terça-feira, 8 de novembro de 2005

Revolutión dans la Banlieu

“O que pode esperar um jovem nascido num bairro sem alma, que vive num imóvel feio, cercado por outras feiúras, por muros cinzentos numa paisagem cinzenta para uma vida cinzenta, tendo em volta de si uma sociedade que prefere desviar seu olhar e só intervém quando é preciso punir, proibir”. (François Mitterand)


Uma das grandes violências que um cidadão pode sofrer é a psicológica; aquela cuja simples lembrança nos causa medo. Uma lembrança que, ela em si, é mais forte do que a razão, pois mesmo sabendo que nada pode acontecer, sentimos medo. Viver nessas condições, ameaçados por pessoas que não sabemos quem são, cujos valores são construídos na base do preconceito e descriminação transforma a comunidade num ambiente hostil, num campo de guerra. Sentimo-nos constantemente ameaçados por forças que desconhecemos e/ou por forças cujas ações são imprevisíveis.

Foi no subúrbio parisiense que, aos 17 anos, aprendi que, ali, eu não deveria olhar ninguém nos olhos. Foi lá onde mais temi polícia e civis. Somente o fato de estar sozinho, próximo a essas pessoas, me causava medo. Não precisava de maiores motivos para temê-los. Bastava estar só.

Isso é viver na banlieu parisiense. Um clima pesado, com habitantes carregados de complexos de inferioridade, de ressentimentos, de medo. O ódio domina; o medo é a conseqüência. São regiões compostas majoritariamente por minorias étnicas, desde africanos do norte a asiáticos. Grande parte desse grupo está desempregada. O local onde moram recebe pouco ou nenhum investimento público com o objetivo de integrar moradores e dar-lhes uma qualidade de vida mais digna e humana. Começam, assim, a guardar e alimentar esse ressentimento com relação ao país em que vivem e seus demais habitantes; sentem-se relegados a um sub-plano. Qualquer raça, excluindo a sua, é motivo para chacota. Todos, então, criam estereótipos e falsas-verdades nutrindo o tão difundido ódio às crianças que ali começam a formar-se.

A banlieu parisiense é carente. Carente de políticas públicas que visem a integrar as diferentes raças que formam o que hoje é a França. Carente de amor de seus governantes. Todos sentem-se perseguidos, sempre. Por isso que, no caso que inflamou a periferia de Paris, havia dois jovens “fugindo” da polícia. Podiam estar fugindo como eu fugiria: com medo do nada, apenas de uma idéia, de uma polícia que estava ali mas que, daquela vez, não buscava encurralar ninguém. O motivo real não saberemos, mas a população decidiu adotar a versão da perseguição porque é isso que eles sentem todo dia!

O Ministro do Interior francês, Sarkozy, companheiro do extremista Le Pen, apenas faz inflamar ainda mais esse grupo de pessoas com suas declarações nazistas de “acabar com essa doença” na banlieu de Paris e de tratar os grupos de “escória”. Qual, então, o poder dessas pessoas senão revoltar-se contra as autoridades? Eles não têm representatividade parlamentar, não têm suas necessidades devidamente atendidas pelo poder público e sentem-se marginalizados pela sociedade francesa de um modo geral. Eles são “diferentes” .

Como resolver o problema? Para começar, eu acredito que um pedido de desculpas da ala mais à extrema direita (Sarkozy) do governo possa acalmar os ânimos na periferia. Em seguida, uma injeção de políticas públicas no sentido de criar oportunidades para essa juventude de modo que se ocupem; políticas que agreguem as diversas etnias que hoje formam o que é a França. País este cuja foto do time campeão mundial em 1998 ilustra bem o melting-pot que se tornou: martinicanos, argelinos, romenos, surinamianos (?), costa do marfiniano (? hehe). Diferente da realidade do país, o time se abraçou e, juntos, todos brilhando, atingiram o topo do futebol mundial.

Integração, Respeito, Oportunidade... Fraternité, Egalité, Liberté.

Sugestão: assistam ao filme “La Haine”`(O Ódio) de
Mathieu Kassowitz. Retrata bem isso que vemos hoje. O filme é de 1995. podia ser
de hoje...

14 comentários:

Bernardo disse...

valeu pelo texto! jogou luz nesses eventos complicados. O triste é que a esquerda francesa, dispersa, fraticida, fragmentada, não é capaz de canalizar essas insatisfações. Provavelmente quem mais irá lucrar eleitoralmente com isso é o Front National.
Também é lamentável a desmobilização política desse movimento difuso advindo das periferias. É capaz de, assim, ao fim e ao cabo, nada mudar quando os ânimos se acalmem.

d i o g o disse...

