. A volta do mascote trouxe alegria aos estudantes.


**


Estou muito orgulhoso do meu sistema imunológico. Desde que cheguei a Londres que não me gripei. Já entro na terceira estação totalmente são. Desde o outono que diversas vezes o silêncio da biblioteca é interrompido pela sinfonia de tosses, espirros, pigarros e outros sons corporais indicativos de saúde precária. Não sei se são os anitcorpos tropicais ou o fato de quase não usar o metrô lotado, ou por pedalar diariamente... o fato é que meu organismo tem reagido bravamente às transições climáticas. E isso porque até recentemente estava despreparado para o inverno londrino, com minhas roupas de frio de há mais de dez anos. Recentemente fui às compras e me equipei. Agora, sim, estou pronto a aguentar o frio. E realizar aquela frase de um amigo inglês, que disse que não existe mau tempo, mas sim roupa inadequada. E sistema imunológica deficiente, acrescento eu!


**


Existe na univerisade clube para todos os temas, imagináveis e inimagináveis e até da categoria “que porra é isso?!” (WTF). Outro dia falarei disso. Um dos clubes – que aqui eles chamam de “society” – que faço parte é a “Rowing Society” (clube de remo). Toda a gestão, financeira e organizacional, de cada clube é realizada pelos próprios estudantes. Todo sábado pegamos um trem na Waterloo Station, uma das maiores, e vamos beirando o Tâmisa em direção oeste, até Chiswik, para o local onde os barcos das universidades de Londres ficam guardados. Remamos durante em torno de uma hora. Diferente de quando remava em Brasília, onde um funcionário fazia todo o trabalho “chato” de consertar o barco, lavá-lo, colocá-lo dentro d’água e retirá-lo depois, toda a responsabilidade de manutenção dos barcos cabe a nós, estudantes. Tampouco contatva eu com orientação técnica. Então, embora tenha três anos de experiência de remo (entre o rio Capibaribe e o Lago Paranoá), só agora, no Rio Tâmisa, venho recebendo instruções adequadas. Durante a semana, realizamos treinos “em terra”, no ginásio da universidade. Remar no Tâmisa é incrível. A paisagem é linda, com casas vitorianas e outras mais recentes, do século 20, à margem do rio. Também tem parques à beira do rio, como o Kew Gardens, um dos maiores da cidade. Tem uma linha de metrô e trem urbano que atravessa o rio bem acima da gente e, enquanto remamos, vez por outra é comum vermos os vagões passando sobre nossas cabeças. Ao nosso lado, sempre há um sem-número de patos e gaivotas; e recentemente as comportas de um canal foram abertas especialmente para que um casal de gansos pudessem adentrar no rio, pomposamente, como se estivessem a desfilar. O rio é amplamente utilizado, e não só pelas aves. Tem vários barcos-residências, daqueles tão comuns em Amsterdã. Também barcos maiores, de passeios turísticos. E barcos de remo e caiaques, para o uso esportivo. Os usuários têm várias idades. Na primeira ocasião que remei no Tâmisa, no barco individual, fui ultrapassado por uns três coroas, com barbas e cabelos totalmente alvos. Me deixaram pra trás com facilidade. O vento, mais gelado a cada novo sábado, só incomoda na hora de pôr o barco no rio, com os pés descalços a congelar dentro d’água. Depois de cinco minutos de remada, esquece-se do frio. Que só voltará a incomodar novamente na hora de retirar o barco d’água, quando novamente temos que pôr os pés nus dentro d’água

.

