quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O peso da História



Ainda que a História não seja determinante para o desenvolvimento de um país, é evidente que seja uma condicionante no que concerne ao ritmo e à forma como esse processo se dará.


Some-se aos 500 anos de nossa história os cerca de 300 anos prévios de tradição do Estado patrimonialista português. É desse contexto histórico, com toda a sua carga, suas dinâmicas sociais, forças societais heterogêneas e contraditórias, essa profunda herança sócio-cultural, interesses materiais (econômicos) bem arraigados – em suma, de todo esse peso – que o Brasil tem que se desvencilhar para levar a cabo seu processo desenvolvimento econômico, político e social.


Todo esse processo de avanço, vale salientar sempre, sob um regime democrático em construção – no qual todas as vozas, e setores se articulam, se mobilizam, se manifestam. Nossa “glasnost” ocorre ao mesmo tempo que a nossa “perestroika” – e de forma mais exitosa do que lá onde esses conceitos surgiram. Inconscientemente, intuitivamente o povo brasileiro vai construindo algo, calcado na sua herança social e cultural, embasado na sua originalidade mestiça que Gilberto Freyre tão bem detectou e explicou.


É, portanto, natural que transformações levem tempo. Não se darão, para que sejam duradouras e consistentes, de forma imediata nem voluntarista. História é processo. Nem tampouco serão percebidas por seus contemporâneos, dada a tendência que nós temos de olhar o presente sob o prisma do passado.


É fundamental, no entanto, nos darmos conta, nós enquanto sociedade, das mudanças por que o país vem passando nos últimos 25 anos, num contínuo processo de modernização de suas instituições políticas e econômicas e da progressiva e crescente inclusão social. Nós não temos os graves e dilacerantes conflitos étnicos ou religiosos que assolam outras plagas. Temos um foço social perverso, mas que está cedendo lugar a outra, inédita realidade. Devemos reconhecer nossos méritos para percebermos o nosso potencial coletivo – é constatando o caminho que percorremos que podemos vislumbrar o quanto ainda temos condições de seguir adiante.


Nosso país nasceu sob o divórcio entre Estado (poder político) e Nação (povo), como observou R. Faoro. Essa aproximação, desde sempre urgente e desde sempre postergada, vem ocorrendo agora, nessa geração. A Ditadura Militar interrompeu abruptamente esse processo em seu nascedouro com o Golpe de 1964, retardando em uma geração, pelo menos, o princípio de processo dessa reunião entre Estado e Nação. Todos os países hoje desenvolvidos levaram muito tempo para atingir os atuais níveis – alguns até séculos (Ha-Joon Chang escreveu sobre isso). Cada sociedade tem sua dinâmica específica, fruto de sua singularidade histórica. É necessário ter paciência e perspectiva histórica, ajustando nossas expectativas a essas condicionantes. Respeitando, compreendendo nosso ritmo, podemos antecipar um futuro promissor. Claro, o amanhã dependerá das ações que tomarmos hoje. Por enquanto, estamos no bom sentido.

Um comentário:

Sergio Rubin-de-Celis disse...

Alfabetização para a organização do povo
O povo foi sempre o grande ausente da história brasileira. No lugar das guerras de independência – que em outros países do continente expulsaram os exércitos dos colonizadores, chamando ao período colonial pelo que realmente foi - uma invasão exploradora -, tivemos um pacto de elite, entre pai e filho, em que o poder era passado de uma cabeça a outra como se fosse independência, “antes que algum aventureiro o faça”, em que aventureiro seria algum representante do povo, como tinha sido Tiradentes. As principais vítimas desse primeiro pacto de elites: a república, porque passamos de colônia à monarquia, e os escravos, que tiveram seu martírio prolongado por várias décadas mais.

No lugar do fim da abolição pelas lutas populares, ela foi consagrada na historiografia oficial como uma dádiva da “bondosa” princesa Isabel, depois que o pacto de elites da independência tinha adiado por décadas o fim da escravidão, fazendo do Brasil o último país do continente a terminar com ela e permitindo que nesse intervalo de tempo os latifundiários tivessem podido legalizar a posse da terra e fazer com que os ex-escravos fossem condenados à pobreza, identificando negro com pobre. A questão da escravidão se desobrava na questão da terra monopolizada pelos latifúndios, com todas suas conseqüências até hoje presentes no Brasil.

A independência, finalmente decretada no final do século XIX, viu o povo assistir “bestificado” a um desfile militar que não instaurou a república, mas um sistema oligárquico referendado pelo voto de cabresto dos coronéis. A própria Revolução de 30 – o movimento político de conseqüências mais transcendentes, até aqui, para a história do país – foi feita com o lema “Façamos a revolução, antes que o povo a faça”.

Mais recentemente, o fim da ditadura militar desembocou em um acordo entre partidos da oposição liberal e um oriundo do velho regime, terminando com o ex-presidente do partido da ditadura, José Sarney, eleito, não pelo voto popular, mas por um Colégio Eleitoral com representantes binicos nomeados pelo regime militar, como o primeiro presidente civil em mais de 20 anos. O regime instalado sem participação popular – o povo foi derrotado porque a campanha por eleições diretas não obteve os 2/3 necessários no Congresso, abrindo campo para mais esse pacto de elite.

No Brasil de hoje, o povo responde pelo apoio a Lula, diante das reiteradas ofensivas da direita. Um povo contemplado pela combinação das mais amplas políticas de assistência social, de micro-crédito, de eletrificação rural, de elevação do salário mínimo, de controle dos preços dos produtos básicos. No entanto, não é um povo organizado, em condições de defender essas conquistas e de expressar sua força no campo político.

A organização dessas imensas massas populares, que hoje estão fora dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais é a tarefa essencial do presente. Da capacidade desses setores de transformar sua força social em força política e ideológica depende o futuro da esquerda e do próprio país.

O melhor instrumento para isso é uma campanha nacional maciça de erradicação do analfabetismo em três anos, levado a cabo pelos movimentos sociais, pelos partidos de esquerda, por organizações sociais e culturais, por instâncias do governo. Contamos com o melhor método de alfabetização – o método Paulo Freire -, com uma militância jovem – especialmente do movimento estudantil – e com necessidades elementares de terminar com o analfabetismo no Brasil.

Este é um grande desafio que pode colocar as forças populares à altura dos desafios do presente, rompendo a passividade a que a luta política de cúpula condena a militância de base e a grande massa da população, incluindo a beneficiada pelas políticas governamentais. Conseguiríamos um avanço fundamental na luta pela elevação do nível educativo, cultural e de consciência da população pobre do país e ajudarimos na criação de organizações de base da grande maioria do povo brasileiro.