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terça-feira, 15 de junho de 2010

Berlam e Banda Larga

Tem um novo cantor no pedaço - Berlam e Banda Larga. Trata-se de uma boa novidade. Berlam é um excelente intérprete, performático e, o melhor de tudo, as suas músicas apresentam letras tão inteligentes como não se via há muito tempo na música brasileira. Achei algumas músicas suas no YouTube, e espero encontrar mais no futuro.



E pra quem gostou e quiser conhecer mais o trabalho, aqui é a página Myspace.


sábado, 29 de maio de 2010

Compartilhamento de dados e acesso a cultura

A troca de dados on-line é uma das grandes transformações do século 21 porque democratiza o acesso à informação e a produtos culturais que, se fossem depender da lógica do mercado apenas, permaneceriam restritos a círculos ínfimos de iniciados. O acesso ilimitado a dados, em todas as suas manifestações - vídeo, música, texto, fotos - tem o poder de propagação da informação. No momento em que se cobra por esse acesso, automaticamente o alcance potencial da informação é limitado. Um consumidor mais bem informado é um consumidor necessariamente melhor.

Um estudo recente (leia AQUI artigo publico no The Independent) indicou que aquelas pessoas que costumam baixar música gratuitamente na Internet são os que mais gastam consumindo música. O detalhe é qual é o tipo de música e produtos culturais os quais eles consomem. Não são mais aquelas da cultura de massa - e isso é provavelmente o que mais incomoda as grandes corporações - não a distribuição gratuita em si. Afinal, o criador, o artista, ele só tem a ganhar com a disseminação de seu trabalho. É o intermediário que deixa de ganhar e é isso que incomoda a indústria fonográfica.

Um exemplo disso é o cineasta chileno radicado na França, Alejandro Jodorowsky - um grande diretor e roterista. E se ele fosse depender do mercado, eu jamais teria tido acesso a ele. Foi graças à Internet e ao compartilhamento de dados gratuito que eu tive acesso ao trabalho dele. Sua obra nunca iria passar na televisão, nunca iria passar no multiplex. Se não fosse pelo compartilhamento, eu não teria tomado conhecimento do trabalho dele e estaria me limitando como pessoa, cidadão e consumidor.

Jodorowsky, inclusive, é um dos grandes diretores do século 20, indiscutivelmente. O trabalho dele é essencialmente cinematográfico. As histórias que ele conta, por meio de imagens, não poderiam ser contadas de nenhuma outra forma - livro, pintura, o que for. Cada cena, cada imagem, transborda de signifcados; tem muitas leituras possíveis e só poderiam ser contadas cinematograficamente - o que é mais do que se pode dizer do que boa parte dos cineastas. Por seus filmes, ampliei minha visão do mundo, adquiri informações que me tornaram um cidadão mais crítico e um consumidor cultural mais exigente.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sete meses

A BBC – British Broadcasting, é a rede de TV e rádio pública da Inglaterra. Trata-se de um dos órgãos de imprensa mais tradicionais e respeitados, no país e no mundo. De uns anos pra cá, tem posto em prática uma política de valorização dos sotaques das diferentes regiões do Reino Unido. Até há pouco, o sotaque londrino era o oficial – assim como a Globo instituiu o “carioquês” como a língua oficial do Brasil: qualquer vestígio de regionalismo deveria ser prontamente eliminado. Hoje, na BBC, ouve-se o inglês escocês, galês, irlandês, inglês do norte, inglês do sudeste... Acabou-se a imposição de “dialeto oficial”. Muito bom em termos de multiculturalismo e tal. Mas uma dificuldade a mais para se habituar ao sotaque britânico, que na verdade são múltiplos.


Para financiar a BBC e torná-la independente dos governos de plantão – trata-se de uma emissora pública, não estatal – a fonte de recursos provem de uma anuidade paga por todos os donos de TVs do Reino Unido. Os cegos pagam só a metade. Ainda não sei se o mesmo desconto se aplica aos surdos. Os mudos não têm do que reclamar: nem poderiam.


