sábado, 24 de outubro de 2009
Porquê mudei de idéia sobre o Rio2016 e Brasil2014
regarding this rio thing. i was VERY skeptical about it, but after discussing it over with diogo and my parents, who are totally in favor, i have changed my mind. there was also a debate on aljazeera that i found quite insightful.
i worry especially about our lack of oversight institutions. the pan-american games in rio in '07 was, in my opinion, a total disaster in its after effects. since no public debate has followed, I wonder what lessons we as a society have drawn.
Diogo and I had a heated on-line debate over this on our blog, if you want to practice your Portuguese.
here's the aljazeera debate .
so, i changed my mind, because yes, we have loads of problems, on all levels, to deal with. but who doesn't? you have good and bad examples from all places. montreal's OG were a fiasco, financially. Barcelona's was a huge success (and one would think that Canada would organize things better than Spain). Rio has this urban violence situation. England has to deal with terrorism...
I just hope that our oversight institutions will function better this time around, that less public money will be wasted, that at least some of the infrastructure will bear in mind the public good and that some sort of lasting legacy comes out of this. I think post-Lula's Brazil will be better equipped to carry out this enterprise than the pre-Lula one which carried out the pan-american games.
I think rio's choice in large measure has to do with Lula's domestic social and economic policies and his diplomacy. To a certain degree it is a political victory for him. This, combined with the good news like the oil and those coming from the economy and how we have dealt with the crisis (as compared to other countries and to how we fared in the past) has also spread a wave of pride and optimism to all Brazilian people, which is also very important.
Sorry about the long message! I got carried away I guess!
um abração,
bernardo
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outras informações que me ajudaram a mudar de idéia:
- Un nuevo Río para 2016
- Brazil aims to win right to host Olympic Games
- None of the violence I saw in Brazil has changed my view that giving the 2016 Olympics to Rio is one of the IOC's greatest ideas
- Rio de Janeiro woos Woody Allen movie project
- Obras do PAC: Urbanização de favelas - Complexo do Alemão
- Discurso do presidente Lula durante apresentação da candidatura do Rio
- O Rio deve essa a Lula
domingo, 18 de outubro de 2009
Cinco meses
Eu continuo buscando entender a origem do meu prévio desprezo pela terra de Churchill. A imagem negativa no imaginário popular mundial é parte da explicação. Recentemente, me dei conta de outro motivo. A minha formação francófona. Os franceses implicam com os ingleses (e com os alemães, e com os belgas, e com os árabes, e com os americanos...). Mas talvez isso já seja sinal do progresso acelerado do meu processo de britanização: já estou culpabilizando os froggies pelos meus males... e já os estou chamando de froggies! Ui!
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Crescendo no Recife, aprendi a “jogar o lixo fora”... literalmente. Jogar fora do carro, fora da casa: em suma, fora, na rua. Tempos depois, me mudei pro Oregon, onde não se joga lixo fora. Lá, passei a conjugar o verbo “reciclar”, até então praticamente inexistente no meu vocabulário cotidiano recifense. Passou a ser prática diária. Agora, estou aprendendo outra forma de lidar com o lixo (antes de ele ser compactado e enviado pro Porto de Santos em containeres clandestinos, of course). Estava outro dia na estação de trem de St-Pancras, procurando onde “jogar fora” o lixo que segurava à mão. Perguntei a um guarda, que apontou uma mesa e disse: coloca ali naquela mesa. Claro, que pergunta besta, a minha! Aqui em Londres, nem “joga-se fora” nem “recicla-se” o lixo. Como não há cestos de lixo na cidade (consequencia de ano
s de atentados terroristas do IRA, seguidos pela Alqaeda), a gente aqui “coloca o lixo”. Em qualquer lugar – numa quina do muro na rua, debaixo do banco na estação de metrô, na mesa do café da esquina... Mas ele nunca é jogado, e sim cuidadosamente colocado.
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Brazil in London
Eu me mudei pro Borough. É um bairro bem central. Estou a 15-20 minutos de pedalada da universidade. O bairro é bem tranquilo e ao mesmo tempo central. É possível ir para qualquer parte da cidade, pedalando. Atravesso o rio Tâmisa diaramente. O mais difícil é a volta. Londres iluminada é de uma beleza incrível. É inevitável passar pela Waterloo Bridge e ficar olhando, à minha esquerda, a London Eye vermelha, brilhando no escuro; a Hungerford Bridge com seus cabos de aço iluminados, como que flutuando na escuridão; atrás dos dois, o Big Ben, imponente, elegantemente discreto com as luzes brancas destacando-o. Dependendo da hora da volta, ainda tem o céu de fim de t
arde de outono, as nuvens com diferentes tonalidades de laranja. Aprecio tudo isso em alguns segundos, porque se não prestar atenção, posso esbarroar com os carros estacionado
s na ponte (como é permitido isso?!). Mas é bom saber que no dia seguinte estará tudo lá, tão bonito quanto antes. Só o céu, que vai mudando, à medida que vamos avançando outono adentro.
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Tenho a impressão de que o outono é a segunda pior época para os garis. A primeira é o verão, com a invasão bárbara representada pelos turistas de verão, com seus hábitos anti-britânicos de jogar o lixo fora (ao invés de “colocá-lo” no canto). À medida que o verão vai acabando, também o fluxo desses bichos migratórios (os turistas) vai diminuindo. Na proporção inversa, no entanto, dá-se a queda das folhas. E antes que o gari pudesse suspirar aliviado, “ufa! Foram embora”, o gramado dos parques,
antes cobertos de embalagens de McDonald’s, já estão tomados, dessa vez, por folhas com diferentes tonalidades de laranja e vermelho. O número reduzido de turista nas ruas e as árvores totalmente desnudas me levam a crer que o inverno é a estação predileta dos garis. A conferir.
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Na primeira semana de aula, apareceu um stand no campus da universidade, Dr. Bike. Ofereciam conserto gratuito de bicicleta. Levei a minha, comprada de segunda mão e, portanto, em condições um tanto precárias. Meio com um pé atrás, porque onde venho aprendi que, de graça, nem injeção na testa! Mas estava anunciado: free bike repair. Levei meu meio de transporte para revisar. Enquanto o cara fazia o seu trabalho, eu perguntei qual o motivo daquilo. A prefeitura do bairro de Westminster (onde
está localizada a London School of Economics) quer incentivar as pessoas a utilizarem a bicicleta para ir para a aula e para o trabalho. Mas querem que os ciclistas usem bicicletas em boas condições. Por isso estava oferecendo aquele serviço, para garantir a segurança dos cidadãos. I’ve a feeling we’re not in Kansas anymore!
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Às vezes parece que eles fazem isso só pra sacanear com os estrangeiros. Porque não é possível, tem umas palavras que chega a ser criminoso. Escreve-se de um jeito e pronuncia-se de outro. Algo completamente aleatório e sem sentido. Meu bairro mesmo. Borough. Mas fala-se “bora”. Até aí tudo bem. Um que levei um tempo até aprender foi o Leicester Square. Insistia em pronunciar todas as sílabas. Erradíssimo. Fala-se “léster”. Não adianta buscar sentido. Não há. Tem que decorar mesmo. As sílabas estão lá, não para serem faladas. Só pra dificultar a vida de nós, estrangeiros, que nos esforçamos herculeamente para dominar a língua de Shakespeare. Tem o bairro aqui que se chama Southwark. Eu pronunciava direito, comme il faut: “south” + “wark”. Lógico, não? Não. Regra elementar: juntou, mudou. O jeito certo é: “só-thórk”. Outra que me embananava era uma estação de metrô que eu tinha ouvido falar... eu entendia algo como “suriquis”. Isso soava mais como praia nas Alagoas do que bairro londrino! Finalment
e vi uma placa na rua e a ficha caiu e eu quase que caí pra trás com a Eureka: Era “Surrey Quays”! Um colega inglês recentemente veio me perguntar em que “rus” eu habitava. E eu sem entender do que danado ele estava falando. Que diabo de palavra seria essa. Depois de um esforço de parte a parte, entendi. Ele estava perguntando qual era o meu “halls” (residência estudantil)!
