sexta-feira, 19 de maio de 2006

De pesos e medidas

Algo de muito, muito grave, sem precedentes, acaba de acontecer no Estado de São Paulo. Uma organização clandestina, cuja renda advem de tráfico de drogas e roubos, submeteu a população de uma Unidade da Federação a um estado de guerra, de ataque terrorista. O maior, o mais rico Estado brasileiro. O local onde se concentram as bases industrial e financeira da nação. As autoridades públicas perderam o controle da situação, que perdurou enquanto assim o desejaram os líderes do grupo criminoso semi-mafioso. E o Governador Lembo (PFL) garante, em entrevista, visivelmente incomodado diante dos questionamentos insistentes e do estarrecimento geral, que tudo "está sob controle" e que "não se preocupa com o futuro".

As populações ficaram alarmadas. Quer dizer, alguns mais que outros. O terror, finalmente, chegou aos grandes centros urbanos onde se concentra a riqueza nacional. Saiu da periferia. Chegou ao centro. Ao centro da cidade, e ao topo da agenda pública. O descontrole da segurança pública saiu da favela e, inopinadamente, invadiu os lares dos cidadãos das classes média e alta. O terror saiu da esfera do tolerável - dos pobres - e foi cruamente exposto entre a "opinião pública", ou os "formadores de opinião". Aqueles que ganham acima de 20 salários mínimos, e, em geral, são brancos. (E não é mais aquele roubo de trânsito, seqüestro relâmpago, essas coisas quotidianas, normais). Enfim, atingiu diretamente aqueles que, de fato, importam.

Os ataques terroristas terminaram apenas quando a advogada do líder do "movimento", Maroca, foi até o presídio, em avião da Polícia Militar de São Paulo, acompanhada de altas autoridades do Governo do Estado de São Paulo. Após a conversa entre a adovagada e seu cliente, as rebeliões nos presídios e o terror generalizado cessaram. Tudo volta ao normal, após o acordo. Em seguida, o Governo paulista "dá o troco", e a Folha de São Paulo nos informa na manchete do dia que "Polícia prende 24 e mata 33 em 12h". São 24 e 33 "suspeitos". A punição coletiva oficial prende e mata pretos e pobres, em geral inocentes, sempre anônimos, sempre da periferia - os suspeitos usuais. Tudo volta ao normal. E a Polícia Militar do Estado de São informa a população que não pode revelar a lista com os nomes dos "suspeitos" sumariamente executados. Os defensores de direitos humanos não têm voz nos meios de comunicação, afinal, a Polícia Militar de São Paulo tem uma reputação ilibada em relação aos direitos humanos dos mais pobres.

A imprensa brasileira, por sua vez, diante de tal contexto de caos, trata o assunto de forma muito responsável. Cheia de cuidados e zelo no tratar dessa "tragédia". A grande preocupação é "não politizar o debate". No congresso, os líderes do PSDB se exaltam com indignação pelo fato de o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro (PT-RS), ter constatado o óbvio, ao afirmar que "o governo Alckmin, o governo paulista, preferiu negociar com criminosos a aceitar a ajuda do governo". Na imprensa, ao contrário, ouvimos vários comentaristas e “pré-candidatos” afirmarem que "o problema é nacional" - ainda que nem na cidade do Rio de Janeiro, a cidade do tráfico de drogas, algo mesmo parecido com isso tenha acontecido. O problema é da “sociedade brasileira”. É de todos nós, tentam convencer-nos.

Esse cenário desolador, de falência total do Estado, ocorre num estado que é governado pelo mesmo partido – o PSDB – há não menos que 12 anos. Oito dos quais sob a liderança de um mesmo governador – Geraldo Alkmin – cujos principais subordinados da área de segurança pública continuam servindo sob o governo-tampão da coalizão PSDB-PFL.

Mas a imprensa não vai, não quer politizar algo que é, por natureza, político. O que ocorre é conseqüência direta de políticas públicas que foram adotadas, ou deixaram de ser, pelos administradores públicos nos últimos anos... na última década. É o grande legado da gestão tucano-pefelê ao Estado de São Paulo, é a grande obra, o grande projeto social – a privatização radical da segurança pública.

