sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Adeus Ano Velho


Um passo a frente, em direção à justiça e à defesa do patrimônio brasileiro foi dado pelo Governo essa semana. Os arquivos da ditadura serão gradualmente liberados e, desta forma, o Brasil não mais esconderá seu passado sombrio, e sim, expô-lo-á de modo que seus cidadãos encarem-no e não repitam a ignorância e brutalidade de outrora.

É desta forma que terminamos um ano e entramos noutro: com justiça à história e às vítimas de alguns de seus protagonistas.

Um 2006 de justiça... num ano de debates eleitorais que não embarquemos em injustiças. Que preservemos a razão, o bom senso e nosso lado humano.

No ano de Copa do Mundo, que esse Brasil tão fravorito saiba ser humilde.

E que nós, que construímos dia-a-dia esta dosiciedade, tenhamos mais e mais conquistas, e mais e mais realizações e todos os âmbitos...

domingo, 18 de dezembro de 2005

Vovô Merval e Vovó Maidy



texto escrito em homenagem a vovô e vovó na ocasião das Bodas de Diamantes deles, ocorrida no 15 de Dezembro de 2005.


Vovô Merval na cabeceira da mesa no apartamento, pequeno, tornado ainda menor pelo número de pessoas, lotado pela família num almoço de domingo, segurando, portentoso, a garrafa de 1 litro de Coca-cola. Naquela época, nos anos 80, a garrafa de 1L era de vidro e era "a" garrafa, e a criançada só tomava Coca nos fins de semana, e olhe lá! Também naquela época, éramos, nós netos, crianças em pleno processo de formação e socialização e aquela imagem se tornaria emblemática do conceito que viríamos a construir de autoridade e justiça: Coca-cola, só um copo, para que todos tivessem direito, e apenas para aqueles que comessem tudo!

Cresceríamos, a Coca-cola viria a tornar-se mais trivial, e os conceitos de autoridade e justiça, um pouco mais complexos. Mas, o senso de justiça e honestidade de Vovô permaneceria, tornar-se-ia um parâmetro. Ao amadurecermos, tomamos conhecimento de que "vovô" Merval é também o Professor Merval, com uma história de vida de altruística e desapegada dedicação à sociedade pernambucana, em especial à educação pública do nosso Estado.

Perceberíamos, então, que aqueles valores de honestidade e justiça se estendiam à sua vida pública. É bacharel em Direito, dedicou-se ao magistério, lecionando por mais de trinta anos em educandários recifenses, universidades Católica, Federal e FAFIRE. Exerceu funções técnicas e administrativas no governo do estado de Pernambuco. Na área federal exerceu a chefia de gabinete do Ministro do Interior e Justiça, além de ter integrado o Conselho Administrativo da Fundação Joaquim Nabuco. Ou seja, o que o destacava então, e o destaca ainda hoje, é que os mesmos princípios que regiam sua vida privada eram sua diretriz na vida pública.

E é este legado, de integridade moral, de justiça e de honestidade que vovô nos deixa; a herança mais valiosa que existe: um nome honrado.

À rigidez de vovô, se contrapunha a maleabilidade de Vovó Maidy. Nada mais contrastante com a Coca-cola na cabeceira da mesa do que vovó, após o almoço, enquanto vovô tirava sua clássica soneca vespertina, nos levando à dispensa da cozinha para que comessémos - prazer supremo! - Nescau com Leite Moça! Nada mais complementar em termos de valores!

Enquanto que com Vovô aprendíamos a importância do respeito à autoridade e à justiça, com Vovó aprendíamos que a isso devemos conjulgar certa dose de flexibilidade e solidariedade ao próximo.

O trabalho voluntário nas comunidades pobres circunvizinhas da Madalena, quando o voluntariado ainda não era moda nem requerido pelos "headhunters" de multinacionais, e que Vovó segue realizando incansavelmente até hoje, seria a extensão pública daquele seu comportamento familiar do Leite Moça.

É na família que apreendemos as normas sociais e morais por que nos guiaremos no resto de nossas vidas, seja em nossas vidas particulares quando formemos nossas próprias famílias, seja como cidadãos cientes de nossos direitos e deveres perante a sociedade.

Que privilégio, então, tivemos e temos nós, filhos, netos, bisnetos, amigos e parentes, de dispor de dois dos melhores cidadãos, cristãos, seres humanos, em que nos espelhar e nos inspirar!

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

20 Anos de ITECI ­

discurso que proferi na ocasião das comemorações dos 20 anos de fundação do ITECI, em nome meu, de Diogo e de Letícia, em Junho passado.



É naturalmente difícil falar do próprio pai. Principalmente quando ele é avesso à auto-adulação. Muita coisa descobri dele, e da minha mãe, através de terceiros. Por muito tempo não tive a dimensão da obra construída por eles ao longo do tempo. Foi, sobretudo, por meio de conversas com seus amigos, vendo a admiração e carinho que eles nutrem por meus pais, às vezes apesar do tempo e da distância, que comecei a me dar conta. Eles não são pessoas fáceis de se compreender. São pessoas complexas que desafiam estereótipos. Eram cidadãos do século 21 já na década de 70. O Iteci é apenas uma das facetas deles, a mais visível publicamente. Mas nem de longe se restringem a isso.

Mas hoje, estamos aqui para falar do Iteci. O aniversariante. Para mim, assim como para meus irmãos, é algo importante, ainda mais porque é quase um membro da família. A empresa é a nossa irmã caçula ­ é a que deu mais trabalho e tem a festa de aniversário mais legal. Brincadeiras à parte, há muito de verdade nessa analogia. E podemos levá-la adiante.

Meu pai é como se fosse a mãe. Ele a gerou, cuidou, criou. Como uma mãe ele a trata, com carinho e de forma emocional. Minha mãe é o pai. Se ela não estivesse todo esse tempo ao lado dele, a empresa não seria o que é. E tratava de forma mais racional. A empresa é um fruto desse casamento. Minha mãe sempre esteve lá nos momentos cruciais. A empresa nasceu, cresceu, passou pela crise (e que crise!) da adolescência, aos 18 anos tomou juízo, e agora, ao completar duas décadas de vida, ela se mostra uma jovem adulta madura e responsável, com um futuro promissor à sua frente.

Mas além de ser a história do Iteci a história da minha família, é também a história daquilo que o Brasil pode ser. É uma história de empreendedorismo e de espírito capitalista que dá certo, sem que se abra mão de princípios éticos e morais. A história do Iteci é um exemplo.

Meu pai queria estudar informática quando nem existia o curso aqui. Foi para a França fazer doutorado. Poderia ter ficado e seguido uma carreira acadêmica num país onde ela é valorizada. Seria seguro, tranqüilo,­ fácil. Voltou, empolgado com a redemocratização pela qual passava o país. Mesmo depois que abriu o Iteci, seguia preocupado com as questões nacionais. Por exemplo, participou de discussões públicas sobre a reserva de mercado de informática. Um empresário que tem plena consciência de seu papel na sociedade: o de criador de empregos, financiador do Governo (através de impostos) e da inovação tecnológica soberana. E nunca se esquivou dos debates, porque também é esse uma de suas responsabilidades como empresário. Também é ele um intelectual, nunca abandonou a Academia, ainda que estivesse lá menos por necessidade do que por convicção, até que esta o abandonou.

Num país injusto, que não premia sempre aqueles que produzem e oferecem valores que deveriam ser os reconhecidos pela sociedade, ele conseguiu se destacar. Aqui prevalece o caminho do enriquecimento pela política, e não pelo mercado. Há uma linha tênue entre o público e o privado. Não para o meu pai. O Iteci é uma empresa privada e que compete, legitimamente, no mercado. Ainda que este mercado seja distorcido por falhas, falta de concorrência, falcatruas e privilégios. Mas ele segue aí, porque acredita neste país. Capitalismo sem risco, como preferem alguns, tira a sua essência geradora de inovação tecnológica e aperfeiçoamento do serviço. Justamente o que o capitalismo tem de melhor para a sociedade, ao liberar a força motriz criativa e criadora dos indivíduos, base fundamental, aliás, da democracia liberal (o aspecto político do liberalismo), que, como o Iteci, também comemora duas décadas este ano no Brasil. Na contramão da tendência neoliberalizante da década de 90, não levada a cabo graças à mobilização dos movimentos sociais, o Iteci permanece 100% nacional -­ um centro de criação e propagação de conhecimento e tecnologia. Sua amplitude social só não é maior devido a outras deficiências nacionais ainda por resolver, que são um entrave para o progresso econômico e científico autônomos no Brasil; ­ refiro-me aos nossos sistemas jurídico e fiscal.

A empresa que envolve seus funcionários e lhes delega responsabilidades, cresce; e com ela, crescem também as pessoas. Aos 20 anos o ITECI preza por mudanças que venham a agregar à empresa, e que, hoje, acontecem de forma planejada, responsável e, sobretudo, compartilhada. Crescemos todos com esse processo. O respeito e a solidariedade entre todos fazem com que os trabalhos internos sejam reconhecidos externamente, por clientes e parceiros. São 20 anos de conquistas pessoais, por meio de amizades, novos conhecimentos; e conquistas profissionais, por meio de, por exemplo, promoções internas de pessoas que agarraram a oportunidade que lhes foi dada. O ITECI é o reflexo das pessoas que o compõe: pessoas com objetivos próprios, entretanto em sintonia com os da organização; pessoas com ambições, em busca de superar seus limites. Pessoas que, com todas suas particularidades e diferenças uns dos outros, formam uma comunidade harmônica, uma família ITECI.

Como um autêntico empresário, meu pai não é movido pelo lucro puro e simples, que por si só não tem graça. O que o instiga é o desafio de contribuir para a construção da nossa sociedade, e é o que o Iteci vem fazendo há 20 anos. O crescimento e consolidação da economia brasileira, e da sua democracia, depende de empreendedores como o meu pai e empresas como o Iteci. É esse princípio que mantém o Iteci até hoje, é isso que estimula meu pai e é isso que o diferencia.

Obrigado.

Bernardo, Diogo e Letícia JUREMA

domingo, 11 de dezembro de 2005

Nada
Letícia
Hoje à tarde, sentada numa escada enorme, na entrada da faculdade, vendo o povo passar. Estava esperando minha aula começar, na verdade cheguei atrasada e tive vergonha de entrar, então esperei para a próxima iniciar
Tantas coisas acontecendo no mundo, inúmeros temas sobre os quais escrever, tamanha é a amplitude que não sei o que dizer. Não tenho palavras para me expressar, não encontro a maneira de começar. Por quê? A vida continua, uns entram, outros saem, alguns ficam. Eu observo, eles passam. Algumas vezes me identificam, mas para nós mesmos somos insignificantes. É nossa natureza. Enquanto uns sobem, há quem desce. Isto é um caos ou será cosmos? É relativo, talvez dependa do ponto desde onde observo. Se olho nos olhos de alguém existo mais para a pessoa? A solidão. Nunca poderei explicar o que passa por minha cabeça, nunca sentirão o que sinto. Mas temos palavras em comum, compartilhamos momentos. Anseio a liberdade? Gostaria muito de não ser eu, de não ser outra pessoa, de ser ninguém e todos ao mesmo tempo. Estou presa a minha personalidade, ao meu passado, ás expectativas, a meus ideais, a meus preconceitos. Prefiro os meus que os teus.
Já não sei que mais falar, tantas besteiras consegui pensar e nada pude sustentar. São meros pensamentos, soltos no ar. Num instante minha imaginação estancará e nada restará. São meros pensamentos, nada significam, nada mudará. Qual será a relevância de tanto pensar? Será para rimar? Não. Me rebelarei contra a ordem e deixarei esta bobagem, que de nada servirá. Estou emprisionada dentro do mundo da palavra. Como escapar? Se me preocupo com a forma, o conteúdo se esvaziará e, então, o que importará? A incomodo? Por que olha para mim? Fui eu que a avistei primeiro? Terá curiosidade? Não sabe que neste momento escrevo sobre ela, escrevo sobre todos eles, mas sobre nada posso escrever. Não sei o que dizer, não os conheço. São todos meros figurantes, de brincadeira. Se morressem amanha nada me afetaria. Quando nossos caminhos se cruzam, cobram importância, ganham protagonismo. A forma é importante, ela realça meu conteúdo, não achas? Eu não minto, se mentisse, estaria mentindo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Congresso Nacional e democracia

Visitar o Congresso Nacional é uma experiência pedagógica e, por que não dizer?, inspiradora. Recentemente, fui, a convite de Kollontai, assistir a votação, na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF), do Projeto de Lei 1.135/91 que visa discriminalizar (diferente de legalizar) o aborto, cuja relatora é a deputada carioca Jandira Feghali, do PCdoB.

