segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Quando o preconceito se torna explícito

O preconceito, de qualquer ordem, é muitas vezes velado. Mesmo quando está latente, é dissimulado, disfarçado. Nem por isso menos sútil. Apenas não oficial, público, proclamado. Talvez envergonhado. Mas sempre presente.

Eu nunca fui pessoalmente destratado (por ser brasileiro no exterior, ou nordestino no Brasil). Com algumas exceções. Uma vez, uma curitibana, fazendo intercâmbio comigo na França, depois de me ver me comunicando com a comunidade anglófona, a latino-americana e com os brasileiros, dominando as três línguas (inglês, francês, espanhol), além da língua nativa, ela tentou fazer um elogio: "você tirou o preconceito que eu tinha contra os nordestinos". Em outras palavras: viu alguém que fala muitas línguas (como isso, por si só, impressiona os imbecis!), e pensou, "ah, os nordestinos não são todos burros" (como se aprender língua fosse indicativo de capacidade intelectual e não, como tudo no Brasil, de minha classe social e as oportunidades que tive por conta disso).

Mas o preconceito maior não é revelado por anedotas pessoais. Se fosse por isso, eu nem notaria. É uma questão histórica, mesmo. Afinal, o descaso com que a periferia do centro econômico e político do país sempre foi tratada não é fruto do acaso ou castigo divino.

Tem quem julgue Paulo Henrique Amorim "radical", entre outras coisas, porque ele costuma caracterizar a elite brasileira como "branca e racista e separatista (no caso de São Paulo)".
E aí ouço uma história de um tio meu. Ouviu pessoalmente de Serra, nos anos 90, quando o convidou para uma inauguração de uma empresa em Pernambuco (vou ser bem vago para não comprometer ninguém). "A resposta: do Nordeste, eu não quero nem a água de côco". Dia desses, PHA publicou este post aqui. Lá afirma: "o preconceito contra os nordestinos é a agenda secreta de 2010".

Também muito da crítica ao Presidente Lula vem carregado de preconceito de classe e, no sul-sudeste, preconceito de origem também.

E se ainda há quem duvide, aí a Internet permite o registro definitivo quando um racista deixa de lado a máscara usual e assume seu verdadeiro ódio sócio-regional.

Me refiro a uma troca recente de mensagens via Facebook com um conhecido meu lá do Rio. Tomo a liberdade de publicar aqui porque as mensagens não foram privadas. Foram postadas pelo autor em seu próprio "mural" do Facebook, sem qualquer constrangimento. Eu fiz um comentário a um vídeo promocional da candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos (veja aqui), que ele havia postado. Eu comentei, em tom jocoso, que haviam "photoshopado as favelas". Daí seguiu-se essa troca:


Rogerio Campos
Bernardo, nao photoshoparam nada, inclusive pq o projeto Rio 2016 tem mt de inclusão social. Minha cidade é simplesmente bonita mesmo, foi mal se Recife nao tem 1 decimo do charme e tampouco vai receber uma olimpiada!

03 de setembro às 12:54
Bernardo Jurema
haha
ei po, isso né uma competição não, velho. não precisa levar qq crítica pro pessoal não! o vídeo dá uma maquiada na cidade... normal.
aliás, eu sou contra olimpíadas, copa etc em recife. nuzman e ricardo teixeira vão encher as burras de dinheiro público... :(
e o brasil inteiro, os pernambucanos inclusive, apoiam o rio2016. financeiramente, inclusive, por meio dos nossos impostos da grana federal que vai bancar esse negócio. lembre-se disso.

Rogerio Campos
Ah Bernardo, que PIADA! Os Estados do Sudeste (basicamente Rio-SP) bancam o nordeste há séculos, desde que o Rio virou a capital do Brasil... Talvez, de fato, essa olimpiada seja a 1a oportunidade do Rio (e sua populacao) recuperar uma pequena parcela de todos os impostos nossos que vao pro ralo aí por esses bandas...Isso sem contar o fluxo migratorio classico que tantas mazelas trouxe e ainda tras ao eixo RIO-SP...



Algo assim serve para nos lembrar que o racismo à brasileira, sempre dissimulado porém latente, às vezes emerge de forma bruta, nua e crua. E torna plausível a história de Serra. E dá credibilidade à assertiva de PHA ("elite branca, racista e separatista"). E explica o ódio que certos setores nutrem em relação ao Presidente Lula e ao povo ao qual ele se assemelha e com quem compartilha um caldo de cultura e de valores, para vergonha desses setores minoritários (brancos, racistas e separatistas).

Mas é um alento saber, por outro lado, que vivemos um momento de transição, em que investimentos públicos do Governo Federal, numa monta sem precedentes na História do país, estão transformando essa realidade - exemplo eloquente são as ecolas técnicas federais.

O comentário do advogado, que postei acima, além de historicamente errado, é extremamente preconceituoso. E eu disse isso a ele. E o adverti: nunca repita isso pra um nordestino, porque pega muito, muito mal... Essa linha de raciocínio, eu expliquei, é análoga aos críticos da imigração latina nos Estados Unidos, turca na Alemanha e árabe na França...

