sexta-feira, 31 de março de 2006

"No hay futuro! No hay futuro!"
"Sí, pinche vieja! Sí lo hay!"
Palocci caiu.


Finalmente, a artilharia oposicionista derrubou mais um. Requentou um monte de denúncias até que o Governo, um dos principais aliados da oposição na promoção desta guerra política, interveio e tornou Francenildo numa estrela. O amadorismo deste Governo impressiona, pois eles conseguem fazer certas coisas que sempre foram práticas comuns na política brasileira de forma tão ingênua que servem um prato cheio à oposição. Precisava quebrar o sigilo bancário do caseiro? E, depois de tê-lo quebrado, precisava divulgá-lo? Tendo feito a merda, ao invés de jogá-la no ventilador, não teria sido mais prudente de, por outras vias que não a divulgação do extrato bancário do cidadão, questionar e colocar em dúvida a credibilidade da testemunha? Afinal, quem paga os advogados do caseiro? E suas passagens para lá e para cá? Quem descobriu esse camarada?

O PFL colocou no ar uma campanha criada por Lavareda que diz tudo: Corrupção e Incompetência, não dá. Eles, os pefelistas e tucanos, mais do que ninguém, sabem que, se for pra ser corrupto, tem que ser competente nisso. E o Governo não tem seguido a cartela direitista e, por isso, são hoje os porta-estandartes da ética e da transparência...
Será que daqui para o final da gestão a turma amadurece?

Eu, que sempre fui crítica do excesso de influência paulista no Governo, vejo com bons olhos essa sacudida, embora ela tenha sido meio forçada e um pouco tardia. Dar espaço, porém, para uma Dilma, um Tarso Genro, um Guido Mantega... sem ter a cobrança de caciques como Dirceu, João Paulo Cunha, Palocci, Gushiken, não é nada mau. Que o Governo consiga encontrar equilíbrio para terminar essa gestão de forma honrosa, na derrota ou na vitória, orgulhoso das melhorias que conseguiu implementar: na economia, na gestão ambiental, no comércio e nas Relações Exteriores....
Vivendo e aprendendo.

Já aqui no Rio, o casal Garotinho chega a ser patético. A propagando do Governo estadual tem sido pesada. Mídia de massa: outdoors, televisão, rádio... A mensagem não podia ser mais condizente com o nível do casal de Garotos: populista e nada informativa!


GOVERNO DO ESTADO: MAIS DE 10 MIL OBRAS!


Legal... foi descoberto que nessa contabilidade de obras há algumas da gestão de Anthony Garotinho, há obras em andamento, obras abandonadas e, inclusive, conserto de postes! Sem entrar no mérito da questão educativa, afinal, em sua propaganda o Governo do Rio não faz questão de informar a seus eleitores que tipo de obras têm sido feitas, quais os benefícios que elas têm trazido ou podem vir a trazer, enfim, ela é totalmente incompleta e elaborada com o claro objetivo de enganar, de impressionar o eleitor menos esclarecido. É patético! A cara do ex-Governador e da pseudo-Governadora.


E que venha a artilharia! Nessas eleições, o bicho vai pegar!

quinta-feira, 23 de março de 2006

A Terra Prometida da casta-média brasileira

O Brasil é um país de 10 milhões de cidadãos e 170 milhões de empecilhos (ou condicionantes) ao seu bem-estar.

O sonho desse setor da sociedade brasileira é um mundo onde os pobres lhes garantam a qualidade de vida que desejam, contanto que permaneçam convenientemente distantes, em seu canto, em seu gueto, em seu devido lugar. Sem incomodar-lhes com seus hábitos estranhos e sua aparência suja. Que não distoem a paisagem, que não atrapalhem normalidade das coisas. Que venham limpar suas casas, vigiá-las, servir-lhes enfim - mas vender trecos ou pedir trocado no sinal da Agamenon ou no Canal de Setúbal, isso não... é feio.

Brasília é o tipo-ideal do conceito urbanístico de boa parte da nossa classe média, ou melhor, casta-média (tal é a imobilidade social em nosso país). É a concretização do "Brazilian Dream".

O plano geral, a concepção ideológica inclusive, da capital planejada foi antecipado na ficção-científica "Admirável Mundo Novo", do autor inglês Aldous Huxley, em princípios dos anos 30 do século passado. O mundo futurista imaginado por Huxley é isolado, asséptico; os seres indesejados, inferiores (social e biologicamente), são tolerados na medida de sua utilidade para o funcionamento "normal" da sociedade, para o bem-estar do "todo" ("everyone works for everyone else (...) we can't do without anyone" é um dos mantras repetidos anos a fio pelo programa governamental de "condicionamento" dos cidadãos do mundo huxleyniano). "The Epsilons don't really mind being Epsilons. How can they? They don't know what it's like being anything else", explica um personagem, referindo-se a uma das castas sociais inferiores.

