segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Movimento ao totalitarismo


O erro fundamental da análise que atribui a ruptura democrática venezuelana a Hugo Chávez é o fato de ela não atentar-se para o fato de que não é ele a origem real do fenômeno; toma-se o sintoma pela doença. O processo de corrupção do regime democrático na Venezuela antecede a ascensão de Chávez ao poder; ao contrário, é nesse contexto – e, de fato, em função dele – que esse “outsider” do sistema partidário emerge.


Recorro a Raymond Aron para a análise do caso venezuelano. Segundo o sociólogo francês, “a corrupção das instituições políticas aparece quando o sistema de partidos não corresponde mais aos diferentes grupos de interesse, ou quando o funcionamento do sistema partidário é de tal ordem que nenhuma autoridade estável sai da rivalidade de partidos”. Na Venezuela pré-chavista, ambas as coisas aconteceram. Chávez não gerou a crise da democracia em que vive seu país – ele é fruto dela. A pseudo-democracia então vigente no país consistia na alternância de poder entre os tradicionais Copei e Ação Democrática (AD), que na verdade representavam um mesmo segmento social – a elite. Aron nos adverte, ainda, que os regimes constitucionais-pluralistas podem se corromper seja pelo “excesso de oligarquia”, seja pelo “excesso de demagogia”. No caso venezuelano, vemos que o primeiro deu margem ao segundo. Os ingredientes de degeneração democrática, previstos por Aron há cinqüenta anos, estão lá.


Um dos critérios essenciais que distingue o regime democrático-liberal do totalitário, seguindo sempre a linha de Aron, é o acesso ao poder. Na forma de organização política tal qual desenvolvida historicamente nas sociedades industriais do Ocidente, o acesso ao poder é aberto à concorrência pacífica de múltiplos partidos, segundo regras claras e previamente estabelecidas, pelo exercício do poder político; a oposição é legalmente reconhecida. Nesse caso, o Estado é “ideologicamente laico”. A sociedade deve, numa democracia sã, respeitar as regras constitucionais assim como ter senso de compromisso – este último, essencial, implica o reconhecimento da legitimidade dos argumentos dos outros.


No caso do Estado totalitário, não há disputa pelo poder político – ao menos não legal e, certamente, não pacífica. O partido único confunde-se com o próprio Estado, e é por meio dele a via exclusiva de acesso ao controle do poder; é lá dentro, e só lá, que se dá a disputa pelo controle do Estado. Os dois pilares desse poder – o que o faz ser aceito pela sociedade, ou seja, que tenha legitimidade – é a fé, da parte dos partidários, no ideário preconizado pelo partido; e o medo, ou a certeza da impotência, dos que não crêem na mensagem do partido legal, na sua capacidade de ação.


Havia, na Venezuela, uma situação que era incompatível com um regime constitucional-pluralista: uma minoria fechada, consciente de si, que detinha a um só tempo poder social e autoridade política. Era, de fato, uma aristocracia. O regime democrático venezuelano encontrava-se mal-são. Existem, ainda segundo Aron, três inimigos irredutíveis dos regimes constitucionais-pluralistas: os tradicionalistas, nostálgicos de tempos – e regimes – passados; os economicamente privilegiados que se vêem ameaçados pela tendência de ampliação de direitos sociais às massas inerente ao regime constitucional-pluralista; os sub-proletários, que não se sentem contemplados na forma como funciona o regime. Na Venezuela pré-Chávez, portanto, o terreno era propício para uma crise das instituições democráticas, uma vez que existiam mais de um fator desestabilizante: uma aristocracia ciosa de seus privilégios, de um lado, e a massa da população, à margem do progresso econômico (o “sub-proletariado” de Aron), de outro. A classe política, representativa exclusivamente da oligarquia, não mais refletia os diferentes interesses da sociedade venezuelana. Havia o “excesso de oligarquia”. Chávez não aparece no vácuo.


Ainda útil para entender o caso venezuelano, seguimos com Aron. Ele destaca três modadlidades de passagem de um sistema constitucional-pluralista para um sistema de natureza outra: 1) o golpe de Estado, em que se dá a ruptura da legalidade constitucional; 2) a tomada legal ou semi-legal do poder e, ulteriormente, a convulsão revolucionária; e 3) a derrota militar, a invasão, ou mera ação, estrangeira. Chávez tentou, em meados da década de 1990, a primeira forma de construção do seu regime; falhou. Agora, por meio da segunda modalidade, ele leva adiante o seu projeto. Mas, em que consiste, concretamente, o projeto de poder chavista?


Chávez é presidente desde 1999. Já é possível traçar um perfil desse seu projeto. Não pelo que ele fala; mas o que tem sido feito naquele país. Coisas que poderiam ser atos isolados, ganham significado quando olhados em conjunto. Um dos primeiros atos de seu governo, então, foi a retomada da petrodiplomacia. Ou seja, ele liderou uma diplomacia frente a todos os membros da OPEP. A forte alta do preço do petróleo – até recentemente –, é, sem dúvida, pelo menos em parte decorrente desse seu esforço. Os petrodólores, ou os recursos que entram no país graças ao petróleo, que representa 90% do valor das exportações venezuelanas, são a base tanto de sua política doméstica quanto da política externa. Paralelamente a essa política deliberada de valorização do petróleo, Chávez seguiu uma política doméstica de reformas. Logo no seu primeiro ano de governo, promoveu uma reforma do Judiciário e deu lugar a uma Assembléia Constituinte. Atualmente, o acesso ao poder político passa por um processo de intensa centralização. Isso foi possível, ou tornado mais fácil, graças ao “boiocote” da oposição – que de fato boicotou a si mesma – que optou por não participar nas eleições parlamentares, abrindo caminho para a implantação do projeto chavista de poder sem maiores empecilhos. O Congresso só tem parlamentares da base de apoio de Chávez.


Some-se a isso o poder legislativo irrestrito, a ser concedido pelo Congresso ao Executivo (Chávez), a reeleição ilimitada, o banimento de meios de comunicação opositores, o fim das administrações locais (prefeituras) em favor de “conselhos comunitários” (sic), o expurgo de aliados do governo, uma ideologia estatal oficial, uma confederação de “partidos bolivarianos”, e fica claro que o que está em curso se configura, inequivocamente, numa centralização política gradativa. Nada disso, isoladamente, implica na constituição de um regime autoritário; tomado no conjunto, e visto em retrospecto, a evolução progressiva do processo centralizador, a direção é, sem sombra de dúvida, a de um regime totalitário, de partido único.


Paralelamente, os petrodólares financiam uma política externa populista, pois visa estabelecer diálogo diretamente com as populações estrangeiras, em detrimento das vias institucionais governamentais, diplomáticas. Trata-se, ademais, de uma política externa intervencionista, que não hesita em interferir em assuntos domésticos de outros países. Mas também é uma política externa hipócrita, pois não obstante a retórica hostil em relação a Washington, os americanos são seu principal parceiro comercial, responsável por comprar mais da metade de suas exportações.