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Existe uma tradição na Inglaterra que é a de ex-alunos fazerem doações às faculdades em que se formaram. É uma mescla de reconhecimento e gratidão altruístico à instituição acadêmica que os preparou, exibicionismo (“veja como sou bem sucedido e posso fazer essa doação”), e um nada desinterassado intuito de fortalecer a marca da universidade que, afinal de contas, consta do seu currículo. Um desses presentes de ex-alunos transformou-se num mascote não oficial da LSE: um pengüim de um metro. O mimo destronou o “beaver”, o mascote oficial. Talvez num sinal claro da ironia britânica (pode-se atribuir qualquer esquisitice dos ingleses a isso, afinal de contas!), muito melhor o símbolo-mor da breguice (ou, mais adequado dizer, do kitsche) do que o mais convencional e careta beaver. Há uns anos atrás, uns alunos da LSE, após excesso de “pints”, vandalizaram o campus da principal universidade rival – a King’s College. Em represália, estudantes do KC arrancaram e fizeram sumir o estimado pengüim da LSE! As inúmeras câmeras de segurança espalhadas pela cidade – a Inglaterra é o país com o maior número de câmeras de segurança per capita – foram incapazes de desvendar o mistério. Até hoje não se sabe que fim levou a pobre estátua da ave polar. Recentemente, outro pingüim foi adquirido e recolocado no seu devido lugar, dessa vez preso a uma base de concreto reforçada. A volta do mascote trouxe alegria aos estudantes.


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Estou muito orgulhoso do meu sistema imunológico. Desde que cheguei a Londres que não me gripei. Já entro na terceira estação totalmente são. Desde o outono que diversas vezes o silêncio da biblioteca é interrompido pela sinfonia de tosses, espirros, pigarros e outros sons corporais indicativos de saúde precária. Não sei se são os anitcorpos tropicais ou o fato de quase não usar o metrô lotado, ou por pedalar diariamente... o fato é que meu organismo tem reagido bravamente às transições climáticas. E isso porque até recentemente estava despreparado para o inverno londrino, com minhas roupas de frio de há mais de dez anos. Recentemente fui às compras e me equipei. Agora, sim, estou pronto a aguentar o frio. E realizar aquela frase de um amigo inglês, que disse que não existe mau tempo, mas sim roupa inadequada. E sistema imunológica deficiente, acrescento eu!


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Existe na univerisade clube para todos os temas, imagináveis e inimagináveis e até da categoria “que porra é isso?!” (WTF). Outro dia falarei disso. Um dos clubes – que aqui eles chamam de “society” – que faço parte é a “Rowing Society” (clube de remo). Toda a gestão, financeira e organizacional, de cada clube é realizada pelos próprios estudantes. Todo sábado pegamos um trem na Waterloo Station, uma das maiores, e vamos beirando o Tâmisa em direção oeste, até Chiswik, para o local onde os barcos das universidades de Londres ficam guardados. Remamos durante em torno de uma hora. Diferente de quando remava em Brasília, onde um funcionário fazia todo o trabalho “chato” de consertar o barco, lavá-lo, colocá-lo dentro d’água e retirá-lo depois, toda a responsabilidade de manutenção dos barcos cabe a nós, estudantes. Tampouco contatva eu com orientação técnica. Então, embora tenha três anos de experiência de remo (entre o rio Capibaribe e o Lago Paranoá), só agora, no Rio Tâmisa, venho recebendo instruções adequadas. Durante a semana, realizamos treinos “em terra”, no ginásio da universidade. Remar no Tâmisa é incrível. A paisagem é linda, com casas vitorianas e outras mais recentes, do século 20, à margem do rio. Também tem parques à beira do rio, como o Kew Gardens, um dos maiores da cidade. Tem uma linha de metrô e trem urbano que atravessa o rio bem acima da gente e, enquanto remamos, vez por outra é comum vermos os vagões passando sobre nossas cabeças. Ao nosso lado, sempre há um sem-número de patos e gaivotas; e recentemente as comportas de um canal foram abertas especialmente para que um casal de gansos pudessem adentrar no rio, pomposamente, como se estivessem a desfilar. O rio é amplamente utilizado, e não só pelas aves. Tem vários barcos-residências, daqueles tão comuns em Amsterdã. Também barcos maiores, de passeios turísticos. E barcos de remo e caiaques, para o uso esportivo. Os usuários têm várias idades. Na primeira ocasião que remei no Tâmisa, no barco individual, fui ultrapassado por uns três coroas, com barbas e cabelos totalmente alvos. Me deixaram pra trás com facilidade. O vento, mais gelado a cada novo sábado, só incomoda na hora de pôr o barco no rio, com os pés descalços a congelar dentro d’água. Depois de cinco minutos de remada, esquece-se do frio. Que só voltará a incomodar novamente na hora de retirar o barco d’água, quando novamente temos que pôr os pés nus dentro d’água