A plenária onde ocorreria a votação estava tomada por opositores do PL. Eram grupos de formação social heterogênea (velhos, jovens, crianças, homens, mulheres...) ligados à Igreja, com camisas e panfletos contendo dizeres religiosos, portando cartazes, rosários e fetos de cerâmica. Eles cantaram hinos religiosos (só reconheci uns dois) e o nacional e gritaram palavras de ordem (do tipo "vida sim, vote não, ano que vem tem eleição"). Uma minoria discreta, com fitas de cor lilás amarradas nas cabeças, formada basicamente por mulheres de classe média de entre 20 e 40 anos (aparentemente), defendia o projeto.

Por falta de quórum (uma manobra dos deputados opositores, aprenderíamos mais tarde), não houve a votação. Os conservadores religiosos comemoraram freneticamente, clamaram Jesus. A mulherada de lilás e uns gatos pingados masculinos, eu inclusive, seguiram para reunião com a relatora na sala da presidência da CSSF.

Calcula-se que em torno de 18 deputados da comissão, entre titulares e suplentes, sejam favoráveis ao PL, o que garantiria a sua aprovação (daí a manobra dos opositores). Os movimentos pela liberdade de escolha das mulheres discutiram com a deputada Jandira estratégias de atuação: nada de protestos histéricos, mas conversa direta com os membros da comissão. O desafio é identificar aqueles que possam ser convencidos. Nesta reunião, ficamos sabendo de um outro PL, este na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), que trata da violência contra a mulher, que precisa ser votado mas o relator ainda não o apresentou.

Por mais imperfeições que a democracia brasileira apresente, uma experiência como esta ilustra a sua vitalidade. É uma pena, mas faz parte do jogo, que certos grupos usufruam dos instrumentos democráticos para atingir objetivos anti-democráticos e anti-republicanos, como é o caso do movimento contra o direito de escolha da mulher. (Penso agora sobre um texto de Fernando Pessoa no qual ele afirma que quanto maior e mais barulhento o protesto, mais fraca é de fato a posição que se quer defender; ele explica que na verdade a manifestação não é em prol de uma causa, ou de alguém, mas sim contra aqueles que são contra a causa, ou a pessoa. Penso nisso e penso: tomara.) Mas essa é, ao mesmo tempo, a beleza da democracia. Como convencê-los da inconveniência de suas idéias?

Lida com valores, religiosos ainda mais, é complicado. Sobretudo, como bem me lembrou Kollontai, quando se trata de um poder remanescente da Igreja sobre o corpo e as atitudes das pessoas. Mas é possível dialogar. Explicar-lhes, por exemplo, que não se trata de o Estado dizer que é certo ou errado que as mulheres ajam de determinada maneira; cabe ao Estado, isto sim, reconhecer que existem mulheres que, por razões que somente a elas próprias dizem respeito, interrompem a gravidez (indepentemente de ser o ato legal ou não). Uma mulher com mais condições econômicas pode sempre contratar um médico particular. No entanto, uma mulher de classe pobre coloca necessariamente sua vida em risco. Além disso, em ambos os casos, sob a legislação vigente, estariam cometendo um crime.

É bom ver que o CN segue funcionando e tratando de questões relevantes para a população. No Brasil, parcela ínfima do eleitorado vota movido por "issues", ou seja, por preocupação com temas específicos (questões), o que é uma falha. Aliás, não sei em que o eleitor brasileiro baseia-se para escolher seu deputado. Há uma discrença em relação ao Legislativo, em parte justificável pela baixa qualidade dos parlamentares; outra razão é a nossa legislação eleitoral, confusa; mas, em boa medida também explicável pela desinformação sobre como funciona o poder legislativo (por exemplo, coisas do tipo acima descrita). Há eleitores, inclusive, que deliberadamente optam por não escolher seus representantes parlamentares, por acharem seu trabalho irrelevante.

Trata-se de erro grave. A imprensa falha em cumprir o seu papel, não divulgando votações como essa, e dando ênfase exacerbada às CPIs e aos escândalos - o que não ajuda em nada o eleitor a bem informar-se. Vale dizer que a Internet é uma fonte inestimável de informação e os sites www.camara.gov.br e www.senado.gov.br são incrivelmente completos e abertos e, nesse sentido, democráticos. São, no entanto, sub-utilizados.

Aproveito, então, a ocasião desse debate que pude presenciar no CN para lembrar a importância dessa instituição democrática, que melhorará apenas se nós, eleitores, exigirmos, de um lado, informação mais completa por parte dos meios de comunição sobre os assuntos legislativos (exercendo nosso poder de cidadão assim como o de consumidor) e, de outro, escolhermos nossos representantes parlamentares de forma mais consciente. Como bem lembraram os nossos concidadãos religiosos, ano que vem tem eleição. Fique atento, desde já, nas opções.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

DIGA-ME VOCÊ...

Dirceu foi cassado. Devo confessar que jamais apreciei a presença de José Dirceu no governo Lula. Aliás, sempre questionei a presença maciça de São Paulo na composição deste governo. Mas, enfim... por que Dirceu foi cassado? O que foi provado contra ele? Não vale essas manchetes falaciosas da grande imprensa brasileira. Imprensa esta que diz e desdiz um "fato" de um dia para o outro. Imprensa esta que há meses financia uma crise que já passou... ou que existe hoje tanto quanto um, dois, três, cinco, oito, dez, quinze anos atrás. Quem cassou Dirceu? Por que motivos? Que eu me lembre, Roberto Jefferson foi cassado por ter acusado a existência do mensalão sem ter conseguido provar sua existência. Logo, como pode Dirceu ser cassado por ter chefiado um esquema de mensalão que não foi provado existir? E essa palavra "mensalão", criada por Roberto Jefferson, não seria equivalente à compra de deputados 10 anos atrás? Essa cassação me incomoda, afinal, que julgamento é esse?? Um dia o mensalão existe, no outro, não. Deveria Dirceu ser cassado sob ESTA acusação? Acusaçao de ser chefe de algo que não foi provado existir? Diga-me você... estou perplexo.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Liberalismo e nacionalismo no Brasil

Não obstante as políticas neoliberalizantes implementadas pelos sucessivos governos na década de 90 e da retórica de cunho nacionalista da oposição, é forçoso reconhecer que ambas as correntes ideológicas têm fortes limitações. A explicação está no processo de formação do Estado e do sistema econômico brasileiros, que impôs restrições bastante arraigadas ao pleno desenvolvimento do liberalismo e do nacionalismo.

Quando a burguesia ascendeu na Europa, mormente após a Revolução Francesa, em fins do século XVIII, esta nova classe social tinha por objetivo organizar a sociedade sobre novas bases. Ademais, interessava-os constituir uma economia nacional integrada, e, portanto, a fidelidade do povo deveria ser à nação e não mais ao Rei. Nacionalismo e liberalismo são conseqüências diretas da necessidade de uma burguesia vigorosa, ligada ao desenvolvimento manufatureiro e industrial, e diante da aristocracia decadente, por um Estado liberal, nacional e laico.

Trazidas ao Brasil no século XIX, as duas linhas de pensamento enfrentaram alguns obstáculos. Os movimentos que as adotavam em seus discursos eram inorgânicos e ideologicamente pobres, em decorrência do atraso cultural e material da maioria da população brasileira. Acrescente-se a isso o analfabetismo do povo e a deficiência dos meios de comunicação, que dificultavam a livre circulação de idéias. A maior barreira, porém, foi a discrepância patente entre o contexto europeu, onde surgiram, e o brasileiro, para onde foram transpostos.

O Brasil, àquela época, tinha uma estrutura econômica agrária e escravista, voltada para o comércio externo, dominada pela aristocracia de origem portuguesa. A burguesia, formada majoritariamente por comerciantes portugueses, era pouco expressiva. Setores do clero, por sua vez, não hesitavam em fazer parte de movimentos revolucionários. Ademais, muitas províncias tinham mais ligações com a Europa do que entre si; os movimentos revolucionários ocorridos nos dois primeiros decênios do século XIX continham antes caráter local ou regional do que nacional. Dado este contexto, não poderia ter sido diferente: no Brasil, o liberalismo surgiu contra o sistema colonial, mas não contra a monarquia ou a Igreja; e estabeleceu-se em oposição à metrópole, ao invés de favorável à nação.

Em conseqüência, hoje, o nacionalismo é superficial, desprovido de conteúdo ou de qualquer projeto de longo prazo, baseado mais em "slogans" e símbolos - o caso mais emblemático talvez seja a campanha do petróleo nos anos 50, ou as campanhas "nacionalistas" durante a Ditadura Militar. O liberalismo econômico, por sua vez, é ambíguo, em decorrência do importante papel desempenhado, direta ou indiretamente, pelo Estado na economia brasileira - o fato de ser a estatal Petrobrás a maior empresa nacional ilustra bem o ponto. São essas bases históricas que explicam, em parte, a fluidez ideológica do confronto político no sistema partidário brasileiro até os dias de hoje e a falta de um projeto nacional por parte das elites.
Breve reflexão: gênese do capitalismo à brasileira

O primeiro modelo econômico adotado no Brasil foi a economia colonial, a partir de meados do século XVI, quando colonos portugueses dão início à produção canavieira em escala comercial. O modelo colonial tem a estrutura assentada na “plantation”, que implica quatro elementos constituintes – o grande latifúndio, a monocultura, a mão-de-obra escrava africana e é voltado para o comércio externo. Trata-se, em suma, da execução do Pacto Colonial, onde a colônia vende toda a sua produção de matéria-prima e consome tudo o mais exclusivamente da metrópole.

Com a chegada da corte ao Rio de Janeiro, primeiro decênio do século XIX, tem-se o fim do Pacto Colonial: dá-se a emergência de uma segunda etapa da economia, o modelo mercantil-escravista nacional. A estrutura sócio-econômica, no entanto, mantém-se inalterada.

Por fim, a partir da I República, adota-se o modelo liberal: estabelece-se a economia agroexportadora capitalista. Apesar de ser o Estado dito liberal, o governo intervém por meio da prática da valorização do café. Aqui, nesta fase, o modelo baseia-se na mão-de-obra livre, assalariada ou sub-assalariada, embora sasonal. A presença do Estado seria uma constante no capitalismo à brasileira.