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Continuo me surpreendendo com a polícia aqui. Eles montaram um stand vizinho ao do Dr. Bike. Minha bicicleta foi registrada, com um número permanentemente afixado. Se for roubada, basta que eu avise à polícia, que terá a descrição da minha bicicleta em seus arquivos e, encontrando-a, me avisarão por E-mail - http://www.bikeregister.com/ . O número de registro é carimbado de tal modo que não é possível retirá-lo. Ocorreram mais de 17 mil roubos de bicicleta entre abril do an
o passado e março desse ano. O bairro onde está a universidade foi onde ocorreu o maior número de roubos (436 entre abril e agosto desse ano). A ideia do registro tem o intuito de inibir a atuação dos ladrões. A polícia estava no campus para ajudar. E inserida na política mais ampla da prefeitura de incentivar o transporte limpo. Ainda acho estranho essa ideia de polícia amiga. Soa como oxímoro. Pensamento de brasileiro, I guess...
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As aulas começaram. A London School of Economics and Political Science (LSE) é um meio increvelmente cosmopolita. Não é por acaso: faz parte da política da universidade atrair estudantes de todas as partes do mundo. Assim como professores. Eu tenho um professor uruguaio (que também é o meu supervisor acadêmico), um sul-coreano, um americano e um britânico (galês). Tenho colegas do mundo inteiro. Inclusive um que se auto-intitulou de “the weird one” (o estranho): é nativo de
Londres. A biblioteca da LSE é a maior biblioteca de ciências sociais do mundo. Taí uma megalomania que não é ridícula. E, de fato, temos acesso a um acervo rico e plural. Quase todas as leituras das aulas estão disponíveis nas nossas páginas pessoais virtuais. Lá, podemos baixar os textos e imprimi-los na própria biblioteca, com a nossa senha, e dentro da lei – pagando direito autoral e tudo. Há muitos computadores para que os estudantes possam fazer o seu trabalho, e eles estão integrados em rede, de modo que eu possa guardar os meus arquivos e ter acesso a eles a partir de qualquer computador do sistema. As minhas disciplinas esse termo são: Desenvolvimento Latino Americano no Século XX: de liberalismo a neo-liberalismo; o Estado e Instituições Políticas na América Latina; Introdução a Política Comp
arada.
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Até agora, sigo adorando Londres, com clima frio e tudo. Soube que o teste de fidelidade com a cidade é o inverno. Vamos ver como me sairei. O teste do outono, estou passando: so far, so good.
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Veja aqui fotos do meu verão londrino. Reparem no mapinha ao lado direito da tela a localização exata de cada foto!
De vez em quando uns hare krishna aparecem no campus
oferecendo uma gororoba gratuita. É um sucesso.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Brasil e Irã
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Sem direito a estudar
Os estudantes aqui em Londres da LSE estão tentando se mobilizar para ajudar a trazê-lo para o Reino Unido para que possa dar continuidade à sua formação. Quem quiser se informar mais ou participar da campanha virtual, vá no site: http://letothmanstudy.wordpress.com/campaign-statement/
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
O debate que nunca houve
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
3 erros do PiG na questão hondurenha
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
4 meses
janela da cozinha
Nunca me interessou vir pra Inglaterra. Tirando o aspecto histórico, literário e cinematográfico – ou seja, coisas totalmente teóricas e não palpáveis – nada me dizia a Inglaterra. Não sei bem porquê… Talvez por cenas como aquela de Snatch. O personagem Avi decide ir pra Londres (aqui). Alguém indaga: “Londres?”. E Avi: “Yeah, London. You know, fish, chips, a cuppa tea, bad food, worse weather and Mary fucking Puppins” (Pra vovó Ivandete, que não fala inglês – na época dela se aprendia francês, ou era latim? “É Londres, tá ligado? Peixe, batata frita, uma xícara de chá, comida ruim, clima pior e a porra da Mary Poppins”). Essas tiradas, além de engraçadas, refletem e ao mesmo tempo reforçam uma certa visão que se tem da Inglaterra. Cinzenta, fria, desagradável... A imagem que se tem da Inglaterra, no imaginário popular mundial, é a pior possível. Como esse diálogo de “Snatch” tão bem captura. Quando Avi volta pros Estados Unidos, o agente da aduana pergunta se ele tem algo a declarar. Resposta: “Yeah: don’t go to England!” (“Sim: não vá pra Inglaterra!).
Para piorar, a única vez que vim pra Londres, foi há mais de dez anos, em 1995, em viagem de família. A capital inglesa era a primeira parada europeia de uma viagem que começou no Oregon, na Costa Oeste dos Estados Unidos! Decalagem de horário: 8 horas! Para frente! Chegamos aqui em pleno dia, quando, mentalmente, era tarde da noite. E como íamos ficar pouco tempo na cidade, tínhamos que aproveitar cada momento... Deixamos as coisas no hotel e fomos pegar o ônibus turístico. O sol quente do verão na cabeça, e o que eu mais me lembro dessa viagem foram as pescadas que eu, Diogo e Letícia demos durante todo o percurso. Fora isso, só me lembro de duas outras coisas: o chuveiro do hotel era minúsculo, no meio do quarto... a gente tomava banho encaixotado, mal podendo se esfregar senão derrubava a “caixa”. E o museu da tortura... macabro! Pra piorar, de Londres, iríamos pra França e Itália...
Desde então, nunca tinha voltado aqui. Mais por falta de vontade do que de oportunidade.
Por tudo isso, Londres tem sido uma bela surpresa. Cada vez gosto mais daqui. São muitas cidades numa mesma cidade. Talvez por isso que o nome seja no plural: Londres! Cada semana é uma descoberta.
Tem um bar que toca forró toda quinta-feira – um dos músicos é o filho de Geraldo Azevedo. Tem um monte de brazucas, mas tem vários gringos também. Noutro lugar, no “Ain’t nothing but the blues”, toca blues de primeiríssima qualidade, ao vivo. Outro “pub” que eu fui, o “Hole in the wall” (“buraco no muro”), tem um das últimos fliperamas da cidade e tem o charme de ficar em baixo do trilho de trem – de vez em quando rola aquele som do trem: “vuco-vuco-vuco”. Tem um pub perto aqui da minha casa que anuncia, orgulhosamente, ser o local de nascimento (“the birhplace”) da banda Iron Maiden. Os pubs são verdadeiras instituições inglesas. Todo bairro, quase toda rua tem um. E quando dá seis horas da tarde, eles ficam lotados. É regra, depois do trabalho, as pessoas irem tomar umas “pints” no bar, antes de voltar pra casa. O inglês típico tem o seu bar de costume. Eu não tenho o “meu” pub. Ainda estou na fase exploratória. Uma coisa bem típica aqui é o “pub crawl”, em que se vai de bar em bar, tomando uma “pint” em cada um. Um trajeto típico é seguir a Circle Line, a linha circular do metrô, e descer em cada parada, ir no primeiro pub que encontrar, tomar uma “pint” e voltar pro metrô pra ir até a próxima estação e repetir fazer tudo denovo. Até fechar o círculo (se conseguir). E tem os jogos. Por exemplo, se pegar o copo com a mão errada (tem que segurar com a direita, aparentemente), então tem que virar o copo. E no metrô, não pode se segurar em nada – e se cair, vira uma pint inteira no próximo boteco. Brincadeira de inglês. Mas fechar o círculo é façanha que só os profissionais do copo são capazes de realizar. Ainda não cheguei lá. Continuo explorando os pubs. Essa semana fui a um, o Power’s Bar, que tem blues ao vivo. Antes, tinha ido a outro, o Ain’t Nothing But The Blues. Cerveja boa e música ao vivo de primeira.