**


Todos os dias a LSE oferece uma quantidade imensa de palestras. São convidados das mais diversas áreas de atuação, ligados a temas das ciências sociais (economia, política, políticas públicas, etc). E geralmente são convidados respeitados em suas devidas áreas de atuação. Integrantes de governos, empresários, acadêmicos, jornalistas, oriundos das mais diversas partes do planeta. Para se ter uma ideia, alguns nomes previstos para janeiro de 2010: o ministro da fazenda da Suécia, Anders Borg; o economista indiano e nobel de economia, professor Amartya Sen; e um ex-ministro inglês, James Purnell. Até agora só fui a um evento: a palestra do presidente Rafael Correa, do Equador. Seu discurso foi muito interessante e me fez olhá-lo com outros olhos. Equivocadamente, e repetindo o cacoete dos grandes meios de comunicação mundiais, tendia a colocá-lo no mesmo balaio de gato chavista. Sua crítica ao neoliberalismo é bem embasada, o que não deveria causar estranhamento, pois ele pós-graduou-se nos Estados Unidos, e teria sido mais controversa um ano e meio atrás; hoje suas críticas são quase consensuais. O aspecto mais importante de sua crítica é a de que um programa eivado de ideologia tivesse a pretensão de ser aplicado em todas as partes do mundo e resolver todos os problemas, da Tailândia ao Equador, da Rússia à Argentina. Uma panacéia que poderia ser aplicada em todas as partes, a despeito de especificidades históricas e culturais.Também reclamou da ideia de que o mercado resolve tudo. Contou uma história engraçada para ilustrar esse ponto. Uma mulher está perdida no deserto, a ponto de morrer de sede. Encontra um homem que tem água e está disposto a ajudá-la. Com uma condição: em troca da água, que salvará sua vida, a mulher deve transar com ele. Pela lógica da teoria econômica clássica, houve aí uma troca em que os dois agentes obtiveram os seus objetivos. A eficiência foi, portanto, máxima. Do ponto de vista moral, no entanto, é evidente o descalabro: a água deveria ter sido dada sem condições. A analogia é forte, mas muito acertada e ilustra fielmente a assimetria que tem historicamente caracterizado as relações econômicas e políticas entre os países ricos e aqueles em desenvolvimento.


As políticas empreendidas por seu governo seguem a linha da social-democracia, muito ao estilo daquelas levadas a cabo pelo governo petista. Seu ponto fraco é sua retórica “bolivariana”; Correa tenta, pelo discurso, dar uma unidade transnacional, que não é lastreada nos fatos, às políticas chavistas. Suas políticas internas são neokeynesianas, assemelhando-se mais às de Lula, na medida em que visam a incentivar a demanda agregada como meio de promover redistribuição de renda e crescimento econômico. Mas, em seu discurso, o presidente equatoriano busca associar-se a Chávez, classificando suas políticas como sendo o que ele chama de “socialismo do século 21”. Essa frase é desprovida de significado, porque o que ele faz não guarda qualquer semelhança com socialismo de século algum, nem tampouco com as políticas desastradas e desastrosas implantadas por seu colega venezuelano. Outro erro é vir falar de socialismo no continente que o experimentou no século 20 e cuja experiência não foi nada agradável.


Detalhe: todas as palestras são disponibilizadas em podcast na página da LSE: veja aqui.


**


Estou fazendo um estágio desde o começo do semestre no gabinete de uma deputada do Labour Party (o tradicional Partido Trabalhista britânico, um dos primeiros desse gênero a emergir no mundo). Aqui o voto é distrital, ou seja, cada membro do Parlamento (MP, que é como eles chamam os “deputados federais”) representa uma circunscrição específica. É como se cada bairro de Recife, por exemplo, tivesse seu próprio representante no Congresso Nacional. O sistema distrital é chamado, na literatura da Ciência Política, de “majoritário”, diferente do nosso sistema de grandes distritos (cada estado é um distrito eleitoral no Brasil), que é “proporcional” (cada coligação elege um número de representantes proporcional à quantidade de votos recebida). A vantagem do sistema majoritário é a representatividade geográfica: cada microrregião tem um representante no Parlamento. Outra vantagem é o fato de que o eleitor sabe exatamente quem é o seu representante e, portanto, sabe a quem recorrer sempre que tiver problemas a tratar ou questões a colocar. Por outro lado, há uma distorção intrínseca ao regime majoritário. Emily Thornberry, membro do Parlamento para quem trabalho, se elegeu com uma diferença de meros 400 votos! O sistema proporcional, por definição, reflete de forma mais fiel o sentimento dos eleitores.