É a mesma imprensa que responsabilizou exclusivamente e antes de qualquer processo legal que seja, que não hesitou em responsabilizar sumariamente, que não abriu mão de fazer ilações para encriminar o maior partido de esquerda do Brasil, o único com ligações orgânicas aos movimentos sociais, o PT, por tudo, sozinho - nos "informam", unânime e inequivocamente, que se tratou do "maior escandâlo de corrupção do país". Ainda que o crime cometido tenha sido, pasmem, lançar mão da mesma tática de arrecadação de fundos para eleições que os demais partidos. Apesar de os fatos virem à tona justamente porque as instituições estão funcionando melhor - a Polícia Federal investiga e prende criminosos, inclusive políticos; a Controladoria-Geral da União passou a funcionar de forma autônoma; há CPIs instaladas no Congresso Nacional.

O desrespeito para com o Presidente da República, Lula, fundador do PT, e oriundo, ele próprio, dos movimentos sociais, não vê limites. A capa da maior revista em circulação – e a que mais, segundo os acadêmicos da área de comunicação, desrespeita os mais elementares princípios do bom jornalismo – no país, estampa-o com um chute no traseiro por ter se portado de maneira serena e responsável numa delicada negociação internacional. Essa mesma empresa de publicações faz denúncia gravíssima contra o Presidente Lula e seus mais próximos assessores, e ela mesma reconhece que suas fontes são duvidosas (isso depois de mais de um ano de ferrenha oposição numa sistemática campanha denuncista, como "os dólares de Cuba", cuja apuração nunca foi levada adiante).

O que ocorre em São Paulo é um escândalo jamas visto no país. E ocorre não porque as instituições estejam funcionando - mas por seu extremo oposto, a sua inépcia crassa. Mas a responsabilidade, nesse caso, é do partido dos donos dos principais meios de comunicação, cujo candidato à presidência é o ex-governador do Estado de São Paulo, o qual governou durante oito anos, e que no ano passado foi escolhido o candidato favorito dos empresários, segundo a capa de revista voltada à categoria e de propriedade da mesma semanal acima citada. Mas supor que as holdings proprietárias dos meios de comunicação atuem de modo a defender o grupo político que representa seus interesses é coisa de chavista desvairado que quer "desunir" o país, nos dizem, repetidas vezes, esses mesmos meios de comunicação.

E agora entendemos porquê a "opinião publicada" ficou tão assustada com a proposta de um Conselho Nacional de Jornalismo – assim como há o Conselho Nacional de Justiça, que acabou de pôr fim à prática do nepotismo no Judiciário. Não – o Quarto Poder não aceita contra-pesos ("checks and balances", como ensinou Montesquieu). "É anti-democrático", "é stalinista" (seja lá o que isso signifique!). E agora entendemos a razão da discrepância gritante do tratamento dispensado, pela imprensa empresarial, a uma crise e à outra.

4 comentários:

d i o g o disse...

Perfeito.

Independente de variáveis, podemos comparar a essência de dois governos com tempo para executar um trabalho de longo-prazo. De um lado, São Paulo e seus doze anos de gestão tucana; do outro, o Rio Grande do Sul ou o Acre, com 16 anos de gestão petista no primeiro e, em breve, o terceiro mandato mandato petista no segundo. O combate à violência nestes três estados é simbólico e representa prioridades de cada um.

Enquanto que em SP foram inauguradas mais FEBEM's, no RS estas instituições foram extintas. Lá, em seu lugar, dois tipos diferentes de espaços foram criados: um para trabalhar a reintegração daqueles com delitos não muito graves, e outro para um trabalho de mais longo-prazo para jovens com delitos mais sérios. A grande diferença: o foco. Enquanto um enxerga a quantidade, o outro priorizou a qualidade e, sobretudo, a reinserção.

No Acre, o Governo soube lutar eficazmente contra o crime organizado confrontando interesses de uma elite político-empresarial da região. Em SP, o "combate" só aconteceu porque a fronteira, como tu muito bem colocaste no texto, foi ultrapassada. Até então, SP não era uma cidade violenta; violenta era o Rio de Janeiro. Enquanto no AC confronta-se, em SP foi mais fácil ignorar... até que não deu mais.