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Todos os dias a LSE oferece uma quantidade imensa de palestras. São convidados das mais diversas áreas de atuação, ligados a temas das ciências sociais (economia, política, políticas públicas, etc). E geralmente são convidados respeitados em suas devidas áreas de atuação. Integrantes de governos, empresários, acadêmicos, jornalistas, oriundos das mais diversas partes do planeta. Para se ter uma ideia, alguns nomes previstos para janeiro de 2010: o ministro da fazenda da Suécia, Anders Borg; o economista indiano e nobel de economia, professor Amartya Sen; e um ex-ministro inglês, James Purnell. Até agora só fui a um evento: a palestra do presidente Rafael Correa, do Equador. Seu discurso foi muito interessante e me fez olhá-lo com outros olhos. Equivocadamente, e repetindo o cacoete dos grandes meios de comunicação mundiais, tendia a colocá-lo no mesmo balaio de gato chavista. Sua crítica ao neoliberalismo é bem embasada, o que não deveria causar estranhamento, pois ele pós-graduou-se nos Estados Unidos, e teria sido mais controversa um ano e meio atrás; hoje suas críticas são quase consensuais. O aspecto mais importante de sua crítica é a de que um programa eivado de ideologia tivesse a pretensão de ser aplicado em todas as partes do mundo e resolver todos os problemas, da Tailândia ao Equador, da Rússia à Argentina. Uma panacéia que poderia ser aplicada em todas as partes, a despeito de especificidades históricas e culturais.Também reclamou da ideia de que o mercado resolve tudo. Contou uma história engraçada para ilustrar esse ponto. Uma mulher está perdida no deserto, a ponto de morrer de sede. Encontra um homem que tem água e está disposto a ajudá-la. Com uma condição: em troca da água, que salvará sua vida, a mulher deve transar com ele. Pela lógica da teoria econômica clássica, houve aí uma troca em que os dois agentes obtiveram os seus objetivos. A eficiência foi, portanto, máxima. Do ponto de vista moral, no entanto, é evidente o descalabro: a água deveria ter sido dada sem condições. A analogia é forte, mas muito acertada e ilustra fielmente a assimetria que tem historicamente caracterizado as relações econômicas e políticas entre os países ricos e aqueles em desenvolvimento.


As políticas empreendidas por seu governo seguem a linha da social-democracia, muito ao estilo daquelas levadas a cabo pelo governo petista. Seu ponto fraco é sua retórica “bolivariana”; Correa tenta, pelo discurso, dar uma unidade transnacional, que não é lastreada nos fatos, às políticas chavistas. Suas políticas internas são neokeynesianas, assemelhando-se mais às de Lula, na medida em que visam a incentivar a demanda agregada como meio de promover redistribuição de renda e crescimento econômico. Mas, em seu discurso, o presidente equatoriano busca associar-se a Chávez, classificando suas políticas como sendo o que ele chama de “socialismo do século 21”. Essa frase é desprovida de significado, porque o que ele faz não guarda qualquer semelhança com socialismo de século algum, nem tampouco com as políticas desastradas e desastrosas implantadas por seu colega venezuelano. Outro erro é vir falar de socialismo no continente que o experimentou no século 20 e cuja experiência não foi nada agradável.


Detalhe: todas as palestras são disponibilizadas em podcast na página da LSE: veja aqui.


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Estou fazendo um estágio desde o começo do semestre no gabinete de uma deputada do Labour Party (o tradicional Partido Trabalhista britânico, um dos primeiros desse gênero a emergir no mundo). Aqui o voto é distrital, ou seja, cada membro do Parlamento (MP, que é como eles chamam os “deputados federais”) representa uma circunscrição específica. É como se cada bairro de Recife, por exemplo, tivesse seu próprio representante no Congresso Nacional. O sistema distrital é chamado, na literatura da Ciência Política, de “majoritário”, diferente do nosso sistema de grandes distritos (cada estado é um distrito eleitoral no Brasil), que é “proporcional” (cada coligação elege um número de representantes proporcional à quantidade de votos recebida). A vantagem do sistema majoritário é a representatividade geográfica: cada microrregião tem um representante no Parlamento. Outra vantagem é o fato de que o eleitor sabe exatamente quem é o seu representante e, portanto, sabe a quem recorrer sempre que tiver problemas a tratar ou questões a colocar. Por outro lado, há uma distorção intrínseca ao regime majoritário. Emily Thornberry, membro do Parlamento para quem trabalho, se elegeu com uma diferença de meros 400 votos! O sistema proporcional, por definição, reflete de forma mais fiel o sentimento dos eleitores.


