sábado, 6 de junho de 2009

Mês 1


Seguindo o exemplo de Diogo, com seus relatos mensais da experiência suíça, dou início ao meu próprio relatório mensal!

Sábado fará duas semanas que cheguei em Londres. Mas completará um mês de Europa. Dorothy e Luiz Gonzaga me vêm à mente sempre que observo as diferenças entre o lugar estrangeiro e a terra natal (a “hometown”, como dizem os gringos – no meu caso particular, sutileza semântica que faz uma diferença!). Dorothy, quando tem sua casa levada pelo furacão em “O mágico de Oz”, ao se deparar com seres e paisagens que não lhe são familiares, comenta com o seu cãozinho: “Toto, I’m afraid we are not in Kansas anymore”. Por sua vez, Gonzagão, retirante nordestino na Cidade Maravilhosa, comentava os aspectos da vida urbana do Rio da primeira metade do século 20, e pedia licença para dizer: “vocês cá da capitá, me adesculpa essa expressão: no Ceará num tem disso, não”.

Primeiro contato com a Europa, e Dorothy e Luiz Gonzaga já me aparecem, logo que saio do aeroporto de Lyon, onde entrei na Europa. Mobilidade. Para quem vem do Brasil, é sempre uma surpresa como é fácil de se locomover numa cidade européia. Cheguei cansado da farra de despedida e baqueado com as horas mal dormidas e a decalagem de horário. E, apesar disso, não tive problemas em fazer o percusso aeroporto-estação de trem (Lyon) e, de lá, trem para St-Etienne, para onde fui ao casamento da nossa “família francesa” – a família Pays, que acolheu os meus pais quando eles moraram lá, 30 anos atrás. Foi bem interessante o retorno à cidade onde nasci, tanto para mim quanto para os que estavam lá. “Eu vi você tout petit, bem pequenininho” foi uma frase que ouvi à exaustão. O casamento em si, foi uma experiência antropológica – foi meu primeiro evento do tipo na França. Casório à francesa é totalmente distinto da festa tal qual estamos acostumados no Brasil. Na terra de Mussum e de Lula, a cerimônia religiosa é só para agradar aos avós e não passa de um empecilho para começar a derrubar aquela garrafa de Red Label: o objetivo da festa é embreagar-se (assim como o de ir para praia, sair com os amigos, ir ao campo de futebol, festa de aniversário... qualquer pretexto serve para encher a cara). Na terra de Coco Channel, a cerimônia é civil (ao invés da imagem de Cristo, uma foto de Sarkozy... que, para alguns, é a encarnação do diabo!). A maior parte do tempo fica-se sentado numa mesa de lugares marcados, enquanto os pratos são servidos na ordem (entrée, salada, prato principal, queijo, sobremesa). Entrementes, homenagens aos recém-casados são oferecidas por parentes e amigos – discursos, canções improvisadas, slides de fotos, piadas hilárias e outras de mau gosto. Também tem álcool, mas a variedade vai bem além do Red Label típico do Brasil. Mais que isso: cada momento requer uma bebida específica. Vinho branco pro peixe, tinto pra carne, champagne ao final, etc.

De St. Etienne, volto a Lyon, onde fiquei entre a casa de Alvinho, amigo de Recife, e Philipp, de Berlim. Lyon é uma cidade linda, antiga capital gaulesa, cheia de história que remonta ao Império Romano. É também um modelo de urbanismo. Em Lyon, locomover-se é fácil. Lá tem metrô, tram-way, ônibus, ônibus elétrico, ciclovias, bicicletas públicas e amplas calçadas para os pedestres. Ah, tem carro e táxi, também. A beira do Rio Saône, até pouco tempo, era estacionamento de automóveis. O prefeito atual mudou isso. Transformou toda a beira-rio em área de lazer, com pista de cooper, ciclovia, piscinas infantis, pista de skate, etc. Os motoristas chiaram. Mas, hoje, a beira-rio vive cheia de gente – todo tipo de gente. Tem várias ruas exclusivas para pedestres, e outras onde a prioridade é sua e não do carro. Todas as paradas de ônibus têm um mapa. Locomover-se em Lyon não é só uma experiência agradável – é também fácil.