As suas políticas, internas e externas, baseiam-se no preço supervalorizado, ainda que em linha descendente, do petróleo; é inconsistente porque depende exclusivamente ou primordialmente de uma questão volátil e contingencial, que não se sustentará no longo prazo; é inconseqüente porque não prevê a fase posterior ao petróleo – a indústria venezuelana se restringe a uns poucos minérios, materiais de construção, alimentos, têxtil e automotores.


Aron escreveu: “Os regimes não se tornam totalitários por um tipo de encadeamento progressivo, mas a partir de uma intenção original, a vontade de transformar fundamentalmente a ordem existente em função de uma ideologia. Os traços comuns aos partidos revolucionários que levaram ao totalitarismo são a amplitude das ambições, o radicalismo das atitudes e o extremismo dos meios”. Como creio ter mostrado aqui, o caso venezuelano se enquadra perfeitamente nessa descrição. O regime chavista preenche os quatro critérios estabelecidos por Aron para definir o fenômeno totalitário:


  1. Um partido que detém o monopólio da atividade política;

  2. Uma ideologia, cuja autoridade é absoluta e se torna a verdade oficial do Estado

  3. O Estado detém o monopólio dos meios de força assim como o dos meios de persuasão;

  4. A maior parte das atividades econômicas e profissionais são submetidas ao Estado.


Na Venezuela, observa-se um movimento gradual na direção de um partido único, de um Estado partidário. Os partidos que apóiam o governo estão em vias de juntar-se sob uma única direção – o Partido da Revolução Bolivariana. A oposição, à margem da vida parlamentar, também é intimidada em outras frentes – de que o banimento de uma estação de TV opositora é o melhor exemplo. Matéria recente da Folha de São Paulo aponta para a passividade das classes média e alta, que já não crêem na possibilidade de mudança – o fator medo. A retórica – e a prática – chavista não aceita qualquer tipo de compromisso com os interesses divergentes. Quando somamos a esse cenário as nacionalizações de setores estratégicos da economia, recém anunciadas, cumpre-se o quarto critério. Questão de tempo ou de graduação, o fato é que há, na Venezuela, uma ditadura em formação.


Não deve ser fácil executar a política externa brasileira nesse cenário nebuloso e em constante movimento. Trata-se de definir uma nova estratégia diante de um contexto regional em vias de transformação, que conta, destarte, e pela primeira vez desde o fim do período autoritário na região, no anos 80, com um país em que vige um regime progressivamente mais fechado. A índole democrática do Presidente Lula contrasta com o ímpeto totalitário do Presidente Chávez. Cabe ao Brasil o desafio de conciliar os interesses brasileiros, que incluem a defesa incondicional da democracia do país, mas também seu desenvolvimento sócio-econômico, e a integração regional. Ou seja, devemos deixar claro nossas enormes diferenças no plano interno, nossa inequívoca vocação democrática, mas não nos furtarmos a abraçar nossos vizinhos naquilo em que convergirmos na política hemisférica.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Arroubos poéticos (mais pra arrombos.... hehehe)

Eu disse

eu disse:
"nunca mais quero te ver,
Eunice".
Deixar pra trás todo amor, todo horror, toda chatice.

O que passou, passou, acabou,
Eunice.
"Nunca mais, até mais, so long",
Eu disse.

** **

Lembro

... Agosto, setembro,
outubro,
novembro...
E eu
ainda
lembro.

Do dia,
um dia,
eu,
você:
aquela agonia.

Você,
no seu afã,
até parecia...
uma ressaca
de Gudam-Garam.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Mensagem enviada para a Ouvidoria do PT - ouvidoria@pt.org.br

não recebi resposta... pretendo repassar para os parlamentares petistas do meu estado.

Prezado (a) Senhor (a):

Como eleitor e militante do PT - voluntário, aliás - e árduo defensor tanto do governo federal como da gestão na minha cidade natal de Recife, gostaria de deixar registrado a minha profunda desaprovação em relação à candidatura do Deputado Arlindo Chinaglia para a presidência da câmara.

Por razões comezinhas, menores, estaduais - mais uma vez os interesses do PT/SP prevalecem em detrimento de interesses do país - o PT mutila a coalizão de centro-esquerda, construída tão cuidadosamente pelo Presidente Lula e almejada por todos nós cidadãos progressistas. Na ânsia por espaço de poder, o PT/SP está pondo em risco toda a coesão da coalizão. A que preço vai sair essa candidatura? De princípio, vimos que ela alienou a "esquerda" da coalizão (PSB, PCdoB, PDT), preferindo o seu "centro". Para piorar, com a retirada do apoio tucano, agora o preço a ser cobrado pelos "aliados" de ocasião, de direita - PP, PTB etc - será cada vez mais alto. O que implica cargos distribuídos - e eis mais uma contradição, como se não houvesse razão suficiente para demonstrar a insensatez da candidatura Chinaglia: ao buscar mais espaço de poder, o PT/SP faz com que o PT perca mais espaços de poder em prol dos "aliados" da candidatura Chinaglia.

Em suma, aliena-se os partidos de esquerda, junta-se a partidos de centro-direita, e ainda dá-se-lhes mais espaço na esfera do governo federal. Qual é a lógica, portanto, da candidatura Chinaglia, que vai contra um dos mais fiéis e esquerdistas aliados do Governo Lula? Seria mais uma vez uma disputa estadual a prevalecer sobre interesses nacionais?

Basta olhar nas comunidades petistas do Orkut para perceber que esse meu sentimento de insatisfação com essas atitudes do PT não é algo isolado. Ainda há tempo para se consertar o estrago.

Sinceramente,

--
Bernardo Jurema


****

Quem quiser fazer pressão a favor de Aldo, clique aqui.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Debate - se não aqui, no OI

Se aqui nem sempre o que escrevemos provoca algum tipo de reflexão, um e-mail que enviei para o programa de rádio do Observatório de Imprensa gerou um interessante debate (clique aqui pra ler), com participação do próprio apresentador e de outros ouvintes. Vale a pena dar uma olhada.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Debatendo a Imprensa brasileira

A imprensa brasileira é ruim, mas estaríamos muito pior sem ela. Parece necessário, num país com um passado como o do nosso, deixar claro este ponto antes de adentrar-se numa discussão a seu respeito. Dito isto, vamos adiante.


A imprensa brasileira, inserida numa cultura paternalista e autoritária, tem um viés corporativista e auto-indulgente. Debatê-la, ainda mais em face de seu comportamento recente, faz-se mister.


Os meios de comunicação, impressos ou eletrônicos, exercem papel essencial ao servir de canal – mediatizar, portanto – entre governantes e governados, assim como entre governados e governados. Não existe, previsto constitucionalmente, remédios para seus potenciais excessos, ao contrário do que ocorre em relação às instituições republicanas, que se limitam umas às outras. Em sociedades capitalistas desenvolvidas, a oferta de informação é balanceada e variada – de que, talvez, a Inglaterra seja o melhor exemplo. Um sistema judiciário eficiente, que atenda satisfatoriamente a população, garante que exageros por parte da mídia sejam coibidos ou, ao menos, passíveis de contestação. Ademais, uma legislação que regule a concentração dos meios de informação – como os que existem nos Estados Unidos e na Europa – torna todo o processo de divulgação de informação, senão idealmente, com certeza razoavelmente diversificado.