Manchete do Jornal Le Figaro: "Sarkozy veut expulser les étrangers condamnés" (Sarkozy quer expulsar os estrangeiros condenados). Como é que pode querer solucionar o problema com esse tipo de atitude? Desse jeito, a violência não vai parar de aumentar.

Anônimo disse...

valeu mesmo.
na correria nem tinha parado pra prestar atenção nas noticias sobre a situação na frança. só um flash o outro da globo...e a globo...você sabe...não ajuda muito. inclusive, muitas vezes..atrapalha.
:/

Anônimo disse...

era eu, ai em cima.
julieet.

Jorge disse...

Curioso isso acontecer num Estado que por tradição, da sociedade civil sobretudo, há uma postura de defesa dos interesses sociais, de resistência a diluição do Welfare State no "pós-queda do Muro de Berlim".
Definitivamente, nós (eles) não aprendemos c/ os erros do passado, ainda que recente, assim segue a intolerância.

Bernardo disse...

eu estava pensando hoje sobre isso jorge. minha conclusão é que talvez tenha a ver com o fato de que nos EUA, por exemplo, desenvolveu-se políticas públicas que visassem inserir os marginalizados ou discriminados - as famosas políticas de "affirmative action". Talvez é a falta de políticas dessa natureza, voltadas para árabes e outras minorias, que tenha criado as condições para o que estamos vendo acontecer agora.

O que vocês acham?

d i o g o disse...

totalmente!
cheguei a discutir bem superficialmente isso daí com kollontai. ela perguntou se na França havia algo do tipo, e não há. ou seja, essas pessoas são marginalizadas pela sociedade como um todo: desde o poder público aos cidadãos comum. resultado: revolta, violência. não há outra saída de ócio para essas pessoas. aliás, deve haver... quem quer consegue algum meio. mas é definitavemente mais difícil de enxergá-la... sei lá... acho que isso tem a ver, sim.

Kollontai disse...

Com certeza Bernardo! Por mais cedo que seja para tirar conclusões fechadas sobre a raiz dos distúrbios em Paris, está claro que ela está relacionada à falta de políticas públicas de inserção de minorias marginalizadas. E não vamos esquecer, “onde um Mohamed não consegue emprego, um Jean Pierre consegue”, por mais que eles morem no mesmo bairro e tenham freqüentado a mesma escola, por isso acho que a nova enquête proposta por Diogo (a respeito das cotas para negros nas universidades públicas) vem bem a calhar nesse momento: É interessante pararmos para pensar onde termina o problema social e onde começa o racial... Não me sinto nem um pouco à vontade para comparar a realidade brasileira com a francesa, então proponho esta reflexão não no sentido de comparar, mas no de aproveitar o tema da discussão gerada pelos eventos lá, para pensar na nossa realidade aqui.

Mal posso esperar pelo resultado da enquête!!!

Jorge disse...

Acredito que o conceito de etnia/origem no Brasil não é o cerne do preconceito. Aqui, a primazia é quanto a cor da pele, a aparência, ou seja, quanto mais próxima do negro, maior é o preconceito. É aquela estória, no Brasil um gota de sangue branco e o sujeito se considera branco, nos EuA um antepassado distante negro, o sujeito é negro. Não interessa se é loiro e branco, nasceu na Argentina, é latino. (estou simplificando um pouco as coisas, claro).
A questão das cotas no Brasil começa pelo próprio país não assumir que é racista, racista anti-negro que fique claro, ser chamado de galego não soa no nosso contexto nunca como uma ofensa. A madame do Leblon é racista, mas o porteiro negro do prédio dela também. Num país que reconhece suas divídas com as minorias as políticas afirmativas não são contestadas da maneira como são aqui. Os argumentos são sempre tipicos de jornalista: tem que investir em educação básica, vai criar mais racismo, os estudantes serão discriminados, enfim todo tipo de problema para impedir DELIBERADAMENTE uma maior flexibilização do acesso a universidade. A Prof. Maria de Aparecida Aquino da USP, atesta falácia destes argumentos, dizendo q no mesmo curso, o pessoal da manhã (geralmente mais novos) tem o mesmo desempenho relativo dos da noite (em sua maioria oriundos de escola pública, q trabalham, etc).
Mas aquela velha estória "quem é negro, ou afro-descendentes no Brasil?" na hora de um benefício é uma polêmcia, na hora de subir pelo elevador de serviço qualquer porteiro sabe distinguir perfeitamente. Eita país facista!!

Jampa disse...

