sábado, 28 de julho de 2007

PANdemônio ou PANacéia? Que tal PANaquice...


Eu me lembro de ter lido a declaração de um membro do COI sobre a candidatura Rio 2004, nos anos 90. Em tom crítico, ele falou algo nessa linha: trata-se de buscar uma cidade para as olimpíadas, não as olimpíadas para uma cidade.

Vendo o Pan-07, fica claro o que ele queria dizer. O evento foi vendido (literalmente) para a sociedade brasileira como a panacéia que iria resolver os problemas da cidade... mais um pouquinho, e era do país inteiro!

Os argumentos dos defensores são bastante emocionais, para não dizer irracionais. “O Rio é a cara do Brasil”, “a cidade tem muitos hotéis”, “a paisagem é linda”. Francamente, beiram o desvairio. O problema desses argumentos é que a realidade, ora bolas!, insiste em se impor.

O Rio é, afinal de contas, uma das cidades mais problemáticas do Brasil e das Américas. É preciso listar? Não bastasse a crônica crise de segurança pública, o trânsito é complicado e a maior parte da população vive em comunidades onde a ausência do Estado é a característica básica... Todo esse contexto social frágil sob péssimos gestores públicos (Sérgio Cabral vem quebrar esse traço tão marcante das sociedades carioca e fluminense).

Dada essa realidade caótica, haja abstração para justificar a realização dos jogos panamericanos no Rio. É mais do que uma irresponsabilidade realizar um evento desse porte numa cidade como o Rio, com tantos e tão graves problemas sociais e urbanos. É imoral gastar-se quase R$ 5 bilhões para construir quadras de esgrima, pistas de hipismo e campos de beisebol (que não prestam) numa cidade onde recentemente houve – só pra ficar num exemplo – o colapso total do sistema público de saúde.

Temos cidades com condições ideais para realizar tais eventos, como Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis... Cidades que, inclusive, deveriam ser premiadas, com eventos assim, por sucessivas gestões competentes.

Não é o Pan que resolverá os problemas do Rio. Ele apenas os clamufará, abafará. Ou, pior – os explicitará. Alguém está surpreso com os superfaturamentos? E com a desorganização dos ingressos? E com as obras inacabadas? E com a panaquice de César Maia? Não era óbvio que tudo isso iria acontecer?


É de políticas públicas, como as recém anunciadas pelos governos federal e estadual, que o Rio precisa. Auto-estima e auto-imagem não se resolvem desse modo superficial – isso é como plástica em pessoas mal-resolvidas... resolve até a próxima ruga. “Amadurecimento” não se atinge de fora para dentro, mas sim por processo interno, de dentro para fora. No plano individual, seria como uma pessoa que se casa e se acha mais madura só por isso... Pan é perfumaria. E das caras.

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Acho relevante essa discussão. Num país de recursos escassos e problemas de sobra, nunca é demais discutir-se como são invertidos os recursos públicos. E com a candidatura dessa mesma cidade para as Olimpíadas e do país para a Copa do Mundo, refletir o Pan torna-se obrigatório. É interessante registrar, também, que essa talvez seja a primeira vez que eu e Diogo discordamos substancialmente.

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Para melhorar-se a auto-estima coletiva e nossa imagem lá fora, faz-se mais necessário medidas como as do Governo Federal de combate à corrupção. Temos repercussão dessa natureza lá fora: veja aqui.


Realizar eventos para os quais não temos condições, como esses jogos pan-americanos, apenas contribui para reações negativas, como essa matéria aqui.

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Para se ter uma idéia do que anda acontecendo por lá, veja o blog A verdade do Pan.

O editorial da Folha de São Paulo, do dia 15 de Julho, também está bem interessante.

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E, por fim, alguém ainda agüenta trocadalhos do carilho com o prefixo "pan"? Panta que o pariu!

6 comentários:

diogo jurema disse...

Realmente, discordo integralmente da sua posição anti-PAN.
não estou com tempo para escrever agora, mas ao ler fiquei tão revoltado que tive que deixar registrado que li e que sua visão é exageradamente pessimista. não deveria nunca ter passado esse blog da verdade do pan pra você. hehehe
depois chego por aqui de novo.

Jorge disse...

tenho um sentimento contraditório com relacao ao Pan, de um lado estou mais inclinado a concordar com o Bernardo, do outro, do outro, apesar do quase-nenhum legado positivo deixado, gosto de esporte que o divertido mesmo é ver atletas de tantos países demonstrando seus resultados. enfim escrevi algumas impressões no meu empoeirado blog.