No entanto, num país como o Brasil, com suas profundas desigualdades de toda ordem, sobretudo econômicas, mas também culturais (no sentido daquele conjunto de informações socialmente valorizadas), os meios de comunicação tendem a pertencer a um minúsculo grupo social, e a dirigir-se àqueles poucos segmentos da sociedade que os consomem. Ou seja, são uns pouquinhos falando para uns poucos. Para piorar o cenário, esses poucos com acesso à informação são desprovidos de senso crítico.


Diante desse quadro, preocupante, a imprensa apresenta algumas falhas que agravam ainda mais o contexto. Eu destacaria três.

  1. A pauta da grande imprensa “nacional” é provinciana em sua cobertura. Não temos uma imprensa de fato nacional. Não sabemos o que ocorre na periferia da centralidade Rio-São Paulo. Por outro lado, questões estritamente estaduais, ou, quando muito, regionais, tomam proporções nacionais.

  2. A cobertura política (mas não apenas ela, frise-se) é superficial, limitada. Prevalece a cobertura “política”, para usar a distanção feita por R. Aron, no sentido de “politics”, ou seja, a esfera em que se dá a disputa entre os diferentes grupos que concorrem pelo exercício do poder. Tal cobertura se dá em detrimento de uma abordagem mais analítica da “política” no sentido de “policies”, ou seja, o conjunto de ações programáticas que estão em disputa, por meio dos partidos, sindicatos, associações, no âmbito da “politics”. A cobertura perde em densidade e reduz o sentido de política, desacreditando-a perante a sociedade.

  3. Finalmente, e não menos importante, a grande imprensa corporativa tem a sua agenda política própria, que reflete tanto os interesses econômicos, como a visão de mundo, dos seus donos e/ou principais patrocinadores. Um exemplo bem esclarecedor foi apontado por Luis Nassif, em seu excelente blog, ao comentar a insistente pressão dos principais meios pela “reforma da previdência”. Ou, mais recentemente, a discussão em torno do pedágio das rodovias. Típicos casos em que a “notícia” se submete à lógica da ideologia/interesses dos patrões.

Esses três pontos acima representados são questões que apenas as próprias empresas jornalíticas podem resolver. Já aqules três anteriormente apontados dizem respeito a medidas que a sociedade pode tomar no sentido de tornar o acesso à informação mais democrático e mais plural, refletindo de maneira mais aproximada a imensa diversidade social, cultural e política do país.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Saddam Hussein: should he be executed?

Há cerca de dois meses atrás, tivemos que escrever um texto respondendo a essa questão, colocada pelo professor de Inglês, Mr. Kelly. Apesar de ser tarde demais - Saddam já foi enforcado, como sabemos - as conseqüências de seu assassinato, causado mais por seus méritos - insubmissão aos interesses americanos e capacidade de união nacional - do que por seus crimes - dos quais temos amplo conhecimento -, comprovam o argumento central do texto. Apresento aqui o que respondi:

Despite the fact that the war against Iraq was a mistake from the beginning, motivated by ideology and geopolitics rather than by facts and international justice, there are philosophical as well as political and pragmatic reasons as to why Saddam Hussein should no be executed.

First of all, the death penalty is outright wrong. It is inhumane and prone to unfair rulings which, once carried out, cannot be reversed. Suffice to say that the United States is the only developed country where such a brutal penalty is legally permitted: the others are ruthless dictatorships, such as China, Saudi Arabia and Cuba. That information speaks for itself.

Furthermore, there is no empirical evidence that the death penalty really inhibits people from committing crimes. The US, despite the death penalty, has the world's largest, in proportion to its total population, number of prisoners. And it should go without saying that killing is wrong and should not be encouraged, much less by a the State.

To make matters more complicated, we are dealing with the iconic Saddam Hussein, who represents radically different meanings to the opposing groups in Iraq, in a context that all but the American Government consider to be a civil war. Saddam raises diametrically contradictory feelings. In a society in shambles, where a puppet government bears very little authority and in which violence is widespread, the killing of Saddam will not help in creating a much-needed atmosphere of compromise and cooperation. Besides, it passes - to an already fractured society - a message of hatred and of legitimation of violence. Not to mention the lack of independence that the Court has shown throughout the entire process.

The situation in Iraq is chaotic. The geopolitical consequences of Iraq's uncertainties are just now being felt. The coming together of Syria, Iran and Iraq creates a threat to the long-term development of political opening in the Middle East. The American-led war has thus far achieved the contrary of what it intended to in the first place. The killing of the former leader of Iraq, ousted by an illegimate war, tried in an illegitimate Court, can only add more confusion to what already is a mess.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Leitura indispensável de fim de ano

A edição de fim de ano da CartaCapital. Ótimo subsídio para refletir o ano que passou e pensar o ano que vem aí.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Pensando a África

compartilho mais um e-mail (este foi o outro) enviado à família por minha mãe, por achar válido aproveitar sua condição de observadora inserida lá no meio, muitas vezes nos rincões de Moçambique, com sua típica capacidade analítica privilegiada.


"Descobri, lendo um livro [a luta pela independência. A formação das elites fundadoras da frelimo, mpla e paigc, de dalila cabrita mateus], o conceito de negritude. Isso me chamou atenção.

António Jacinto é um poeta angolano. Muito engajado, à época, na luta pela independência, é dele por exemplo um poema que expõe a dominação de uma raça pela outra: “o meu poema sou eu-branco/ montando em mim-preto/ a calvalgar pela vida”. Pois bem, ao se publicar uma coletânea de autores africanos, uma corrente tentou barrar a publicacao de seus poemas pelo simples fato de ele ser branco....[afinal seus poemas foram publicados]

No entanto, uma outra corrente de poetas concentravam a atenção no negro dos estados-unidos da américa [pra satisfazer bernardo], que apesar de serem negros e portanto com uma grande identificação física, tinha enormes diferenças culturais... [isso era nos anos 1940-60]

Quem é mais negro, um antonio jacinto, ou um negro da geórgia-ee.uu.?? é aih que entra o conceito de negritude, que não diz respeito a cor da pele, mas as apropriações culturais. A própria burguesia negra da áfrica se comportava como brancos europeus... e ainda hoje. Enquanto que os negros norte-americanos tinham valores mais brancos que antonio jacinto....[alias, diz cabrita mateus, “fora de angola, ninguém sabia que jacinto era branco...]. e a conclusão, é que existem “fortes diferenças culturais entre os diversos grupos negros, africanos ou americanos”

Outra coisa que me chama a atenção é uma citação que ela faz do autor martinicano Frantz Fanon [no livro os condenados da terra], que denuncia o fato de o povo [dos países que vão ficando independentes] estagnar “lamentavelmente numa miséria insuportável, sem consciência da traição inqualificável de seus dirigentes ... Os privilégios se multiplicam, triunfa a corrupção, os costumes corrompem-se. Os corvos são agora muito numerosos e vorazes, dada a magreza do espólio nacional”

Outro livro,que não conheço mas gostaria de ler é A África começa mal, de René Dumont.

