quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A oposição estilou

A oposição conservadora às forças progressistas que controlam os governos do Recife e de Pernambuco perdeu o embate na esfera política. Os representantes da direita que não aderiram às forças progressistas vêm sendo paulatinamente postos à margem do jogo partidário, pela escolha dos eleitores.

O último resquício da oposição de direita em Pernambuco é o Judiciário - não por acaso, o menos sujeito ao escrutínio popular. Sem opção, desprovidas de propostas e de um discurso que encontrem ressonância na sociedade, as forças reacionárias do estado apelaram para a judicialização da disputa política.

A acusação é frágil e não se sustenta. Difícil responsabilizar o então secretário municipal, João da Costa, pelo uso escuso de duas contas pessoais de e-mail. Algo análogo ocorreu em São Paulo reccentemente, quando funcionários do prefeito Kassab teriam repassado mensagens eletrônicas para servidores municipais. A sentença, ademais, é incoerente. Porque se o juiz Nilson Nery viu por bem responsabilizar o secretário pela ação de seus subalternos, por que não seguir subindo na hierarquia até o prefeito João Paulo? É altamente questionável que esse ato isolado de envio de e-mails por parte de dois indivíduos seja abusivo ou mesmo que represente um claro desequilíbrio político e econômico em prol do candidato da situação.

Margarida Cantarelli tinha um logotipo laranja e preto quando, em 1986, foi candidata a senadora pelo PFL. Agora, como desembargadora, ao tornar legal a divulgação de informação protegida sob sigilo de justiça, serve de laranja da oposição para obscurecer a disputa política na cidade e demonstra ser adepta da fidelidade partidária. Nilson Nery, que acatou a representação fajuta do MPPE, mostrou fidelidade canina àqueles que o colocaram nessa mamata. Acusem-no do que quiser, menos de ingrato!

A arbitrariedade do juiz não é sem propósito. A menos que se acredite que foi a primeira vez que algo do gênero tenha ocorrido na cidade... Até o blogue jarbista de Jamildo reconhece o tratamento, digamos, diferenciado dispensado aos adversários políticos daqueles que deveriam zelar pelo cumprimento da lei - basta ver aqui. Sem contar que a divulgação de dados sigilosos não é vista da mesma forma indignada... Dois pesos e duas medidas.

Em instâncias superiores, tal sentença, por precária, cairá. O intuito, no entanto, não é fazer justiça. Trata-se de fazer política por outros meios. O timing, a menos de duas semanas das eleições, não poderia ser mais conveniente. A oposição (partidária, é preciso lembrar) já tenta propagar a desinformação, divulgando por meio de carros de som e panfletos apócrifos a cassação da candidatura governista de João da Costa. Ora, o fato é que, enquanto couber recursos, a candidatura permanece. Mas, como já foi dito, não se trata, em absoluto, de se fazer justiça. A oposição estilou.

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Resta saber como a população interpretará os acontecimentos. Vejo três cenários potenciais:

1 - Contingente significativo do eleitorado verá a decisão judicial como indicação de que o candidatao João da Costa é corrupto, não presta. Decide votar em outro candidato. Dependendo da intensidade desse movimento, isso pode apenas causar o advento do segundo turno ou, mais radicalmente, reverter as atuais tendências de intenção de votos.

2 - As intenções de votos se manterão inalteradas. A decisão do juiz de oposição apenas reforçará as posições já tomadas. Aqueles que se opõem ao candidato do PT, verão na decisão a confirmação de suas idéias, enquanto que os que o apoiam verão o fato como mais um episódio da luta política.

3 - Movimento em direção ao candidato perseguido pelo Judiciário. O episódio pode ser visto como perseguição política, jogo baixo, e atrair novos eleitores. Ademais, é possível que a radicalização da oposição funcione no sentido de trazer o Presidente Lula para participar de ato de campanha ainda no primeiro turno. Isso poderia trazer um importante impulso no sentido de definir de uma vez por todas a disputa.


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E se você quiser saber quem é Nilson Nery, o que fazia antes de ser indicado para o TJPE, quem o indicou, em que ano foi aprovado na Assembléia Legislativa, etc... Desista. Não há em parte alguma da Internet qualquer informação sobre a história recente. Nem adianta entrar na página do TJPE. Pois se você conseguir passar adiante da feiúria e bagunça da página inicial, desejo boa sorte para quem se arriscar pelos meandros labirínticos de um site típico do poder menos transparente da república. O site reflete bem a realidade...