De lá, peguei uma carona com Philipp, que ia até Locarno e me deixou no meio do caminho, em Évian, no lado francês do Lago Léman. Peguei o barco e em 30 minutos estava do outro lado. Passei uns dias com Diogo, se apertando para compartilhar os 20 metros quadrados do seu apartamento. A gente não faz idéia do que são 20 metros quardados até que se tenta compartilhar esse espaço. Não é trivial. Não há armário na cozinha: a cozinha é no armário. O box do meu banheiro em Recife era do tamanho do bannheiro inteiro. Pelo lado positivo, Lausanne tem uma qualidade de vida impressionante. A cidade é bucólica e de um silêncio profundo. O prédio de Diogo fica ao lado do parque que margeia o lago. As árvores que circunscrevem a área em que ele mora faz com que, pela manhã, sejamos acordados ao som dos cantos de vários pássaros. Conheci alguns amigos de Diogo e pude ter uma idéia do seu cotidiano. A Suíça é tão limpa e próspera, que sente-se um contraste ao voltar para a França. De repente, Lyon me parecia meio suja, meio bagunçada, meio decadente... Em Lausanne eu procurei e não achei nem uma mísera tampinha de Coca-Cola no chão. Difícil será depois Diogo se adaptar a morar em qualquer outro lugar do mundo – exceto, talvez, o Canadá e os países Nórdicos!

Faz pouco mais de uma semana que estou procurando emprego aqui na terra de Lady Di. A oferta é impressionante. Tem muito emprego, para todo tipo de gente, todos os níveis salariais, graus de formação, áreas de atuação. E mesmo o pior deles, o salário oferecido é sempre digno. Como diria o Velho Lua, no Ceará num tem disso, não!

Com pouco mais de uma semana de busca, já estou com três perspectivas, embora nada ainda assegurado. Esse fato (não ter nada certo ainda) estava me deixando um pouco inquieto. Até que um dia desses fui fazer um lanche numa Starbucks. Comentei com a colombiana que me atendia que estava buscando um trabalho de verão (summer job). Ela recomendou o site que todo mundo me recomenda desde que soube que viria para Londres – www.gumtree.com . Eu respondi que já estava procurando lá e ainda não tinha conseguido nada. Ela levantou os braços, em sinal de reprovação, quando eu disse que estava buscando havia uma semana.


Ela tinha razão. Até então eu só havia recebido a proposta para ser piloto (será essa a melhor palavra?) de “rickshaw” (aquelas bicicletas à chinesa que carregam passageiros pela cidade). Mas um dos funcionários do cara que me contrataria sofreu um acidente no fim de semana passado, e até agora ele não me deu mais notícia. O que talvez tenha sido para o melhor. Em seguida, fui para uma entrevista para trabalhar num restaurante fast-food de saladas e comidas saudáveis. Não sei bem o que faria lá, mas se eles me contratarem para fazer salada, só digo uma coisa: nunca vão lá para comer! Eu nunca comeria salada num estabelecimento que me contrata para fazê-las! Na segunda-feira, irei para outra entrevista... para a posição de “game-tester”: são oito horas diárias de jogos que ainda nem foram lançados. O sonho de vários amigos meus. Mas uma das minhas desvantagens é o fato, justamente, de eu nunca ter sido muito de jogar vídeo game. Basta dizer que o primeiro e último console que eu tive foi o SuperNintendo! Também recebi propostas para dar aula de francês e prestar assistência social.

Não sei se ficarei em nenhum deles. O que não é um problema grave. Cada dia um sem-número de trabalhos os mais diversos é acrescentado no gumtree.com . Mas o que impressiona é o dinamismo da economia inglesa/europeia que, mesmo em recessão, tem essa diversidade de empregos. Economia dinâmica. E eu, cá com os meus botões recifenses: Toto, I think we are not in Kansas anymore! Game-tester? Ser pago (400 libras/semana) para jogar vídeo games? Definitivamente não estou mais no Kansas!

Fora isso, a Inglaterra tem me causado uma ótima impressão inicial. É clichê dizer que viajar abre a mente e desfaz clichês em relação a outros povos. Como também é clichê dizer que algo é clichê... mas o fato é que, na verdade, às vezes viajar confirma certos clichês e acaba com outros. O famoso British humour está, definitivamente, na categoria dos clichês comprovados. Andar nas ruas de Londres, às vezes, é como assistir a um episódio de Monty Python.

Cena 1 – no ônibus, neto para avó

- “Por que o seu rosto é assim?”

- “Assim como?”

- “Wobbly” (molenga, instável)

- “Ah... Porque eu sou velha.”

Silêncio (e eu prendendo o riso).