O atual governo trabalhista, liderado por Gordon Brown, sofre por fadiga material (os trabalhistas estão no poder desde 1993!) e falta de liderança – digamos que Brown não é o político mais empolgante do mundo. As eleições, que devem ocorrer em abril ou maio, serão disputadíssima. Os “tories” (conservadores) são favoritos, embora a diferença entre eles e os trabalhistas esteja diminuindo e, na última enquete, já tenha caído abaixo dos dois dígitos. Mesmo que o Labour não consiga a maioria dos votos, é possível que permaneça no poder em função de uma potencial aliança com o terceiro partido que vem ganhando força nos últimos anos, os Liberais Democratas (LibDems). Ainda não consegui encaixá-los no espectro político, mas, pelo que entendi, eles tendem a ser ortodoxos na economia e progressistas socialmente. Ou seja, estariam à esquerda dos Tories e à direita do Labour. Mas não é tão simples: em muitas questões, estão à esquerda também do Labour: por exemplo, são contra as guerras (Iraque, Afeganistão), e a favor de política liberalizante em relação às drogas. O LibDem tende a ser mais popular entre os mais jovens. Num sistema proporcional, certamente teriam mais representantes do que no atual sistema majoritário, que tende a incentivar o bipartidarismo (o eleitor se sente impelido a não votar num terceiro partido, preferindo votar num dos dois grandes de modo a não “desperdiçar” o seu voto).


Trabalho no gabinete da constituinte, no bairro que a MP Thornberry representa (Islington South). É interessante porque aprendo muito sobre os hábitos de trabalho britânicos, mas também sobre como funciona na prática o sistema político do país. Recebemos demandas as mais variadas da população local. Os temas mais comuns são pessoais, geralmente ligados a imigração e moradia. Mas também acontece de algum eleitor escrever sobre problemas que não são pessoais, como um que escreveu sobre uma propaganda de um banco que oferecia cartão de crédito com taxas que ele julgava serem abusivas. Uma das minhas funções é ler as correspondências dos eleitores, registrá-las num banco de dados, repondê-las e encaminhar algum tipo de solução a seu problema, fazendo o meio-de-campo entre o eleitor e o órgão governamental que trata do problema levantado pelo eleitor.


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Um hábito que adquiri em Londres é ver diariamente o site do The WeatherChannel. Lá, vejo a temperatura, a sensação térmica, a velocidade do vento e a probabilidade de precipitação, hora a hora. É bastante útil para planejar minhas locomoções ciclísticas pela cidade e evitar de pedalar durante algum toró.


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Vários colegas meus foram para Copenhaguem durante a conferência climática. Um deles, alemão, me contou, via Facebook, algumas coisas que testemunhou por lá e acho interessante compartilhar com vocês, com tradução minha: “Eu vi Serra, ao vivo. Cara, espero que ele não se torne seu presidente. Talvez seja porque o inglês dele é lento, mas ele me pareceu muito pouco dinâmico. Eu não vi Lula ao vivo, vi retransmitido ao vivo num telão – seu discurso foi muito, muito melhor. Sinto inveja de seu país. Ele ofereceu mais do que qualquer outro país, pelo menos dos países mais importantes. Ele foi muito aplaudido pela platéia que o assistiam pelo telão”.


É interessante ouvir depoimentos como esse, sem o filtro da imprensa – um relato direto, sem intermediários – e sem filtro partidário – ele é alemão, não fala português e não tem nenhuma ligação com o Brasil, exceto pelo futebol.