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Em agosto teve o famoso carnaval de Notting Hill. A festa existe desde os anos 60 e, originalmente, começou como protesto de migrantes caribenhos contra o preconceito racial. Com o passar do tempo e a melhoria das relações raciais, o aspecto político foi ficando de lado e só restou mesmo a parte da gréia. Hoje, a festa é o maior evento de rua da Europa. Eu tinha ouvido coisas negativas – de brasileiros, dizendo que não era lá essas coisas e de ingleses, que em geral acham a festa “perigosa”. Ambos estão errados. É uma festa aberta e divertida. Esse, sim, é o verdadeiro carnaval multi-cultural: tem reggae, música eletrônica, samba, rockabilie... Com algumas vantagens em relação ao nosso período momesco. No topo da lista, destaco o fato de você brincar carnaval o dia inteiro e sair limpinho, sem uma gota de suor! Isso é uma das coisas que mais incomoda em Olinda: sair todo molhado, sem saber se é meu suor ou o alheio, ou se é o mijo que sacudiram no copo descartável. Tem também semelhanças: houve um momento que me movi involuntariamente, sendo levado, literalmente, pela multidão, no melhor estilo olindense. Já a violência a que os gringos aludiam... coitados. No final da festa, houve uma correria, eu e meus amigos nos protejemos entre os banheiros químicos. Perguntamos a outro folião o que estava ocorrendo. Alguém havia dito que tinham jogado uma garrafa. Ah, rapaz! Na minha terra, quando tem tumulto, é bala mesmo! Assim é muito bom, dá uma emoçãozinha, mas logo tudo se resolve. E você sabe que, na pior das hipóteses, só vai levar uns pontinhos na testa – e isso, eu já tenho!
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auto-retrato no espelho do elevador
Depois que voltei da viagem pra Barça e Lausanne, não voltei para o mesmo trabalho de panfletagem que tinha. Fui pra outro. Distribuir panfletos da pizzaria Domino’s, anunciando sua nova pizza Chicken Tikka com molho de manga, de casa em casa, colocando-os nas caixas postais alheias. Ou seja, distribuidor de lixo. Era um trabalho extenuante. Cinco horas por dia, sem intervalo para nada, andando sem cessar, subindo e descendo escadas de prédios, depositando entre 800 e mil panfletos por dia. O lado bom é que conheci partes da cidade que de outro modo jamais conheceria. Regiões residenciais que nunca teria tido a oportunidade de conhecer. Vi todo tipo de habitação inglesa, das mais elegantes até as mais chinfrins. E ainda dava umas espiadas nos apartamentos e casas das pessoas, por pura curiosidade mesmo, através do buraco na caixa de correio. Senti os mais diversos cheiros e odores, alguns que remetiam à minha infância, outros ao meu período oregoniano, outros a restaurantes indianos, e outros que é melhor nem mencionar! O lado negativo: é chato pra cacete e fisicamente exaustivo.
Depois de duas semanas de trabalho, avisei, conforme o contrato, com duas semanas de antecedência, que teria que sair, pois iria me mudar pro sul da cidade. A mulher me disse que eu não precisava voltar e que terminariam o meu contrato logo ali. Minha vontade foi de abraçá-la. Mas, como ela achasse que estava me punindo, pensei duas vezes... vai que ela voltava atrás, se eu demonstrasse satisfação... fiquei na minha.
Minha conclusão, depois dos dois trabalhos de verão que tive: jamais poderia ser imigrante ilegal. Chiei com uns trabalhos que pagavam ligeiramente acima do salário mínimo, com horários decentes e relações trabalhistas legalizadas. Não teria sobrevivido as condições árduas que os ilegais enfrentam. Nunca é demais agradecer ao tataravô que migrou pro Brasil e, por acidente do destino, ficou em Recife. Grazzie mille!
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Aqui na Inglaterra está a maior onda natureba. Todos os políticos, de todos os partidos, estão atualmente “ecologicamente” conscientes. Todos se preocupam com o tamanho de sua “pegada ecológica” (a quantidade de carbono que suas atividades cotidianas emitem). O prefeito, por exemplo, pedala para o trabalho. Tem um outro político que reduziu o consumo doméstico de energia. E por aí vai. Mas está se chegando a um ponto que beira o ridículo. As pobres das vacas estão prestes a tornarem-se inimigas número um da camada de ozônio. A quantidade de carbono que ela emite durante um ano é equivalente à poluição gerada por um carro. Agora danou-se. A pobre da vaca não pode nem peidar em paz! O que propõem os verdes? Rolha?!
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Fui ao meu primeiro jogo de rugby. Pra minha surpresa, é divertido! Não é mais uma excentricidade francesa! É empolgante e cheio de ação. Só não sei bem torcer direito. Decorei os principais gritos: “Take him down!” (Derruba ele!), “Come on!” (Vamos!), e um outro que me fugiu à memória agora! E eu nem sei o contexto adequado para utilizá-los... Pelo menos já tenho o time, que é o mesmo do pessoal que me levou, por gratidão. E também porque tem uma ligação com nossa terra. O time se chama Harlequim. Achei bastante adequado eu torcer pra esse time.
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Aos poucos vou encontrando as minhas coisas por aqui. Por exemplo, achei o meu supermercado. É o supermercado dos meus sonhos. Me lembro quando a Sadia lançou a linha de produtos HotPocket. Fiquei muito feliz, pois desde que saí de casa – que, aliás, nunca foi uma casa em que o ato de cozinhar fosse muito estimulado – que cozinhar sempre era um problema. Me senti contemplado, como público alvo, dessa nova linha de produtos. Prático, rápido e não é a pior coisa do mundo. Nada que um bom e velho ketchup Heinz não posso dar um jeito. Pois bem, aqui tem uma loja inteira de produtos “práticos, rápidos e que não são as piores coisas do mundo”. Se chama, muito sugestivamente, Iceland. E eu já fiz o meu cartão de fidelidade!
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Próximo relato, novidades. Casa nova, início de curso e o começo da brincadeira.
minha casa vista pelos fundos
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Quando o preconceito se torna explícito
Eu nunca fui pessoalmente destratado (por ser brasileiro no exterior, ou nordestino no Brasil). Com algumas exceções. Uma vez, uma curitibana, fazendo intercâmbio comigo na França, depois de me ver me comunicando com a comunidade anglófona, a latino-americana e com os brasileiros, dominando as três línguas (inglês, francês, espanhol), além da língua nativa, ela tentou fazer um elogio: "você tirou o preconceito que eu tinha contra os nordestinos". Em outras palavras: viu alguém que fala muitas línguas (como isso, por si só, impressiona os imbecis!), e pensou, "ah, os nordestinos não são todos burros" (como se aprender língua fosse indicativo de capacidade intelectual e não, como tudo no Brasil, de minha classe social e as oportunidades que tive por conta disso).
Mas o preconceito maior não é revelado por anedotas pessoais. Se fosse por isso, eu nem notaria. É uma questão histórica, mesmo. Afinal, o descaso com que a periferia do centro econômico e político do país sempre foi tratada não é fruto do acaso ou castigo divino.