- “Então quando eu crescer eu vou ficar igual a você?”

- “Não, porque você é homem e eu sou mulher.”

Cena 2 – na rua, o celular do cara cai no chão. Ao invés de se irritar, ele gesticula como se tivesse feito de propósito e vai na direção do seu aparelho como se fosse pisá-lo para esmagar. Puro humor físico, chapliniano!

Cena 3 – Vitrine de uma loja de vinhos: “A recessão não é desculpa para se tomar vinho ruim!”.

Cena 4 – eu cheguei em Londres depois das 23h, depois que o meu voo barato da RyanAir me deixou num aeroporto a não sei quantos quilômetros de Londres. Carregado de mala, cansado, com fome... e a estação de metrô que eu tinha que descer estava fechada. Tive que pegar um ônibus, e me atrapalhei. Finalmente, peço ajuda a um inglês ao meu lado, de 30 e poucos anos. Primeiro, ele deixa que eu faça um ligação de seu I-Phone para os meus amigos que vão me receber. Depois, ele desce comigo na minha parada (tudo bem, era a mesma dele), carrega a minha mala mais pesada e me deixa na porta da casa. No caminho, eu comento que me sinto um pouco mal por ele estar se dando a todo esse trabalho. Ao que ele responde: “No problem. I have a lot of bad karma do undo... I’m a lawyer”. Que bom que tenha sido comigo! Mas achei a justificativa genial!

Outro clichê corroborado é a pontualidade britânica. A imprensa está pegando no pé do governo local aqui, porque a pontualidade dos trens e metrô aqui é de “apenas” 90% dos casos e as autoridades estão comemorando como um sucesso. É um fracasso, dizia o artigo do tablóide, porque no Japão o índice de atraso é de 1% (3 a 5 segundos de atraso) e, ainda assim, lá a meta é chegar a índice zero de atraso. O clima, desde que cheguei, tem sido agradabilíssimo. Embora hoje tenha feito um clima mais condizente com a fama londrina (cinzento, frio, com chuvisco constante)... mas esqueceram de avisar ao sistema de auto-falantes do metrô, que aconselhava os passageiros a andar sempre com uma garrafa d’água, “in this hot wheather”. É verão – summertime – mesmo se estiver fazendo 11 graus lá fora... Por fim, a comida aqui não é horrível. Primeiro, porque Londres é uma cidade cosmopolita e, portanto, é possível comer-se de tudo aqui, e a todos os preços. Segundo, mesmo os pratos tipicamente locais, podem ser bons. Provei as famosas fish & chips, delicioso. E “O” outro prato típico, salchicha com purê de batatas e molho, também é bom. Fora esses dois, tem o “English breakfast”. Fica pro próximo mês. E segunda, me mudo. Vou morar aqui.

sábado, 30 de maio de 2009

um poema cabeçóide

esse é de outubro de 2005


Contemporaneamente
Contemporizar
Comigo, sentar
Com teu par
Contemplar
Contigo,
Enfim,
Sei lá.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Equilíbrio de poder

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, tem enfrentado pouca dificuldade no Congresso para levar adiante a sua agenda de reformas. Além de ter sido eleito com folgada vantagem em relação à candidata do Partido Socialista, Ségolène Royal, detém ampla maioria no Legislativo. Mais do que amplo apoio à plataforma sarkozista, tal hegemonia direitista denota a dificuldade da esquerda francesa em estabelecer uma agenda  que se lhe contraponha. 

Seria um erro, no entanto, superestimar a força de Sarkozy. No nível local, das prefeituras, o PS francês detém grande influência. Estão sob o seu comando Paris, Lyon, Lille, dentre outras. As iniciativas mais inovadoras e progressistas em termos de soluções para as questões urbanas, na França, passa por essas cidades, que são hoje referência sobretudo no que se refere a transporte público.

Ocorre no Brasil o oposto. A esquerda detém o controle da agenda a nível nacional. A direita tucano-pefelista ainda está para definir um discurso que se contraponha à plataforma lulista de "crescimento econômico com distribuição de renda". No entanto, os principais estados e cidades estão sob o controle da oposição. Mais que isso, nos últimos quatro anos são administrações de oposição as que têm apresentado políticas públicas mais criativas e que apontam para uma eventual agenda pós-Lula. Mais especificamente, me refiro às administrações do PFL em Brasília e São Paulo. É lá onde novas ideias têm surgido e novas respostas às preocupações do eleitorado têm sido dadas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

kit

mas um poeminha meu, de 2005, que encontrei perdido nos meus arquivos... este é da série versos com trocadilhos óbvios com pretensão de grande sacada. 