Ele denuncia a casta privilegiada de ministros, deputados e funcionários que, nos novos países africanos equivaliam a corte de luis XVI, pela mentalidade parasitaria que ostentavam e produtividade quase nula. Referia, ao fausto, multiplicação de viaturas, recepções à européia, e reserva nos bancos suíços para velhice: “para demasiadas elites africanas a independência consistiu em tomar o lugar dos brancos e em gozar as vantagens muitas vezes exorbitantes até aí reservadas aos coloniais. Denunciava ainda a ambição de funcionários subalternos: ‘o africano arrivista diz-se obrigado a tomar conta não só da família, sempre numerosa, mas muitas vezes dos amigos e até da aldeia.”

A questao é que realmente começou mal, e ainda continua até hoje, sem mudança... os exemplos são numerosos por toda áfrica....

Prontos, foi so pra compartilhar com vocês algumas leituras, nesta minha estadia solitária em Beira.

Cheiros, aninha"

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Bate-papo político

eu e um amigo comentando a notícia da derrota do candidato do pt, paulo delgado, à vaga do tcu, para o candidato de acm. a teoria que comentamos para explicar a derrota, aliás, foi confirmada em nota no painel da folha de hoje.

(19:45:37) b j: essa base aliada comecou bem hein!
(19:45:40) b j: como isso aconteceu?!
(19:46:13) capadócio tibungando: acontecendo
(19:46:30) capadócio tibungando: pra vc ver o nivel de articulação e prestígio do pt nessa casa
(19:46:32) b j: puta merda...
(19:46:35) b j: é
(19:46:55) b j: e ainda insistem nessa BURRICEde lancar chinaglia
(19:47:02) b j: é foda é foda
(19:47:06) capadócio tibungando: exatamente
(19:47:09) b j: será que foi um se-ligue?
(19:47:25) b j: será que o aldo estaria por trás disso p. ex?
(19:47:39) capadócio tibungando: era muito mais inteligente se articular em torno de alguém do psb, por exemplo; mas o pt tu sabe como é...
(19:47:42) capadócio tibungando: num sei
(19:47:46) capadócio tibungando: mas é capaz
(19:47:52) capadócio tibungando: o pcdob é capaz de tudo
(19:47:57) capadócio tibungando: acredite
(19:48:20) b j: eu acredito
(19:48:28) b j: e, nesse sentido, até concordo com o que fizeram
(19:48:44) capadócio tibungando: ai eu num acho não
(19:48:49) capadócio tibungando: pq delgado num merecia
(19:48:56) capadócio tibungando: se fosse outro, até tudo bem
(19:48:56) b j: apesar de delgado ser uma figura excelente. pessoalmente, nao merecia
(19:49:05) b j: mas ele foiuma escolha, uma indicacao do pt.
(19:49:17) b j: que tem sistematicamente boicotado aldo, um fiel aliado de lula.
(19:49:27) b j: é uma puta sacanagem o que o pt faz com aldo
(19:49:30) b j: desde que era ministro
(19:50:46) capadócio tibungando: talvez vc tenha razão
(19:50:57) capadócio tibungando: mas como eu odeio o pcdob, quero mais é q aldo se foda
(19:51:11) b j: é foda
(19:51:51) b j: num sistema como o brasileiro, por mais partidário que eu seja - e eu sou totalmente contra personaliza política - é difícil isso no brasil.
(19:52:02) b j: aldo é um dos políticos mais sérios do país.
(19:52:05) b j: mas........
(19:52:12) b j: tem esse aspecto a que vc se refere.
(19:52:13) b j: é foda.
(19:53:05) b j: mas eu acho que o pt deveria fechar com aldo. até em reconhecimento ao trabalho dele. ele pegou um tremendo abacaxi, a camara tava numa crise danada, e normalizou as coisas. merece crédito. e o pt constrói condicoes pra daqui a dois anos.
(19:53:39) b j: pq pelo andar da carruagem, tá o maior cheiro de déjà-vu....
(19:54:57) capadócio tibungando: tá mesmo
(19:55:18) b j: a turma nao aprende.....
(19:55:32) b j: e quem seria o severino 2007?
(19:55:34) capadócio tibungando: dizem q se pt, pmdb, pfl e tal lançarem candidato, aquele ciro nogueira seria o próximo severino
(19:55:51) b j: putz
(19:56:00) b j: mas psdb e pfl fecharam com aldo nao é?
(19:56:19) capadócio tibungando: fecharam nada
(19:56:30) b j: oxe, mas no jornal saiu isso né?
(19:56:35) capadócio tibungando: sai
(19:56:44) capadócio tibungando: mas sai todo tipo de boato todo dia
(19:56:48) capadócio tibungando: ainda tá cedo
(19:56:54) capadócio tibungando: tem muita agua pra rolar
(19:56:57) b j: é verdade
(19:57:02) capadócio tibungando: inda m,ais no meio dessa confusão toda
(20:02:25) b j: po, nem vai dar pra tu vires pra pelada né?
(20:04:47) capadócio tibungando: vai nada
(20:04:59) b j: que merda
(20:05:10) b j: bom
(20:05:13) capadócio tibungando: só vou poder sair 20h45
(20:05:17) b j: looking at the bright side
(20:05:28) b j: significa que os deputados estão trabalhando!
(20:05:39) capadócio tibungando: isso pra mim é péssimo
(20:05:45) b j: hahaha



***

Enquanto isso, ouve-se por aí todo tipo de boatos sobre o ministério de lula... viver em brasília tem dessas coisas. compartilho com vocês dois. o deputado federal mais votado do piauí, do pmdb, é um médico e teria sido convidado para a pasta da saúde. já o nosso maurício rands, estaria contado para transportes. terão esses boatos algum fundo de verdade? quem sabe. mas que é divertido conviver com esse tipo de especulações, ah, isso é!

***

Hoje saiu o edital. pois é, enquanto o presidente lula segue na agúria da formação ministerial, bush come o pão que ele próprio amaçou e chávez se elege a fidel do século , minha maratona pessoal continua... ui!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Missing Berlin

by Letícia Jurema

I am here today, at the request of my brothers Bernardo and Diogo, to write about something; whatever I want to, they gave me complete freedom. All that matters is that I write. It was in ancient times when I last picked up a pen and a piece of paper to write; now I have my laptop laying on my lap in front of me, though I must admit that it has been a long time since this situation has taken place. Actually when I think about it, the last time I wrote a text for my brothers was exactly a year ago, in Berlin freezing my ass off, even though I was within the warmth of my home. An entire year has passed since then. I have lived the four seasons of the year in Germany and have had two months of readaptation period here in Salamanca. ¿What conclusions have I drawn from this experience? This is what I am going to try to illustrate in this text, however I cannot promise anything, for I am not sure I have any conclusions to make.