O atual governo trabalhista, liderado por Gordon Brown, sofre por fadiga material (os trabalhistas estão no poder desde 1993!) e falta de liderança – digamos que Brown não é o político mais empolgante do mundo. As eleições, que devem ocorrer em abril ou maio, serão disputadíssima. Os “tories” (conservadores) são favoritos, embora a diferença entre eles e os trabalhistas esteja diminuindo e, na última enquete, já tenha caído abaixo dos dois dígitos. Mesmo que o Labour não consiga a maioria dos votos, é possível que permaneça no poder em função de uma potencial aliança com o terceiro partido que vem ganhando força nos últimos anos, os Liberais Democratas (LibDems). Ainda não consegui encaixá-los no espectro político, mas, pelo que entendi, eles tendem a ser ortodoxos na economia e progressistas socialmente. Ou seja, estariam à esquerda dos Tories e à direita do Labour. Mas não é tão simples: em muitas questões, estão à esquerda também do Labour: por exemplo, são contra as guerras (Iraque, Afeganistão), e a favor de política liberalizante em relação às drogas. O LibDem tende a ser mais popular entre os mais jovens. Num sistema proporcional, certamente teriam mais representantes do que no atual sistema majoritário, que tende a incentivar o bipartidarismo (o eleitor se sente impelido a não votar num terceiro partido, preferindo votar num dos dois grandes de modo a não “desperdiçar” o seu voto).


Trabalho no gabinete da constituinte, no bairro que a MP Thornberry representa (Islington South). É interessante porque aprendo muito sobre os hábitos de trabalho britânicos, mas também sobre como funciona na prática o sistema político do país. Recebemos demandas as mais variadas da população local. Os temas mais comuns são pessoais, geralmente ligados a imigração e moradia. Mas também acontece de algum eleitor escrever sobre problemas que não são pessoais, como um que escreveu sobre uma propaganda de um banco que oferecia cartão de crédito com taxas que ele julgava serem abusivas. Uma das minhas funções é ler as correspondências dos eleitores, registrá-las num banco de dados, repondê-las e encaminhar algum tipo de solução a seu problema, fazendo o meio-de-campo entre o eleitor e o órgão governamental que trata do problema levantado pelo eleitor.


**


Um hábito que adquiri em Londres é ver diariamente o site do The WeatherChannel. Lá, vejo a temperatura, a sensação térmica, a velocidade do vento e a probabilidade de precipitação, hora a hora. É bastante útil para planejar minhas locomoções ciclísticas pela cidade e evitar de pedalar durante algum toró.


**


Vários colegas meus foram para Copenhaguem durante a conferência climática. Um deles, alemão, me contou, via Facebook, algumas coisas que testemunhou por lá e acho interessante compartilhar com vocês, com tradução minha: “Eu vi Serra, ao vivo. Cara, espero que ele não se torne seu presidente. Talvez seja porque o inglês dele é lento, mas ele me pareceu muito pouco dinâmico. Eu não vi Lula ao vivo, vi retransmitido ao vivo num telão – seu discurso foi muito, muito melhor. Sinto inveja de seu país. Ele ofereceu mais do que qualquer outro país, pelo menos dos países mais importantes. Ele foi muito aplaudido pela platéia que o assistiam pelo telão”.


É interessante ouvir depoimentos como esse, sem o filtro da imprensa – um relato direto, sem intermediários – e sem filtro partidário – ele é alemão, não fala português e não tem nenhuma ligação com o Brasil, exceto pelo futebol.