Quando publicou o livro no entre-guerras, tratava-se de um alerta sinistro diante dos regimes totalitários que então se desenhavam. Mal poderia imaginar o autor britânico que, menos de trinta anos depois, sua previsão se realizaria num longínquo periférico país tropical, na forma da nova capital federal.

Em Brasília, é-se condicionado a aceitar a ordem social rígida em face da rigidez concreta da própria cidade. A organização das ruas, quadras, áreas de lazer, transporte, tudo conspira para a manuntenção hermética, antisséptica, "clean" da cidade. Os habitantes de segunda categoria, socialmente inferiores, vivem em lugares longes, feios e cujo acesso ao "Plano Piloto" (o Admirável Mundo Novo) é restrito às horas de trabalho e aos dias da semana. O metrô (uma linha e umas cinco paradas apenas) siplesmente não funciona nos fins-de-semana. Depois das 22 horas, os ônibus raream; depois da meia-noite, praticamente cessam por completo. O acesso aos "bairros" ou regiões mais nobres (os Lagos Sul e Norte) é ainda mais restrito. O indivíduo não-motorizado e morador das cidades-satélites é um Epsilon.

O DF encerra traços semelhantes ao Admirável Mundo Novo. E realiza o "Brazilian Dream" da nossa diminuta, auto-centrada e mesquinha classe-média. O sonho de qualquer típico cidadão casta-média de metrópoles brasileiras como Rio, Belo Horizonte ou Recife é viver na segregação sócio-racial que só Brasília logrou realizar, com sua rigorosa, quase intransponível, fixação física da hierarquização social.

quarta-feira, 22 de março de 2006

Oposição golpista

A oposição conservadora tucano-pefelê ao Governo Lula tem maioria no Senado e de minoria grande na Câmara, de modo que tem condições de influir decididamente nas votações. Representando interesses econômicos estabelecidos, estes parlamentares expressam setores da sociedade que já dispôem de meios para influir tanto na divulgação de suas idéias, quanto na adoção destas no processo político-decisório. Ademais, contam com amplo espaço na grande imprensa escrita e televisada.

Não obstante essas vantagens de toda ordem, o objetivo tacanho de desmoralização do maior partido de esquerda do Brasil e a tentativa inescrupulosa, porém pífia, de desestabilização do Governo Lula os levaram à adoção de postura populista e que vai de encontro aos interesses do país. Exemplos abundam: a aprovação, no ano passado, pelo PFL, de salário-mínimo que quebraria muitas administrações municipais de pequeno porte; a protelação da votação do Orçamento Geral da União de 2006, que pode comprometer verbas para as políticas públicas; a eleição do Deputado Severino Cavalcanti à presidência da Câmara, há um ano; a onda denuncista anticonstitucional, que visa desestabilizar os bons índices econômicos.

Encampando discurso moralista que, hipocritamente responsabilizando o PT por males sistêmicos congênitos, não muda a situação legal; ou seja, ao substituir, maniqueisticamente, o embate político pelo moral, mantém-se tudo como está, exceto que sem o PT. Muito conveniente. Visa-se a destruição de tudo o que seja ligado à história do Presidente Lula ou à do PT, mesmo que para tanto se despreze o devido processo legal - acusa-se sem evidências, baseando-se em ilações, e cabe ao acusado o dever de provar sua inocência (os dólares cubanos, a conexão-Angola, os dólares do Ministro Thomaz Bastos etc., etc., etc.). Tudo isto, claro, com a conivência, quando não com a participação direta, de grandes empresas de comunicação.

O caso, agora, do Ministro Antônio Palocci é emblemático do padrão de conduta irresponsável e sem escrúpulos da oposição direitista tucano-pefelê. As denúncias contra a gestão municipal do Ministro são requentadas de um inquérito do Ministério Público de São Paulo de há mais de dois anos, que envolve outras cinco gestões, todas do PSDB - mas você nunca saberá disso, a menos que tenha lido a Caros Amigos. No ano passado, os senadores puderam questionar Palocci, com todas as informações disponíveis acerca do que talvez seja a gestão pública mais minuciosamente investigada na história do país, e, mesmo assim, NADA conseguiram provar. O melhor que conseguiram foi, agora, um caseiro - cujo patrão é filiado, de carteirinha (coisa rara!), ao PSDB e cujos advogados são financiados por sabe-se-lá-quem.

