segunda-feira, 10 de julho de 2006

Tenho pensado por aí ...

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Na semana passada, assisti a primeira temporada de "Desperate Housewives". Este seriado fez muito sucesso nos Estados Unidos - até Laura Bush declarou que assistia o programa. Estava curioso.

A fama é merecida, e a qualidade do programa - muito bem feito tecnicamente - comprova a boa fase da TV americana, que tem apresentado programas extremamente criativos e inovadores, principalmente na narrativa. "A sete palmos", "Família Soprano", "Lost" são todos parte dessa tendência.

A narrativa desse programa lembra "Memórias póstumas de Brás Cubas", pois é uma defunta que nos conta a história. O enredo se passa em "Suburbia", um típico subúrbio da Costa Leste americana. A história gira em torno de quatro donas-de-casa (Susan, Bree, Gabrielle e Lynnette) e suas respectivas família - e aqui se encontra seu ponto mais forte e o mais fraco. O ponto fraco: Susan, mãe solteira e solitária mais imatura do que a filha. Já vimos isso antes, e bem melhor, em "Gilmore Girls" (aliás, outro excelente seriado). O ponto forte: Bree, republicana, membro da NRA, tradicionalista, às voltas com problemas familiares (o marido sadomasoquista, o filho que sai do armário, a filha de 16 anos que usa camisinha), nos oferece momentos impagáveis. Permeando a história das quatro personagens centrais, como fio condutor, está o suicídio de uma vizinha. Sempre com um humor negro sutil.

A diversidade das personagens permite ironias e piadas em torno do estilo de vida dos subúrbios americanos. Longe de ser um programa de comédia, stricto sensu, trata-se de uma espécie de novela muito bem feita, com produção cuidadosa, que vai da abertura bonita, à música-tema legal, de Danny Elfman (o mesmo de "Nightmare before Christmas"), ao elenco competente e os diálagos bem escritos. Eu resumiria como "Sex and the City - with a life".



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O país parou para o futebol. E o futebol do país parou. Numa deturpação da lógica, explicou-se por aí que a tristeza nacional provocada pela atuação patética da Seleção brasileira é decorrente do fato de que o futebol é a única fonte de orgulho da população. E agora, que triste!, nem disso podemos nos orgulhar.

Historicamente, o povo brasileiro não se mobiliza em torno de causas, principalmente se forem positivas. Alguns setores organizados, principalmente a partir da redemocratização de princípios da década de 80, obtiveram êxito em organizar-se para defender seus interesses. O fenômeno, no entanto, é limitado ao funcionalismo público (sindicatos) e alguns outros poucos grupos da sociedade (donas de casa, movimento de sem-terra), ou é geograficamente localizado (Acre, Rio Grande do Sul, São Paulo). Temos poucos movimentos em torno de causas - a sociedade brasileira, como um todo, ainda é incapaz de se mobilizar em prol de alguma coisa. Com a devida exceção do time de futebol.

Ainda que alguns grupos saibam, muito bem, reivindicar, em geral isso se dá de forma negativa: por exemplo, quando sindicatos lutam ferrenhamente para manter privilégios. Enquanto a maioria desprotegida não tem voz. Outro caso emblemático foi quando o Governo Lula pôs em pauta a Ancinav, que iria deselitizar e descentralizar as verbas do Ministério de Cultura. Enquanto aqueles setores prejudicados (os grande conglomerados de comunicação do eixo Rio-São Paulo) não hesitaram em protestar agressivamente contra esse projeto "stalinista", a maioria difusa que seria beneficiada direta ou indiretamente não se mobilizou para garantir a mudança. A imprensa, ao reverberar a tal "crise política" de 2005, demonstrou indignação com o fato de que alguns deputados federais não tenham sido cassados (como se isso fosse resolver qualquer coisa), mas aceitou mansamente o absurdo de que a reforma política não tenha sido sequer posta em votação no Congresso Nacional (este sim, o verdadeiro escândalo).

Como país, ainda somos incapazes de nos organizar em torno de uma agenda propostiva. A única ocasião em que todos os brasileiros se unem e vestem, literalmente, a mesma camisa é a Copa do Mundo. Isso não é bonito, romântico nem pitoresco. Isso é ridículo e triste, e é um dos fatores que explicam o nosso "belo quadro social".

Um comentário:

Julieet disse...

deu mais vontade de assistir.
:)