The first couple of months were of reflection, intellectual and emotional solitude and muteness. There was a clear barrier that separated my world from the outside world, the socially interactive world. I was missing the key that liberated me from my world to the social one, idiom. My only instruments of interaction were body language and my capacity to read facial expression. My greatest weapon was my smile; in this point I must agree with Quentin Tarantino, personality goes a long way!

(I still have no clue as to the point of this text! Just goin´ with the flow!)

Although my German eventually became better, the cultural knowledge that I was able to grasp was limited. My capacity to understand the conversations around me was limited, I was not able to make a complete analysis of each situation, though I could most of the time deduce the main idea.

However restricted my ability to communicate was, I was able to understand the Berliners a little bit better, I was able to pick up on that energy specific to Berlin, that spirit that only Berlin possesses. In order to notice this spirit one must not speak perfect English. In the beginning I did not see anything special, I refused to see it, I was too introverted, living detached from Berlin. But once I decided to open my eyes I saw with clarity the beauty of this city, its uniqueness.

The concepts of freedom and organization here work together as I have never seen in other capitals. So much was permitted and so few people took advantage of the permissive situation. At this point I cannot help but think of Spain as the paradigm of the contrary (as the complete antagonist). The year I arrived in Salamanca was the year that an unprecedented law was passed, “ la ley anti-botellón” . This law banned the people from drinking in public, in the streets. At first I could not understand why, but when I contrasted this reality to that of Berlin, I was able to understand far better. Here, in Salamanca, when they drink in the streets there is no respect for anything, vandalism takes place, it's noisy and the scene afterwards is always of broken bottles, plastic bags and garbage cans tipped over. This is a typical “botellón”. So then I think, “no wonder they prohibited it!” In Berlin, however, I can drink a bottle of beer in the metro, in the streets, in a park, almost anywhere that I please (limited to common sense that is!); in fact, the majority of the Berliners make use of this liberty and without causing trouble.

The number of policemen was also an aspect that caught my attention. At first I did not notice it, but when I thought about it, I asked myself: “Where are all the policemen?!” Once again I must compare Berlin to Spain. In Salamanca I walk everyday to my university, approximately a 10-minute walk, and in that period I may see about 2 police cars drive by (sometimes more, sometimes less). Salamanca has 90,000 inhabitants. In Berlin it took me far more time and space to see a police car. Berlin's population is of 3,4 million people. I must say that there are exceptions, for example Labour Day in Berlin is full of policemen everywhere, but there is a historical reason for that, it is known that on this date a battle between anarchists and policemen take place!

The list of examples that demonstrate the uniqueness of Berlin is too long for this humble text. I could go on and on. In Tiergarten, for instance, I saw an interesting conversation between the park's gardener and a man. They were both standing while talking, what caught my attention was the fact that the man was completely naked! And they were having a normal conversation!! I tried to imagine this situation in Spain or Brazil, but it was just too comical to imagine. The way the Berliners were natural about their bodies fascinates me, even among friends the lack of puritanism may be easily observed.

As I said, I could go on, but won´t! There are just too many great things to say about Berlin! My suggestion is for anyone who is thinking about travelling, just go to Berlin; just one thing, I would advise you to go in summer time!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Imperialismo cultural brasileiro?

Posto aqui comentário de minha mãe a respeito de um texto que eu a enviei sobre "imperialismo cultural" brasileiro na África lusófona.

"A impressao que tenho é que isso é só mesmo tema pra encher lingüiça de congressos. Aqueles encontros em que se encontram sempre as mesmas pessoas, para se dizerem sempre as mesmas coisas. Pena é que muito dinheiro se vai nisso, que poderia, por exemplo, estar sendo aplicado para aplacar outras questões muito mais prementes em áfrica. Ou então enriquecendo os governantes corruptos [desculpe a redundância] daqui da áfrica.

Pelas minhas andanças aqui em moçambique verifico ainda uma forte predominância das línguas nativas [13]. As crianças que não chegaram a escola, só falam a lingua local. fora de maputo e ate em maputo mesmo, os jovens nas ruas falam entre si, na língua nativa.

A população em geral [não falo das atuais elites dirigentes], todos eles falam português como segunda língua—falam com sotaque nativo, mal e escrevem pior ainda [jorgen (norueguês, coordenador do projeto) fala e escreve português mais correto do que carlos roque (o gestor do projeto)]. Alguns deles são inclusive capazes de saber a procedência de tribo pelo sotaque com que se fala o português!

A ex-elite mestiça ou branca ainda residente, remanescente dos portugueses, porem, fala o português de portugal. Eles aprendem português como primeira língua, e é claro, raríssimos falam changana [a língua nativa mais falada aqui]. Fiquei chocada uma vez na casa de um desses remanescentes da ex-elite portuguesa quando ouvi a expressao ‘pretogues’ que usaram, ao referirem-se à fala dos pretos em português.– isso é mais que uma questao de influencia linguistica de tv, é sócio-linguistico, no entanto, ‘i’d bet this has not been discussed at the congress’

A grande e quase total maioria da população de moçambique não tem televisão em casa... aliás, não tem nem água nem saneamento nem luz elétrica em casa. Aliás, rádio é raríssimo nas casas... aliás...

O povo, o povo mesmo, não tem nenhuma hostilidade, são simples, ingênuos, amostrados, e tem uma dificuldade de entender e de se expressar em português, seja qual for --de portugal ou do brasil! O que faz medo é o que a globo esta a fazer com os miúdos das elites, os filhos dos dirigentes, estes vêem a globo internacional! Pelos canais abertos também, a influencia da tv, das novelas da globo, em particular, é inegável: domingo passado, estava eu no quarto do hotel em cuja entorno existem uns três prédios pardieiros cheio de gente, quando ouvi um grito, vindo de um desses prédios, de um meninote: ‘mmmmmmmmmmmiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrnnnnaaaaaaaaaaaaaaaaa” . ta passando aqui, a novela alma gêmea e este é o grito de um de seus personagens que, ao que parece, esta na moda aqui.

Esse menino provavelmente fala changana, pretogues e tem o sonho de ser ronaldinho gaúcho e de conhecer o brasil, que a globo introduz ao mundo [a globo é a hollywood das novelas, e vende para o mundo a idéia de brasil ,que os filmes americanos vendiam do american way of life],,, Essa influencia é também terrível pras crianças que falam português brasileiro ... hehehe, para adultos que falam português brasileiro também, hehehe. E disso o congresso também não deve ter tratado!


cheiros, aninha"

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Um filme necessário

Eu vi ontem o Baixio das Bestas, no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. Ainda não defini se gostei ou não. É um filme forte, que impacta - diante do qual não se fica alheio. Houve inclusive quem saísse durante a exibição. É o tipo de filme que requer ser digerido, e ainda estou no processo. Mas é um filme necessário. O tema é importante. Me fez lembrar aquela frase de um russo, que diz que o grau de civilização de uma sociedade é medido por como se trata os seus presos. Outra maneira de medir seria observar a maneira como os seus integrantes se relacionam com o sexo - o personagem de Caio Blat é um exemplo disso, ou o do avô da menina. Seria algo tipo: "diga-me como trepas, que te direi quem és" coletivo. Do ponto de vista técnico, é um filme absolutamente bom. E a Zona da Mata canavieira é muito fotogênica, fica linda na telona do cinema - eu passava várias férias nessa região e sempre achei essa paisagem bucólica e século 19 encantadora.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

The challenges facing the new government

The re-election of President Lula da Silva puts into evidence some of the mains issues facing the Brazilian society today.