**


Já que é período natalino, uma notícia natalina. Tem um programa de TV no Reino Unido chamado “The X Factor”. Nunca vi, mas suponho que seja algo no estilo de “Ídolos”. A cada ano, o vencedor do programa lança uma música que, automaticamente, se torna a canção mais popular do Natal (e por isso é chamada de “Christmas Number 1”). Tem sido assim há pelo menos cinco anos, desde que esse programa existe. Acontece que esse ano surgiu um movimento na Internet para combater o poderio comercial do programa. Escolheram uma música do Rage Against The Machine, “Killing in the name”, dos anos 1990. Quando me inscrevi no grupo Facebook, havia em torno de 500,000 associados. Agora, já passa de 1 milhão! Mais impressionante: esse movimento, totalmente virtual e orgânico, contra uma estrutura pesada da indústria cultural de massa, saiu vencedor: pela primeira vez em anos, a música campeã da parada de sucessos natalina não foi aquela oriunda do programa “The X Factor”: foi a música da banda americana! Quem quiser obter mais informações sobre mais esse exemplo do poder da Internet diante das instituições (econômicas, políticas, culturais) tradicionais, vale a pena visitar a página Facebook do grupo.


**


- sobre o sexto mês


domingo, 29 de novembro de 2009

Meio ano



Finalmente arrumo um tempinho para escrever algo. Já se passaram seis meses de Europa (06 de junho eu cheguei em St-Etienne) e de Londres (23 do mesmo mês, aterrisei em Stansted, um dos cinco aeroportos que atendem a cidade). Observei a evolução do verão, e a transição, em setembro, para o outono. O gradualismo das mudanças. Primeiro os dias vão se estendendo. Em um ponto, tem-se sol das 7 da manhã até depois das 9 da noite. Aos poucos, vai diminuindo. Dias cada vez menos longos, e depois cada vez mais curtos. Cada vez mais folhas amarelas nas árvores. Amarelas e laranjas. Laranjas e vermelhas. E depois essas folhas todas no chão. E o vento frio. 10 graus, mas sensação términa de 5. E quando se atravessa o Rio Tâmisa, piora. As idas e vindas de bicicleta, antes agradável; agora, com o vento que faz doer o esqueleto, apenas tolerável. Os olhos, antes deslumbrados e apreciativos da paisagem bela, fotogênica, harmônica e dinâmica, agora lacrimenjando – e não é pela beleza do que se vê. Daqui a pouco, o outono terá passado. Não restarão mais folhas que secar e cair. Minha roupa improvisada para o frio será insuficiente e inócua. A escuridão das 4 da tarde que mais parecem 8 da noite, cairá ainda mais cedo? O bom de pedalar, ao invés de me locomover de metrô, entrando e saindo de buraco feito tatu, é poder testemunhar, diariamente, a evolução desse processo.


**


Depois que escrevi o parágrafo acima, fui dar uma googlada pra saber mais sobre pedalar em Londres. Descobri informações sobre pedalar no inverno - veja aqui. Além de dar dicas de segurança e aclamar as vantagens para a saúde física e mental do ciclismo, o site da Transports for London (TFL), a empresa pública de transportes da cidade, avisa que a cidade oferece serviços como curso de ciclismo urbano, para que as pessoas adquiram confiança para pedalar no escuro.


Mas antes que alguém se preocupe, é bem tranquilo pedalar por aqui. Veja esse vídeo institucional, que promove a bike como meio de transporte: veja aqui .


Interessante notar que a TFL presta serviços que vão além do ônibus. As seções do site indicam os serviços prestados à população. A noção de transporte público é ampla e pensada de modo a atender a todos: metrô, trem, ônibus, trem urbano, transporte fluvial, transporte assistido (para pessoas com dificuldade de locomoção), tramway, automóveis, bicicletas, pedestres, ônibus interurbanos e táxis.


Descobri, ainda, que Londres vai seguir o exemplo de Lyon, Paris e Barcelona, e vai ter um sistema de compartilhamento de bicicletas, começando no verão do ano que vem. O plano está aqui.


