domingo, 19 de fevereiro de 2006

Trabalho duro e sorte - ou, cinema e a vida

Engraçado como a experiência de ver um filme pode mudar consoante o momento de nossas vidas em que o vemos, o que pode nos levar a gostar mais ou menos do filme, ou a dar mais ênfase a algum aspecto em detrimento de outros. Tudo por conta das circunstâncias específicas em que estejamos vivendo. Somos condicionados pelo nosso contexto, como diria um certo sociólogo (que não sou eu).

Uma semana antes das provas das primeira e segunda fases do concurso, assisti o documentário "What the bleep are we?" (www.whatthebleep.com). Resumindo (e muito), o filme mostra como no passado paradigmas tidos como a verdade absoluta pela humanidade foram provados falsos pela ampliação do conhecimento científico (o mundo é plano, o Sol gira em torno da Terra...). Baseando-se em física quântica, o filme propõe reflexão sobre novos parâmetros para a realidade. A mensagem final é que nós somos co-autores do mundo, que não existe independentemente de nós. Nós somos capazes de fazer o nosso futuro, e a realidade é aquilo que nós escolhemos que ela seja. Claro, tudo isso fundamentado cientificamente.

Gostei muito do filme. Por um lado, porque é bom, informativo, inusitado. Feito de forma didática, não é restrito aos iniciados. É provocante, faz pensar em vários assuntos. Por outro lado, acho que gostei mais pelo momento em que vivo. Estava a uma semana das provas. Fazer concurso não é uma experiência divertida (não recomendo a ninguém... principalmente se for concorrer comigo! Até nossas piadas giram em torno disso, horrível.) Ao contrário, emocionalmente é complicado. Esse filme foi inspirador. Em outras circunstâncias, porém, teria ele me tocado tanto?

No dia antes das provas (na sexta-feira), assisti "Match Point", o novo de Woody Allen. Filmaço. Não tem nada a ver com o Allen a que estamos habituado - exceto pela certeza de que se vai ver um bom filme, característica que permanece. Trata-se de um thriller psicológico, passado em Londres. S. Johanson consagra-se como a atriz mais gostosa da atualidade. E, já que N. Kidman decidiu só fazer filme borocochô ultimamente, é a melhor atriz gostosa em atuação (perdendo, talvez, apenas para Naomi Watts). Não vou falar muito sobre o filme para não estragar as surpresas que ele apresenta para o espectador. Mas, em termos de valores, é complementar ao filme que eu havia visto anteriormente a este (o documentário). Sua mensagem é, ok, trabalho duro é fundamental... mas sorte é indispensável!

Depois de meses de preparação para o concurso (trabalho duro), caíram algumas perguntas sobre "Os sertões", que eu estava lendo (sorte). Se bem que tem aquele jogador de baseball que falou algo como - "incrível, quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho". Talvez, mas o incrível é o quanto eu gostei desses filmes, e me pergunto até que ponto isso se deu em decorrência do que eu estava passando. Em tempo, ficam as sugestões desses dois ótimos filmes - principalmente se você estiver trabalhando duro por um objetivo, e precisando de um pouquinho de sorte.

4 comentários:

Jorge disse...

Assisti esse filme pouco antes de deixar o Rio, eh engracado pq eu queria muito acreditar naquilo eles dizem, mas eu nao consigo. Os argumentos sao bons, mas eu acho q eles concentram poder demais nas maos dos individuos, ignorando a prisao que eh a sociedade e todos os conceitos e preconceitos q limitam as acoes. Gostaria q fosse como eles dizem, principalmente na minha fracassada vida afetiva/social... talvez seja

Bernardo disse...

jorge, não seria a sua "fracassada vida afetiva/social", de certa forma, escolha sua, em última instância? comprovando, assim, a teoria mostrada no filme? as próprias formas de estabelecer suas relações com os outros são escolhas nossas e, em geral, independem, em certo grau, de fatores externos. Afinal, certos problemas humanos são os mesmos no Canadá ou no Brasil, na China ou nos Estados Unidos, na Suíça ou em Cuba.
Não seria um subterfúgio atribuir à "prisão que é a sociedade" escolhas que nós mesmos tomamos em nossas vidas, conscientes ou não?

Jampa disse...

Berna, eu acho que sobre esse ponto (o da liberdade ou determinismo) não podemos recorrer a simplismos. Gostei muito do teu texto, agradabilíssimo de ler. Mas essa idéia do mundo que depende da visão do mundo para existe tal como ele se apresenta para nós não é tão simples assim. Jorge está certissimo ao questionar teu propósito: seria vc capaz de condenar todos os miseráveis a escolha de sua própria miséria em nome dessa idéia de liberdade que no final das contas é tão determinista quanto o mais puro determinismo? Não estaria vc, entrando e aceitando esse ideterminismo científico, usando isso como refúgio de uma condição puramente atual? Não esqueça que não é apenas de trabalho duro e de sorte que o mundo é feito? Pense por exemplo numa criança em situação de rua que queira (o querer dele já é uma impossibilidade social por menos deterministas que queiramos ser) entrar no Itamarati... Que muros o desejo e vontade dele não teriam que destruir? Que abismos sociais, escolares, culturais, burocráticos,etc. ele não teria de transcender? Não se pode esquecer o passado social em nome de uma contextualização presentista de nós mesmo. É claro que esta influencia, como vc bem mostrou, a percepção da gente a respeito das coisas. Mas se o olho do homem cria o mundo, o mundo tem lá suas resistências que não deixa que o homem faça do mundo um puro reflexo de seus desejos e esperanças.

RobCeni® disse...

Olá... somente como título de observação. Quem disse: "Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho", não foi um jogador de baseball, mas sim, Tiger Woods, campeão mundial de golfe.

Obrigado.