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Greve nas Federais

As universidades estão morrendo à mingua. E os greveiros de plantão anunciam a profecia que se auto-realiza: as paralizações sistemáticas apenas servem para acelerar esse processo.

As greves, por inócuas, são insensatas sob qualquer perspectiva que se queira analisar.

Ao interromper a produção científica e de conhecimento, a conseqüencia imediata é uma população menos educada. Um curso que tenha a duração de quatro anos é, desse modo, concluído em cinco, seis ou sete. Sem que os anos extras impliquem em maior conhecimento para o aluno. Disso decorrem custos individuais - a impossibilidade de planejar-se a carreira acadêmica a médio prazo, a desmotivação acadêmica, a formação interrompida e fragmentária -, e sociais - o ingresso tardio de contingente significativo de mão-de-obra no mercado de trabalho, a má formação intelectual de cidadãos, o descrédito das universidades públicas perante a sociedade, além do desperdício de recursos públicos escassos.

As greves são contra-producentes. O mito de que elas sejam eficazes serve apenas para que os greveiros, por ingenuidade ou má-fé, a defendam. Mas, se fossem eficientes, não seria necessário uma atrás da outra, como tem sido o caso nos últimos anos. As paralizações alienam a comunidade universitária, dispersando-a. E respaldam o discurso daqueles setores sociais que se opõem à universidade pública de qualidade. Além de não sensibilizar aquelas pessoas que não têm vínculo com o ensino superior público - ou seja, quase toda a população brasileira.

Tudo isso sem contar o anacronismo que significa a greve, sobretudo em se tratando do setor educacional. Greve no setor produtivo privado é bem diferente: o operário, ao interromper a produção, prejudica diretamente o patrão e todos os setores da sociedade ligados àquela cadeia produtiva. Além dos consumidores finais, que podem ser igualmente prejudicados. A empresa tem, portanto, incentivos para resolver o impasse rapidamente. No setor educacional público, não é o que ocorre: ao interromper a produção de conhecimento, no curto prazo apenas os integrantes da comunidade universitária são atingidos; no longo prazo, a sociedade paga custos dispersos, mencionados acima. E o "patrão", no caso o governo federal, não tem os mesmos incentivos para chegar a um acordo, pelo menos não por esses meios.

As greves são, ademais, ilegítimas. Os sindicalistas profissionais são, via de regra, professores que não pesquisam e que não ensinam. São intolerantes, não aceitam idéias divergentes. As assembléias (de lagartixas, que aprovam tudo) que decretam as greves são pouco representativas. Os líderes sindicais são, todos, ligados a partidos políticos, misturando assim interesses político-eleitoreiros com interesses classistas sob um verniz de pseudo-interesse coletivo.

A imprensa mal fala do assunto (educação não dá manchete). Não há previsão de fim da greve As universidades estão vazias, as bibliotecas fechadas. Os alunos, reféns do movimento, aguardam - isso nos cursos que aderem (ou que são impelidos a). Desigualdades já emergem aqui. Na UFPE, por exemplo, as Humanas sempre param (ai do professor que ousar pensar diferente). Outros departamentos, como o Cin, sempre funcionam. O movimento estudantil apóia a greve acriticamente, sem levar em conta os males causados aos estudantes. O corpo estudantil, em sua esmagadora maioria, mofa em casa, ou vai à praia, se desmotiva da vida acadêmica: afasta-se da universidade.

O governo federal propôs reajustes acima da inflação a todas as categorias de professores. Foram feitas três propostas sucessivas. Nenhumas foi aceita. Onde querem chegar os greveiros? Se o objetivo dos profissionais da greve é tirar proveitos eleitoreiros da crise do ensino público, são irresponsáveis e oportunistas; se é, genuinamente, buscar soluções, são burros.

Os professores contra a greve, no entanto, não se expressam, não se mobilizam. Onde estão? (Na iniciativa privada?). A maioria silenciosa - de alunos e professores insatisfeitos com o movimento anti-universidade - precisa urgentemente organizar-se.

Aqueles, alunos e professores, que se preocupam de verdade com a qualidade do ensino superior público no país precisam refletir a questão. Precisamos pensar novos meios de mobilização e reivindicação, que sejam responsáveis e conseqüentes, que agregue e não disperse. Fortaceler a universidade é povoá-la, é instigar os alunos à reflexão, realizar pesquisas, produzir conhecimento. É isso. Na educação da era do conhecimento e da informação, o melhor protesto é mais, e não menos!, produção.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Crise social na América Hispânica como legado histórico

A administração colonial espanhola como origem da estratificação social dos países latino-americanos.

Um aspecto salta à vista quando observamos os atuais conflitos políticos no México, no Equador, na Venezuela, na Bolívia ou no Peru: há, latente ou patente, uma divisão de ordem étnica. A explicação está no legado histórico do modelo administrativo colonial espanhol.

Os territórios espanhóis nas Américas eram divididos em vice-reinos e capitanias gerais, governados sempre por alguém ligado à família real espanhola, e com autorização da Igreja. A política colonial era fortemente centralizada na Metrópole, sendo o Conselho das Índias, em Sevilha, o órgão responsável por defini-la e implantá-la.

Os espanhóis nascidos na Espanha, os “adelantados”, desfrutavam amplos privilégios políticos e econômicos nas colônias, inclusive em detrimento dos espanhóis nascidos fora da metrópole, os “criollos”.

O objetivo dessa forte centralização metropolitana era exercer forte controle contra o contrabando de metais preciosos advindos das colônias. Os principais postos políticos eram ocupados, apenas, pelos “adelantados”. Aos “criollos” restava a possibilidade de sucesso econômico. Estes dois grupos compunham a elite dominante.

A grande massa era composta pelos índios, mormente nos países andinos, onde foram base no trabalho sub-humano da extração de prata e ouro. Lá onde essas riquezas inexistiam predominava o sistema de “plantation” – latifúndio, mão-de-obra escrava, monocultura, voltado para o comércio internacional –, e o trabalho forçado indígena era substituído pelo africano arrancado de suas terras.

Os processos de independência das colônias espanholas se deram, via de regra, pela disputa pelo poder político entre “adelantados” e “criollos”. Os libertadores hispano-americanos, não à toa, advêm desse segundo grupo.

O resultado decorrente deste processo de formação sociológica foram sociedades extremamente desiguais, com um corte marcadamente étnico. O controle político e econômico permaneceram nas mãos de uma minoria branca, de origem européia, enquanto a grande maioria de indígenas e mestiços permanece marginalizada socialmente.

Não é por acaso, então, que as classes média e alta venezuelana se refiram de modo pejorativo ao Presidente Hugo Chávez, tratando-o de “cholo”, em relação ao fato de ele ser mestiço. No México, o movimento revolucionário zapatista, liderado pelo Comandante Marcos, é composto por indígenas. Na Bolívia, o maior líder da oposição, o “cocalero” Evo Morales, é indígena, assim como sua base social de apoio. Ao passo que as elites desses países são brancas ou ocidentalizadas. É emblemático o fato de o ex-presidente boliviano Sánchez de Lozada, derrubado pela pressão popular, Morales à frente, falar espanhol com sotaque inglês.

O modelo administrativo implantado pela Espanha em suas colônias americanas gerou uma estratificação social engessada e diretamente ligada à questão étnica. É em conseqüência desse legado histórico que a luta social esteja, ainda hoje, em boa parte das ex-colônias espanholas, intrinsecamente associada à luta étnica.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

É Simples, Assim?
Eu sou totalmente a favor de políticas compensatórias para negros! Não posso ignorar a histórica exclusão e repressão sofrida pelos negros no Brasil até pouco mais de 100 anos atrás; não consigo aceitar a passividade de deixar que negros conquistem seu espaço pouco-a-pouco; não aceito o argumento de que isso promoverá discriminação, ou que as pessoas não terão condições de completar esse ou aquele curso!
Sinto que um dos grandes problemas do brasileiro é o medo de sair perdendo... "e se fosse eu?" Aconteceu na época das discussões da Reforma Previdenciária, quando ninguém queria abrir mão de benefícios em pró de um todo maior; e acontece com a idéia de cotas, onde ninguém quer abrir mão de sua vaga para um cidadão que vem ali para "roubar-lhe" o lugar.
Como medida isolada, de fato as cotas são prejudiciais à sociedade. No entanto, para reduzir a desigualdade de forma mais imediata e democratizar o ensino, vejo como uma ação especial. Especial porque não esqueceríamos dos jovens de hoje que não tiveram acesso a escolas de qualidade, e não deixaríamos de trabalhar a base para que o filho deste mesmo jovem, mais adiante, pudesse almejar, desde sua infância, um futuro digno para si. De forma isolada, eu digo Não às cotas. Como parte de um pacote de inserção social e redução da desigualde, eu digo Sim... devemos abrir esse espaço.
Para mim é simples. É uma questão de abrir espaços. É questão de democratizar o que, supostamente, é direito de todos. É oportunidade para quem sempre teve dificuldades de enxergá-la. É democracia. É tornar a presença do negro em sala de aula tão comum quanto a do branco. Enxergar o problema de desigualde no Brasil é coisa simples. Por que o combate não pode ser? Acho hipocrisia dizer que o problema é de base e, por isso, argumentar contra as cotas... Para mim é simples: tratamos a base, que é o futuro, e o topo, que é o presente e merece o mesmo respeito.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Cotas?
Segue abaixo mais um curto texto sobre políticas compensatórias. E aí? Que continue os debates e comentários...
“É indubitável que a estrutura da sociedade brasileira é injusta. É indubitável que grande parte desta injustiça é fruto do secular preconceito e discriminação. É indubitável que a dívida social é imensa e que algo deve ser feito para resgatar esta dívida e que ações neste sentido são nobres e dignos de aplauso. É indubitável, porém, que essas ações devam ser calcadas em uma justificativa objetiva e razoável, de acordo com critérios e juízos valorativos genericamente aceitos, cuja existência deve aplicar-se em relação à finalidade e efeitos da medida considerada, devendo estar presente por isso uma razoável relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade perseguida, sempre em conformidade com os direitos e garantias constitucionalmente protegidos.

A Lei 3.708/2001, juntamente com o Decreto 30.766, não se enquadram nessa justificativa objetiva e razoável, e mais, sua aplicação no caso concreto gerou distorções e mesmo injustiças, pois pessoas de mesmo nível social, que estudaram no mesmo colégio, tiveram a mesma formação e que concorreram ao mesmo curso, simplesmente por diferença da cor da pele foram tratadas de forma diferente, e nesse tratamento o mérito foi relegado a segundo plano. Não parece ser um bom sistema de aprovação no vestibular o critério da cor da pele.
Se o propósito das políticas compensatórias é resgatar uma dívida social, o caminho não é estipular cotas pela cor da pele, mas pela situação socioeconômica, baseado em critérios objetivos.

Obviamente que a solução para o problema social do Brasil não está em políticas compensatórias, mas em políticas que cumpram os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil listados no art. 3º da CF 1988: erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais e garantir um ensino público de qualidade. Estas sim, urgentes e necessárias ao País.

O ideal é não precisar de políticas compensatórias e as seleções sejam feitas através do mérito.”