Esse outro vídeo, também é da TFL, tem por objetivo alertar os motoristas para que se lembrem de prestar atenção aos ciclitas. Obrigado! Veja aqui.


Essa requer maior conhecimento da língua, mas vale a pena, pelo humor: assista aqui .

Não sei se é por conta delas, mas o fato é que os motoristas aqui tendem a ser respeitosos conosco.


**



Desde que as aulas começaram, em setembro, eu saí do leste da cidade e me mudei para o sudeste, que é mais central. Estou morando numa residência estudantil, chamada Sidney Webb House. O nome é uma homenagem ao fundador da London School of Economics and Political Science (Sidney e sua mulher, Beatrice, ambos sociólogos, fundaram a instituição no começo do século XX). Ele era educador e líder de importantes movimentos de esquerda da época. Suas bandeiras eram as reformas sociais e a questão da educação. Webb foi um dos fundadores do Partido Trabalhista inglês, tendo redigido parte do seu manifesto e inclusive foi Membro do Parlamento na década de 1920. Quem quiser conhecer mais sobre esse personagem interessante, de cuja existência só tomei conhecimento porque vim estudar na escola que ele fundou, é só visitar essa página: aqui .


Embora Reinaldo Azevedo provavelmente discorde de mim (ufa!), achei a homenagem meio fora de lugar. O prédio em que vivo é horripilante. Não é que seja particularmente feio. Não é. Ao contrário do meu bairro, muito charmoso, o prédio é trivial. Lembra uma prisão. O conjunto de apartamentos fecha-se em um quadrado, com janelas para fora e para o pátio interno. Por sorte, a minha janela dá para a rua. Vejo prédios, o parque, pedestres e carros eventuais, e a árvore que hoje encontra-se calva. O percurso entre a entrada na portaria até o quarto requer que sete portas sejam abertas (e fechadas). Com a bicicleta é ainda pior, porque, tendo que guardá-la, o número de portas a serem abertas (e depois fechadas) sobe para 10! Quase não se vê gente no pátio. Tem uma espécie de área comum/bar/sala de TV, mas que eu raramente vou. Lá é o único lugar que se percebe que somos centenas a compartilhar esse ambiente. Tampouco vejo meus vizinhos de andar. Bizarro. Parece, às vezes que moro só no prédio.

Quem quiser ver onde moro, é só seguir esse link: veja aqui. Tem o dispositivo “Minha Rua”, por meio do qual é possível ver imagens de satélite do prédio e dos arredores.


**


O ambiente na LSE é bastante estimulante intelectualmente. Cerca de 50% do corpo dissente é de estrangeiros (de fora do Reino Unido). Esse número sobe para mais de 60% se contarmos apenas os pós-graduandos, que compõem a maioria. Fora isso, a própria forma de ensino busca nivelar por cima. Para cada classe, temos 1 hora de “lecture” (palestra), onde o professor dá a sua aula propriamente dita – sempre com powerpoint, que é disponibilizado na internet para que possamos consultá-lo. Cada sala é equipada com computador, projetor, e demais recursos tecnológicos. Depois da palestra, temos os seminários de cada aula, onde ocorre o debate dirigido dos textos daquela aula específica. Ou seja, lemos, ouvimos e discutimos sobre os temas abordados. De vez em quando temos que fazer apresentações.

Na aula de Introdução à Ciência Comparada, por exemplo, cada semana estudamos uma abordagem teórica. Sempre lemos um texto substancial, ou seja, sobre a teoria apresentada. E dois textos empíricos, nos quais a teoria é posta em prática. Desse modo, aprendemos não só de que se trata a teoria em questão, mas também como é a sua aplicação, quais as suas vantagens e quais as suas limitações.


