domingo, 10 de fevereiro de 2008

O PT e a esquerda moderna mundial



O Partido dos Trabalhadores é o maior partido de esquerda da América Latina porque fez governos locais populares, democráticos, criativos – exitosos, em suma. E porque soube adaptar-se através do tempo, reconhecendo a economia de mercado e procurando mitigar seus efeitos sociais "colaterais", bem como fazer a transição de partido de oposição para governista. Ao invés de estancar, evoluiu e incorporou as mudanças por que passou o mundo nas últimas duas décadas. Espontaneamente, traçou o caminho da social-democracia européia. Seguiu, assim, os passos da esquerda moderna do mundo inteiro (sendo modelo inclusive nas democracias desenvolvidas, veja aqui).


O Partido Socialista Espanhol (PSOE) de González que reformou a economia nos anos 1980 – lançando as bases para o atual estágio econômico do país – é o mesmo PSOE de Zapatero que, nos anos 2000, faz as reformas sociais.


O new Labour de Blair, ao renovar sua visão de mundo, aceitando a economia de mercado, ascendeu ao poder depois de décadas de ostracismo, e promoveu importantes avanços na saúde e educação pública da Inglaterra. Corrigiu, assim, o liberalismo econômico exacerbado do tchaterismo - não sem antes tê-lo aceito.


O Partido Trabalhista australiano tirou o premiê incubente – feito inédito desde 1929! - depois de 11 anos de domínio conservador, saindo, assim, do ostracismo, graças não só às promessas progressistas (retirada das tropas do Iraque, adesão ao Protocolo de Quioto), mas também à visão moderna e “market-friendly” de seu líder, o novo premiê Kevin Rudd.


Onde a esquerda engessou-se, não se renovou, tornou-se retrógrada, ela encontra-se à margem – como na França – ou no extremo – como na Venezuela. É um índice de maturidade política do nosso povo o fato de que uma e outra esquerda – a retrógrada e a radical – estarem restritas a pequenos setores residuais. Não significa, frise-se, que o partido de esquerda moderna se deixe ser cooptado. Não se trata disso, mas sim de reconhcer uma dada realidade – e prevalência da economia de mercado – e fazer melhor do que a direita. O Bolsa-família, como destacado em recente matéria na Economist (veja aqui), é claro exemplo desse avanço. A esquerda moderna aperfeiçoa o capitalismo. Onde ela não o faz, a direita termina por se tornar a força progressista, como é o caso de Sarkozy na França.


À medida que saiu do gueto, movimentando-se em direção ao centro do espectro político, o PT foi paulatinamente deixando de ser um partido de setores organizados específicos, corporativo, para transformar-se num partido de massas. Foi desse contato com o eleitorado que, inconscientemente quiçá, o partido moderou-se, tornou-se social-democrata. Isso porque, ao seguir a vontade do eleitorado – ao mesmo tempo em que o influenciava, incluindo temas novos na agenda política nacional -, cuja índole é essencialmente moderada, avessa a extremismos e conflitos, mais tendente à acomodação dos interesses, o partido moldou-se adequadamente. Foram vinte anos de aprendizado que levaram-no a chegar ao poder maduro, evitando os erros da esquerda fossilizada (Jospin na França) ou radical (Chávez na Venezuela). Essa é a beleza do regime democrático: o seu poder moderador.

10 comentários:

Eduardo Amorim disse...

Dessa vez prometo uma resposta bem elaborada. Por enquanto vou apenas lembrar alguns pontos das nossas discordâncias, mas quando tiver tempo respondo no meu blog.

O Brasil está em um estágio de desenvolvimento muito atrasado em relação aos países europeus, que você cita. As necessidades são outras. O PT não enfrentou algumas das pequenas revoluções que nos acostumamos a defender na antiga Esquerda Brasileira: Reforma Agrária, auditoria da dívida externa, reforma da máquina pública. Mesmo temas que são caros na vanguarda européia como a diminuição da carga horária dos trabalhadores, imposição dos tempos modernos de máquinas que trabalham por dezenas de homens, nunca foram colocados em pauta pelo Governo Federal.

Em compensação, avançou em alguns temas como a Educação Superior, a passos lentos volta a contratar professores universitários (que bom para meus amigos doutores!). Mas manteve, e isso para mim é o que me impossibilita de acreditar no PT como Partido de Esquerda, a mesma estrutura de financiamento de campanhas pelo grande capital financeiro e cooptação das bancadas no Congresso Nacional através de emendas liberadas para empreiteiras parceiras dos parlamentares. Os juros têm sua razão de ser? Nunca teremos a real certeza, pois quem os impõe hoje são os banqueiros. Os R$500 milhões desviados por Carlos Wilson na Infraero (atestados por órgãos governamentais), uma mera estatal, falam sozinhos pelo que as empreiteiras mandam neste nosso País tão carente.