Rubens Cartaxo Juniorbacharelando em Direito pela UFRN, licenciado em Letras

domingo, 13 de novembro de 2005

1a Manifestação
A maior importância das enquêtes, como mencionado anteriormente, é fazer com que pessoas tentem discutir o centro do problema em discussão. É algo muito mais além do que uma questão de posições. Para abrir, então, esta etapa de discussão sobre o tema de cotas, coloco abaixo um texto que reflete a posição desta pessoa. A idéia é que continuemos a abordar este tema sem fugir da idéia de que o principal é o problema que as cotas visam a combater. Para início dos debates, segue abaixo a primeira manifestação... e que venham as contestações e comentários.


COTAS, PRA QUE?
Bruno César Maciel Braga
[1]

Permanece intensa a discussão sobre a plausibilidade e mesmo a legalidade da concessão de cotas para o ingresso de pessoas negras em instituições de ensino superior. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ e a Universidade de Brasília – UnB foram as primeiras instituições estadual e federal, respectivamente, a adotarem tal sistema. A primeira em 2001. A segunda em 2004.

Inicialmente, é de se perguntar o que seria ser da raça negra, pois a grande maioria de nossos cidadãos tem descendência, mesmo que longínqua, de negros. Somos um povo de rica miscigenação. Temos uma pluralidade étnica impressionante, o que torna até dúbia a designação, em certos casos, de uma pessoa ser ou não negra. De qualquer forma, fica claro que dentre as mazelas sociais inseridas no seio da vida moderna brasileira, o preconceito, notadamente o racial, ainda possui ranços bastante perceptíveis. Mesmo assim, não enxergamos resposta para uma pergunta que costuma nos perturbar: Cotas, pra que?

O fato de ainda persistir uma nódoa racista na nossa sociedade, natural de seres pouco privilegiados mentalmente, não parece autorizar a transferência de vagas de brancos para negros. Em outras palavras, a cor necessariamente não representa possuir ou não meios de acesso à informação, boa educação e adequada formação, o que deveria ser, exatamente, a essência da “facilitação” do acesso ao ensino universitário. Isto porque, se o negro for pobre e vir de escola pública, encaixar-se-ia nas cotas específicas para as pessoas que tiveram ensino público. Se for rico, provavelmente estudou em instituições particulares e teve todas as condições de uma boa aprendizagem e, por conseqüência, não existiria o porquê de ser beneficiado. Ressalte-se que o processo seletivo de ingresso nas universidades é permeado por critérios objetivos, e não subjetivos.

Na verdade, na nossa percepção, o sistema de cotas é um retrocesso. Fere o principio da igualdade, garantido constitucionalmente. O notável jurista Ives Gandra Martins compartilha deste mesmo raciocínio, defendendo, por esta razão, a inconstitucionalidade do sistema de cotas. Para ele, a política afirmativa não deveria ser realizada em nível superior, e sim na educação de base. Exatamente este o ponto cerne da questão. Um problema estrutural não está sendo atacado em sua nascente. Estão querendo remedir suas conseqüências. Aí reside o grande equívoco.

De qualquer maneira, poder-se-ia antever alguma aceitabilidade nas cotas ligadas aos estudantes do ensino público, na medida em que estas representam de certo modo um paliativo, um contra-balanceamento à má educação dispensada aos alunos. Não um fim em si mesmas, mas uma forma do Estado (percebam a própria assunção do Estado pela inoperância da educação pública) remediar um aprendizado inadequado, concedendo maior espaço àqueles nas bancas universitárias.

Entretanto, no que diz respeito à exceção pela cor, entendemos que tal forma de excepcionar deveria ser expurgada pelo próprio negro, na medida em que representa um auto-preconceito, uma forma de se manter essa distinção, esse apartheid por gerações vindouras. Que o espaço do negro seja conquistado dia após dia, como o foi historicamente. A cor não representa absolutamente nada do ponto de vista do caráter, da ética, da cidadania, da capacidade e do saber. Que as cotas não sejam vistas como um ganho social, um benefício aceito de forma cômoda, mas que o fim delas possa ser a bandeira do negro, na medida em que as cotas apenas separam, desagregam, excepciona pelo conhecimento, critério este que não tem cor. Sejamos inteligentes o suficiente para percebemos as diferenças, mas sejamos ainda mais sábios para não aumentá-las.

[1] Advogado Coordenador da Siqueira Castro Advogados em João Pessoa/PB.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Revolutión dans la Banlieu

“O que pode esperar um jovem nascido num bairro sem alma, que vive num imóvel feio, cercado por outras feiúras, por muros cinzentos numa paisagem cinzenta para uma vida cinzenta, tendo em volta de si uma sociedade que prefere desviar seu olhar e só intervém quando é preciso punir, proibir”. (François Mitterand)


Uma das grandes violências que um cidadão pode sofrer é a psicológica; aquela cuja simples lembrança nos causa medo. Uma lembrança que, ela em si, é mais forte do que a razão, pois mesmo sabendo que nada pode acontecer, sentimos medo. Viver nessas condições, ameaçados por pessoas que não sabemos quem são, cujos valores são construídos na base do preconceito e descriminação transforma a comunidade num ambiente hostil, num campo de guerra. Sentimo-nos constantemente ameaçados por forças que desconhecemos e/ou por forças cujas ações são imprevisíveis.

Foi no subúrbio parisiense que, aos 17 anos, aprendi que, ali, eu não deveria olhar ninguém nos olhos. Foi lá onde mais temi polícia e civis. Somente o fato de estar sozinho, próximo a essas pessoas, me causava medo. Não precisava de maiores motivos para temê-los. Bastava estar só.

Isso é viver na banlieu parisiense. Um clima pesado, com habitantes carregados de complexos de inferioridade, de ressentimentos, de medo. O ódio domina; o medo é a conseqüência. São regiões compostas majoritariamente por minorias étnicas, desde africanos do norte a asiáticos. Grande parte desse grupo está desempregada. O local onde moram recebe pouco ou nenhum investimento público com o objetivo de integrar moradores e dar-lhes uma qualidade de vida mais digna e humana. Começam, assim, a guardar e alimentar esse ressentimento com relação ao país em que vivem e seus demais habitantes; sentem-se relegados a um sub-plano. Qualquer raça, excluindo a sua, é motivo para chacota. Todos, então, criam estereótipos e falsas-verdades nutrindo o tão difundido ódio às crianças que ali começam a formar-se.

A banlieu parisiense é carente. Carente de políticas públicas que visem a integrar as diferentes raças que formam o que hoje é a França. Carente de amor de seus governantes. Todos sentem-se perseguidos, sempre. Por isso que, no caso que inflamou a periferia de Paris, havia dois jovens “fugindo” da polícia. Podiam estar fugindo como eu fugiria: com medo do nada, apenas de uma idéia, de uma polícia que estava ali mas que, daquela vez, não buscava encurralar ninguém. O motivo real não saberemos, mas a população decidiu adotar a versão da perseguição porque é isso que eles sentem todo dia!

O Ministro do Interior francês, Sarkozy, companheiro do extremista Le Pen, apenas faz inflamar ainda mais esse grupo de pessoas com suas declarações nazistas de “acabar com essa doença” na banlieu de Paris e de tratar os grupos de “escória”. Qual, então, o poder dessas pessoas senão revoltar-se contra as autoridades? Eles não têm representatividade parlamentar, não têm suas necessidades devidamente atendidas pelo poder público e sentem-se marginalizados pela sociedade francesa de um modo geral. Eles são “diferentes” .

Como resolver o problema? Para começar, eu acredito que um pedido de desculpas da ala mais à extrema direita (Sarkozy) do governo possa acalmar os ânimos na periferia. Em seguida, uma injeção de políticas públicas no sentido de criar oportunidades para essa juventude de modo que se ocupem; políticas que agreguem as diversas etnias que hoje formam o que é a França. País este cuja foto do time campeão mundial em 1998 ilustra bem o melting-pot que se tornou: martinicanos, argelinos, romenos, surinamianos (?), costa do marfiniano (? hehe). Diferente da realidade do país, o time se abraçou e, juntos, todos brilhando, atingiram o topo do futebol mundial.

Integração, Respeito, Oportunidade... Fraternité, Egalité, Liberté.

Sugestão: assistam ao filme “La Haine”`(O Ódio) de
Mathieu Kassowitz. Retrata bem isso que vemos hoje. O filme é de 1995. podia ser
de hoje...

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

"Crash"

"As pessoas batem os carros em L.A. porque de outro modo não encontram outras pessoas, não interagem". Com uma frase (mais ou menos) assim, logo no primeiro momento temos uma idéia dp qie esperar do resto do filme: um clima lúgubre, permeado por ironia discreta, histórias honestas - sem excessos. Ou seja, você sabe que verá um bom filme.

"Crash" é uma espécie de "Amarelo Manga" versão L.A.: é um retrato social da cidade. Personagens arquétipos, mas verossímeis, representam diversos grupos sociais, compõem os sub-núcleos temáticos do filme, no que se assimila a "Amarelo Manga" ou a "Traffic". Neste, o tema principal é o narco-tráfico. Em "Crash", é a cidade de Los Angeles, assim como em "Amarelo Manga" é o Recife, onde os personagens revelam os diferentes aspectos da cidade.

O resultado é a riqueza temática que é a principal característica do filme. O "melting pot" de L.A. fica bem em evidência, e também suas conseqüências. Sem ter a pretensão de aprofundar-se numa análise antropológica ou sociológica, várias questões, latentes ou patentes, vêm à tona: desigualdade sociail, violência urbana, racismo. A questão racial, aliás, é um sub-tema de destaque, revelador também da diversidade étnica da Califórnia contermporânea. Com o governador austríaco, prefeito mexicano, chefe de polícia negro - tudo compõe um fundo de tensão mais ou menos explícito. O policial racista porque acredita que o pai tenha sido prejudicado pelas leis de ação afirmativa; o chefe de polícia negro que nada faz contra o racismo porque "a instituição é racista"; o negro pobre tomado por bandido; o árabe (na verdade, persa, mas você sabe a diferença?) que não confia no "latino"; o negro que acha os hispânicos tudo igual.... vários pequenos ou grandes conflitos são mostrados, mas nunca se tenta passar uma lição de moral.

Outro mérito do filme é a atuação do elenco (Don Cheadle, Matt Dillon, Brendan Fraser). Até Sandra Bullock, em geral muito fraca, tem um desempenho convincente como dondoca solitária depressiva.

É bastante interessante ver a cidade do cinema, de Hollywood, Berverly Hills e Disneyland, a cidade da fantasia, "por trás das câmaras" - seus diversos aspectos, digamos, reais. Ao mesmo tempo, o filme é Hollywood puro - tecnicamente excelente, atuação competente, cenas de perseguição emocionantes, drama, thriller psicológico - todos os ingredientes de um bom filme. Sem esquecer o final, sem moralismos esquerdóides (seres humanos são lindos, apesar das diferenças) ou dramalhão "à la" filme europeu (todo mundo morre no final. porque afinal o mundo é duro, c'est la vie). Vale o ingresso.


***

Interessante ver o filme nos dias de hoje, ademais, quando testemunhamos pela imprensa os conflitos (étnicos?, sociais?) nas periferias francesas. Por que não ocorre o mesmo nas periferias americanas, por exemplo? O que explica o que está acontecendo na França? O filme em questão não traz - nem é esse seu propósito - respostas a essas indagações. Mas ele ajuda na reflexão. Los Angeles é uma cidade bastante cosmopolita, com clivagens étnicas e sociais. Seria por que a sociedade americana é mais democrática do que a francesa que o que vemos na França não ocorre nos Estados Unidos?