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Já que é período natalino, uma notícia natalina. Tem um programa de TV no Reino Unido chamado “The X Factor”. Nunca vi, mas suponho que seja algo no estilo de “Ídolos”. A cada ano, o vencedor do programa lança uma música que, automaticamente, se torna a canção mais popular do Natal (e por isso é chamada de “Christmas Number 1”). Tem sido assim há pelo menos cinco anos, desde que esse programa existe. Acontece que esse ano surgiu um movimento na Internet para combater o poderio comercial do programa. Escolheram uma música do Rage Against The Machine, “Killing in the name”, dos anos 1990. Quando me inscrevi no grupo Facebook, havia em torno de 500,000 associados. Agora, já passa de 1 milhão! Mais impressionante: esse movimento, totalmente virtual e orgânico, contra uma estrutura pesada da indústria cultural de massa, saiu vencedor: pela primeira vez em anos, a música campeã da parada de sucessos natalina não foi aquela oriunda do programa “The X Factor”: foi a música da banda americana! Quem quiser obter mais informações sobre mais esse exemplo do poder da Internet diante das instituições (econômicas, políticas, culturais) tradicionais, vale a pena visitar a página Facebook do grupo.


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- sobre o sexto mês


sábado, 12 de janeiro de 2008

Cinema e divisão de classes

O documentário “Midnight movies: from the margin to the mainstream” é antes de tudo um registro histórico de uma época – final dos anos 60, decorrer dos 70 – e as transformações da indústria cultural em função do contexto sócio-econômico, dos conflitos políticos e do avanço tecnológico nela ocorridos.

É o fim de um período em que um moviemnto de vanguarda, independete, seja formal, seja substancialmente, tinha que ralar muito até ser incorporado ou aceito no “sistema”. Não havia youtube, MP3 ou I-Pod – ao contrário, prevalecia forte centralização social, econômica, política, cultural. Velhos tempos não tão distantes.

Os paralelos possíveis com o Brasil contemporâneo atestam a riqueza desse filme. Me fez pensar, particularmente, em como o fosso social brasileiro reflete-se em nossa produção áudio-visual em geral, e em nosso cinema em particular.

O típico cinesasta tupiniquim é de classe-média ou alta, faz filmes para os seus pares, bancados pelo dinheiro público (o meu, o seu... o deles). As classes pobres não têm acesso a cultura cinematográfica (“capital cultural”, bagagem cultural), o que os impede tanto de apreciar esse tipo de expressão, quanto, sobretudo, de tornarem-se realizadores eles próprios. Ou seja, não temos cineastas de origem popular ou que tenha desenvolvido/dominado uma linguagem cinematográfica popular tipicamente brasileira (assim como as novelas têm sido historicamente). Não há diálogo. Quando isso ocorre, como MV Bill, é na forma da denúncia social. Falta diálogo intersocial, ou o há de modo assimétrico.

Os poucos casos exitosos tratam justamente, de alguma forma, da fratura social: “Cidade de Deus”, “Dois filhos de Francisco”, “Carandiru”, “Tropa de Elite”, a série “Cidade dos Homens”, a novela “Vidas opostas” da Record. Conflitos sociais – eis a característica básica que define o país, e, igualmente, a nossa restrita produção áudio-visual reakmente popular. Talvez seja esse tipo de cinema que fazemos melhor porque é o mais original, o mais ligado ao Brasil real – e não é à tôa que funcionam inclusive comercialmente. Filmes de violência (sendo esta sempre ligada às desigualdades sociais) está para a cinematografia nacional assim como o biquini na moda, as havaianas nos calçados e a bossa nova na música: legitimamente brasileiro, é o que nos distingue no mundo, é nossa contribuição original para a humanidade.

Ao invés de lamentar-se por mais verbas do Estado – sempre ele, essa puta velha de quem todos querem se aproveitar – precisamos refletir mais a fundo o porquê da falta de público – e conseqüentemente de autonomia – do cinema nacional. Distribuir grana é a melhor solução? Uma avaliação seria necessária, mas a julgar pelo fraco desempenho das bilheterias, não estamos na direção correta. A história das “midnight movie sessions” mostra uma solução de mercado para o problema da falta de distribuição. Mas isso numa sociedade com cultura de cinema e dinheiro para gastar. Que tipo de política seria mais eficaz aqui?

Os setores que pensam cultura no país tendem a espelhar-se no caso francês, defendendo a intervenção estatal na defesa da cultura nacional. O modelo brasileiro de incentivos fiscais ao cinema fracassou em torná-lo popular e auto-sustentável. Uma alternativa deve ser pensada. Na Índia, um país cuja realidade social é muito mais próxima da nossa do que a francesa, a indústria do cinema floresceu. “Bollywood” é um fenômeno de massa. Lá, os filmes são de fato populares (veja o trecho de um típico filme indiano, ao final do texto). No entanto, nos debates sobre o tema, falamos da França mas ignoramos por completo o exemplo indiano. Eu também desconheço como se desenvolveu o cinema indiano até chegar ao que é hoje, mas sei que, lá, há salas de exibição inclusive nos bairros pobres. Para o Brasil, penso em algo que mexa nas duas pontas – na distribuição, com mais salas de bairros, de um lado, e na formação de público, com a descentralização de “cinemas da Fundaj”, do outro.