Isso não é uma casa
Isso não é um lar
Eu moro numa kit
Nunca mais fui no Bit-Bit

Forçando a barra para rimar
Forçando a barra para morar

sábado, 28 de março de 2009

Comentários no HuffPost

O comentário do presidente Lula no encontro com Gordon Brown, responsabilizando "blue-eyed bankers" pelo colpaso da economia global, deu o que falar lá na gringa. É bem interessante observar o debate que surgiu no HuffingtonPost (veja aqui)! É muito bom ver um debate sem aquele viés inevitável que sempre se toma aqui de jogo de futebol (PT x PSDB), que contamina qualquer tentativa de debate político saudável. Lá, sem as paixões partidárias que deturpam o diálogo, o debate gira em torno da substância do que Lula falou.

Alguns comentários do leitor posto aqui:

- o mais engraçado:

As a pale faced, blue-eyed person, I can heartily agree with this. I love the 'things white people like' blog... but if there's one thing we REALLY love, it's destroying the global economy. Unfortunately, holding a mid-range IT job hasn't given me much opportunity to fulfill my personal dreams of forcing at least 50% of the world population living on cat food (whiskas, not fancy feast!) and scraps from dumpsters... at least not direct opportunity. Fortunately, I was able to vote Republican repeatedly, helping bring Bush in office, which has resulted in more wealth destroyed than was created in entire history of civilization before him! 

Now excuse me while I go for a delightful walk outside. Maybe I can tell a homeless person "GET A JOB" or an immigrant "GO BACK TO MEXICO". Yes, there are few things more fun than being white.


- um a favor da frase do presidente:

Tell me how it is untrue historically. Maybe, he was just trying to shame. There is so much bad going on in the world. Why didn't we go to Sudan instead of Iraq? Why didn't we go to Rwanda instead of Yugoslavia? Do you know anything about what is going on in the Congo right now and why?


- um contra:

Highly generalized, unfitting and absurd accusation. I'm hoping this is something that was lost in translation.


- e um tão positivo, que dificilmente leríamos na imprensa nativa (ficou branco, mas dá pra ler passando com o mouse por cima... incompetência minha):

Lula's letting his rhetoric get ahead of him here, but this is a man who has always been a harsh critic of the sort of neoliberal economic platforms that are at the root of the global financial crisis. When he was elected president, the pundits were panicked that he would run the Brazilian economy, yet Brazil has eliminated its debt and has seen its GDP grow at the same rate as China's. If I'm the same room as all the G-20 leaders, Lula's the guy I'm most interested in hearing from.

    Reply   Posted 08:50 PM on 03/26/2009

No wonder ford motors opened their latest assembly plant there.

    Reply   Posted 09:09 PM on 03/26/2009

doesn't the majority of Brazil's automotive industry run on renewable fuel?

    Reply   Posted 08:57 PM on 03/26/2009

.....and has since the eighties

quarta-feira, 25 de março de 2009

A disputa política está saindo do armário

Aos poucos, a luta política vai emergindo, vem à tona. No Brasil, desde sempre, o debate programático tende a ser posto em segundo plano, em favor de disputas moralistas ou legalistas. Desde Dom Pedro II, pelo menos, que é assim. A Monarquia caiu não porque tenha deixado de defender políticas que favoreciam a sua base de apoio (os latifundiários e os credores), mas porque seria "podre" - a República seria uma necessidade moral. Desde então, a disputas, aqui, raramente se davam pela forma do que realmente eram: a retórica moralista escondia interesses bem prosaicos. 

Enquanto boa parte do eleitorado não participava do processo (até a década de 1980), ou, depois disso, enquanto o oligopólio midiático podia repassar sua versão sem correr o risco de ser questionado, essa maneira de disputar o poder funcionou. Agora, com o amadurecimento da Internet brasileira, isso começa a se tornar impraticável. A disputa política, no Brasil, está saindo do armário.