Tem quem julgue Paulo Henrique Amorim "radical", entre outras coisas, porque ele costuma caracterizar a elite brasileira como "branca e racista e separatista (no caso de São Paulo)".
E aí ouço uma história de um tio meu. Ouviu pessoalmente de Serra, nos anos 90, quando o convidou para uma inauguração de uma empresa em Pernambuco (vou ser bem vago para não comprometer ninguém). "A resposta: do Nordeste, eu não quero nem a água de côco". Dia desses, PHA publicou este post aqui. Lá afirma: "o preconceito contra os nordestinos é a agenda secreta de 2010".
Também muito da crítica ao Presidente Lula vem carregado de preconceito de classe e, no sul-sudeste, preconceito de origem também.
E se ainda há quem duvide, aí a Internet permite o registro definitivo quando um racista deixa de lado a máscara usual e assume seu verdadeiro ódio sócio-regional.
Me refiro a uma troca recente de mensagens via Facebook com um conhecido meu lá do Rio. Tomo a liberdade de publicar aqui porque as mensagens não foram privadas. Foram postadas pelo autor em seu próprio "mural" do Facebook, sem qualquer constrangimento. Eu fiz um comentário a um vídeo promocional da candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos (veja aqui), que ele havia postado. Eu comentei, em tom jocoso, que haviam "photoshopado as favelas". Daí seguiu-se essa troca:
ei po, isso né uma competição não, velho. não precisa levar qq crítica pro pessoal não! o vídeo dá uma maquiada na cidade... normal.
aliás, eu sou contra olimpíadas, copa etc em recife. nuzman e ricardo teixeira vão encher as burras de dinheiro público... :(
e o brasil inteiro, os pernambucanos inclusive, apoiam o rio2016. financeiramente, inclusive, por meio dos nossos impostos da grana federal que vai bancar esse negócio. lembre-se disso.
Algo assim serve para nos lembrar que o racismo à brasileira, sempre dissimulado porém latente, às vezes emerge de forma bruta, nua e crua. E torna plausível a história de Serra. E dá credibilidade à assertiva de PHA ("elite branca, racista e separatista"). E explica o ódio que certos setores nutrem em relação ao Presidente Lula e ao povo ao qual ele se assemelha e com quem compartilha um caldo de cultura e de valores, para vergonha desses setores minoritários (brancos, racistas e separatistas).
Mas é um alento saber, por outro lado, que vivemos um momento de transição, em que investimentos públicos do Governo Federal, numa monta sem precedentes na História do país, estão transformando essa realidade - exemplo eloquente são as ecolas técnicas federais.
O comentário do advogado, que postei acima, além de historicamente errado, é extremamente preconceituoso. E eu disse isso a ele. E o adverti: nunca repita isso pra um nordestino, porque pega muito, muito mal... Essa linha de raciocínio, eu expliquei, é análoga aos críticos da imigração latina nos Estados Unidos, turca na Alemanha e árabe na França...
Eu disse mais: desde que o Rio virou capital do Brasil que o resto do país manda impostos pro centro e recebe muito pouco em retorno... o que, aliás, explica as inúmeras revolstas independentistas que aconteceram tanto ao sul quanto ao norte, durante o Brasil Colônia e o Brasil Império. Sem contar que disperdício de dinheiro público não é exclusividade de nós, atrasados nordestinos... inclusive porque, historicamente, sempre recebemos menos, proporcionalmente. Engraçado um fluminense falar isso... um estado que teve os Garotinhos governando... E o fluxo migratório, que trouxe "mazelas", trouxe também a mão de obra barata que tornou possível o desenvolvimento industrial dessa região do país.
Só agora esse processo histórico está sendo revertido, com as políticas do governo Lula. Nunca houve tanto investimento no Nordeste, e por isso mesmo, a nossa região tem crescido acima da média nacional. E não por acaso, pela primeira vez em décadas, desde os princípios do processo de industrialização brasileira, o fluxo migratório se reverteu. Tudo isso graças a uma série de políticas como essa aí das escolas técnicas, graças a uma visão holística do país, graças ao respeito a todos os brasileiros, de qualquer origem social ou regional. Tudo isso, em suma, graças a um governo que não tem vergonha do seu povo, muito pelo contrário: é seu reflexo mais puro:
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Agora que penso que talvez não seja por acaso que os melhores presidentes da História do País, Getúlio e Lula, sejam um gaúcho e o outro pernambucano!
sábado, 29 de agosto de 2009
Época revela: revolta da Ilha de Bananal nunca aconteceu .
Alugém deve ter finalmente lido um livro de História do Brasil na redação da Época!
Uma banda dessas da nova geração, a Móveis Coloniais de Acaju, está envolvida numa polêmica com a revista Época. A banda brasiliense contava que um suposto evento histórico que teria ocorrido em Tocantins no século XVIII seria a referência para o nome do grupo - veja aqui. Os meios de comunicação passavam a história adiante, sem fazer o trabalho jornalístico mais elementar, que é a apuração do fato. E, assim, a revolta da Ilha de Bananal tomava ares de fato histórico.
A ficha caiu essa semana. "Descobriram" que a tal revolta nunca havia ocorrido... Para justificar o mau jornalismo praticado pela revista - que não verificou a origem do nome, e aceitou acriticamente a versão oficial da banda sem, assim, identificar a brincadeira - a revista decidiu expor a banda. Fez o que a imprensa tupiniquim é mestra em fazer, levantou o dedão inquisitor em riste e acusou-a de "falsificação", aquilo que era apenas uma brincadeira, que aliás provou que tinha total sentido. Essa história mostra que os interesses corporativos das empresas de comunicação são apenas uma parte do problema do mau jornalismo praticado no Brasil. Um outro elemento é a incompetência, pura e simples, de alguns profissionais nas redações.
Veja aqui a "denúncia" da Época. Tem espaço pra debate e comentários ao final do texto.
P.S.: Daqui a pouco os brilhantes jornalistas da Época vão descobrir e denunciar mais uma farsa! A Banda de Joseph Tourton!!! Quem foi esse cara?! Foi mesmo um aviador?? Ou terá sido o fundador da Pilar!? Merece esclarecimento, já! Chamem a Época pra esclarecer esse escândalo!
P.S.2: Quando li a... como chamar isso? Matéria? Reportagem? Editorial?... enfim, quando li o texto da época descendo o cacete na banda de Brasília, tinha dois comentários de leitores criticando a postura da revista, com argumentação bem articulada. Voltei lá e não só os comentários haviam sido apagados, como o espaço para comentar foi desativado.
domingo, 16 de agosto de 2009
Um e-mail pra Danuza
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----- Mensagem encaminhada ----
De: Bernardo Jurema
Para: danuza.leao@uol.com.br
Enviadas: Domingo, 16 de Agosto de 2009 14:53:18
Assunto: um abraço desde londres
prezada danuza,
gosto muito das suas colunas. suas observações sobre o quotidianos são pertinentes e perspicazes. vc tem um estilo e um domínio da língua que fascinam.
como assinante e leitor da folha, só queria expressar que o único momento que acho graça involuntária da sua coluna é quando você aborda a política.
pra começar, você faz um julgamento mordaz que alguém que você admite nem conhecer. então não fale, ora.
infeliz, também, comparar a ministra dilma a "general da ditadura". logo ela, que foi presa dos 19 aos 21 anos e que foi barbaramente torturada pelo nosso regime autoritário (que é chamado, pela empresa onde você trabalha, de ditabranda. talvez tenha sido branda pros Frias, mas não pra dilma!). achei de mau gosto a comparação, além de historicamente incorreta.