Mais do que comparar governos, no entanto, parlamentares e governos estaduais e fedaral devem, a meu ver, despolitizar mesmo a questão. A violência é uma questão nacional, sim, e por mais que saibamos quem são os maiores responsáveis, tirar proveito politicamente desta questão é inevitável, mas deve ser feito de forma propositiva, mostrando onde houve falhas e como poderia ter sido feito de outra forma. E com cuidado para não parecer oportunismo e dar palanque a chiliques como o de Tasso Jereissati ou Arthur Virgílio.

Bernardo disse...

tens razão...
mas imagina só se fosse o PT que governasse São Paulo...

Bruno Rodrigues disse...

Não consigo concordar com a postura da esquerda nesse momento pelo qual passa o Estado de São Paulo. No Rio de Janeiro as favelas são controladas por um grupo de bandidos de forma constante e irremediável, que até o momento não apresenta qualquer solução. Mas, consoante essa perda de efetividade do estado em uma de suas principais alçadas - a segurança pública -, o governo federal nada faz, e sempre coloca como empecilho constitucional o apoio do exército e das forças federais ao governo do estado fluminense.
Diferentemente da postura federal com relação ao Rio de Janeiro, o Estado de São Paulo, coincidentemente governado pelo principal concorrente à presidencia nacional, já é prontamente atendido com o apoio de forças federais, de forma a "politicamente" ser posto como um estado ingovernável pelas autoridades públicas.
Ao contrário do que os "petistas" queriam, a onda de violência não passou de 5 dias. Sim, eu, como paulista, me sinto transtornado com a situação de segurança de meu Estado, mas bem sei que essa onde de violência não se dá apenas aqui. O problema é de todos nós brasileiros, e não apenas dos paulistas.
Já o governo federal procura desmoralizar "politicamente" apenas os governantes de São Paulo, ao contrário do que vem fazendo com um "eventual" apoio de Garotinho no Rio. Por que não são oferecidas as condições de segurança federal no Estado do Rio de Janeiro de forma tão congruente como aqui em São Paulo o foram?
Para o PT é importante a problemática política desse ataque, mas se esquecem os petistas de que o governo federal havia prometido a construção de presídios federais para a carceragem de presos que não são criminosos apenas "estaduais", bandidos do Estado de São Paulo, mas que são, sim, bandidos que ofendem a todos nós brasileiros. Ao contrário do que foi prometido, passaram-se quase 4 anos de uma gestão escandalizada pelo nível de corrupção, e nenhum (digo nenhum, porque dizer que está quase pronto, para mim, é dizer que não estar pronto) presídio federal foi construído.
O PCC não está apenas nas fronteiras paulistas, está arraigado em todo o território federal, mas isso não é importante para o PT agora. O importante é demonstrar que São Paulo não é capaz de ser governado por políticos representados pela sigla do PSDB.

Jorge disse...

A opinião acima representa exatamente a visão predominante da impressa/midia. Como todo mundo sabe, inclusive eu que na ocasiao estava fora do país, o exercíto ocupou as ruas por um período aqui no Rio, e não podemos dizer que Rosinha seja exatamente aliada do PT. O que mais revolta é essa leitura tacanha que as pessoas fazem, fruto da "verdade" oriunda do quarto e absoluto poder. So faltou o sujeito aí de cima dizer que a Folha de SP apoiao PT, como alguns diziam há pouco sobre a Rede Globo, e só alguém muito senil pra achar que os comentários de Jabor- que chama o PT de quadrilha - são um suporte ao governo Lula.
A postura é cada vez claro, o governo Lula propoe um diálogo (no caso com a Bolivia) e a mídia chama-o de covarde, cooptando críticos ultra conservadores para reforçar seu ponto de vista. Não houve um único comentário sobre a omissão prolongada do governo PSDB ao longo de mais de uma década, pelo contrário, a culpa é do governo federal que tinha q ter repassado mais verba...assim vai, as pessoas assistindo o jornal nacional e lendo VEJA e vomitando seguras as suas inócuas meias verdades