Os pontos desse emaranhado começam a se ligar. Em entrevista recente (veja aqui), FHC elogiou Daniel Dantas e Gilmar Mendes, e criticou o Delegado Protógenes Queiroz. (Se ele fosse mais atinado aos novos tempos, jamais teria falado o que falou. Qualquer pessoa familiarizada com YouTube, teria tido mais cuidado com quem elogia publicamente!). Inspirado nas opiniões do ex-presidente, o jornalista Luis Nassif esboça uma análise da história recente do país (aqui), colocando como o foco do jogo político atual a formação do Sistema Brasileiro de Inteligência - em que se opõem os grupos ligados aos criminosos do colarinho branco, Daniel Dantas à frente, e aqueles independentes. 

Vamos ver, no desenrolar da CPI dos Grampos, como se posicionam os grupos políticos em relação ao caso. Vai ficando cada vez mais difícil esconder o posicionamento atrás de posturas moralistas (isso funcionou no caso do suposto "mensalão"). FHC já se posicionou.

Um programa da TV Câmara entrevistou os jornalistas Leandro Fortes (Carta Capital) e Jaílson de Carvalho (O Globo), sobre as investigações da Satiagraha. É o que tem de mais esclarecedor sobre o tema. Por pressão de Gilmar Mendes (defensor da liberdade de imprensa), o site da TV Câmara retirou a entrevista do ar. Mas a pressão da blogosfera (Azenha e CartaCapital), fez com que a TV do Poder Legislativo voltasse atrás na decisão tão inócua quanto burra (veja aqui a entrevista ou então baixe aqui) . Queriam repetir, com essa história de Grampolândia, uma espécie de "Mensalão 2: redux". Se esqueceram de uma coisa - o país mudou desde então... Não colou.

Essa série de artigos, entrevistas e declarações recententes (aliás, que só têm tido a repercussão que tiveram graças aos blogs e ao YouTube) começam a tornar mais nítido o campo do jogo político brasileiro. Às vésperas das eleições de 2010, tal transformação, ainda que tardia e lenta, é muito bem vinda. Embora algumas pessoas ainda tenham receio, por exemplo, o jornalista/enólogo Renato Machado, aqui.

(Em tempo, a entrevista dos dois jornalistas é obrigatória para quem quiser entender o atual cenário político nacional.)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Interpretação de texto

encontrei por acaso um poema (sendo generoso) escrito entre o verão e a primavera de 2006. 



quando puxas-me ao teu seio,

e fico ali, te sentindo, bem no meio,

sei que a vida é bela, apenas sei-o:

quando estou ali, tudo leio.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Faoro, Furtado e o novo Brasil

 





Tem-se evidente paradoxo quando o instrumento de transformação da realidade é o mesmo que serve para defender a manutenção do status quo.


A Geração de 1930, grupo composto por intelectuais que pensaram criticamente o Brasil sob diversas perspectivas, deixou marcas indeléveis não só na produção acadêmica subsequente, mas também na maneira como a sociedade brasileira compreende a si mesma. Muito do que esses pensadores destacaram como problemas permanece, em geral, como temas centrais no país. As disparidades regionais, apontadas por Celso Furtado, no seminal “Formação Econômica do Brasil”, como o grande entrave para o desenvolvimento econômico nacional ainda se encontram irresolvidas.

 

A pífia integração da economia brasileira, decorrente das disparidades econômicas e regionais, é o grande entrave para o desenvolvimento integral da economia nacional. A inclusão de mais brasileiros na sociedade de consumo, que corresponde ao incremento do mercado consumidor, é fundamental, segundo Furtado, para a inserção competitiva do país na economia mundial. Para que esse fim fosse atingido, caberia ao Estado função preponderante de indutor do processo.

 

A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), sob os auspícios de Furtado, na segunda metade do Governo Kubitschek, visava, justamente, a exercer essa função de promotor ou de coordenador do desenvolvimento da região, integrando-a ao eixo econômico sul-sudeste. O Golpe Militar, em 1964, no entanto, interrompeu esse processo, que ainda se encontrava em fase incipiente. Retomando a tradição do Estado patrimonialista descrito por Raymundo Faoro, outro integrante da Geração de 1930, a Sudene, sob o regime autoritário, se torna instrumento de manutenção do poder por parte das oligarquias regionais.

 

A história da Sudene comprova a perspicácia analítica tanto de Furtado, como a de Faoro. Mas indica, também, a sua contradição intrínseca, que lhe foi fatal: segundo Furtado, o Estado seria, por vocação, o indutor do desenvolvimento regional; para Faoro, o Estado patrimonialista seria, por definição, instrumento de manutenção do poder dos estamentos sociais superiores. Tem-se evidente paradoxo quando o instrumento de transformação da realidade é o mesmo que serve para defender a manutenção do status quo.