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Lula Government’s foreign policy



Comment on the following statement: “Over the last couple of years Brazil has accumulated a series of humiliating defeats. The foreign ministry is a disaster.”


There is a political struggle for power in Brazil today. Some conservative sectors of society, most of the big media companies, and opposition parties (led by right-wing PFL and center PSDB) cannot accept the fact that a left-wing grassroots party has democratically achieved the highest level of power in Brazil.

That is the basis of the current wave of unproven, sensationalistic accusations against President Lula’s government. It’s an orchestrated effort to demoralize the biggest and most organized party of the realistic and responsible left – the Workers’ Party (PT). In this negative campaign, nothing escapes – the main goal is to get across an idea to the population that the government is a total failure, that nothing works.

Incoherence and frailties stem from the opposition’s rhetoric, for a balanced and fair judgment is not its method. However, most of the press is all too willing to play the role of the opposition’s mouthpiece, and it’s shocking. Truth is the first victim of this process. Many honest politicians are being condemned out of hand as a consequence of this tactic of generalization. In the same way, many successful and innovative public policies are ignored – as the “Bolsa Família” and “Pró-Jovem” social programs – or condemned outright, as the cultural and foreign policies.

Let us take the latter one, for the sake of illustration. A lot of misinformed or biased “analysis” has been made, as a means of criticizing the Lula Government, about several subject areas – including the foreign policy. The opposition and conservatives in general claim that “the Foreign Ministry is a disaster” (as right-wing weekly newsmagazine “Veja” recently stated).

A basic mistake in such categorical affirmations is the lack of understanding of the dynamics of international politics. International relations is not a sports game, it is not a win-lose situation, where if one side wins, the other necessarily has to lose. In these days of multi-lateral negotiations, reality is a lot more complex than that.

The policies adopted under the Foreign Affairs minister Celso Amorim administration don’t follow the domestic politics electoral calendar – and perhaps that is what conservatives fail to realize. The foreign policy agenda is drawn up for the long term. Brazil is on the move towards the occupation of more space in the international public arena. What to layperson may seem as a defeat is, in fact, a step forward into a new level of engagement in international politics.

The G-20 proves the point. When Brazil, India, South Africa and others joined to form this coalition of developing countries that export and import farm products, they changed the way business is done at the World Trade Organization. The Cancun Round was declared by the world media to be a failure; but for the G-20 it was a huge victory. Up to that point, it was the G-7 that established and imposed the WTO agenda. That ended in 2003 with the G-20’s aggressive approach defending their interests (to reduce and eliminate agriculture subsidies in the rich countries). Now, the rich nations actually have to negotiate.

From August 2004 to July 2005, Brazilian sales to South America increased by US$ 6 billion, and to Africa by US$ 3 billion. Exports to other developing countries today represent 52% of the total Brazilian sales abroad. In 2002, exports totaled US$ 60 billion; this year they will be well over US$ 100 billion. Three factors explain these positive numbers: the crumbling and re-structuring of the Brazilian industry in the 1990’s, the increase of the price of commodities on the global market and a good foreign policy (trade agreements with new partners).

President Lula’s foreign policy’s basic interest is a pragmatic one: to put Brazil on a new level, by expanding foreign trade as much as possible. The preference for developing countries is due to the fact that these are the countries that want to buy our products with higher added-value.

Brazil’s exports agenda has more manufactured goods which are sold to more countries than ever before. Brazil’s role in international politics has never been greater. These are direct effects of the policies chosen since January 2003. It bothers some people who prefer to see Brazil selling more soybeans rather than TVs; and they are also not happy to see that Brazil is successfully represented abroad by a monoglot factory-worker.

What is at stake here is what kind of nation we want. Behind much of the criticism against Lula’s policies, there are hurt economic interests and ideological and political disputes.

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Comentários do professor –

A most interesting analysis of the topic.
I think paragraphs 1-3 are not really relevant to the issue. Maybe you could have treated the subject briefly.
But the overall treatment is very good, clear, coherent and well stated.
Very good English.
Celso Amorim would be proud of you!

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Escrevi esse texto como uma atividade para a aula de inglês há várias semanas. Nessa semana de denúncia vazia irresponsável de "Veja" (mais uma pra lista...) e do acirramento retórico da oposição, que já fala abertamente em impeachment e em "dar surra" no Presidente da República, o texto está ainda mais atual agora do que à época que foi escrito, além de comprovar aquilo que afirmo nos três primeiros parágrafos (que embora fujam ao que foi pedido na atividade de classe, se adequam bem à realidade).

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Estréia
Letícia Jurema
Não sei o que dizer. Qualquer assunto aqui mencionado será pessoal, talvez em demasia. Não disponho de dados concretos, estatísticas de associações oficiais. Tudo que escreva terá como única fonte minha vivência; não pretendo ser dona da verdade. Em realidade nada pretendo. Considerarei esse texto uma espécie de diário. Ainda não sei como será esta história. Diogo me deu muita liberdade. Pois se equivocou, sou indecisa, preciso definir a natureza deste texto: será humorístico, filosófico, político (duvido), científico? Havia dito que nada pretenderia, pois seguirei esta linha. Espero que o texto se defina por si mesmo e assim acabará indefinido, inconstante e indeciso, acima de tudo disperso...como a autora. Vou me perder, comecei sem saber como começar, e agora? Completamente indefinido, não posso continuar.
Durante um ano morarei em Berlin. Há muito tempo sabia que tentaria a bolsa Erasmus, a qual me trouxe aqui, e sempre quis vir à Alemanha. Nunca pensei nas dificuldades que enfrentaria uma vez na cidade, na verdade acho que jamais considero os possíveis obstáculos antes de uma viagem, simplesmente sei o que quero e não me passa pela cabeça nada mais. Decidi aprender alemão porque queria saber uma língua completamente diferente da minha. Quero entender as pessoas, poder me comunicar no idioma nativo de todos. Infelizmente isso não será possível, por motivos biológicos, práticos, materiais... A principio queria aprender idiomas para poder desfrutar mais amplamente de filmes em versão original! No entanto, esta é uma das últimas razões que citaria hoje se alguém me perguntasse o por quê de tantas viagens. A ambição profissional de aprender um novo idioma, ao final se torna um motivo superficial, quando nos damos conta de tudo que está implícito ao conhecer uma nova língua.
Este tempo fora me permitiu ver a comunicação desde outra perspectiva. Encontrei tantas ramificações, inúmeras possibilidades. É óbvio que é a chave para a aprendizagem, a compreensão, evolução, união ou desunião... Isto me levou a pensar nos idiomas, no papel essencial que joga para a comunicação, nas relações entre pessoas. Estou me precipitando. Primeiramente quero mencionar o básico: Tato, olfato, visão, audição, paladar... como descrevê-los? Por meio das palavras, pôr um nome onde antes não havia; dar significado a algo que já o tinha, mas se não pode mencioná-lo é igual que inexistente. Saudade é um paradigma: como traduzi-la? Todos a sentimos em algum momento da nossa vida, mas por que é tão difícil encontrar uma palavra similar em outro idioma?
A comunicação é tudo, nossos pensamentos se convertem em palavras e esses em conceitos percebidos pelo receptor...ou algo assim, nunca estudei essas coisas! Como pensaríamos se não houvesse palavras? É algo inimaginável, verdade? Pois, então, passemos a algo mais tangível: como pensaríamos se fôssemos chineses? Ou franceses? Ou de uma tribo de índios? Ou, no meu caso, alemães? Temos pensamentos parecidos ainda que seja em idiomas completamente distintos. Um australiano segue uma mesma linha de pensamento a um boliviano, porque somos humanos, estamos presos a esta condição. Considerando, claro, as características básicas que nos diferencia uns aos outros; pois uma pessoa burra será burra em qualquer idioma! Um impulsivo, não pensará mais antes de atuar em francês do que em italiano! Mas dentro desta constante há variáveis, muito sutis, da linha de raciocínio que seguimos, o qual pode definir um grupo social, por exemplo.
A estrutura gramatical da língua alemã, por exemplo, é bastante diferente das línguas latinas. Sujeito, verbo transitivo/intransitivo, complemento direto/indireto, etc... a ordem é quase contrária. Não me arrisco em aprofundar nesse tema, pois não o domino. As expressões me interessam mais; alguns termos que são quase exclusivos de um idioma. Ás vezes não são nem termos. São sons! Em italiano quando se quer dizer “não sei”, se diz bôo. Na Espanha, quando alguém quer demonstrar espanto diz: Ala!!
O inglês continua sendo a língua que nos une a quase todos. Com o inglês me comunico com um tailandês, um groenlandês, um egípcio; por meio deste idioma posso descobrir novas pessoas, culturas...mas e se soubesse falar árabe com o egipcio, tailandes com o tailandes?...
Quando se aprende um idioma, obtém-se uma chave. Esta abre as portas de uma cultura, um povo, uma Nação. Teria a possibilidade de conhecer esse povo no campo deles, através da língua que mais lhes caracteriza, melhor lhes representa e na qual se expressam. Entenderia, assim, suas piadas, seus slangs, seu humor. Isso para mim é a beleza de aprender uma nova língua: é um instrumento importante para a integração.
Nunca pensei que a conclusão seria mais difícil que o início. Quando fazia provas de redação sempre passava meia hora na primeira frase e o resto fluía, pois desta vez está sucedendo exatamente o contrário, justo ao final estanquei! Com tudo que disse aqui, qual é minha conclusão? Ao mesmo tempo que considero o idioma como um instrumento essencial para a integração, sei que paradoxalmente ele é um motivo de separação. É um fator distintivo entre povos. Devemos nos dar conta que as semelhanças superam as diferenças. Constataremos que ao final somos farinha do mesmo saco. Babacas, por exemplo, é universal, mas a babaquice em sí se materializa de maneiras distintas, dependendendo em que país nos encontremos, sempre com um fundo em comum: o babaca, ou pringado se prefere espanhol, asshole, stronzo ou arschloch!

sábado, 29 de outubro de 2005

Referendo 2005: um balanço

Findo o processo de participação decisória direta por que passou a sociedade brasileira, faz-se mister a tentativa de interpretar o seu significado, de modo a que possamos aprender com esta experiência e, assim, aprofundar a democracia brasileira, ainda em vias de formação.

O ineditismo do mecanismo de participação popular legisladora, comum em democracias mais consolidadas, como a americana, por exemplo, em si torna válido o Referendo. Democracia é um processo ininterrupto de construção, e a sociedade aprende apenas ao praticá-la.

Tanto a cobertura jornalística política quanto o debate político no Brasil são, em geral, ruins, uma vez que ficam restrito à política eleitoral. Na discussão suscitada pela realização do Referendo, o país passou por momento de rico e profícuo debate político: falou-se sobre políticas públicas, papel do Estado, direitos individuais, papel da Imprensa, valores morais etc. Tudo isso foi discutido publicamente, na imprensa, nos blogs, nos bares, nas reuniões familiares, no trabalho. É verdade que por vezes o debate tenha sido tosco, desinformado ou preconceituoso. Ou que setores da Imprensa tenham agido anti-jornalisticamente (a “Veja” é um exemplo emblemático do mau jornalismo, ao sistematicamente editorializar a notícia). Afinal de contas, ainda somos inexperientes e estamos aprendendo a lidar com o processo democrático.