In 2002, when Lula and his Workers' Party (PT) won the elections Brazil witnessed the first genuine power change since the military coup of 1964 interrupted the country's political process, postponing its maturing.

The first term of President Lula was historic in itself. But it was al the more meaningful in the measure that it was able to keep the country's economy stable while at the same time promoting a long-needed wealth distribution by means of a series of innovative and efficient public policies.

President Lula's apporval ratings and expressive vote are all the more impressive in face of the systematic smearing and violent rhetoric to which his government and his party were subject to for over a year, by opposition parties and the big corporate media.

In his new term, President Lula will have to once again conciliate a progressist agenda in a conservative society - which is particularly well represented in the political system. Moreover, he will have to deal with an elitist media, which voices the economic interests of the hegemonic sectors of Brazilian society, while trying to stand for the unrepresented majority, who have no material means to voice their desires - except for voting.

So, in a few words, what is at stake at this point in Brazil's history, is a deepening, a maturing, of our democracy. We are back to the stage when the military seized power in the 1960's, when the social movements were more organized. President Lula's government is a turning point: from now on, upcoming governments will have to take into account the demands of the voiceless majority, with effective policies.

As for the traditional economic elite, they will have to grasp this new government. The old idea that "the pie must grow in order to be shared" no longer holds. The press failed miserably in its purpose to de-moralize PT and de-stabilize the government: society as a whole has got to reflect upon this, in face of the huge concentration of the media in the hands of a few economic groups, with particular political agendas.

President Lula has a conciliatory nature. That will come in handy, as he will need to find a common ground to democratically promote social transformation, expanding social rights for the poor; a process of democratization of the media must come in parallel to that process. Most of all, President Lula must act as a bridge between the two groups - the haves and the have-nots - and to make the former understand that the benefits of the latter are also in their best interests.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Eu gosto de Brasília

Já me habituei à surpresa do interlocutor, sempre que perguntado se gosto de morar em Brasília, diante da minha resposta afirmativa. Tornou-se um grande clichê falar mal da Capital - principalmente por parte daquelas pessoas que não a conhecem.

Em parte, tem a ver com a questão política. Os brasileiros do resto do país com freqüência se referem, pejorativamente, "àquele povo de Brasília". O erro crasso desse tipo de comentário é que "aquele povo" são os representantes do Brasil inteiro que lhes representam.

O fato de a cidade ser nova e diferente - e no começo, de fato, não havia nada aqui - é outro motivo que embasa a crítica. Mas, trata-se de uma posição presa ao passado, que não condiz com a realidade dinâmica, cultural, econômica e social, do Distrito Federal.

Não obstante o plano original beirar o neo-fascismo e ser totalmente desumano - assunto sobre o qual escrevi anteriormente, aqui nesse texto -, Brasília surpreende justamente naquilo que "deu errado". Os seus habitantes trataram de humanizar um plano totalmente desumano, trazendo o elemento, essencialmente humano, do imponderável.

Há uma poética nessa cidade, muito específica e original. Basta educar-se o olhar, porque é uma paisagem inusitada, inesperada. As árvores são refúgios dos muitos e variados pássaros - os bonitos, os feios, os grandes e os pequenos, os exóticos, os tropicais, os triviais, os agressivos, os meigos, os migrantes, os que estão aqui desde sempre. A natureza da cidade não é parcimoniosa; todos os fenômenos naturais da cidade são exuberantes. As tempestadades são cinematográficas, com trovões assustadores e raios que rasgam o céu cinzento e pesado, quase desabando sobre nossas cabeças. O pôr do sol é algo de tirar o fôlego, com cores e formas únicas - possível de ser apreciado graças a uma legislação urbana que preservou o horizonte. O período da seca, chegando ao extremo de menos de 20% da umidade relativa do ar (menos do que o Saara!), provoca uma paisagem catastrófica e, paradoxalmente, feliz - pois há tantas pessoas fora, nas calçadas, no Parque da Cidade (o maior parque urbano do mundo), andando, passeando, namorando, pedalando, jogando, dormindo, se bronzeando.

Até as ruas têm sua poeticidade - as avenidas e ruas, sempre uniformes e simétricas, com os carros enfileirados, como formigas coloridas gigantes, indo ao trabalho, voltando para casa. As pichações nas passarelas subterrâneas que cruzam o Eixão revelam uma população criativa (está nessa cidade o maior mural de grafitagem do mundo). O silêncio profundo das noites brasilienses é algo igualmente avassalador - exceto na época das cigarras, que cantam durante uns dois meses, o dia inteiro e noite adentro, anunciando o prenúncio da chuva, antes de voltarem para debaixo da terra e lá ficarem, cumprindo seu ciclo, até setembro do próximo ano.

Tudo isso sem mencionar o lado humano. Há gente de todos os cantos do país, todo tipo de gente. Esse é o verdadeiro "melting pot" nacional. E uma passada no Conic, um centro comercial popular, onde se localizam as sedes dos partidos de esquerda, de sindicatos, o cinema pornô, uma Igreja Universal, o teatro universitário, uma loja massa de camisas estampadas, lojas de skate, lojas de cultura negra (rap, hip hop) - sem mencionar minha ex-imobiliária. Lá é a coisa mais próxima de um "centro de cidade" normal: as pessoas andando, passeando, descansando (no pátio interno). Tudo muito corbusiano, claro: concreto por todos os lados. E andar por entre os blocos, tentar identificar as particularidades das quadras, que no plano original deveriam ser rigidamente semelhantes. E a surpresa de ver surgir, pelo pilotis, uma paisagem nova do outro lado do bloco. E o Lago Paranoá, que ameniza a seca da gente em seu auge, propicia algumas das mais belas vistas da cidade, como a da ponte JK iluminada ao fundo, vista do CCBB, por exemplo. Sem falar dessa área de lazer, convidadtiva para uma nadada, como no fim do Lago Sul, na Hermida Dom Bosco....

Ok, tudo bem que isso se restringe ao Plano Piloto (quase nunca saio dessa parte da cidade), que quando chove pra valer alaga tudo, que tem quem passe mal com a seca, que a Ponte JK é super-mega-faturada, que se você reunir seus amigos no seu apartamento e falar alto demais os vizinhos de bloco não ficarão contentes e poderão xingar-lhes grosseiramente, que as cigarras às vezes encham o saco, que a cidade tem um problema grave de excesso de automóveis... Mas e qual cidade não tem problemas? Ter senso crítico não implica ser chato. E esse texto é só pra falar bem!

sábado, 18 de novembro de 2006

Onde estou me metendo? (Ou: do que eu me livrei!)