e não vejo tanta bravura na dona lina. muito legal sair fazendo denúncia (sem provas!), quando se tem metade do senado te apoiando, sem contar o apoio em massa do nosso oligopólio midiático (folha, estado, as globos, abril). vá ver onde estar o "bravo" caseiro francenildo, usado covardemente pela oposição/imprensa, e hoje desempregado (nignuém quer um funcionário que vai depois sair falando pelos cotovelos, o que viu ou acha que viu, pro primeiro curioso que bater em sua porta).
e comparar dilma a collor? francamente. olha a biografia de um de outro. olha o poder econômico de um e de outro. dilma é uma "self-made woman". leia o perfil dela na piauí do mês passado. collor é um filhinho de papai, crescido em brasília, cheirador de cocaína, herdeiro de fortuna nordestina etc.
o medo de regina, eu te explico agorinha: medo de um presidente retirante nordestino, feio, que fala errado, maior líder popular do país, que construiu o partido mais orgânico da américa latina. em outras palavras, medo de povo, tão típico de certos setores de nossa sociedade casa-grande & senzala.
essa lenda da ocupação da máquina não é embasada em fatos. o que houve foi a primeira transição no brasil desde 1964! os grupos políticos pouco se alternaram desde então. quando o pt foi eleito em 2003, foi a primeira vez que o PFL (ex-arena, lembre-se) estaria alienado do poder federal! isso sim é ocupação de máquina! lembro que naquele ano, tinha funcionário com cargo comissionado na Fundação Joaquim Nabuco (em recife), indicados por marco maciel, que ocupavam o posto havia DÉCADAS. transição democrática é isso mesmo. quando outro partido receber a confiança do povo brasileiro, nem se preocupe, danuza: serão seus aliados que ocuparão a máquina administrativa. entendo sua confusão: temos pouca experiência democrática no brasil, e esse negócio de troca de grupo no poder é algo novo para nós.
por fim, é tão engraçado gente feito você, que ADORA petista - desde que saiam do partido. Marina é uma grande figura pública deste país. quando foi ministra, perdeu TODAS as batalhas no congresso, pois a bancada ruralista é a mais forte por lá. Nunca vi NINGUÉM do que hoje a defendem entusiasticamente a defenderem naquelas ocasiões. Se isso não for oportunismo, não sei o que é. e digo mais, diz muito da importância do PT o fato de que alguém com a trajetória de Marina tenha construído sua carreira no PT. Por que será que não surge alguém assim nos outros partidos? reflita sobre isso.
Mas não se anime muito. sabe qual o impacto que marina vai ter na candidatura de Dilma? Zero. Viu a datafolha hoje? viu a popularidade do governo lula? e isso a despeito da tentativa sistemática do oligopólio midiático de criar escândalos em série e nível federal e de proteger e até promover o governo tucano de são paulo (e esconder o do RS!).
Enfim... achei fraco seu artigo hoje. evite falar de política, danuza. exceto se for pra falar das roupas dos políticos, aí vc volta pro que sabe falar.
um leitor seu... e petista! hehehe
um abraço desde londres,
Bernardo Jurema
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São Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009
DANUZA LEÃO
Quem tem medo da doutora Dilma?
Ela personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora
VOU CONFESSAR: morro de medo de Dilma Rousseff. Não tenho muitos medos na vida, além dos clássicos: de barata, rato, cobra. Desses bichos tenho mais medo do que de um leão, um tigre ou um urso, mas de gente não costumo ter medo. Tomara que nunca me aconteça, mas se um dia for assaltada, acho que vai dar para levar um lero com os assaltantes (espero); não me apavora andar de noite sozinha na rua, não tenho medo algum das chamadas "autoridades", só um pouquinho da polícia, mas não muito.
Mas de Dilma não tenho medo; tenho pavor. Antes de ser candidata, nunca se viu a ministra dar um só sorriso, em nenhuma circunstância.
Depois que começou a correr o Brasil com o presidente, apesar do seu grave problema de saúde, Dilma não para de rir, como se a vida tivesse se tornado um paraíso. Mas essa simpatia tardia não convenceu. Ela é dura mesmo.
Dilma personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora de escola que, quando se era chamada em seu gabinete, se ia quase fazendo pipi nas calças, de tanto medo. Não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura.
Ela tem filhos, deve ter gasto todo o seu estoque com eles, e não sobrou nem um pingo para o resto da humanidade. Não estou dizendo que ela seja uma pessoa má, pois não a conheço; mas quando ela levanta a sobrancelha, aponta o dedo e fala, com aquela voz de general da ditadura no quartel, é assustador. E acho muito corajosa a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, que está enfrentando a ministra afirmando que as duas tiveram o famoso encontro. Uma diz que sim, a outra diz que não, e não vamos esperar que os atuais funcionários do Palácio do Planalto contrariem o que seus superiores disserem que eles devem dizer. Sempre poderá surgir do nada um motorista ou um caseiro, mas não queria estar na pele da suave Lina Vieira. A voz, o olhar e o dedo de Dilma, e a segurança com que ela vocifera suas verdades, são quase tão apavorantes quanto a voz e o olhar de Collor, quando ele é possuído.
Quando se está dizendo a verdade, ministra, não é preciso gritar; nem gritar nem apontar o dedo para ninguém. Isso só faz quem não está com a razão, é elementar.
Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula; Regina foi criticada, sofreu com o PT encarnando em cima dela -e quando o PT resolve encarnar, sai de baixo. Não lembro exatamente de que Regina disse que tinha medo -nem se explicitou-, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior, mas Deus é grande.
Minha única esperança, atualmente, é a entrada de Marina Silva na disputa eleitoral, para bagunçar a candidatura dos petistas. Eles não falaram em 20 anos? Então ainda faltam 13, ninguém merece.
Seja bem-vinda, Marina. Tem muito petista arrependido para votar em você e impedir que a mestra em doutorado, Dilma Rousseff, passe para o segundo turno.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Terceiro Mês
Apesar de não ser essa a minha primeira experiência fora do Brasil, é a primeira na qual tenho plena consciência da liberdade de que desfruto aqui. Entre a guerra tropical e a paz chuvosa, fico com esta última, porque, sendo gente, é o clima social o que me importa.... Pelo menos enquanto o inverno não chega! E como disse um dos meus companheiros de casa: não existe clima ruim, existe roupa inadequada.
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Outro dia comi um cavalo, na Suíça. É um prato popular, mais acessível, inclusive, do que carne de vaca. Além de ser mais barata, é melhor de se comer, é mais macia. Fiquei pensando porquê não adotamos, no Brasil, esse hábito alimentar. E não me refiro ao consumo involuntário do comeu-morreu no Arruda. Não existe nenhuma razão racional que justique a proscrição da carne de cavalo. Resolveríamos, dessa forma, dois problemas sérios: a pobreza de uns e a fome de outros (que geralmente são os mesmos, uns e outros). Geraríamos renda, de um lado, e alimento, do outro. E, de que quebra, ainda resolveríamos um problema de segurança pública, os cavalos soltos pelo meio da rua de grandes cidades brasileiras. Partindo desse princípio, poderíamos adotar, também, hábitos culinários coreanos, incluindo cachorro na nossa dieta: mais fonte de renda, mais fonte de calorias e nutrientes. E menos vira-latas nas ruas. Viajar é bom. Bastou uma só refeição e eu já resolvi boa parte dos problemas urbanos brasileiros.