Não deixa de ser positivo, ademais, e sem entrar no mérito da questão, o que já fiz em texto precedente, que a opção da ampla maioria dos eleitores tenha sido contrária à posição defendida pelo Governo Federal, por alguns dos principais líderes e partidos políticos do “establishment” político (PT, PMDB, PPS, PSDB, entre outros) e por celebridades. Nada mais democrático. O engajamento de sindicatos e movimentos sociais diversos é algo igualmente notável, que ilustra a vitalidade da democracia brasileira.

Ao olharmos o resultado final do pleito, é interessante tentar identificar qual o recado passado pelas urnas. Claro, é uma mensagem difusa e fragmentada, mas é relevante procurar entender o que passa na cabeça do eleitorado brasileiro.

Dentre os 63% que preferiram o “Não”, a não-mudança, boa parcela foi motivada por uma ideologia conservadora, de direita, que acredita que o direito privado deva primar sobre o direito público. Outra parcela importante expressou, por meio do voto, seu total descrédito em relação às instituições públicas brasileiras – ou seja, nesse caso seria uma resposta à inépcia do Estado brasileiro, em todas as suas esferas, mas em particular no que diz respeito às políticas públicas de segurança – ou à sua inexistência. Há, finalmente, aquela parcela que votou “Não” por desinformação, em parte decorrente da má elaboração da pergunta assim como das propagandas pouco informativas, mas sobretudo por se tratar de um eleitorado que não lê e não se informa. Aqui estão pessoas que não entenderam bem o que estava em jogo. Não sabiam, por exemplo, que não se tratava de desarmamento da população nem da proibição, strictu sensu, da comercialização de armas de fogo. Claro está que houve outras motivações por trás do voto “Não”, como o desinteresse pelo processo como um todo, mas acredito serem essas as principais, conscientes ou inconscientes.

Do lado do “Sim” fica mais fácil analisar, dado o tamanho diminuto do grupo. Grosso modo, é esse o eleitorado de esquerda, progressista, no Brasil, no sentido de que são pessoas que defendem o primado do direito público sobre o privado. Esses eleitores aspiravam uma solução pública para um problema de dimensões públicas. Há também uma parcela, quiçá menor, que votou de forma não necessariamente ideológica, mas pragmática – informados sobre o conteúdo da proposta, deram-se conta de que não se tratava de afronta aos direitos individuais, e sim medida restritiva de acesso a armas, que pouparia vida de brasileiros inocentes. Buscava-se solução prática: menos armas em circulação levaria a menos mortes por armas de fogo, algo empiricamente comprovado, como demonstrou o editorial da Folha de São Paulo sobre o tema.

Mais referendos?

Já há quem fale em mais referendos no futuro. Parece ótimo, desde que aprendamos com os erros deste e aperfeiçoemos o processo. Apresento algumas sugestões:

- O referendo não deve ser realizado simultaneamente ao processo eleitoral, sob o risco de dispersão do debate.

- As perguntas devem ser elaboradas por especialistas que reconhecidamente entendam do assunto, e não por deputados que defendem interesses classistas ou privados.

- O formato da propaganda precisa ser revista. Não tem cabimento que seja nos mesmos moldes da dos políticos. Por exemplo, as inserções de 30 segundos no meio da programação não informam absolutamente nada. A propaganda deveria ser mais longa, mas não diária. E deveria ser apresentada exclusivamente pelos integrantes das respectivas frentes parlamentares, e não por atores (sejam eles pagos ou voluntários).

- É inconcebível que o eleitorado forme sua opinião apenas por meio da TV. Cada eleitor deveria receber em casa uma cartilha explicativa, escrita de forma resumida e didática, que apresentasse as idéias principais das respectivas plataformas. Na França, por exemplo, todo eleitor recebeu uma cópia da Constituição da União Européia e uma cartilha explicativa, antes do referendo que a julgaria.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

REFERENDO

Você é:
A favor da proibição do comércio de armas de fogo (SIM)?
70.83%
Contra a proibição do comércio de armas de fogo (NÃO)?
29.17%

O resultado da enquête ilustra justamente o oposto do resultado final do Referendo. Uma pena, pois, entre nós que votamos nessa enquête, a proibição do comércio de armas e munições teria ganho e estaríamos (o Brasil) dando um novo passo, em direção a um novo caminho, por meio de uma (entre outras que deveriam seguir) nova política. Mas em democracias, nem sempre o bom senso ganha; principalmente em se tratando de uma democracia de 15 anos; uma adolescente, imatura e ainda insegura, com medo de mudanças.

Achei importante a prática de uma consulta popular. Em breve, quem sabe, estaremos votando novas idéias como obrigatoriedade do voto, aborto, união entre homessexuais, entre outros. A consulta popular provoca um debate na população sobre o tema em discussão. É um meio de fazer as pessoas pensarem; é um momento para as pessoas se posicionarem. Vejo como um exercício intelectual, embora nem sempre a idéia mais inteligente seja vitoriosa. Quem ganha, no fundo, é o povo que recebe informações, aprende a filtrá-las, processa-as de acordo com seus valores e idéias, evolui ou não, e decide, se posiciona diante daquela questão.

Há quem repudie esta consulta devido aos gastos excessivos para uma questão que não muda em nada a vida de ninguém. Primeiro, ela muda, sim. Cego e descrente é aquele que aposta na mesmice, na continuidade de tudo... cego porque não enxerga a nova direção para qual se posicionaria a Nação; e descrente porque não acredita que mudará e, por isso, prefere manter as coisas como estão. Com relação aos gastos, acredito que, mais na frente, possamos fazer um referendo com mais de uma pergunta, otimizando o dinheiro gasto em informar a população.

Enfim, o povo brasileiro tem debatido muito mais nos últimos 3 anos do que em muito tempo: Reforma Previdenciária, Reforma Universitária, Conselho Nacional de Jornalismo, Reforma Política, Desarmamento, Transposição do Rio São Francisco. Não há nada mais enriquecedor para o cidadão do que o debate inteligente, do que a injeção de informação em nossas cabeças.

Fico no aguardo de mais um referendo... pois, apesar da derrota pontual, não há vitória maior do que fazer todos pensarem e se posicionarem.

sábado, 15 de outubro de 2005

Sim ao bom senso

Por mais restrições que possam ser feitas à realização desse referendo – e as há muitas – isso era pra ter sido feita à época que foi aprovado no Congresso. Discutir sua validade agora é fugir ao tema, distrair a atenção do que realmente está em jogo. Estamos sendo convidados a escolher SIM ou NÃO a um controle mais rígido sobre o controle da venda de armas de fogo. Venho, por meio desse texto, expor o que penso a respeito e chamar meus amigos à reflexão sobre o tema.
bernardo jurema




Sim ao bom senso


“Imaginem uma cidade habitada por cidadãos irascíveis, desonestos e rixentos. Seria permanente o risco de morrer e permanente, portanto, a terrível angústia, neutralizando qualquer evolução normal. A autoridade da cidade quer então suprimir estas condições pavorosas... mas cada magistrado ou concidadão, sob nenhuma condição, aceita que lhe proíbam trazer um punhal no cinto!”

Albert Einstein, “Como vejo o mundo”, comentando acerca da Conferência de Desarmamento em 1932... Mas bem que poderia ser sobre o Referendo no Brasil em 2005!


Eu, na minha ingenuidade e humanismo, achava que a estupidez das armas de fogo fosse razão suficiente para qualquer cidadão optar pelo “SIM” no Referendo. Afinal, trata-se de um objeto que é feito com nenhuma outra finalidade senão a de que seres humanos matem seres humanos. E, na minha visão de mundo, isto basta para apoiar qualquer iniciativa que vise diminuir os prejuízos humanos, sociais e econômicos que a violência armada está provocando em nosso país.

Causa-me espanto a quantidade de pessoas que apóiam o “Não”, não pelo fato de adotarem posição contrária à minha, mas sim por defenderem algo contra o que elas mesmas pensam.

Tem algo mais anti-cristão do que uma arma de fogo? A própria idéia de tirar a vida de outro ser humano vai de encontro aos ensinamentos mais elementares de Cristo (não matarás, amai ao próximo, perdoai a quem vos tem ofendido...). Como podem praticantes da fé cristã, então, opor-se a maior rigor na comercialização de armas de fogo e assim evitar que inocentes morram? Como podem os cristão indignarem-se com o aborto de um feto de dois meses, e demonstrarem a mesma indignação contra uma medida que visa a que cidadãos brasileiros parem de matar um ao outro?

Como podem pessoas que se dizem de esquerda ou progressistas defenderem o “Não” e, desse modo, contribuírem decisivamente para a manutenção do status quo? Como podem defender o Lobby da Bala, cujo grande interesse é a conservação dos grandes lucros da indústria armamentista, e não o bem-estar coletivo? Ademais, como não perceber que os pobres, como sempre, continuam excluídos dessa concepção bizarra de “segurança pública individual”? Afinal, as classes média e alta têm acesso às armas e à segurança privada, enquanto que os pobres estão entregues à própria sorte, quando não ao crime organizado. Tradicionalmente, nossas classes abastadas têm buscado resolver nossos problemas sociais privatizando-os; ou seja, não os resolvendo para todos, mas apenas para quem possa pagar pela solução. O “SIM” representa uma quebra com essa atitude tradicional e egoísta, e o resgate do Estado brasileiro.

Por sua vez, os conservadores, maiores defensores do “Não”, também se contradizem. Num liberalismo parcial e seletivo, reclamam da interferência do Estado no suposto direito do cidadão de matar o outro (o direito a uma arma é isso, uma vez que é com esse fim que ela é feita). Porém, não admitem a liberdade do indivíduo de escolher praticar sua sexualidade como bem entenda ou de consumir substâncias alucinógenas culturalmente menos aceitas do que outras. Além disso, os conservadores defendem posição tão extremada à direita que terminam por encontrar-se com a extrema esquerda no outro lado do espectro político, pois em última instância defendem a ausência total do Estado para a resolução de conflito entre os cidadãos, deixando a estes a responsabilidade por resolverem suas divergências. Em outras palavras, isso é anarquismo. Eu, na minha ingenuidade, me pergunto: continuarão os conservadores a adotar tal ideologia quando hordas de excluídas saiam do confino de suas periferias para reivindicar seus direitos legítimos e historicamente renegados a moradia decente, saúde, educação e lazer, lançando mão do tão propalado direito de matar?

A opção pelo “Não” é, vale ressaltar, um contra-senso no que diz respeito à lógica da ordem econômica capitalista. Com a aprovação do “SIM”, a demanda por armas no mercado negro permanecerá inalterada. A oferta, no entanto, diminuirá sensivelmente, o que implica no aumento do preço das armas de fogo nesse mercado. A arma ficaria mais cara, porque mais escassa, dificultando deveras o acesso dos bandidos, sobretudo aqueles de pequenos delitos nos grandes centros urbanos. O aumento do preço no mercado negro, decorrente do efeito da lei de oferta e demanda, tenderá a, no longo prazo, promover a diminuição de armas ilegais em circulação.