Cinema popular indiano, um exemplo pro Brasil:

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Ho ho ho é o caralho

Nesse Papai Noel aí, eu acredito!


Eu nunca engoli bem esse negócio de Natal. Desde pequeno. Lembro-me de uma árvore que, na terceira série, eu e meus coleguinhas tivemos que decorar para a data festiva:


-- Tia Rejane, por que algodão?



-- É neve.

Como assim?! Que porra é neve? Como, se aqui está fazendo 30 graus! E pelo que aprendi no Catecismo, não havia neve nem pinheiros na terra de Jesus.


Muito provavelmente, eu não elaborei todos esses sofisticados questionamentos naquele momento, aos oito anos de idade. Mas o estranhamento, sim, já estava lá.


Todo esse espírito natalino, no Brasil em geral, e no Nordeste em particular, é totalmente descontextualizado, fora de lugar – é falso, artificial.


Neve, pinheiro, renas, trenós, chaminés, “jingle bells”... nada disso nos diz respeito, nada disso nos pertence, nada disso nos é original e por isso é tudo tão inadequado. Por que temos que macaquear o que vem de fora? Que vergonha é essa de nos assumirmos? Que tipo de colonização mental revela esse comportamento mimético acrítico? O mais lamentável é que não é por falta de matéria-prima. No Brasil-real, as classes populares têm os autos natalinos – como o cavalo marinho, o pastoril...


Tome Papai Noel. Ele não faz parte do imaginário popular (não fazia; agora, até faz); e, para que fizesse, seria necessário uma nova idumentária condizente com a nossa terra, para início de conversa! Uma crítica construtiva:



Aliás, todo o “clima natalino” precisaria passar por um banho de loja, para se adequar. Tudo isso para não mencionar que o significado real da festa – o nascimento de Jesus – se perde (embora isso não ocorra nos autos natalinos populares!) em detrimento do aspecto meramente comercial, consumista – apesar e a despeito de toda a retórica paz e amor tão comum.


Essa história toda apenas comprova um dos traços marcantes da sociedade brasileira – ou, pelo menos, daquele setor “que conta”, o Brasil-oficial: a hipocrisia. Como sempre, não se assume o discurso verdadeiro, escondendo-o por trás de uma retórica “bacana”. Nem nos assumimos como consumistas – como os americanos, por exemplo; nem nos reconhecemos como cristãos praticantes – a exemplo dos muçulmanos que realizam o Rajj, agora. Usamos a retórica cristã para vender...

sábado, 1 de dezembro de 2007

Se eu fosse um juiz em Brasília...



É permitido proibir, se você for um juiz em Brasília! Mas, e mijar, pode?!


E se cada cidadão pudesse afixar placas proibitivas em locais públicos, a seu bel-prazer, a fim de inibir atitudes ou comportamentos tidos como indesejáveis?


Se fôssemos todos um juiz de Brasília, assim seria a realidade. Placas por todos os cantos, contra tudo. Num shopping da cidade (o Pier 21), num pátio externo, o corajoso juiz insurgiu-se contra um fumante, que estaria baforando em sua cara. O estimado juiz obrigou o shopping em questão a instalar placas – ostensivamente espalhadas – na área ao ar livre. São placas hostis, agigantadas, com ilustrações enormes e letras garrafais. Mesmo em horário de pouco movimento e, portanto, amplos espaços vazios, acender um cigarrinho ali é, certamente, um constrangimento.


Voltando ao início dessas linhas... e se cada um de nós pudesse sair por aí, a torto e a direito, ditanto o que os outros podem ou – sobretudo! – não podem fazer! Meu palpite é que não iria sobrar comportamento algum aceito. Além de tornar o ambiente público visualmente poluído (chamem o Kassab!). Eu mesmo teria uma lista de coisas que me incomodam! Ah, se eu fosse um juiz de Brasília...