Eu concordo com Tatai: qualquer comparação da realidade francesa com a brasileira corre o risco da precipitação. Eu discordo de Tatai e de Bernardo quando dizem que os acontecimentos são frutos da falta de políticas públicas. Inclusive o texto do Demetrio enviado por Bernardo é curto, mas é muito bom. Nele se vê bem que a violëncia é resultado de uma fratura política e social especifica (da falta de democratização no sentido daquilo que FHC defendia na época da revista Opinião), ou seja, esses jovens mesmo tendo acesso à educação e à saúde, estão fora da dinâmica das escolhas do destino de sua própria sociedade. A sociedade francesa vem a muito dando sinais dessa fratura e acho estranho ninguém fazer correlações com os casos recentes do referendo sobre a constituição européia e do fracasso total do PS nas ultimas eleições presidencias deixando Le Pen ir ao segundo turno. Não existe uma contradição, vista por muitos, com a tradição francesa republicana. Ao contrário, é bem porque as idéias republicanas pertecem também aos mais demunidos dos capitais cultural e político que esses "motins" começaram na França e não em outro país. Se os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade não correspondem a realidade, se eles, ao contrario do que acontece nos EUA, tendem a inibir politicas publicas de "adestramento" dos possiveis rebeldes, é bem porque a idéia de igualdade paira no ar daquele país para todos, e a hipocrisia que reina por lá tem o mérito de tensionar com o impossível ideal republicano francês. Digamos que na disputa trágica da hipocrisia nacional, a francesa é idealista e a americana realista. Mais pelo gosto da contradição do que pelo desgosto do argumento termino falando sobre o Brasil: aqui, tudo parece ser bem pior! Como diz Jorge, país de facistas!

Bernardo disse...

jampa, você não estaria superestimando (talvez eu que os esteja subestimando, me corrija) os jovens pobres da periferias francesas ao dizer que "as idéias republicanas pertecem também aos mais demunidos dos capitais cultural e político"? Diogo, que viveu um ano com essas pessoas, talvez possa esclarecer essa minha dúvida.

Não seriam as políticas públicas de ação afirmativa americanas um modo efetivo, prático, de inserir segmentos sociais até então marginalizados no processo da "dinâmica das escolhas do destino de sua própria sociedade", que segundo você explicaria o que vemos na França hoje? Afinal, lembremos que as políticas de ação afirmativas (ou de quotas, como queiram), abrangem grupos sociais e culturais os mais diversos (negros, "hispanics", asiáticos etc). E ela gera resultados práticos. O prefeito de L.A. é de ascendência mexicana e fala espanhol e inglês fluentemente. Várias cidades americanas têm prefeitos negros ou de origem mexicana ou hispânica. Quantos prefeitos de origem árabe existem na França, hoje?

Bernardo disse...

O problema árabe na França (não sei se se pode generalizar para o resto da Europa) parece ser resultado do que a Ciência Política chamaria de "desenfranchisement" desse segmento social do processo político-democrático. E essa situação seria decorrente da ausência de políticas públicas voltadas para esses setores.

Jampa disse...

Il faut bien s'entendre, o que vocë chama de pragmatismo com resultados práticos pode não dizer muita coisa. Ter prefeitos gays como em Paris, governador exteminador como na California, ect. o que quer dizer? Sinceramente, o que quer dizer Lula presidente da República? Se vc me disser com toda sinceridade que é um indicio de democratização, no sentido de FHC da revista Opinião, naquele do acesso das massas ao político, eu, mesmo discordando de vocË, calarei. Se não for o caso, não dë esses exemplos deslocados pois sabemos que o ängulo do debate dos EUA e da França não se pauta nas mesmas referËncias socio-históricas. Sabemos eu e vc que a politica de cotas tem suas vantagens e incovinientes.Ao elas meu ver se adequam relativamente bem ao tipo de modelo liberal americando. Para continuar com as ideias que pairam no ar de um país, podemos falar da idéia de self made man nos Estados Unidos. Para não ficar apenas com a idéia de Republique Française. Não sou idiota superestimando a "consciencia de classe", ou uma "consciencia replubicana" desses jovens. O que disse é que existe um ambiente onde estas idéias estão presentes e esses jovens não são tão idiotas ao ponto de não as perceber. Tanto isso é verdadeiro que nas entrevistas eles se apropriam desse vocabulario republicano para reivindicar as melhorias, para justificar seus atos. Perguntar sobre o porque na França e não em outros países com mesmo problema não deve, como no teu discurso, levar a entender que na França é pior porque essas coisas aconteceram lá. Talvez as políticas de controle da voz politica sejam mais eficazes num pais onde o controle passe pela idéia liberal de auto-cintrole... Mas isso, são outros quinhentos. Mas meu angulo de analise visava apenas desmistificar essa coisa das politicas de quotas raciais, se não há ainda esse tipo de motin nos EUA, não é apenas por causa da existenciq dessas politicas. Tentar entender as logicas de um Estado intervencionista dentro uma lógica liberal é correr atras do seu proprio rabo.

Bernardo disse...

jampa, mt interessante tua abordagem. eu náo tinha visto desse prisma. valeu!