Mas, a grande contradição da opção pelo “Não” é mesmo com o bom senso. O “Não” representa que tudo permaneça como está. E, do jeito que está, nosso Brasil não está bem. Se mais pessoas armadas resolvesse o problema da violência urbana, o Brasil seria um paraíso. Não é o caso. A escolha pelo “SIM” representa uma mudança, por menor que seja, na direção de uma sociedade mais pacífica. Trata-se de uma questão lógica: necessariamente, quanto menos armas em circulação, menos seres humanos morrerão em decorrência delas. Mera relação de causa e efeito. Além disso, o “SIM”, apesar da má informação divulgada, não consiste em “proibição” do comércio de armas de fogo, mas sim seu controle mais rígido. Torna-se mais difícil, não impossível, o acesso às armas que matam seres humanos. Ex-policiais e militares, promotores públicos, indivíduos que vivem em áreas isoladas ou rurais são alguns dos setores que continuarão podendo comprar armas.

Finalmente, o apelo da campanha do “Não” ao direito à auto-defesa baseia-se na falsa premissa de que um cidadão armado estaria, por isso, mais seguro. Ao contrário, torna-se mais vulnerável, por expor-se, pondo em risco a si como aos seus próximos. Além de contribuir para que sua arma alimente o fluxo do mercado negro de armas que forma o arsenal da criminalidade.

Num país como o nosso, onde impera uma cultura de violência, nas formas de coronelismo, defesa de honra e revanchismo, acrescido de uma impunidade absurda, e com desigualdade social revoltante, não faz sentido armar a população.

Trata-se, enfim, de decidirmos, no próximo dia 23, que tipo de sociedade queremos legar aos nossos filhos, sobrinhos, netos e bisnetos. De um lado, o do Não, uma sociedade individualista, regida pela mentalidade do “cada um por si”, que está se matando progressivamente, e cuja violência começa cada vez mais a transbordar das periferias pobres em direção aos centros urbanos abastados. De outro lado, o do SIM, uma sociedade que, apesar de todos os problemas, tenta dar um primeiro passo, ainda que incipiente, na direção de uma solução coletiva – para todos –, e não privada – para poucos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

(tomei a liberdade de postar aqui a mensagem de Kollontai que eu já enviei, inclusive, por e-mail)
Diogo,

Eu estive bastante ocupada na semana passada e acabei adiando a vontade de escrever sobre a enquete " O que faz uma mulher manter uma gravidez não-planejada, em relações não estruturadas?" Não sei a quantas anda o debate gerado pela enquete, mas decidi deixar expressa as minhas impressões, de forma resumida, mesmo que esteja um pouco atrasada.

A minha reação ao receber a enquete foi bastante positiva. Considero importante que o debate sobre o aborto esteja acontecendo em meios diferentes dos grupos feministas onde as opiniões são bem mais homogêneas, principalmente num momento de intensificação da jornada brasileira pelo direito ao aborto legal e seguro, desde o dia 28 de setembro, dia de luta pela descriminalização do aborto na América Latina. A enquete me agradou mais ainda quando percebi implicitamente a sua posição de defesa do direito ao aborto legal e seguro – a enquete é, no fim das contas, uma clara provocação às mulheres que decidem "manter uma gravidez não-planejada, em relações não estruturadas".

No entanto, responder a enquete, se tornou uma tarefa difícil, na medida em que não encontrei em nenhuma das respostas os motivos que me passaram pela cabeça quando eu mesma precisei, há alguns anos atrás, pesar os prós e contras de escolher o aborto.

Analisei cada um dos motivos propostos, de acordo com a minha experiência: Os motivos "religião", "vergonha" e "desinformação" passam muito longe de mim e passam longe também da minha família. Assim, estes três motivos e mais "pressão familiar" foram eliminados.

O motivo "amor pelo filho" me pareceu bem superficial, mas se traduzido como "amor pela idéia de ter um filho", pode ser um motivo forte para muitas mulheres, já que, por mais que fosse muito mais legal brincar de pique, sempre temos uma tia que nos deu bonecas no aniversário. Além disso, somos todas muito mais familiarizadas com a gestação, o parto, a amamentação, enfim, com a maternidade, do que com clínicas clandestinas de aborto, legislação vigente, preço, procedimentos, métodos de interrupção de gravidez. Sabemos qual tia fez cesariana, qual fez parto normal, por quanto tempo amamentou, se doeu, se não doeu, mas não sabemos se quer de uma tia que tenha interrompido a gravidez, pelo menos até nos encontrarmos numa situação de apuros e assistirmos a um súbito interesse familiar em desmistificar o assunto.

O motivo "não tem noção da responsabilidade" acabou pesando para os dois lados: Se há noção da responsabilidade que é ter um filho, há também noção da responsabilidade que é fazer um aborto numa sociedade onde esta opção é criminalizada (uma criminalização que isenta os homens de sua responsabilidade), não vamos nos esquecer de mulheres que são denunciadas por hospitais à justiça todos os anos por terem praticado aborto, sem contar com as mini-denuncias entre familiares e amigos mais distantes, que "acidentalmente" ficam sabendo do acontecido. Passava muito pela minha cabeça que ter um filho seria uma experiência que, por mais difícil que fosse, poderia ser compartilhada com todos.

Não me parece, assim, razoável questionar se a mulher tem ou não noção da responsabilidade que é "manter uma gravidez não-planejada, em relações não estruturadas". Aliás, depois de analisar todos os motivos propostos pela enquete, junto com os meus motivos, os motivos de mulheres de classes sociais diferentes da minha e os que poderiam ser motivos comuns a todas nós, a enquete não me parece razoável como um todo, uma vez que colocar em questão os motivos que levam uma mulher a fazer ou não o aborto desrespeita a sua capacidade de decisão autônoma e infringe seus direitos à liberdade, privacidade e bem-estar. É, portanto contrário a um dos principais argumentos em favor do direito ao aborto:

O reconhecimento da competência ética das mulheres para decidir sobre sua sexualidade e reprodução é o princípio dos direitos humanos e da cidadania que substancia os direitos sexuais e reprodutivos.

No intuito de tornar o debate mais produtivo, sugiro, portanto, uma mudança de foco da enquete: Não nos cabe discutir os motivos das mulheres mas sim o porquê de esses motivos não serem respeitados.

Fica a sugestão e um grande abraço!
Kollontai.

Para mais informações sobre o assunto sugiro textos publicados pelo o comitê de jornadas pelo direito ao aborto legal e seguro na página do Centro de Mídia Independente:


A situação do aborto na América Latina e no mundo
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330930.shtml

A legislação do aborto no Brasil: passado e presente
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330928.shtml

Apresentação: o presente da luta pela discriminalização do aborto
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330932.shtml

Anencefalia
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330931.shtml

Argumentos em favor do direito ao aborto
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330933.shtml

Dúvidas mais comuns
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330934.shtml

Fontes para consulta sobre a descriminalização do aborto
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/09/330937.shtml

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

CALA A BOCA, GALVÃO!

Chega a ser patética a campanha que Galvão, Parreira e outros brasileiros fazem quando o assunto é altitude. Há anos o Brasil vai à Bolívia ou Equador, não consegue ganhar e volta com o velho discurso de que foi culpa da altitude.

Agora, a turma quer proibir Equador e Bolívia de mandarem seus jogos em nível muito acima do mar. Ao ser questionado sobre a interferência da altitude no resultado de 1 x 1 contra a Bolívia, Parreira se exaltou: “Não preciso nem explicar isso. Só vou dizer que o Equador, quando jogou em casa, com a altitude a seu favor, ganhou tudo. Fora, perdeu quase todas”. Mas, e aí?!

O grande ícone do comentarismo esportivo brasileiro Galvão Bueno defendia ao longo dos 90 minutos de jogo que a COMENBOL impedisse esses países de atuar na altitude. Sem qualquer argumento; só porque nela o Brasil não encanta.

Que palhaçada! Russos, finlandeses, islandeses, noruegueses, etc, nunca poderão, então, mandar seus jogos em casa porque outros países não estão habituados à neve, ou a temperaturas abaixo de zero? Qual a vantagem de mandar seus jogos em casa, então?

Vamos parar de choramingar e jogar bola. E aprender a adaptar o jogo de acordo com o ambiente em que se está jogando. Afinal, em 1997 o Brasil ganhou a Copa América na altitude de La Paz. Então, chega de hipocrisia de mau-perdedor.

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

economics, warfare, and the forging of the modern war state

In the light of the following quotations, comment on the relations between economics, warfare, and the forging of the modern war state.

"What a country calls its vital economic interests are not the things which enable its citizens to live, but the things which enable it to make war."



It is a commonplace to say that wars are necessarily, and always, economically motivated. The notion that wars are fought only to fulfill a country's material needs is widely accepted and generally goes undisputed.

As we take a look back on history, one easily realizes that matters are more complicated than that. In general, a war breaks out as a consequence of not one, but several aspects of human relations. The emergence of the modern nation-state well illustrates this point.

Nation-building processes were only possible in the XIX century thanks to the development of the capitalistic economy, which brought about a new social class -- the bourgeoisie -- with new interests. THe aspiration for political autonomy was the consequence of the appearence of a different economic order.

That's true. But it is also true -- and it would be intellectually naïf to deny it, and scientifically incorrect -- that other factos played an important role in nation-building. THe bourgeoisie sought political independence from large empires for their own ethnic community.

In previously more politically organized territories, such as Bismarck's Prussia, cultural mogoneinety was a fact and was not at stake; here, political issues, social cleavages within Prussia itself, were a more determining factor.

Political actors, whether they are a king or an elected official, must act rationally. That means they need to gain and keep legitimacy in order to maintain a grip on power. This basic political rule, which is backed by historic facts, leads us to realize that rulers will make use of force outside their borders, to achieve the goals (be they political or economic) of the government, but only as long as this action does not put at risk the state's ultimate goal -- it's own existence.

Leaders like Hitler, who take their country to political suicide, are exceptions that confirm the rule. Had Hitler acted in a rational manner and pondered the consequences of his decision to attakc Germany's eastern neighbor Russia, he would not have done it at all.

When a ruler opts to start a war, he takes into consideration not only economic factors, but social and political ones as well. To reduce war-making as a mere tool to achieve economic goal is to oversimplify something which is anything but simple.



Comentário do professor-
Very interesting, but what about Weil's quotation?
Luta social e luta nacional

por: Bernardo Jurema


Desde a emergência do moderno Estado-nação e da consolidação da economia de mercado, a partir de fins do século XVII, tanto lutas sociais (de classes) como nacionais têm-se tornado recorrentes. O antagonismo entre as novas classes sociais provocam conflitos do primeiro tipo. Enquanto o estabelecimento do Estado como defensor dos interesses de sistema econômico territorialmente integrado, do segundo.

A interligação entre os dois conflitos não é apenas de ordem histórica. O Estado surgiu como forma de organização política do poder para atender aos interesses econômicos da burguesia, o que equivale dizer que lutas nacionais são, também, em certa medida, lutas sociais.

O caso da Bolívia contemporânea ilustra bem a questão. De um lado, tem-se a luta nacional contra o domínio estrangeiro dos recursos naturais. Grandes conglomerados de multinacionais européias, americanas e, inclusive, brasileira (Petrobrás) dominam todo o processo de extração e exportação dos hidrocarbonetos bolivianos, deixando apenas uma parcela da renda no país, na forma de royalties e impostos. Há, ademais, a luta contra a intervenção alienígena em políticas públicas domésticas. O consumo e o uso tradicionais seculares da folha de coca, por parte dos povos andinos, são confrontados pela política antidrogas intervencionista e repressora americana, sem qualquer consideração com relação a particularidades culturais locais.

