terça-feira, 18 de setembro de 2007

Macô


Não é o Agreste pernambucano, mas bem que poderia ser


Em recente entrevista ao caderno “Mais”, da Folha de S. Paulo, o professor Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém, discorre sobre as inúmeras possibilidades, correntes e futuras, do uso medicinal do THC – o princípio ativo da maconha. Há alguns meses, uma reportagem no Correio Brasiliense noticiou a prisão de um jovem do Lago Sul por ter sido encontrado em sua casa quatro jarros com a erva. O rapaz, na melhor das hipóteses, pegará cinco anos de prisão.

O contraste gritante é ilustrativo. Em outra reportagem recente, a inglesa The Economist destaca o crescente uso comercial dos mais diversos produtos derivados da maconha.


A política repressiva anti-drogas, adotada desde sempre no Brasil, por imposição americana, é burra em mais de um aspecto:


  1. desrespeita a liberdade individual, ao legislar algo relacionado a uma questão comportamental, estritamente pessoal;

  2. criminaliz

    a-se algo que, na pior das hipóteses, é um problema de saúde pública e cujos principais problemas sociais derivam justamente de sua ilegalização;

  3. induz, portanto, à marginalização social do seu usuário;

  4. a atitude repressiva penaliza desproporcionalmente os mais fracos, aqueles que estão na base da cadeia produtiva do produto, deixando impunes os que de fato lucram com os altos preços, inflacionados justamente pela ilegalização (que, ao interferir no mercado, oprime a oferta);

  5. dá marge

    m, dessa forma, à perseguição dos setores sociais mais frágeis, que, por mero uso de divertimento, ou pela venda como fonte de renda numa economia de escassas oportunidades de trabalho decente, se tornam alvo fácil de uma polícia que é mal treinada e mal remunerada, cujo comportamento abusivo é o padrão;

  6. e, last but not least, é uma política hipócrita, porque ilegaliza a maconha com base em argumentas pretensamente moralistas, mas a mesma lei é extremamente permissiva e libertina com drogas que causam danos sociais bem maiores, como o cigarro e o álcool, para não mencionar os remédios, mas que contam com lobbies poderosíssimos.

Maconha nasce no Nordeste que nem mato. Ao invés de queimar quilos de maconha para efeitos puramente midiáticos, por quê não fazer com que as universidades federais da região estudem os usos medicinais e comerciais, gerando renda e conhecimento científico na região? Diz-se que a fibra do canhâmo é mais resistente do que o algodão – e a própria Economist, que não é nenhuma panfletária da causa, indica que a indústria americana do Nylon é uma das empresas por trás do lobby pela permanência da atual política. O óleo de sua semente também tem um alto potencial energético – bem oportuno nesses tempos de busca por eficazes combustíveis de origem orgânica.


Até setores da própria sociedade americana já estão se mexendo para não ficar para trás. Em países asiáticos, que não se deixam tutelar por políticas americanas que não prezam pela preocupação do desenvolvimento autóctone dos outros países, já estão avançando nessas pesquisas e na venda da fibra do canhâmo para o mercado americano (que ainda não pode cultivar a erva). Enquanto isso, nós estamos ficando para trás no produto que temos uma imensa vantagem comparativa, apenas por seguir uma política estúpida e ineficaz que atende apenas a interesses econômicos e geopolíticos estritamente americanos. Até quando vai prevalecer essa insensatez?


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Para mais informações sobre a cannabis sativa, veja esse vídeo que conta sua história e seus usos tradicionais (em inglês).


Um comentário:

Cesar disse...

Legal o post, Bernardo. De fato, é uma aberração criminalizar a maconha quando diariamente, só no trânsito, ocorrem inúmeras mortes provocadas pelo álcool. É muita hipocrisia.

E há outra coisa: a legalização diminui o consumo a longo prazo. Quanto maior o frenesi, a proibição, maior o glamour da droga. Em Berkeley, conheci holandeses que achavam tão "demodé" essa coisa de fumar maconha.;o))