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O Brasil está na moda. Por onde tenho passado, uma coisa é clara, o Brasil é popular. Essa popularidade transcende classes sociais. Varia a motivação: futebol, música (de bossa nova e Villa Lobos até Calypso e Ivete Sangalo, com tudo o que tem no meio), a “alegria do povo brasileiro” (carnaval, mulatas), caipirinha, praias, surf, capoeira... Isso nem é novidade. Meus pais contam histórias de como, quando eles viajavam pela Europa na era pré-União Europeia, o fato de serem brasileiros abria portas, literalmente, para o ingresso deles nos diferentes países europeus. A novidade, hoje, é o aspecto político também. O Brasil é muito admirado pela estabilidade política (relativa), pelo crescimento em plena crise, pelas políticas públicas progressistas. Só não é popular na extrema esquerda europeia, que prefere preferir a Venezuela (a União Soviética dessa geração, guardadas as devidas proporções). Os árabes também nutrem profunda identidade com relação ao povo brasileiro. Em um trem, certa vez, um líbio de origem popular me explicou que os brasileiros e árabes são povos irmãos. Como evidência disso, ele falou: olha Ronaldo, Roberto Carlos, Romário: eles têm cara de árabe. E apontou o bom relacionamento do presidente Lula com o presidente Kadafi. Isso foi em 2004. Mais recentemente, na África, ser detentor de passaporte brasileiro também é um facilitador de interação social. Na California, no ano passado, um funcionário do metrô, ao saber minha origem, se disse fã de “Cidade de Deus” e do seriado “Cidade dos Homens”. Ainda lá, capoeira é a nova ioga. Nada mais cool. E caipirinha, tanto lá (na América) quanto cá, na Europa, já é comumente escrita com “nh”. Por que não estamos usando essa imensa popularidade do Brasil, que transcende classe social, barreiras étnicas ou religiosas? O Brasil é querido e admirado no mundo todo e por todo mundo (talvez menos no Bolívia, até hoje traumatizada com a perda do Acre – embora a elite de esquerda ainda adore Chico Buarque e inveje o PT e a elite conservadora prefira Caetano e tenha saudades de FHC, pessoas em todos os pontos do espectro político têm um disco de Roberto Carlos). Como nós podemos usar esse “soft power”, afinal é o que nos resta e que é, inclusive, mais eficiente do que o “hard power”. Ela está aí, é um dado da realidade. O desafio é como transformar essa popularidade natural, que não é fruto de nenhuma política de Estado, em diretriz política para atingir os objetivos estratégicos do Brasil.
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São impressionantes os paralelos entre os governos Obama e Lula. Cada vez mais isso fica evidente. Nem falo das próprias eleições de cada um deles, que são simbólicas e inerentemente significativas em si mesmas, pelo que representam em suas respectivas sociedades. Mais importante que isso é que ambos se caracterizam como governos de ruptura de grupos no poder e de visão de mundo. Isso se reflete na abordagem aos problemas mais iminentes, no tipo de oposição que vêm enfrentando e no tipo de críticas que recebem. Observando agora os primeiros meses do governo Obama, escuta-se muito do mesmo que se dizia, e ainda se diz, sobre o governo Lula. Só que em inglês. As críticas, por exemplo, dirigidas ao Geithner pela esquerda americana são muito semelhantes às críticas que setores da esquerda ainda fazem a Meirelles (ambos são representantes dos bancos). A crítica à política externa de Obama poderia muito bem ter saído da boca de Arthur Virgílio (defende “sanções econômicas” e retirada do embaixador brasileiro de La Paz - leia aqui) ou Diogo Mainardi (e o preconceito social: “Lula é semi-analfabeto” - veja aqui), ao invés de Newt Gingrich (defende o uso de ingerência interna para desestabilizar o Irã - leia aqui) ou Glenn Beck (preconceito racial: “Obama is a racist” - veja aqui)... Se eu traduzisse o que fala um e dissesse que é o oturo, ninguém nem perceberia – a postura beligerante, preconceituosa e raivosa é a mesma.
As políticas adotadas, caracterizadas pelo pragmatismo acima de tudo, também são semelhantes. A reforma do sistema de saúde pode ser análogo ao Bolsa Família, pelo que representam em termos de inclusão social. O “stimulus package”, série de investimentos públicos com o intuito de estimular a economia aumentando a demanda, é equivalente ao nosso PAC. Novamente aqui, as críticas que recebem são muitas vezes idênticas, só mudando a língua. Obama oficialmente acabou com a “guerra contra o terror”. Em seu lugar, adota uma postura mais multilateral, que leva em conta os interesses dos outros países, respeita o diálogo e as instituições internacionais e vê o desenvolvimento econômico e social como a forma mais eficaz de combater o terrorismo. Em outras palavras, Obama adotou a diplomacia lulista... Desde que entrou no governo, Lula é obsecado por bio-diesel e etanol. Agora, uma das prioridades de Obama é fazer da economia verde um dos motores da economia americana. Não quero dizer que Obama esteja imitando Lula. Não se trata disso. Mas são governos que, em suas respectivas sociedades, representam uma mudança de rumo, uma ruptura com a situação vigente. Além disso, ambos são governos que adaptam suas ideologias à realidade (e não vice-versa). E que enfretam oposição feroz e intransigente pela defesa do status-quo.
Há uma diferença, porém, em favor dos americanos: a clareza do debate. Lá, o conflito é mais explícito e é mais público. No Brasil, a gente fica refém do moralismo denuncista, que camufla as verdadeiras questões de fundo por trás das disputas político-partidárias. Nos Estados Unidos, por outro lado, há uma pluralidade maior de vozes no debate e há um debate público de fato. Por mais tosco que seja, e muitas vezes é, o debate ocorre. E ele existe em torno de causas. O Partido Republicano não fica acusando Obama de ser ladrão ou bandido. Questionam suas políticas. Exemplo disso é agora a briga de Obama pela reforma do sistema de saúde. Obama quer fazer o SUS lá. É como se, para implantar o Bolsa Família, Lula tivesse que enfrentar uma votação no Congresso Nacional. Sorte nossa que no nosso sistema político ele não tinha que fazer isso. Nunca iria passar. Mas aqui, quando se quer combater o sucesso da admnistração, a oposição muda o assunto – é incapaz de articular um discurso coerente que ofereça à sociedade uma alternativa ao Governo Lula. Não se sabe como se posiciona a oposição em relação às grandes questões do governo Lula (distribuição de renda, crescimento do Nordeste, política externa, etc.) – a gente não sabe porque eles nunca falaram. Sabemos que eles são contra “roubo” (e quem não é?), mas não sabemos o que propõem para tratar disso, até porque eles também estão sujeitos a isso (alô RS, alô Cuiabá). Enquanto isso, ao norte do Rio Grande, os conservadores distorcem os fatos, apelam a sentimentos racistas da população, criam factóides (certos comportamentos da direita são análogos – se nós temos a Abril - leia aqui, eles têm a Fox News - veja aqui). Mas se posicionam claramente: são contra a reforma do sistema de saúde. Se Obama conseguir aprovar algum projeto de reforma, a população poderá julgá-lo se estava correto ou não. O conflito é explícito.
Minha aposta é que vamos observar lá algo parecido com o que ocorreu aqui; o governo Obama é a versão Herbert Richards do governo Lula. O primeiro ano do governo vai ser duro, os ataques da oposição são coordenados com grupos de interesses arraigados e muitas vezes abaixo da cintura; há uma óbvia articulação entre grupos políticos e empresas de comunicação (republicanos e FoxNews, tucanos-pefelistas com a Abril e as Organizações Globo); a popularidade vai cair bastante (já está caindo) e chegará ao ponto em que sua legitimidade será posta em questão (já está sendo); mas, mais adiante, o povo vai sentir uma melhora na qualidade de vida, consequência das políticas públicas adotadas, e Obama terá índices lulistas de apoio popular. Será?