Anônimo disse...

O Pan deu certo Bernardo. Por mais que a final do Softbol não tenha acontecido. Lula ser vaiado por sinal foi só mais uma demonstração do sucesso do evento. Deu certo, mas eu me sinto representado na minha crítica ao superfaturamento das obras. Me lembro da promessa do metrô para a Vila Olímpica e é a única coisa que tenho pena de não ter sido realizada, quem sabe nas Olimpíadas? O incrível disso é como a gente discorda em todas as nossas opiniões...

Dd

www.horoscopo.blogspot.com

Bernardo Jurema disse...

Pois é Dado... Tudo é uma questão de enfoque. "Dar certo" é algo relativo... Deu certo porque conseguiu-se abafar a realidade do Rio por uns dias? Deu certo porque, como Jorge colocou muito eloquentemente, a "patuléia" (homenagem a Gaspari) financiou o divertimento das classes médias? Mas e daí? O que, disso tudo, ficará, não será efêmero? O que, disso tudo (4, 5 bilhões), ficará em termos de infra-estrutura para os pobres?
Curioso é dissociar o evento do superfaturamento, como se uma coisa não estivesse intrinsecamente ligada à outra!
E curioso é esperar de um evento assim a solucão para os problemas do Rio! Ora, o metrô deveria ser feito porque é bom pra populacão do Rio. Ponto.
Mas é claro que fico feliz que o Pan-07 tenha "dado certo", com isso querendo dizer - que nenhum artleta estrangeiro tenha levado uma bala perdida!
Não sou contra o Pan no Brasil. Sou contra esses eventos caros no Rio... Se pelo menos fosse tudo bancado pela iniciativa privada, como em outras plagas...

Dado disse...

Isso de dizer que a iniciativa privada banca todos os investimentos em outros lugares é meio irreal para o Brasil. O superfaturamento de gastos eu trato diariamente, não é culpa do Pan. É melhor que tenha sido nas obras da Vila e dos estádios que lá em Lagoa do Ouro, onde ninguém nem vê nada construído. Agora, se fala em quatro bilhões de investimentos e o retorno (venda de apartamentos - 17 prédios de 15 andares, com vários blocos cada, na Barra da Tijuca, aluguel do Engenhão para os clubes, a melhoria efetiva de um símbolo nacional como o Maracanã). Por sinal, se o Brasil sediar uma Copa do Mundo temos dois estádios prontos. Em Recife, os projetos do PCdoB e do Santa Cruz são de centenas de milhões. O maior lucro? Com certeza é a visibilidade. Estava lendo agora: "o capitalismo não pode se dar ao luxo de servir apenas às necessidades reais dos consumidores". A visibilidade do Brasil como um local para investimentos e até mesmo turismo vale com certeza alguns bilhões. Agora, resta aumentarem os investimentos no Cinema

Jorge disse...

Realmente o Engenhão financiado pelo dinheiro público, leia-se do POVO, vai ser "dado de quase de graça" aos clubes, por um custo de pouco mais de mil reais. A alegação é de que a manutenção não saí por menos de 400 mil. Ainda assim até agora nenhum clube aceitou a proposta. No final das contas, o povo, o país inteiro, pagou pra construir o estádio e quando muito vai ter quer pagar pra assistir um joguinho de um clube PRIVADO. Essa é a nossa maneira de ser democrático. Aliás como mostrou um reportagem da TVE - e eu vi a lugar pessoalmente - tem uma favela bem em frente ao engenhão, acho que se chama Belém, os moradores disseram que havia promessas de retira-los de lá ou pelo menos melhorar as condições de vida, mas segundo a prefeitura não previsão para qualquer obra. é um ultraje, os caras moram ao lado literalmente do moderno engenhão, e "vivem" em barracos com esgoto a céu aberto. Eu adoro esportes, achei muito bonito o engenhão, mas não sou CÍNICO.
Muito bacana essa lógica, melhor a corrupção que a gente vê aqui, gasta para servir a quem sempre foi servido, e endinheirar e dar prestígio a quem sempre se serviu do Estado do que a corrupção lá nos confins, muito lógico isso.
Ricardo Teixera já vaticinou: a copa do mundo vai RESOLVER os problemas do Brasil, palavras dos seus garotos-propaganda Romário e Paulo Coelho, pelo visto já tem gente comprando a idéia.