Isso, para mim, parece a política que meu pai me ensinou a enxergar em 1985: Sarney ou Maluf? "Os dois são merda e me nego a dizer qual fede mais". Tem um belo texto na Folha de S. Paulo sobre as semelhanças de PSDB e PT. Sem dúvidas, dois dos três melhores partidos do Brasil.

Eduardo Amorim disse...

Gostei da rosinha do Partido Socialista francês...

Anônimo disse...

E Lula falou da redução da carga horária. Só que prometeu que não manda projeto para o Congresso.

Dado

www.horoscopo.blogspot.com

Álvaro disse...

O PS, da França, pode ser considerado como uma esquerda "engessada" no campo de visao internacional, mas dentro da política francesa, o PS está sendo ignorado pela esquerda "à la 68" por causa de uma evoluçao de suas políticas (seria mais centro do que esquerda). Mas nesse momento, como tu deves saber, existem muitas brigas e discussoes dentro do partido, sobretudo entre os "elefantes" (Jospin, Strauss Khan..) e Me. Royal... é considerado um partido "em renovaçao"

Saudaçoes de Bolívia (onde se discute muita política também...)

Eduardo Amorim disse...

Meu ponto com Bernardo é justamente esse. Considero PSDB e PT partidos de Centro. Como os Democratas e Republicanos americanos.

Álvaro disse...

Talvez esta esquerda moderna possa ser chamada de centro?

Eduardo Amorim disse...

Ou talvez Esquerda seja outra coisa.

eumesmo disse...

"a beleza do regime democrático é o poder moderador"...??
o que é isso? campanha antecipada do paulo markun pra presidente??
ou uma sugestão de volta à constituição de 1824?

Bernardo Jurema disse...

Auditoria da dívida externa – principalmente quando ela já se encontra praticamente paga, sobretudo aquela de pior qualidade – e diminuição da carga horária são bandeiras, justamente, da esquerda antiga, fossilizada. As esquerdas modernas, como a inglesa ou a dinamarquesa ou a espanhola, são aquelas justamente que aceitam a flexibilidade. Lá onde insistem numa visão do mundo do trabalho do tempo das máquinas, e não da era da informação, é onde a esquerda vai se ostracilizando – como na França e na Alemanha. A reforma da máquina pública, por aqui, sofre resistência exatamente da velha esquerda, representada no Psol (aliás, a dissidência que levou à sua criação foi a votação da... Reforma da Previdência!). Já a Reforma Agrária, o PT não abandonou a bandeira. Apenas trata-se de tema para o qual a correlação de forças na sociedade não se encontra favorável. Os ruralistas têm talvez a mais forte e atuante bancada no Congresso Nacional...

Na verdade, o governo Lula é mais progressista precisamente naqueles setores onde o PT detém o poder – as políticas social, cultural, setoriais (da mulher, do negro...), ambiental, externa, educacional, da justiça...

Dizer que o PT não seria de esquerda por acusações de roubo é uma visão estranha, que eu não entendo, do que é ser esquerdista. Acho que se trata de uma confusão entre senso ético e visão de mundo. Tem muito direitista honesta e muito esquerdista escroto, oras! Agora, o que distingue o governo do PT é que houve, de fato, um aumento inequívoco da transparência (como testemunham o caso dos cartões de crédito e a autonomia do Procurador-Geral da República, por exemplo).

O questionamento do Juros, como se fosse algo necessariamente escuso, é uma visão ideologicamente enviesada. O fato é que existem argumentos técnicos para que a taxa esteja nesse nível alto, embora numa linha decrescente. E os dados macro-econômicos e a relativa imunidade brasileira à crise internacional de algum modo atestam o êxito da política monetária. A qual, aliás, é uma das áreas que nunca esteve sob os auspícios do PT...

O PT e o PSDB são muito diferentes é aspectos essenciais. Trata-se de uma narrativa possível a suposta semelhança entre os dois, embora eu ainda esteja para ser convencido. Para começar, a composição sociológica dos dois não poderia ser mais diferentes. A origem, tampouco. A organização partidária, nem se fala. A abertura aos movimentos sociais, evidenciada em várias áreas do governo federal, é outro sinal distintivo...

Enfim, a visão de certos setores da esquerda brasileira ainda não entenderam as mudanças por que vem passando o mundo nos últimos 20 anos e ficam presos a expectativas e visões há tempos ultrapassadas...

Jorge disse...

Berna,

Essa leitura atravessada e distanciada leva boa parte das pessoas, como as acima a considerar PT e PSDB partidos iguais e de centro. As diferenças são enormes e a própria atitude da mídia majoritária sempre tendeciosoa contra o atual governo, o tal "dois pesos duas medidas", vide o mais recente caso dos cartoões onde o governo federal era lichando esquecendo-se de na SP do "presidente" Serra os gastos eram o dobro [lembre-se, embora presidente eleito, ele ainda governa um Estado]
Acho q vc deveria transformar esse seu comentário final em post, está muito bom.