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Estava em Lausanne no dia 1º de agosto – a data da festa nacional da Suíça. Conversei, nesse dia, com um amigo suíço:
Eu: no ano passado, estava nos Estados Unidos no 4 de Julho. Agora estou na Suíça no Primeiro de Agosto.
Ele: ...
Eu: o que isso quer dizer?
Ele: que você tá viajando muito.
Eu: ...
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Tendemos a generalizar a Europa aí no Brasil. “Fulano tá na Europa”, ou “vou passar férias na Europa” ou “Sicrano tá tão europeizado”. É um erro. A Europa é uma colcha retalho, às vezes bem mal remendada (que o diga a ex-Iugoslávia!). Inglaterra, França, Alemanha (os três maiores países da UE) têm mais diferenças entre si do que, digamos, Argentina e Venezuela ou Chile e Colômbia. Se alguém que mora em Portugal disser que mora na Europa, ria. Alto. Sinto informar-lhe, mas em Portugal se está mais perto da África do que da Europa (em mais de um sentido; e não vai aqui nenhum juízo de valor; trata-se, tão-somente, de uma constatação). Viajar na Europa, às vezes, parece dar razão às piores conclusões do determinismo geográfico. Quanto mais descemos, mais bagunçado vai ficando. Recenemente, fiz uma viagem e pude constatar essa variação. De Londres, peguei um trem até Paris. Já no metrô de Paris se percebe a diferença. Tinha passado um mês e meio em Londres e o metrô, apesar de constantemente lotado, é tranquilo e ordenado. Logo no caminho da estação até onde eu ficaria hospedado, e já tinha um doido berrando no vagão ao lado. De Paris, voei para Barcelona. Lá, quando ia subir a escadaria pra sair da estação, ouvi um tumulto do lado de fora. Corri na direação do barulho. Encontrei a maior barafunda. Uma gritaria, um corre-corre, um calor húmido... por um momento me senti na Conde da Boa Vista em plena ação da PM contra os ambulantes. E, mais adiante, tinha o foco do conflito: três pessoas sangrando, atormentadas, sendo socorridas por policiais. Impossível deduzir o que ocorrera. Vi uma mulher especulando com um amigo o que teria acontecido. Me aproximei e perguntei o que era. Resposta: “no lo sé”. O que é isso? Lei do silêncio? Estou no Coque? Depois de uma semana de sol e bagunça tropicais, fui embora. Lausanne acaba com a tese do determinismo geográfico. É um imenso contraste sair da Inglaterra ou da França para a Suíça. Os dois primeiros parecem pobres e decadentes diante do terceiro. A Suíça é como um clube privado exclusivíssimo, cujo ingresso é precedido por árduo e longo processo e que, mesmo assim, raramente é definitivo. (Seguindo essa analogia, a Espanha é o piscinão de Ramos dos branquelos europeus, que descem para se bronzear um pouquinho). Adquirir cidadania suíça é algo raro. Soube de um “português” que mora lá desde que tem 5 anos. Hoje tem uns 30 e ainda é “português”. Na Suíça tudo é muito arrumadinho, tudo é no lugar, tudo tem cheiro de araucária. Exceto as pastagens, que têm cheiro de bosta de vaca mesmo (mesmo sendo as vacas melhor alimentadas do mundo, a bosta delas cheira igualzinho à bosta da vaca magricela da Zona da Mata pernambucana).
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Mês dois (e meio)
Nem havia completado um mês de Reino Unido e já estava totalmente integrado, juridicamente falando. Já tenho “CPF” (National Insurance Number), casa, telefone, conta em banco, trabalho... Tudo rápido, fácil e prático. Tudo muito anlgo-saxão?
O emprego, tudo bem, não é nenhum emprego dos sonhos... No final das contas, fiquei com um típico emprego temporário de verão: distribuição de panfletos. No caso, para a academia mais cara daqui, a GymBox. As três filiais ficam todas em áreas chics (ou “posh”, porque estou na Inglaterra e não na França!): Bank, Holborn e Covent Garden. Eu faço panfletagem para a da Bank. A vantagem desse trabalho é que é flexível. São três turnos de duas horas cada, de segunda a sexta, e eu vou mais ou menos quando eu quiser. Tenho direito a usufruir da academia também (sauna incluída). E posso viajar quando quiser. Mas o trabalho é ingrato. É sem sentido, na verdade. Se a gente analisar racionalmente, nunca pegaria panfleto. Que tipo de informação inestimável e imprescindível você receberia na rua que não poderia obter, você mesmo procurando? Quem é que recebe um panfleto e diz, “ora, nem tinha pensado nisso! Vou lá pagar 100 libras esterlinas por mês e fazer ginástica nessa academia caríssima!”? Mas, de algum modo bizarro, funciona: há quem pegue os panfletos. Tentei, nessas últimas semanas, identificar um padrão. Será que tem algo que eu possa fazer para ser mais eficaz? Cheguei a algumas conclusões. Asiáticos do Leste quase nunca pegam panfletos; negros quase sempre pegam; quando mulher distribui, muito mais homem recebe panfleto; quando homem distribui, não se observa preferência (conclusão: homem é mais besta que mulher, porque acha que a mulher vai dar algo mais que o panfleto!); turistas são presas fáceis e ótimo pra esvaziar estoque (pegam tudo!). Existem, também, diferentes maneiras de negar. Tem o grosseiro, que faz careta e bufa alguma palavra incompreensível; o delicado, que agradece encarecidamente pelo panfleto oferecido, quase como se eu estivesse fazendo-lhe um favor pessoal; tem o discreto, com um leve movimento circular da mão em sentido horário, com o braço colado ao corpo; tem o que despreza, ignorando solenemente a minha existência; teve um com humor mervaliano-pai: grunhiu algum desaforo incompreensível; e teve o outro com humor mervaliano-pai: foi se aproximando, gesticulou como se tivesse a intenção de pegar o panfleto e, na hora H, se esquivou, rindo; tem o über-simpático, que tá carregado de coisas – pasta, sacola de compras, livros, o escambau –, com as duas mãos ocupadas, geralmente falando ao telefone, e, mesmo assim, dá um jeito pra levantar o dois dedos para que eu encaixe o papelzinho; tem o indeciso, que vem olhando de longe, chega perto, avalia, pega, lê, hesita, e, por fim, quando eu já comemorava ter me livrado de mais um papelzinho, vai e devolve. Aliás, isso quebra a regra implícita da panfletagem. Ninguém força ninguém a pegar papel na rua, mas se você pegou, não devolva! Nós somos distribuídores de lixo! Não coletores: para esse serviço, existem outros profissionais. Isso tem que ser respeitado. Quando alguém vem devolver, a vontade que tenho é de virar as costas e andar na direção contrária. O que mais me irrita é quando a pessoa ainda vem com argumento ecológico: vou devolver pra preservar a natureza. Engane a outro. A árvore já foi destruída muito tempo antes de virar aquele panfleto. Se você quer mesmo ajudar, o melhor a fazer é pegar o máximo possível de panfletos e levar para um posto de reciclagem! Me devolvendo, apenas significa que darei a outra pessoa que irá jogar no chão... Mas concluindo, a verdade é que não existe técnica para distribuição de panfleto. É uma conjunção de fatores que faz com que uma pessoa pegue ou não. Se o dia estiver lindo, estivermos mais distante do epicentro do setor financeiro, for horário de almoço, a pessoa distribuindo for uma mulher e quem receba for um homem, jovem, negro, tranquilo, sem pressa e, talvez, interessado em fazer ginástica, as chances são que ele pegará o panfleto. Eu apostaria nisso...