Eu disse mais: desde que o Rio virou capital do Brasil que o resto do país manda impostos pro centro e recebe muito pouco em retorno... o que, aliás, explica as inúmeras revolstas independentistas que aconteceram tanto ao sul quanto ao norte, durante o Brasil Colônia e o Brasil Império. Sem contar que disperdício de dinheiro público não é exclusividade de nós, atrasados nordestinos... inclusive porque, historicamente, sempre recebemos menos, proporcionalmente. Engraçado um fluminense falar isso... um estado que teve os Garotinhos governando... E o fluxo migratório, que trouxe "mazelas", trouxe também a mão de obra barata que tornou possível o desenvolvimento industrial dessa região do país.

Só agora esse processo histórico está sendo revertido, com as políticas do governo Lula. Nunca houve tanto investimento no Nordeste, e por isso mesmo, a nossa região tem crescido acima da média nacional. E não por acaso, pela primeira vez em décadas, desde os princípios do processo de industrialização brasileira, o fluxo migratório se reverteu. Tudo isso graças a uma série de políticas como essa aí das escolas técnicas, graças a uma visão holística do país, graças ao respeito a todos os brasileiros, de qualquer origem social ou regional. Tudo isso, em suma, graças a um governo que não tem vergonha do seu povo, muito pelo contrário: é seu reflexo mais puro:




***

Agora que penso que talvez não seja por acaso que os melhores presidentes da História do País, Getúlio e Lula, sejam um gaúcho e o outro pernambucano!

5 comentários:

Alvaro disse...

Bom relato Bernardo.

de vez em quando cruzo com pessoas parecidas por aqui... Como se a desigualdade social fosse algo normal e inerente ao nosso país.

abraços

Jorge disse...

Berna, muito foda esse texto... exato e no ponto.. destaco esse trecho primeiro: " Uma vez, uma curitibana, fazendo intercâmbio comigo na França, depois de me ver me comunicando com a comunidade anglófona, a latino-americana e com os brasileiros, dominando as três línguas (inglês, francês, espanhol), além da língua nativa, ela tentou fazer um elogio: "você tirou o preconceito que eu tinha contra os nordestinos". Em outras palavras: viu alguém que fala muitas línguas (como isso, por si só, impressiona os imbecis!), e pensou, "ah, os nordestinos não são todos burros" (como se aprender língua fosse indicativo de capacidade intelectual e não, como tudo no Brasil, de minha classe social e as oportunidades que tive por conta disso)."
Vc parece a primeira pessoa que entende que "falar" varios idiomas nao tem valor em si, mas sim quando vc tem o q falar, vide "Ronaldo fenomeno".
Muito brilhante esse teu texto tenho vontade de pedir para todas pessoas que vierem falar comigo, antes de dar bom dia, lerem-o!

Outra dia tive uma discussao com curador de um festival, que nos convidou para tocar, minutos antes de entrar no palco, cujo teor beirava o surreal, entre outras ele disse que o Lula odeia faculdade, odeia que tem ensino superior, falou q todos os dados do bolsa-famila, e do ProUni sao mentiras.... e pior disse que os jornalista no Brasil sao herois ao denunciar o governo como fazem, sao corajosos herois.... o que fazer diante disso.. por ironia quem tava patrocinado o evento, um festival, era uma prefeitura do PT (que acabara de assumir depois de anos de governo direita-volver)
mande esse texto por e-mail, vale a pena...

Eu juro que so queria encontrar uma unica pessoa que fizesse uma critica ao Lula sem desfiar preconceito de classe, de origem, ou afins...

Sinto um misto de revolta e tristeza com essa visao tacanha que se tem no eixao sangue-suga do Brasil

André disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bandim disse...

ótimo texto, pra variar :)
não saberia dizer que presidente foi melhor para o país como um todo, para que parte dele ou para que classe. mas iniciativas como as que você citou merecem sim ser divulgadas.
sobre preconceito, lembro que apesar de lamentável na maioria das vezes, ele pode ter uma face inocente e até mesmo romântica. quantas vezes não ouvi de RHs, de amigos e colegas, como os nordestinos têm uma bagagem cultural, intelectual e até - pasme - uma escrita diferenciada! ora, eu sou redator e bem sei que escrever não depende de coordenadas geográficas, mas de repertório. quantos analfabetos funcionais ainda não temos na terrinha? mas, enfim, é um preconceito, não é? ilógico por natureza. e ainda assim curioso. não entenda por apologia, mas apenas como uma lembrança de que quase tudo na vida tem uma face oposta a que se tem por única e verdadeira ;)

abração, bernardo. e continue, por favor. pensar faz bem a você e a nós.

Anônimo disse...

que cara idiota esse teu amigo... o sudeste banca o nordeste? com a mão de obra de quem? eu achava que a mão de obra era nordestina...