 

A abertura política dos anos de 1980 dá início a um processo de redemocratização, bem ao gosto dos militares: lento, gradual e seguro. Nas duas décadas seguintes ao fim da ditadura militar, observa-se, no Brasil, a paulatina inclusão de novos setores sociais no processo político-decisório. Exemplo mais eloquente disso é a extensão do direito ao voto aos analfabetos, pela primeira vez na história do país. São lançadas as bases do atendimento público universal de saúde (o SUS). A sociedade civil se organiza em partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e organizações não-governamentais e se manifesta por meio de instituições democráticas existentes.

 

O processo de redemocratização, iniciado com a abertura política dos anos de 1980, aprofundado com a abertura econômica dos anos de 1990, culmina, nos anos de 2000, com o princípio de redistribuição da riqueza nacional. A desconcentração da renda se dá tanto social, quanto regionalmente. O Nordeste, assim como as camadas sociais mais baixas em todo o país, cresceu a taxas acima da média nacional. O crescimento em níveis chineses de regiões e setores sociais historicamente mantidos à margem dos ciclos de expansão econômica prévios é consequência direta de políticas públicas adotadas. Políticas como a valorização do salário mínimo, o Programa Bolsa Família, a ampliação da oferta de micro-crédito, o Pronaf, levaram a uma inclusão de mais brasileiros à sociedade de consumo. O aumento do mercado consumidor doméstico significa a integração das regiões periféricas à economia nacional. Isso porque a parcela mais pobre da população encontra-se nessas regiões.

 

A história recente do Brasil corrobora a análise de Celso Furtado. O crescimento econômico brasileiro da última década, ao contrário do de ciclos passados de expansão, é baseado no incremento do mercado consumidor doméstico, que ocorreu, por sua vez, em consequência de políticas públicas adotadas pelo governo brasileiro. O fato de a sociedade brasileira estar realizando aquilo antevisto por Furtado (inclusão social e desenvolvimento regional com base em políticas públicas redistributivas) talvez signifique, por fim, que esteja superando o Estado patrimonialista definido por Faoro.



segunda-feira, 2 de março de 2009

A velha nova Europa?

Motivado por esse artigo do Nassif, um amigo francês me enviou a seguinte resposta, que publico abaixo. Eu concordo basicamente com as observações dele e acho interessante que ele toca em alguns pontos sob uma perspectiva fora do lugar comum. Como estrangeiro que vive no Brasil, também tende a ver pontos positivos no nosso país, quando nós sofremos daquela velha síndrome de vira-lata, que não aprecia nada de si mesmo. Segue o texto:


Cara, não concordo nem um pouco com o texto, acho que a Europa se afunda ano após ano.

O período pós guerra foi do meu ponto de vista o mais cruel em termos de globalização : 30 anos de crescimento nas costas do terceiro mundo explorando matéria prima baratissima e ficando com todos os processos agregando valor, mantendo no poder governos ditatoriais e ainda se gabando de modelo de humanismo !

Aos poucos, está acabando a submissão, agora econômica, do novo mundo e as conseqüências são terríveis para a Europa que, em nome do igualitarismo, se recusa a assumir uma lógica de mérito e competição.

Os USA vão ficar baleados, mas está no DNA deles reagirem, inovar, competir... basta ver sua historia e como eles reagiram a todo que os abalou. A Europa, já é outra coisa, coloca acima de tudo o bem estar e consequentemente poucos esforços : pense nos numerosos velhos europeus não dispostos a evoluírem com seu tempo e reverem seus hábitos ou aos jovens “rebeldes” querendo trabalhar pouco e ainda ganhar 10 vezes mais que um Brasileiro ou um Indiano, sem falar do Chinês.

Eu votei no Sarkosy, porque acho urgente que tenha reformas na França para que a queda não seja muito brutal, e vejo que não tem jeito, é preciso tanta cautela para reformar o país que seriam necessários 10 mandatos para chegarmos lá.

Quando passei a viver fora da França, fiquei enjoado do discurso populista da esquerda francesa que quer defender o encanador francês contra o polonês, o agricultor francês contra o brasileiro... quer dizer que a justiça social vale apenas para os sortudos que nasceram na França e que o resto do mundo pode morrer de fome, ou pelo menos ficar sem oportunidade de desenvolvimento, saúde, educação para efetivamente passar a ser um competidor ?