São folclóricas as histórias sobre a fofocagem, as disputas de egos e as tiradas maldosas entre os itamaratecas. Soube de uma embaixatriz uruguaia (creio) que, certa feita, classificou os diplomatas brasileiros em três categorias: neuróticos, gays e esdrúxulos. Outro dia, fiquei sabendo que cada nova turma do Instituto Rio Branco recebe uma alcunha pelos diplomatas incumbentes. O teor dos nomes das turmas calouras dos anos recentes revela bem o espírito ácido, cáustico, afiadamente mordaz, sardônico - "wry", diríamos em inglês, em uma palavra (que língua!) - prevalecente no MRE. Uma turma de uns anos passados era "Jardim Feio", em alusão aos atributos físicos dos calouros; a do ano passado, que teve a "polêmica" do inglês, que deixou de ter caráter eliminatório, é "Jardim monoglota". A desse ano, que, pela primeira vez, abriu 105 vagas, é "Turma KY", que passa fácil...

Pensando bem, acho que vou gostar disso!...

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Aproveite piauí enquanto há tempo

Eu sempre me perguntei porque não havia, no Brasil, uma publicação com textos bem escritos, como os da New Yorker ou da The Economist. Repare que o verbo "haver" encontra-se no pretérito, não por acidente: desde o mês passado, surgiu uma resposta à minha indagação. Há uma nova revista no mercado editorial brasileiro - a piauí.

Como defini-la? Perguntado por um amigo, eis minha explicação: não é sobre nada, é sobre qualquer coisa. À guisa de explicar de que se trata, nada como recorrer a comparações. É uma espécie de New Yorker brasileira, com formato da Caros Amigos (este é o seu grande defeito - ela é grande e incoveniente, aspecto em que, ademais, poderia ter se espalhado também na tradicional revista americana).

João Moreira Salles, publisher da piauí, assim a definiu, em entrevista ao Valor Econômico: "Vale qualquer assunto que não possa ser resolvido no Google, e que exija de quem escreve o trabalho de ir, voltar, e fazer tudo com a sola do sapato". Eu poderia elencar as excelentes matérias, os assuntos instigantes, muitas vezes originais, abordados... mas esse definição já se basta.

A primeira edição da revista, a de Outubro/2006, foi um primor. Esperei pela segunda, antes de confirmar a opinião: é uma grande revista (figurativa e literalmente). Uma revista mensal com textos bem escritos, inteligentes, sobre assuntos os mais variados e visualmente agradável... Parece bom demais para ser verdade, no país que detém o "privilégio" da revista de maior circulação do mundo (a Veja, com os seus mais de um milhão de exemplares semanais e suas denúncias inócuas ou "reportagens científicas" sobre dietas e quetais). Fica a dica.

domingo, 12 de novembro de 2006

Alerta

Quando você começa a achar que a horrenda W3 norte "tem seu charme", é sinal de que está na hora de respirar novos ares.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Conclusões eleitorais - desmistificações

O fim das eleições presidenciais nos permite tirar algumas conclusões. Em primeiro lugar, acho importante destacar três mitos do discurso hegemônico desfeitos:

1) O PT morreu. Esse diagnóstico taxativo foi repetido por inúmeros analistas, comentaristas, cientistas políticos e políticos. No entanto, o Partido elegeu a maior bancada da Câmara, tendo sido o partido detentor da maior fatia dos votos absolutos. Além disso, elegeu cinco governadores, incluindo aí a Bahia e o Pará. Mais do que isso, o segundo turno mostrou a força da militância petista, que contribuiu inequivocamente para as viradas como a observada aqui em Brasília - onde a votação do Presidente Lula teve um aumento de 53%. Paralelamente, PMDB, PSDB e PFL viram o número de estados que governam diminuir. O PFL sai particularmente enfraquecido, tendo perdido para o PT dois estados em que era a força hegemônica tradicional, Sergipe e Bahia. Hoje, resta-lhe o Distrito Federal - e ainda assim, sob o comando de José "Painel" Roberto "Chorão" Arruda - um oportunista, que não tem nenhum apego ao PFL ou a qualquer partido que não o seu projeto político pessoal.

2) As áreas mais eficientes do governo são as não-petistas. Apesar de esse ser o senso comum na grande imprensa corporativa, o resultado eleitoral desmente essa idéia. Os principais programas ou políticas públicas que levaram ao forte apoio popular do Presidente Lula são de ministérios comandados por petistas durante todo o governo ou a maior parte dele - Desenvolvimento Social, Educação, Cidades, Saúde, Cultura - além das políticas setoriais, como as para as mulheres e para os negros. Os dois ministérios que os setores conservadores propagavam como os mais eficientes - Agricultura e Desenvolvimento e Comércio - não figuravam entre os mais bem avaliados. Tanto que o Presidente Lula foi derrotado (ainda que por pequena margem) em todos os estados agrícolas; e a gestão Furlan, por melhor que tenha sido, não gera tantos dividendos eleitorais - tanto que o Presidente Lula não era o candidato preferido da classe empresarial.

3) A imprensa escrita e televisiva assim como as classes sociais mais altas são formadores de opinião. Houve um total descompasso entre a visão dos setores conservadores hegemônicos, expressa em seus porta-vozes midiáticos - a "opinião publicada" -, e a opinião verdadeiramente pública, do povo - expressa nas urnas. Ficou evidente o poder limitado, decadente desses setores hegemônicos. Vendo-se incapazes de exercer, paternalisticamente, a tarefa a que se acham divinamente incumbidos, os formadores de opinião dedicam-se, agora, a deformar a opinião. São os deformadores da opinião alheia. Assim, buscam várias explicações para a votação expressiva do Presidente Lula - a maior parte delas expressando viés elitista e um forte preconceito de classe. O povão mostrou sua autonomia - o caso do Maranhão é emblemático, onde o Presidente Lula obteve 85% dos votos, mas sua candidata ao governo foi derrotada. A grande imprensa, aliás, sai como uma das grandes derrotadas. Afinal, depois de mais de um ano de uma sistemática campanha de desmoralização do PT e de desestabilização do Governo Lula, tanto um quanto o outro foram consagrados nas urnas. Do lado positivo, para a imprensa, deve-se registrar a maior opção de fontes de informação disponíveis para o leitor crítico. Hoje, graças à Internet, é possível fugir ao pensamento único do oligopólio midiático, podendo-se ler desde sites abertamente esquerdistas - como o da Revista Fórum, o Blog do Zé Dirceu ou a página da Carta Maior - até aqueles mais equilibrados - como o Luís Nassif Online, o Observatório da Imprensa ou o Centro de Mídia Independente. A opção estende-se, também, à direita do espectro político, como, por exemplo, os blogs de Daniel Piza e Reinaldo Azevedo. Essa maior oferta de fontes é muito saudável e espero que se torne maior e mais acessível no futuro.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Um e outro