De outro lado, existe um conflito social patente no seio da sociedade boliviana. A maioria indígena tem sido, desde a invasão espanhola, historicamente marginalizada dos processos político, econômico e social. Este grupo, demograficamente majoritário, mas concentrado no norte do país, reivindica nova constituição que os leve em consideração no jogo político-decisório. A minoria, de origem européia, detentora do poder político e econômico, está concentrada no sudeste, onde se encontra boa parte do gás natural e do petróleo, assim como o agrinegócio exportador.

Não é difícil, neste caso, detectar as coincidências entre conflitos sociais e nacionais. A elite nacional, intrinsecamente ligada aos interesses econômicos exógenos, bate-se pela manutenção do status quo.

Tal fenômeno tende a processar-se por todo o mundo em desenvolvimento, vítima do imperialismo econômico dos países ricos do Norte. Encontramos situação análoga à da Bolívia no Brasil, ainda que de forma menos evidente. A luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) contra o grande latifúndio tem carátes de luta social. Latente, porém, está, neste mesmo conflito, a luta nacional. O MST advoga pela agricultura familiar e orgânica voltada para o mercado interno, em detrimento da cultura transgênica da grande propriedade exportadora. A luta entre possuidores e despossuídos de terra mescla-se, desse modo, à luta pela soberania nacional científica e econômica.

Identificar essas conexões entre conflitos sociais e nacionais é imprescindível para que sejamos capazes de melhor interpretar os discursos dos atores sociais envolvidos. Principalmente quando estes recorrem à retórica nacionalista para legitimar e defender interesses particulares. Muitas vezes, a dissimulação do conflito de classes visa, justamente, a defender interesses de classe. Com freqüência, a História mostra-nos que a busca do interesse coletivo (luta nacional) passa pela transformação da relação de poder na sociedade (luta social).
Dúvidas

Por: Bernardo Jurema

Por que as campanhas publicitárias das cervejarias são, sempre, voltadas para o público masculino? Acham as empresas que mulher não bebe ou não escolhe cerveja? Será a sociedade brasileira tão imbecil e machista quanto supõem estes publicitários? Estes publiciotários estudaram quatro anos numa faculdade para isso??? Como seria uma campanha voltada para as mulheres? Ou para os consumidores não babacas?

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Viva o Futebol!

É uma pena testemunharmos essa rede de corrupção montada com alguns árbitros do futebol brasileiro. Logo num momento feliz para o campeonato, em seu terceiro ano de pontos corridos, uma fórmula que mostra-se interessante comercialmente e competitivamente: temos 5 times brigando pelo título, outros 5 ou 6 brigando para não cair e, no meio, outros tantos brigando por uma vaga na sul-americana.

Ano passado, já no segundo ano de pontos-corridos, a venda do campeonato brasileiro aumentos em 133% com relação ao ano anterior. Isso é credibilidade. Pela primeira vez depois de mais de 30 anos, o torneio repetia uma fórmula de disputa. Estabilidade essencial para investidores. A tendência para 2006 seria um campeonato ainda melhor em termos de competição e lucro, pois estaríamos reduzidos a 20 times nas séries A e B e, no caso da série A, entrando para seu quarto ano consecutivo de disputa em pontos-corridos, premiando aquele time com visão de longo-prazo.

Infelizmente, entretanto, alguns árbitros, corrompidos por alguns empresários, melaram uma imagem que vinha se recuperando. Fizeram uso de seus cargos de juízes e manipularam os resultados de alguns jogos. Se não manipularam, pelo menos tentaram. A solução? Bom, estão falando muito em jogar todas as partidas que o tal do Edílson Carvalho apitou. Falam, também, em deixar o que passou e apenas ressarcir financeiramente os clubes injustiçados... Vai ser importante não deixar isso parar na justiça comum, podendo inchar, assim, nosso campeonato de 2006.

Minha opinião: deveriam assistir aos jogos apitados pelos árbitros suspeitos. Ao assistí-los, já saberíamos para quem o árbitro tentou tendenciar aquele jogo. Como base nisso, analisar se houve de fato interferência. Por exemplo: num jogo Figueirense 4 X 1 Vasco, o árbitro deveria favorecer o time carioca, mas não adiantou; o futebol prevaleceu. Se não houve influência no resultado, para que cancelá-lo? Aqueles jogos cujos resultados tenham sido comprovadamente fraudados, devem ter seus resultados cancelados e jogados novamente. Não pára por aí. Os árbitros brasileiros são defasados; eles são ruins e mal-pagos. É preciso fazer uma reforma nesse sistema; acabar com os caciques do apito. Eles devem ser avaliados a cada temporada e, dependendo de seu desempenho num ano, o ano seguinte poderia ser frio para ele, numa geladeira. Quem sabe, até, definitivamente afastado... A remuneração poderia mudar, mas antes, a qualidade deve ser trabalhada de modo que mereçam uma revisão salarial. E as atividades extra-futebol dos juízes devem ser monitoradas para sabermos se estão envolvidos com algo que coloque em cheque sua função de árbitro.

Em toda essa confusão, não podemos esquecer os torcedores que pagaram para ver uma partida fraudada. Na minha visão, há duas alternativas: primeiro, quem apresentar o ingresso da partida que assistiu teria acesso ao estádio; a segunda alternativa é abrir os portões... partida de graça.

O bom disso tudo é que, no final, sairemos melhor. Podemos ter um Campeonato mais forte, mais confiável, sem ignorar os torcedores. São com erros e canalhas que aprendemos. E viva o futebol!

terça-feira, 27 de setembro de 2005

PODER

O Poder Rompe?
Corrompe.
O Poder é Afro?
Disíaco.
Corrompe?
Afrodisíaco?
E Agora?
Agora?
Agora, não.
Sempre.
Fudeu.
SHARON, O GRANDE.
Gente que muda não é por fraqueza ou ignorância. Pelo contrário. Quem muda como resultado de um processo reflexivo tem uma grande virtude: de estar sempre crescendo, absorvendo novos valores, novos costumes e assimilando novas idéias.

É com isso em mente que dou os parabéns ao Premiê israelense Ariel Sharon. Ele foi grande o bastante para ir de encontro às idéias conflituosas de alguns de seus aliados e dar passos significativos em direção a uma conciliação com a Palestina. Melhor ainda foi ele ter ganho, embora apertado, de seu agora rival Benjamin.

Quem diria que Sharon daria esse passo? Ele dá um grande exemplo de mudança; de alguém que não se prende ao passado, a idéias antigas e pouco consensuais. De alguém que assume a responsabilidade de chefe de estado que lhe foi conferida. Ele, na metade final de sua vida, dá outra cor a sua biografia. Ele é um homem que não tem medo de corrigir seus erros do passado.

Israel sofre, mas eles sabem, ou pelo menos deveriam saber que, no fundo, os palestinos têm direito à terra que eles, em 1967, usurparam. Agora, o povo palestino não pode se deixar influenciar pela idéia que tal conquista é resultado da luta armada do Hamas porque, na minha opinião, apenas justificará a continuação dessa cultura terrorista fanática que existe por lá.

É bom ver esse tipo de comportamento acontecendo numa região marcada por divergências e conflitos de interesse.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Ai, ai...

É triste essa esquerda brasileira.


Para presidir a Câmara após a desastrosa passagem de Severino vemos o seguinte acontecendo com os partidos ditos de esquerda:


PPS – Roberto Freire, que ainda se diz um cara de esquerda, e seu partido fecharam apoio ao candidato do PFL, Nonô;
PV – O partido de Gabeira, combatente de Severino, também decide apoiar Nonô para presidente da Câmara;
PDT – Cristóvam Buarque, recém-filiado ao partido, vai ter que engolir seu discurso de mudanças e ver seus novos companheiros apoiarem a candidatura de Nonô;

Porque esses partidos não aproveitam o momento para transformar a Casa num exemplo, respeitando a bancada com a maioria e elegendo um nome que seja desvinculado à elite parlamentar? O PT abriu mão da candidatura. Ta certo que Aldo tem muita identidade com o governo... mas ninguém colocou nenhum nome que representasse alguma mudança:


Temer é macaco-véio do Congresso;
Ciro é o filho-adotivo de Severino;
Aldo foi articulador político do governo;
Nonô já tem história no Congresso e é um oposicionista. Não vai ajudar em nada;
Os restantes, não valem a pena nem falar.

Na minha opinião, o nome deveria sair do PSB. Ou, pelo menos, deveria representar algum tipo de mudança... seja de grupos políticos, de pessoas, enfim...

domingo, 25 de setembro de 2005

O Ganho de Cada Um

Bernardo Jurema

A teoria econômica revela um aspecto, digamos, curioso de certas ideologias mais ortodoxas... Ora, o "excedente do consumidor", que é o "ganho" do consumidor ao comprar um determinado bem, é valor suposto, subjetivo; é a diferença entre o quanto ele está "disposto" a despensar para obter o bem e quanto ele de fato desembolsa. Este resultado é o seu ganho. O ganho do produtor/vendedor, por outro lado, é bem real; trata-se da diferença entre o preço pelo qual ele vende o produto e o valor quanto custou fazê-lo. Soma-se ambos os ganhos, o "subjetivo" e o concreto, e temos o "excedente total", que é, de acordo com a teoria econômica, o ganho de toda a sociedade. Não é tão conveniente isso, hein?

Two cheers for democracy

Discuss the following statement in the light of the American government´s efforts to get countries to adopt democracy.

"Two cheers for democracy: one because it admits variety, and two because it permits criticism." (E. M. Forster)



Liberal democracy is an imperfect political regime exactly because it genuinely reflects human imperfection. Different countries have different kinds of democracy because historic and cultural aspects will lead to particular democratic systems.

There is little doubt that democracy is the best way for a society to organize itself politically. The problem with President Bush's policy of imposing democracy in the Middle East is not due to anti-democratic feelings. Rather, it is due to the fact that Bush's approach undermines the historic and cultural basis from which democracy can organically stem.

Democracy is an on-going process in which groups struggle for political power in order to defend their own interests and world-view. Democracy institutionalizes conflict. These politically organized groups are the parties which, in order to bear ligitimacy, must establish roots in society. Hence, democracy can only be legitimate and organical if there is an organized civil society, willing to respect democratic rules and institutions.

The reason many people are skeptical about the US policy of "regime change" is in part the fact that imposition is not the natural outcome of the historic process.

Countries like Chile, South Korea, Russia and Brazil have passed from autocratic regimes to democratic ones. In all of these cases, these were processes from whithin. Each took different time-frames, and led to particular forms of democracy. Today they vary in degree of democratic openness, but they all claim to have a democratic system.

There is no reason to believe that something similar could not take place in the Middle East. Perhaps a better approach would be to reinforce Western ties with the civil society in the region, for example by means of cultural and academic exchange programs between its citizens. This could have much better and lasting results, in the long run, than the use of violence which, so far, has only provoked more violence.

Iraq's neighbor, Iran, may be a role model of a gradual, organic and legitimate regime change. Nowadays, the sole threat to continuing political openness is Western meddling in Iran's domestic affairs (that has been, by the way, the same source of legitimacy that has kept alive thus far the backward Castro regime).

To understand the basis of democratic regimes - the strength of civil society - is the key to finding creative, peaceful and productive ways to lead other nations through the democratic path. It's perhaps too late for Iraq, but elsewhere, as in Lebanon, signs are promising.


(Bernardo Jurema)