Não entendo como a justiça social pode enxergar fronteiras. Isto passa longe do meu entendimento.

Gordon Brown, Sarko ou Merkel não são grandes figuras políticas... bem que eu queria, mas até em sua terra respectiva, eles tem aprovação popular mínima e provavelmente vão rodar nas próximas eleições contra populistas que prometerão aumentar o salário mínimo para compensar o aumento dos preços consequente da limitação das importações de carne brasileira e de têxtil chinês. Aí vai o déficit publico pro espaço e a competitividade europea para o chão e aí sim, a França terá como única opçãp se tornar um museu-restaurante, graças a sua linda paisagem, seu clima simpático e seus monumentos cults. Agora, vamos ver se os franceses vão querer ser assistente do chef na cozinha ou garçom... Duvido.

Um pouco amargo, este meu depoimento ?!

Na verdade, foi bem espontâneo. Acordei de bom humor, mas li as noticias ontem a noite : sindicatos fechando uma estação de trem em Paris por 1 dia. Meio milhão de pessoas reféns de meia dúzia de funcionários públicos preguiçosos... Jovens dos liceus fazendo greve sem bem saber porque e muitas ações antisemitas em prol do conflito Israelo palestinens. A oposição esquerdista bitolada na liceça maternidade de uma ministra árabe que teve um filho solteira. Devo ter dado hazar, mas a situação me pareceu desanimadora, sem falar das perspectivas econômicas !

Até REcifilis não deve ser tão ruim ! ah ah

Abração e feliz 2009

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Bom dia Recifilis !
ta certo que foi um pouco entusiasta no meu pessimismo.

O equilibro entre humanismo e assistencialismo é tenuo, mas é uma busca que é preciso manter sempre, concordo.

Os rednecks americanos deixados por trás agora estão descobrindo nem o terço da miséria que eles espalharam pelo mundo afora com seu colonialismo econômico e protecionismo comercial. Mas, enfim, ninguém merece passar por isto...

Estou achando o governo do Lula com a proposta mais coerente hoje no mundo entre ideal de melhor redistribuição de renda e a pratica de um mundo competitivo.

O foda é que leva tempo e que neste intervalo, vão se algumas gerações sacrificadas.

Mas me parece o modelo mais robusto, menos populista, mais pragmático... quem diria nas direitas do mundo, neh ?!

Vc sempre é bem vindo em Sampa, inclusive para ganhar uns trocados de babá da Malu ! ah ah

Abraço e até logo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Teto de zinco

minha mãe conta uma história lá de luanda:


Não me perguntem por que. Casa nova, recém construída, toda bem apetrechada – um luxo. Mas o teto é de zinco. Talvez para fazer a gente pensar nas imensas disparidades da cidade. É verdade que o zinco não é qualquer zinco. É daquelas chapas grandes, duras, com um ondeado esparço, quase quadrado, com o metal brilhando. E não daquelas pequenas, de ondulações estreitas, de metal sem brilho. Estas tão comuns nos musseques daqui de Luanda.

Pois bem, houve noites, desde que chegamos que escutamos estalos. Barulhos estranhos, secos, alto. Isto aconteceu umas 4 vezes durante esta nossa curta estadia na nova casa (estamos aqui desde o dia 6 de janeiro, com uma semana fora, neste período). Mas eram estalos altos e secos, como se algo estivesse quebrando.

Saíamos do local onde estivéssemos, à procura noutros cômodos da casa do que poderia ter ocorrido.Alma não é. Pensamos na rede elétrica, pensamos no ar-condicionado, pensamos do no-break da televisão.... Da ultima vez chegamos a colocar em duvida a engenharia angolana, e saímos a procura de rachaduras na casa. E essa idéia estava sendo nossa explicação mais plausível até esta quieta manhã de domingo!

Depois de noite bem dormida, eis que me deparo com um bichinho marrom caído, inerte no chão do banheiro. Não ouso tocar. Ajudado por minha miopia e adicionado pela fobia a baratas, cheguei mais perto: bicho miúdo, cabeça fina, arrodeado de pedaços de plástico branco. Olhei para o teto, e vi um orifício e pensei – que bichinho danado roeu o gesso! Tava lá um buraco, meio ovalado, com uma moldura amarronzada no seu entorno, quebrando a monotonia do branco imaculado do teto novinho.