Há uns meses atrás, quando eclodiu a crise de segurança pública de São Paulo, Diogo postou um comentário que, além de bem escrito, toca num ponto crucial. Ele fez uma comparação entre as formas de governar petista e tucana. Ao contrário do que vêm sistematicamente propalando as grandes empresas midiáticas, existem diferenças fundamentais, sim, entre os dois partidos. Diogo poderia ter ido além, mencionando, por exemplo, a área social. Depois de 12 anos de governo tucano em São Paulo, qual o grande legado nessa área? Febem e índices educacionais dignos de Pará! Um contraste forte com os meros quatro anos da gestão petista na cidade de São Paulo, onde, em curto espaço de tempo, a administração municipal deixou marcas significativas, e deu início a um princípio de processo de redistribuição de renda na cidade. Posto esse texto só pra lembrar que, domingo, não se trata de votar no "menos pior" ou "contra Alckmin", mas sim votar a favor desse projeto político que é diferente, novo, progressista. Com a palavra, Diogo:


(...)
Independente de variáveis, podemos comparar a essência de dois governos com tempo para executar um trabalho de longo-prazo. De um lado, São Paulo e seus doze anos de gestão tucana; do outro, o Rio Grande do Sul ou o Acre, com 16 anos de gestão petista no primeiro e, em breve, o terceiro mandato petista no segundo. O combate à violência nestes três estados é simbólico e representa prioridades de cada um.

Enquanto que em SP foram inauguradas mais FEBEM's, no RS estas instituições foram extintas. Lá, em seu lugar, dois tipos diferentes de espaços foram criados: um para trabalhar a reintegração daqueles com delitos não muito graves, e outro para um trabalho de mais longo-prazo para jovens com delitos mais sérios. A grande diferença: o foco. Enquanto um enxerga a quantidade, o outro priorizou a qualidade e, sobretudo, a reinserção.

No Acre, o Governo soube lutar eficazmente contra o crime organizado confrontando interesses de uma elite político-empresarial da região. Em SP, o "combate" só aconteceu porque a fronteira [social] foi ultrapassada. Até então, SP não era uma cidade violenta; violenta era o Rio de Janeiro. Enquanto no AC confronta-se, em SP foi mais fácil ignorar... até que não deu mais.


Lá e cá


Outro comentário, dessa vez de Jorge, merece destaque, nessa véspera de eleitoral. Aqui, ele faz um paralelo entre as gestões petistas a nível local (Recife), e nacional. Muito interessante:

acho que esse exemplo do Gilmar lembra o que ocorreu em Recife na primeira gestão João Paulo. Os três primeiros anos foram voltados para mudanças muito mais significativas para a população de baixa renda, SAMU, mais de 1.500 professores na rede municipal contratados, aumento do número de equipes do saúde da família, então a classe média não sentia a diferença, embora muitas outras ações a tenham alcançado (Paralela, inversão do trânsito de Boa Viagem, regularização das vans, etc.).

A grande questão é que Lula vem trabalhando do jeito que pode para diminuir a super concentração de renda (levando-se em conta o malabarismo que é fazer isso dentro de uma economia de mercado emergente e com uma guerra política suja e intermitente, mas como tem gente fazendo barulho pra isso não acontecer, putz!

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Para avaliar o Governo Eduardo

Em 2004, o deputado federal Cadoca Pereira foi o candidato da União por Pernambuco, a coligação conservadora que governa o estado desde 1999. Queria retomar o poder municipal, recuperá-lo para o seu grupo, que havia perdido quatro anos antes.

A sua candidatura foi construída ao longo desse intervalo. Ele tinha uma marca, ("Cadoca é Recife"), azul e laranja (que mau gosto). Logo em janeiro do ano eleitoral, os muros da cidade do Recife estavam tomados por seu logotipo - em flagrante crime eleitoral (veja foto abaixo, de minha autoria). Se, do ponto de vista do marketing, o candidato fez um "bom trabalho", do ponto de vista político, foi um fiasco. Ninguém sabia nada, nenhuma idéia ou posição do candidato em relação aos grande problemas da cidade. Um dos seus "grandes trunfos" foi dizer que o Prefeito João Paulo havia prometido 40,000 casas, mas só teria construído 4,000.

Cadoca se preocupou com a micro-política. E se esqueceu da macro-política. Macropoliticamente, o governo João Paulo havia sido inovador e diferente. Ao invés de ver como "só 4,000 casas", a população pensou "ele fez 4,000 casas!" - se micropoliticamente havia falhas, macropoliticamente a inversão de prioridades redistribuidora de riqueza de fato havia ocorrido. Ou seja, a grande promessa macropolítica do candidato petista em 2000 havia sido cumprida. Cadoca foi incapaz de perceber isso, e seu discurso não encontrou ressonância. João Paulo se reelegeu com folgada vantagem, no primeiro turno.

O Governo Jarbas/Mendoncinha é um fiasco. Trata-se da gestão "competente" do status-quo. E mais - um líder "preguiçoso", sem pretensões políticas, cansado, que já havia atingido o auge, e protegido pela imprensa e pelo poder judiciário. Não liderava, deixou o governo frouxo. Ou seja, ainda que micropoliticamente seja possível encontrar coisas interessantes, aqui e ali, macropoliticamente é um desastre. Particularmente desastroso em três áreas - educação, saúde e segurança.

Os professores da rede pública de Pernambuco recebem o salário mais baixo do Brasil - mais do que o Acre, por exemplo, estado com PIB bem menor que o nosso. O único grande investimento na área foi o Projeto Avançar (telecurso 2000) - que é um bom projeto - mas foi implantado em 2001, quando Raul Henry era secretário de Educação e Cultura, e terminou já em 2002. Teve cunho meramente eleitoreiro, foi um desperdício de recursos públicos, e serviu apenas para garantir o candidato do governador como o deputado estadual mais votado daquele ano. A saúde pública estadual é um desastre, e o índices de Pernambuco não condizem com sua riqueza - sem contar as disparidades regionais. Pernambucano gaba-se de que Recife é "o segundo pólo hospitalar do país"... privado! Finalmente, temos a crise de segurança pública, e seus efeitos gerais e devastadores. Em Novembro haverá em Recife o encontro nacional de cirurgiões plásticos. Dos entre 4 e 6 mil previstos, menos de mil até agora se inscreveram - por medo de ir a Recife. Isso sem contar a sensação de medo que assola, indiscriminadamente, toda a população do estado, todas as regiões, todas as classes sociais.

Minha baliza para avaliar o governo Eduardo Campos será nessas três áreas. Se a educação, a saúde e a segurança públicas melhorarem significativamente, então este terá sido um governo vitorioso. Dado o forte apoio de amplos segmentos da população à sua candidatura e à sua juventude (fatos que contrapõem-se ao viés coronelista-esquerdista do PSB-PE), é possível supor um governo de coalizão que realize, satisfatoriamente, essas macropolíticas-chave. Só pela perspectiva de mudança concreta nesses setores, que necessariamente não ocorreriam num governo da União conservadora, já vale a pena o voto de confiança em Eduardo.


Boa notícia


César, meu "roommate", voltou a atualizar seu blog. Vale a pena visitar.