sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Debatendo a Imprensa brasileira

A imprensa brasileira é ruim, mas estaríamos muito pior sem ela. Parece necessário, num país com um passado como o do nosso, deixar claro este ponto antes de adentrar-se numa discussão a seu respeito. Dito isto, vamos adiante.


A imprensa brasileira, inserida numa cultura paternalista e autoritária, tem um viés corporativista e auto-indulgente. Debatê-la, ainda mais em face de seu comportamento recente, faz-se mister.


Os meios de comunicação, impressos ou eletrônicos, exercem papel essencial ao servir de canal – mediatizar, portanto – entre governantes e governados, assim como entre governados e governados. Não existe, previsto constitucionalmente, remédios para seus potenciais excessos, ao contrário do que ocorre em relação às instituições republicanas, que se limitam umas às outras. Em sociedades capitalistas desenvolvidas, a oferta de informação é balanceada e variada – de que, talvez, a Inglaterra seja o melhor exemplo. Um sistema judiciário eficiente, que atenda satisfatoriamente a população, garante que exageros por parte da mídia sejam coibidos ou, ao menos, passíveis de contestação. Ademais, uma legislação que regule a concentração dos meios de informação – como os que existem nos Estados Unidos e na Europa – torna todo o processo de divulgação de informação, senão idealmente, com certeza razoavelmente diversificado.


No entanto, num país como o Brasil, com suas profundas desigualdades de toda ordem, sobretudo econômicas, mas também culturais (no sentido daquele conjunto de informações socialmente valorizadas), os meios de comunicação tendem a pertencer a um minúsculo grupo social, e a dirigir-se àqueles poucos segmentos da sociedade que os consomem. Ou seja, são uns pouquinhos falando para uns poucos. Para piorar o cenário, esses poucos com acesso à informação são desprovidos de senso crítico.


Diante desse quadro, preocupante, a imprensa apresenta algumas falhas que agravam ainda mais o contexto. Eu destacaria três.

  1. A pauta da grande imprensa “nacional” é provinciana em sua cobertura. Não temos uma imprensa de fato nacional. Não sabemos o que ocorre na periferia da centralidade Rio-São Paulo. Por outro lado, questões estritamente estaduais, ou, quando muito, regionais, tomam proporções nacionais.

  2. A cobertura política (mas não apenas ela, frise-se) é superficial, limitada. Prevalece a cobertura “política”, para usar a distanção feita por R. Aron, no sentido de “politics”, ou seja, a esfera em que se dá a disputa entre os diferentes grupos que concorrem pelo exercício do poder. Tal cobertura se dá em detrimento de uma abordagem mais analítica da “política” no sentido de “policies”, ou seja, o conjunto de ações programáticas que estão em disputa, por meio dos partidos, sindicatos, associações, no âmbito da “politics”. A cobertura perde em densidade e reduz o sentido de política, desacreditando-a perante a sociedade.

  3. Finalmente, e não menos importante, a grande imprensa corporativa tem a sua agenda política própria, que reflete tanto os interesses econômicos, como a visão de mundo, dos seus donos e/ou principais patrocinadores. Um exemplo bem esclarecedor foi apontado por Luis Nassif, em seu excelente blog, ao comentar a insistente pressão dos principais meios pela “reforma da previdência”. Ou, mais recentemente, a discussão em torno do pedágio das rodovias. Típicos casos em que a “notícia” se submete à lógica da ideologia/interesses dos patrões.

Esses três pontos acima representados são questões que apenas as próprias empresas jornalíticas podem resolver. Já aqules três anteriormente apontados dizem respeito a medidas que a sociedade pode tomar no sentido de tornar o acesso à informação mais democrático e mais plural, refletindo de maneira mais aproximada a imensa diversidade social, cultural e política do país.

Um comentário:

Jorge disse...

a grande questão em discutir a imprensa é que ela nÃO se deixa, nem quer ser discutida. Se vc pede que simplesmente ela assuma que representa - antes de tudo - um interesse privado, e que este fato [pode] diz muito a respeito de certas abordagens, o crítico é logo taxado de esquerdista/anti-capitalista. Se o Estado procura alguma forma de regulamentaçao e democratizacao, é acusado de autoritário e de querer financiar [manipular] a opiniao publica. Se tem alguém que age de maneira autoritária é a própria imprensa.