sábado, 17 de setembro de 2005

Mantenha o Mastercard, mas não os velhos hábitos

por: Bernardo Jurema

É freqüente recorrer-se à índole maléfica do liberalismo para explicar problemas que afligem a sociedade contemporânea. Porquanto seja conveniente e fácil atribuir-lhe a falência do Estado moderno, explicitada agora na crise política por que passa o Brasil, trata-se de interpretação histórica errônea.

Adam Smith, o filósofo do liberalismo econômico, defendia que a livre circulação de bens, serviços e capitais, geraria distribuição de riqueza entre todas as nações. Os Estados dominantes do século XX, controlados por suas burguesias, adotaram o discurso liberal, mas não a prática -- ou, antes, adotaram-na apenas quando lhes convinha. Desde os seus primórdios, as bases filosóficas do liberalismo político e econômico foram deturpados de modo que atendessem aos interesses materiais da nova classe burquesa então ascendente.

O problema real, não abordado pelos intelectuais críticos do liberalismo - talvez em razão do embate ideológico que prevalece no estudo do tema - não é que o Estado moderno se tenha instituído baseado em formas primitivas de acumulação de capitais -- mas que sua instituição se tenha dado em bases ilícitas de acumulação de capitais. Se no século XIX esse comércio ilegal consistia no contrabando de mercadorias, escravos ou ópio, atualmente implica o narcotráfico, o superfaturamento de serviços públicos, tráfico de bens falsificados, desvio de recursos públicos, entre tantas outras formas de burlar a lei.

A crise política brasileira atual lança luz sobre esse aspecto. Contas em paraísos fiscais, doleiros, bicheiros, licitações viciadas -- estes são alguns dos ingredientes que compõem a crise e que nos indica um sistema político-partidário seriamente contaminado pelo modus operandi do modelo econômico vigente.

Convém aos extremistas de ambos os lados do espectro político fazer crer que a crise político-institucional que o país atravessa esteja ligada à acumulação primitiva de capitais dos atuais detentores do controle estatal. Convém à extrema esquerda esta tese, uma vez que legitimiza seu discurso anti-liberal e anti-capitalista; e à extrema direita, ao desmoralizar um governo de inegáveis bases popular e democrática e justificar o desmonte do Estado.

No entanto, à maioria sensata entre as duas pontas, cabe a busca de explicação lógica e coerente que não obedeça a vícios ideológicos ou interesses eleitorais, mas, sim, que vise ao bem-estar coletivo no aprofundamento dos avanços econômicos e políticos. Estes, por sua vez, passam por mudanças que levem a processos políticos e econômicos mais transparentes, que não estimulem práticas ilegais. As reformas, iniciadas no decorrer dos anos 90 no Brasil de maneira abrupta e atabalhoada, para não dizer irresponsável, precisam ser retomadas, debatidas e, por fim, levadas a cabo.

3 comentários:

Rogerio Campos disse...

Bernardo meu caro,
Nesse ponto, concordamos muito mais do que vc pode imaginar... Assino embaixo!

ABS!

estanislau borges disse...

ser ou não ser, eis a tensão...tensão de 10N.

Jorge disse...

Numa aula, em CS, a qual eu não me lembro de que disciplina, em que tratavamos de liberalismo e depois de neo-liberalismo, comentávamos que de tão maravilhosa a ideologia liberal, pensamos imediatamente em nos filiar ao PL. Acho que deve-se levar em conta o que o Liberalismo, o novo, toma como forma, como prática. Se bem que todo capitalismo financeiro é Liberal, portanto a ordem econômica predominante atual, a redução dos direitos, ou seja do Welfare State ( onde este existe, que não é o caso do Brasil), é a sua face mais pervesa. O caso da Alemanha atual é bem emblemático, ninguém fala em negação do capitalismo liberal, mas sim na maneira mais ou menos radical, para a sociedade, de pô-lo em prática (evidentemente em face as questões contemporaneas ligadas a concorrência, sobretudo de mão-de-obra mais ou menos cara). O engraçado é que são os democratas cristãos os defensores da redução dos direitos sociais.
Acho que o capitalismo é sim perpetuador da desigualdade acentuada, mas no contexto brasileiro, não está em questão "derruba-lo" ou não. Ainda que utópico, essa idéia estaria muito longe de nós atualmente. A oposição de extrema esquerda cai na ingenuidade de achar que a mera retórica anti-capitalista vai resolver os problemas brasileiros, e com isso reforça o discurso e prática dos lobos que sempre "tomaram" conta das nossas ovelhas.