Pensando bem, se eu fosse um juiz de Brasília, iria mandar pôr apenas uma placa – uma só e bastaria: “proibido babacas”. Pronto. De uma só tacada, resolvia tudo. Nem o babaca do fumante desrespeitoso que ignora o bem-estar coletivo e o direito alheio a não inalar fumaça, nem o babaca do juiz que encarna o que há de mais atrasado da tradição patriarcal brasielira, achando que o espaço público é extensão do seu tribunal. Que se vayan todos los babacas!

domingo, 4 de novembro de 2007

Edir Macedo, Che Guevara e Mickey Mouse





Neston? Existem mil maneiras de expressar a sua espiritualidade. Invente uma.



Na época em que Jesus viveu, era comum toda sorte de crendices e superstições. Uma variedade de gente vagava pelas terras. movida pelos mais diferentes motivos. Muitos eram os que se clamavam “filho de Deus” ou que afirmavam ter ligação direta com o divino. O que destacou Jesus dos outros “malucos” de então foi sua atitude política: Jesus opunha-se, pacificamente – o que o distinguia dos outros combatentes dissidentes –, ao regime romano opressor do povo da Judéia. Num comportamento altamente subversivo, ele se misturava com todos os tipos de excluídos e desvalidos e desprezava o poder esmagador dos ditadores estrangeiros. As escrituras sagradas foram escritas posteriormente, agregando novos valores e costumes das épocas em que estavam sendo elaboradas.

Todo o esforço da Igreja, por meio dos seus ritos esquisitos e dogmas obsoletos, vem no sentido de ressaltar apenas aquilo que era cultural – costumes e modos – e portanto específico daquele tempo e lugar. Tirando-se aquela tradição de seu devido contexto histórico, a atitude política de Jesus, que era o que o distinguia e que tornava a sua mensagem revolucionária e universal, e que é o essencial de sua mensagem tão pungente, é totalmente escanteada da estória oficial católica.

Sem contar as práticas anacrônicas. O celibato por exemplo. As evidências históricas indicam que os apóstolos contemporâneos de Jesus eram casados. Aí porque, alguns séculos depois, apareceu algum papa misógino, deu-se início a essa prática bizarra. Outro dia um padre italiano “saiu do armário”. Não entendi nada. Mas como pode um padre ser gay se ele não pode trepar?! “Ah, é que eu fico pensando em meninos quando bato uma punheta antes de dormir (e depois do Pai Nosso)”. Só se for! Isso para não mencionar as crendices católicas. Virgem Maria?! Imaculada concepção?! Pobre José... Todos duvidam do seu taco!

Essa coisa de desacoplar a fala e a história de Jesus da realidade na qual ele estava inserido e aplicá-las automaticamente aos dias de hoje leva a uma visão míope e tosca do mundo à nossa volta. Esse é o perigo – e a fonte – de todo fundamentalismo, pois leva as palavras ao pé da letra, sem colocá-las em seu devido contexto histórico; vê-se o passado distante sob o prisma do hoje em dia.

Olhe em sua volta e veja se você descobre quem será o Jesus de daqui a 500 anos. Há quem diga Gandhi. Heloísa Helena saiu do páreo depois que seu dente fugiu ao vivo (veja aqui). Eu ainda estou na dúvida entre o Bispo Edir Macedo, Che Guevara e Mickey Mouse.

(Depois de escrever isso aqui, apareceu a Veja com a capa de Che, revelando o “verdadeiro” Che – aparentemente, a historiografia oficial é esquerdista demais e então é necessário o revisionismo – o que apenas reforça as chances dele. Me fez pensar também como é que seria a cobertura da Veja há dois mil anos atrás... Seria algo nas linhas: “O baderneiro, mulambento e cabeludo hiponga fica distribuindo pão e vinho para os pobres ignorantes que, em conseqüência desse assistencialismo retrógrado, o adoram. Ao mesmo tempo, tenta, com essa sua demagogia esquerdóide atroz, desestabilizar o bondoso regime da nobre e iluminada elite romana.” E por aí vai...).

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Quanta-Ladeira

Taí a única coisa que sinto realmente falta do carnaval de Recife! O Quanta-Ladeira. E tive o privilégio de ir a uma das primeiras apresentações do bloco, em 1999. Éramos apenas uns gatos pingados, no meio da rua, sem palco, na Rua da Moeda. Velhos tempos, a mesma irreverência. Agora, só me resta mesmo o YouTube:





outros links do bloco no YouTube:

- "A Rede Globo Tá Demais"
- O hino do bloco
- Poeira/Oliveira (muito boa)