Chamo depressa meu herói: Val, chegue aqui! O que será isso. Ele cochilava tranquilamente deitado no tapete da sala. Só ele ousa tocar e pegar o bichinho marron nas suas mãos... e me diz: aninha, isso é bala. Só então eu aproximo o bichinho pra melhor focalizá-lo, uuff, menino é uma bala! Uma bala perdida que veio se achar no nosso banheiro!!

Por volta da meia-noite, Val novamente ouviu o estalo e outros barulhos. Levantou-se, olhou os cômodos como de hábito. Como de hábito eu havia deixado meu computador ligado, como de hábito ele desligou, com receio que fosse algo na rede elétrica. E voltou para cama, onde eu já nem me dava conta do que ocorria.

Hoje os estalos estão finalmente explicados! A casa não cai! Mas nosso teto de zinco deve estar uma peneira!!

Seguem as fotos para comprovar.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cartas à Folha de S. Paulo

Estava pesquisando o arquivo da Folha e encontrei as quatro cartas minhas que foram publicadas na Folha de São Paulo no passado. Fica aí a título de curiosidade! Interessante que só um tema era importante o bastante para me fazer escrever à Folha! A única carta que abordava outro assunto... foi pra defender Cristovam Buarque! As voltas que o mundo dá! Em minha defesa, digo apenas que escrevi outras cartas que nunca chegaram a ser publicas. Eu acho.





São Paulo, domingo, 22 de fevereiro de 2004

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PAINEL DO LEITOR
Drogas 
"Geralmente se escreve muito nesse espaço do leitor para criticar a atuação dos nossos legisladores. E geralmente as críticas são bastante fundamentadas. Nossos representantes às vezes se esquecem do que são e a quem devem representar. No entanto é imperativo, para ser justo, parabenizá-los pela aprovação do projeto que cria o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Trata-se de um avanço da nossa legislação, que fica, a partir de agora, mais moderna e condizente com a realidade da sociedade brasileira. A hipocrisia que geralmente prevalece no Brasil quando se discute a questão das drogas deu lugar ao bom senso. É uma surpresa bastante bem-vinda. Tomara que essa ousadia e essa coragem de enfrentar as críticas dos setores conservadores se expandam para outros campos de atuação do nosso Congresso Nacional. Desta vez, os deputados estão de parabéns." 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 

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São Paulo, sexta-feira, 28 de novembro de 2003

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PAINEL DO LEITOR

Drogas 
"A leitora Neli Aparecida de Faria, em carta publicada nesta seção em 10/11, defende que são os "usuários sociais da droga" que "alimentam os traficantes", ecoando assim o senso comum predominante. É claro que os usuários têm uma parcela de responsabilidade no problema, mas vê-los como "financiadores" do narcotráfico serve apenas para desvirtuar o debate do seu verdadeiro foco. Antes de mais nada, por que certas drogas são ilegais e outras não?" 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 

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São Paulo, domingo, 18 de maio de 2003

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PAINEL DO LEITOR

Drogas 
"Gostaria de parabenizar a ousadia e a coragem desta Folha por enfrentar o preconceito enraizado na nossa sociedade ao defender a descriminalização de drogas leves ("Dilema das drogas", Opinião, pág. A2, 12/5). Além de tocar na questão da saúde, a Folha poderia ter ampliado o debate para questionar o viés político da criminalização das drogas. 
Seguindo a diretriz da política repressiva norte-americana, nós aqui não avançamos nada no combate ao narcotráfico. A experiência no mundo nos mostra que a política liberalizante é a mais eficaz. Essa é a tendência nos países mais modernos. Suíça, Inglaterra, Portugal e Holanda à frente já implantaram políticas descriminalizantes com resultados bastante positivos. Agora, o Canadá também adota medidas similares. 
O Brasil poderia muito bem voltar-se para esses exemplos bem-sucedidos, adaptando-os à nossa realidade social, econômica e cultural." 
Bernardo Jurema (Recife, PE) 


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São Paulo, sexta-feira, 22 de março de 2002

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PAINEL DO LEITOR

Cristovam Buarque 
"É revoltante a notícia de que o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque está inelegível por três anos. Que lei arbitrária é essa? O governo federal mistura descaradamente propaganda oficial do governo com propaganda do candidato do governo. Aqui em Pernambuco, ninguém sabe quando é propaganda oficial do Estado ou quando é propaganda do partido do governador. Mas só Cristovam é punido. Por quê?" 
Bernardo Jurema (Recife, PE)