Os textos estão listados no site da disciplina na intranet da universidade (acesso restrito aos estudantes e professores). Lá podemos ver todo o programa do curso, semana por semana, assim como os textos obrigatórios e recomendados. A maior parte deles está disponível em versão digital, cuja leitura é possível pelo computador ou imprimindo, na universidade, com o direito autoral devidamente reconhecido. Quando a leitura só existe em livro, podemos ver no site da biblioteca um mapa que indica exatamente onde o livro está localizado. A biblioteca abre às 7 da manhã (eu acho) e fica aberta até meia-noite, todos os dias.


**


A coerência estética da cidade é impressionante. Vê-se algo que permanece, que é perene. Reconheço, na cidade, a história vivida nela. As várias épocas convivem. O passado mais remoto está ao lado do agora. E isso, apesar dos incendêndios e das bombas, que detonaram boa parte do centro. Mas foram incapazes de quebrar esse espírito.


O passado, em sendo latente, não é, porém, uma âncora a fazer com que as coisas evoluam arrastadamente. Ele dota o processo de um sentido de continuidade. Mas vive em harmonia com o dinamismo criativo que transforma a cidade constantamente. Londres está em obras, desde que cheguei aqui. Não me refiro ao nordeste da cidade, onde estão construindo as novas instalações para sediar as Olimpíadas de 2012. Me refiro a pequenas obras, públicas e privadas. Sempre tem algum conjunto de prédios antigos sendo restaurado. Ou cabos e canos sendo instalados. Calçadas sendo adaptadas para as bicicletas. E essas pequenas obras se movem semanalmente. Cada dia, nota-se um pequeno avanço. Em poucas semanas, agora em frente à residência tem toda uma calçada com ciclovia readaptada. Não teve inauração nem placas. Estão mantendo a cidade funcionando. Simplesmente. Continuidade, não continuação. A cidade é, e não apenas está, em plena transformação.


Essa transcendência temporal não ocorre apenas no plano material. Nada encorpora mais essa perenidade dinânimica do que a instituição da Monarquia. Incrível que tenha conseguido permanecer relevante até os dias de hoje. Agora há pouco, a Rainha abriu as sessões no parlamento: veja aqui as imagens . A Fala da Rainha é uma cerimônia anacrônica e excêntrica, em que a Chefe-de-Estado sai de charrete de seu castelo e vai até o Parlamento. O percurso entre a charrete e a House of Commons é cheio de firulas e convenções esquisitas – mas totalmente respeitadas. Ela lê o plano do governo incumbente. Tira-se, assim, o caráter efêmero dos governos, provendo-os com a ideia de continuidade do Estado, por meio de sua chefe. Nas questões de Governo, o pau quebra no Parlamento, em discursos emocionantes e emocionados, permeados do melhor humor britânico (os membros do Parlamento ficam tirando onda uns dos outros), veja aqui. Tem poucas coisas tão divertidas quanto assistir a um debate desses, convehamos. Quando a Rainha fala, no entanto, expressa o Estado e está acima das divisões partidárias.


O modo de urbanização inglês expressa isso que vemos na maneira de fazer política. A liberdade econômica existe, mas tem limites: que é a garantia da essência da cidade. Transformação, sim. Não destruição.


**


De vez em quando sinto falta daquelas mágicas do terceiro mundo. A roupa suja que, milagrosamente, aparece limpa, passada e dobrada em cima da cama. A louça que nunca fica suja. As refeições sempre prontas e saborosas, sem o menor esforço. Aqui, não temos nenhuma dessas mágicas. Até em restaurantes, muitas vezes temos que retirar os pratos da mesa. Daqui a pouco vamos ter que lavar a louça.


Até agora, só vi uma mágica de primeiro mundo. Dois dos meus três pullovers encolheram!


**


Existem dois tipos de cidade. Aquelas onde os habitantes a arruinam para os visitantes; e aquelas onde os visistantes a arruinam para os habitantes. Londres, sem dúvida, encaixa-se nessa segunda categoria.