Aliás, aqui aposta é coisa séria. Desde que Michael Jackson anunciou que faria os 50 concertos aqui, até a sua morte recente (provavelmente vocês devem ter ouvido falar, a menos que tenham passado as últimas semanas passeando em Marte), as chances de que todos os shows seriam realizados diminuiu drasticamente - veja aqui. Quando teve a recente eleição para se decidir o presidente da Câmara dos Comuns (os deputados aqui), o repórter tinha, a seu lado, um quadro-negro indicando a cotação dos favoritos de acordo com as mesas de aposta!
Falando em dia lindo... Embora aqui estejamos em pleno verão, os dias tendem a ser frios e chuvosos. Hoje mesmo, são quase duas da tarde e está fazendo em torno de 19 graus. E nublado. Creio que talvez por essa razão o povo inglês é tão simpático. Eles já acordam sabendo de uma coisa: o tempo vai ser ruim. O que vier é lucro.
Até agora, as impressões que tenho do país são as melhores possíveis – noves fora o clima. Sei que vou chatear algumas pessoas dizendo isso, mas Caetano Veloso tem razão. Em London, London, ele resume muito bem isso aqui:
“I’m wandering round and round, nowhere to go”
Voluntariamente ou não, perambular sem rumo pelas ruas da cidade é algo sempre agradável e interessante.
“I cross the streets without fear”
Mudar de país requer também uma mudança de mindset (mentalidade)... Andar nas ruas de Londres é agradável, entre outras razões, porque não sentimos nenhum dos medos tão típicos das grandes metrópoles brasileiras. Sem medo de violência, da truculência do trânsito, sem medo de gente, em suma. Caminhar pelas ruas de Londres é uma viagem através do tempo e dos lugares do mundo. Vagar distraidamente, observando as diferentes paisagens urbanas, sem receios, sem nenhum dos muitos medos que me definem como brasileiro. Sem medo, tampouco de ver. De ver uma cena de miséria africana ou de ver o Atacadão de Presentes no lugar de onde era o Marista. Ando alguns quarteirões na região de Bank, por exemplo (o centro financeiro da cidade), e passo pelo império romano, depois entro numa ruela que remonta à Idade Média, em seguida passo por uma construção vitoriana e, mais adiante, por um centro cultural modernista.
“Everybody keeps the way clear”
“And people hurry on so peacefully”
Enquanto isso, ao meu redor, tem uma muçulmana vestindo a burka e falando no seu I-phone, e logo ali passa um casal de punks coloridos, e um judeu cruzou comigo e vários sikhs, todos com turbante e com o mesmo estilo de barba, passam também por mim. E passam por mim todas as tonalidades de cor de pele, todos os tipos de chapéus e idumentárias religiosas ou étnicas, homens, mulheres e todos os gêneros existentes entre os dois, e ouço várias línguas serem faladas, e vários sotaques de inglês. E apesar do número imenso de pedestrers, a multidão flui. À vezes, dentro do metrô, é tanta gente, mas tudo funciona. Na escada rolante, sempre as pessoas se mantém à esquerda, deixando o caminho livre para quem quer usar a escada como, hmmm, uma escada e não como elevador. E não há tumulto, não há bagunça, o caminho sempre aberto e “as pessoas se apressam pacificamente”.
“While my eyes go looking for flying saucers in the sky”
Sempre achei esse trecho da música viagem de Caetano. Hoje eu entendo. Eu vivo “olhando pro céu a procura de discos voadores”... na verdade, olhando por aviões. Já cheguei a avistar cinco ao mesmo tempo! Mas o mais comum são dois ou três.
“A group approaches a policeman, he seems so please to please them”
Eu vivenciei esse trecho. Saindo de uma estação de metrô (Canary Wharf), precisava pegar um ônibus. Os dois policiais viam as pessoas meio perdidas, tentando se orientar no mapa, e eles mesmos tomavam a iniciativa de oferecer ajuda, indicando para onde as pessoas deveriam seguir.
“Green grass, blue eyes, grey sky, God bless
Silence, pain and happiness”
Tem muitos parques e áreas verdes e de lazer na cidade. Bastou um princípio de raios de sol conseguir abrir caminho por entre as nuvens, e os gramados ficam coalhados de branquelos de olhos azuis, adquirindo parte da dose anual de vitamina D. O padrão aqui é céu cinzento, mesmo. Não é exagero nem modo de dizer. O vento que chega aqui está recém saido do Polo Norte!
Eu estou morando no bairro Leytonstone. É a última estação da zona 3 na Central Line do metrô. Estou a 30-40 minutos de metrô da London School of Economics, ou 1h30min de bicicleta. Ou seja, longe demais. Aqui está legal por enquanto. Mas deve ser temporário. O meu bairro é multi-cultural. Não me refiro àquele multiculturalismo provinciano de Recife (que acha que diversidade cultural se resume a côco, frevo e maracatu). Multiculturalismo, mesmo. No meu bairro tem gente de todo canto. E se reflete no comércio. As lojinhas na minha vizinhança são etnicamente divididas. Tem a do turco, a do indiano, a do búlgaro, a do paquistanês... mas os clientes são os mais variados. O turco é preferido porque geralmente é mais barato. De acordo com o site Upmystreet, que consultei quando estava procurando onde morar, o meu bairro é de classe-média e com tendência esquerdista. Resumo do meu bairro : nível de renda familiar é média, o de interesse em assuntos da atualidade é alto, o de educação é alto, o de casas com prestação é médio, o de famílias com crianças é médio e o de casas com satélite é baixo. Aqui se encontram populações metropolitanas de colarinho branco com alta concentração de minorias étnicas, ainda de acordo com o site, mas também com minha prórpria vivência. Eu me adequo ao perfil das estatísticas do bairro. Sou uma minoria étnica, afinal de contas. Os habitantes do bairro tendem a ler The Guardian, The Independent ou The Observer, jornais de linha editorial esquerdista. Em geral, as pessoas aqui não têm carro, pois usam o sistema de transporte público.
Estou na região do leste da cidade. As instalações das Olimpíadas serão por aqui. A cidade está em pleno processo de construção e reforma. “Demolir, escavar e projetar” é o lema. A região é tida como mais desvalorizada e é onde se encontram alguns dos bairros mais pobres. Mas é também aqui onde estão as áreas mais boêmias da cidade.
Queria fazer relatos mensais. Mas esse veio atrasado. O problema é Londres. Coisas demais acontecendo e minha curiosidade por conhecer a cidade é imensa. E ainda o trabalho, fisicamente extenuante. Mas que recompensa. Graças a ele, estarei indo visitar Letícia e Diogo! Até o próximo relato!
Eu já sabia disso (Noé tinha falado), mas estou constatando empiricamente. Embora haja trechos da cidade que são um canteiro de obras (principalmente no Leste, em função dos Jogos Olímpicos), a maior parte das obras são de reformas de prédios antigos, e não de construção de novos. Esse aqui está todo empacotado.
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Não é o Vassourinhas! Trata-se da estreia mundial do filme “Harry Potter 5”.

Damn!
Não tem mistério, o Rio tem uma beleza de outro mundo, mas um tour virtual pela cidade sem ver favela é piada.
no mais, adorei o teu texto.
e o video mostra um rio que nunca vi, realmente fabricado. Uma pena, pois e realmente uma cidade muito bonita. Porem fingir que as favelas nao existem e um pouco demais!
boa berna, mande brasa!
Não acredito que as olimpíadas deva ser uma medida compensatória para tal fenômeno, que vai muito alem deste argumento encontrado em diversas obras acadêmicas, mas é bom ter gente pensando assim por que a gente aprende a não ser tão idiota e mesquinho com os outros sem precisar nunca na vida passar por um papel deste.
Ahhh, se um dia as olimpíadas de verão forem no Brasil, acredito que o rio seria o local.