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Vale lembrar que o Poder Judiciário não é a única esfera em que a oposição de direita mantém controle. Na imprensa, o quarto poder, também prevalecem. Basta ver o teor das manchetes dos jornais hoje. O destaque dos três jornais locais foi para a "cassação" - o que de fato não houve. Para que possa se consumar, precisaria que todos os recursos tivessem sido exauridos. E esta foi uma decisão em primeira instância. Meros detalhes?

3 comentários:

Roberta Xavier disse...

Excelente texto!!
Esse juiz tava mesmo era querendo entrar pra história. Ninguém apostava 10 centavos como essa confusão iria pra frente e aí ele vem e toma uma atitude dessa... por causa de nada! Acho engraçadíssimo como no Brasil algumas coisas ganham importância quase desnecessária. A bronca dos vereadores que utilizaram notas frias está aí... quase esquecida! E muitos deles são candidatos novamente sem ninguém se opor!

Cesar disse...

Otimo texto, e otimo comentario da Roberta, relembrando o escandalo dos vereadores. Eh vergonhoso querer ganhar uma eleicao no tapetao. Eh muito desespero mesmo. Como vc bem notou, o intuito principal eh de impactar negativamente a campanha de Joao da Costa. Acho que nao conseguirao. Espero que esse tipo de pratica, fique uma vez por todas, relegada ao seculo passado, e que esse pessoal descubra que golpe nao adianta mais! Um abraco!

Bernardo Jurema disse...

um amigo meu me mandou uns comentários. nao quis postar aqui. Vou chamá-lo apenas pelas suas iniciais - LM. Eis o comentário:

Amigo, quando tiver mais tempo, vou sim dar a minha opinião.

Por ora, fico somente no seguinte:

1) É preciso não ter passado 10 segundos numa repartição pública municipal pra rejeitar a hipótese de uso da máquina. Amigos (petistas, inclusive) que trabalham no município de Recife disseram que se sentem enojados com a forma escancarada como a coisa se dá, com a cooptação de funcionários públicos (do município, não do governo, tampouco do partido) em pleno horário de expediente, para panfletagem.

2) Quem viu o processo de investigação judicial que resultou na sentença do Nilson Nery disse que o processo estava, sim, muito bem instruído, com provas cabais de abuso de poder econômico e político (arregimentação de servidores e desvio de email funcional). Convenhamos: seria vergonhoso que o juiz descartasse tudo, afinal os petista não são cidadãos de primeira categoria, devem respeito à lei como qualquer um.

3) Apesar de tudo, não acho que seja interessante tratar o judiciário a pontapés, como vocês fazem. Lá há pessoas sérias. O Nilson Nery, segundo a fama que corre nos bastidores do mundo jurídico, é um sujeito extremamente probo e que nunca se vinculou politicamente a nenhuma oligarquia.

4) hehe Essa conversa de "forças progressistas versus elite atrasada" é um pouco fora de propósito, não achas? Se eu tivesse 15 anos talvez tratasse a coisa assim. Bom, o fato é que progressismo mesmo (separação entre público e privado, culto à eficiência, superação do patrimonialismo etc) é um tanto difícil de achar entre as forças políticas de pernambuco. O petismo, no ponto, é particularmente nefasto. Já trabalhei na prefeitura - na época, inclusive, em que me considerava vermelho - e posso dizer com certa segurança: os negócios públicos municipais são tratados como se fossem matéria pessoal dos secretários, isso sem falar na extrema promiscuidade com o empresariado companheiro, o que, aliás, é uma marca de todas as esquerdas ditas "amigas do mercado" (vide brasil telecom, fundos de pensão etc).

Por último, espero que, depois de descobrir de quem se trata (achacador de primeira ordem ou você não sabe do caso do Secretário de Segurança Pública de SP?), você tenha parado de dar bola pro Nassif. Hoje em dia, com as teorias da conspiração que ele inventa (e desmente no dia seguinte), só merece umas boas gargalhadas.

É isso por ora.