**


Veja aqui as fotos do Outono Londrino. Quem quiser, é possível ver, no mapa ao lado direito das fotos, a localização exata onde as fotos foram tiradas.


London Scenes - autum 09



**


O quinta mês


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Eu na Aljazeera

Participei de um dos meus programas favoritos na Aljazeera, o Listening Post - que trata da cobertura da imprensa mundial dos principais temas de cada semana. Mandei um comentário sobre a estratégia da Administração Obama de enfrentar a FoxNews.


Aqui está o vídeo: assista aqui. Minha fala começa no minuto 8:50, mas vale a pena ver a reportagem inteira.


Aqui coloco a íntegra do comentário enviado:


I think that Obama's approach is both intelligent and transparent. His administration is spelling out exactly what it is going to do. Whether you agree with it or not, this is rare in any government. The way it is now, Fox has a disproportional power of influencing the agenda of public debate. FoxNews itself opted for political confrontation: it has a political agenda and behaves like a political actor. This is a political fight for agenda-setting. The White House is attempting to diminish Fox's ability to exert influence over the public debate agenda. Obama’s advisor for green jobs, Van Jones, was a victim of Fox’s assassination of reputation strategy. Instead of waiting for Fox’s attacks on the next target and then react to it, the White House took the offensive. And why shouldn’t they? As long as they're doing it openly and within the law, there's no problem. It's very different from the hidden manipulations the former administration used in order to control and set the public debate agenda.

sábado, 24 de outubro de 2009

Porquê mudei de idéia sobre o Rio2016 e Brasil2014

Depois de uma longa troca de mensagens, num intenso debate virtual, entre mim e a minha família, e também com um amigo, terminei revendo minha posição em relação à realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, no Brasil. Um amigo meu que mora na California me perguntou o que eu achava da escolha do Rio. Posto aqui minha resposta, só pra registrar que mudei de ideia e explico os motivos que me levaram a essa revisão.


regarding this rio thing. i was VERY skeptical about it, but after discussing it over with diogo and my parents, who are totally in favor, i have changed my mind. there was also a debate on aljazeera that i found quite insightful.
i worry especially about our lack of oversight institutions. the pan-american games in rio in '07 was, in my opinion, a total disaster in its after effects. since no public debate has followed, I wonder what lessons we as a society have drawn.
Diogo and I had a heated on-line debate over this on our blog, if you want to practice your Portuguese.

here's the aljazeera debate .


so, i changed my mind, because yes, we have loads of problems, on all levels, to deal with. but who doesn't? you have good and bad examples from all places. montreal's OG were a fiasco, financially. Barcelona's was a huge success (and one would think that Canada would organize things better than Spain). Rio has this urban violence situation. England has to deal with terrorism...

I just hope that our oversight institutions will function better this time around, that less public money will be wasted, that at least some of the infrastructure will bear in mind the public good and that some sort of lasting legacy comes out of this. I think post-Lula's Brazil will be better equipped to carry out this enterprise than the pre-Lula one which carried out the pan-american games.

I think rio's choice in large measure has to do with Lula's domestic social and economic policies and his diplomacy. To a certain degree it is a political victory for him. This, combined with the good news like the oil and those coming from the economy and how we have dealt with the crisis (as compared to other countries and to how we fared in the past) has also spread a wave of pride and optimism to all Brazilian people, which is also very important.

Sorry about the long message! I got carried away I guess!

um abração,
bernardo

---
outras informações que me ajudaram a mudar de idéia:


- Un nuevo Río para 2016

- Brazil aims to win right to host Olympic Games

- None of the violence I saw in Brazil has changed my view that giving the 2016 Olympics to Rio is one of the IOC's greatest ideas

- Rio de Janeiro woos Woody Allen movie project

- Obras do PAC: Urbanização de favelas - Complexo do Alemão

- Discurso do presidente Lula durante apresentação da candidatura do Rio

- O Rio deve essa a Lula