A única razão por que a oposição golpista irresponsável da dobradinha PSDB-PFL não derrubaram nem Palocci nem Lula é a popularidade de que goza o Governo, decorrente da percepção popular do sério e consistente trabalho da administração mais progressista e democrática que o Brasil já teve. O povo não engoliu o discurso à la oposição venezuelana.
Oposição democrática

Um dos efeitos concretos da primeira alternância de poder, de fato ocorrida no Brasil, desde o Golpe de 64, foi o revisionismo histórico patrocinado, literalmente inclusive, por setores conservadores da sociedade brasileira - os quais sempre encontraram órgãos de imprensa dispostos, quando não ávidos, a divulgá-lo.

Uma mentira recorrentemente propagandeada é a de que o Partido dos Trabalhadores teria exercido oposição irresponsável no decorrer das décadas de 1980 e 1990, o que revela a total falta de capacidade, ou de vontade, de contextualizar historicamente.

Nos anos 80, o PT era um partido pequeno em sua inserção no sistema político, mas intrinsecamente ligado a movimentos sociais, mormente urbanos, mas não apenas, que até então tinham sido mantidos à margem do processo político-decisório, pelo regime autoritário. O novo partido, organicamente ligado a esse setores populares sem acesso à esfera do poder de decisão, lhes propiciava voz no seio do nascente sistema polítco pós-ditadura. Por se tratar de partido pequeno e popular, sem ligação com setores econômicos fortes, e com escasso espaço na imprensa, era mais do que natural que, no exercício democrático de se fazer representar e ouvir, por vezes gritasse e adotasse medidas tidas, pelo "mainstream" político, como radicais.

Quando posições extremadas foram defendidas, como a abstenção na votação indireta para presidente, em 1985, tal decisão refletia o posicionamento de setores da sociedade, que desejavam eleição presidencial direta, e que, apenas no PT, foi representado; a ação também foi levada a cabo pois foi escolha racional: tendo ainda uma bancada minúscula, tratava-se de marcar posição. Certamente, tivesse o PT uma bancada mais significativa, que tivesse influência no resultado final, e a postura teria sido outra.

Nos anos 90, foi esta força política o canal de expressão política dos setores da sociedade que não se viam contemplados nos governos de viés neoliberalizantes que predominaram durante todo este decênio.

Não é exagero atribuir à existência de um partido orgânico, com práticas partidárias consolidadas, como o PT, o fato de, no Brasil, não termos tido o surgimento de grupos armados contestatórios, como o Peru do Sendero Luminoso ou a Colômbia das Farc, onde os setores marginalizados recorreram à violência para influir no processo político; ou descambando numa crise de legitimidade do sistema, como na Argentina, onde prevaleceu, no jogo político, a visão única do neoliberalismo "menemista", sem espaço para o contraditório, que levou à adoção radical da agenda neoliberal que gerou a crise social de 2002. Graças à existência de um partido, como o PT, enraizado na sociedade civil, os governos conservadores brasileiros dos anos 90 não empreenderam um neoliberalismo extremo.

O PT é uma confederação de movimentos sociais e lhes serviu como canal entre sociedade civil e processo político, além de inserir na pauta da agenda política nacional assuntos de seu interesse. Quando um parlamentar petista defende uma posição no plenário, como a contestação às privatizações ou o aumento do salário mínimo, ela representa o pleito legítimo de movimentos populares ligados a estas causas. Quando vociferava o descontentamento perante políticas adotadas pelos governos direitistas, expressava a insatisfação de segmentos sociais que, de outra forma, não teriam seus pontos de vista ouvidos.

Durante todo o período da reabertura política, a oposição progressista (PT, mais os partidos de esquerda e de centro-esquerda) nunca dispôs de número de parlamentares suficiente de maneira que pudessem influir diretamente nas votações, mesmo as mais importantes, que requeriam maioria qualificada. O seu papel foi, tão-somente, expressar os interesses de setores fora do processo político - o que não é pouco, pois proveu-lhe, assim, de substância democrática.

sexta-feira, 10 de março de 2006

Protecting the socially weak

The conventional wisdom, among the Brazilian middle- and upper-classes, is that there is no racial prejudice, in a clear misconception of Gilberto Freyre's writings. According to the mainstream view, the problem in Brazil has a social character, rather than a race-based issue. Following this rationale, these people - usually white and well-off - oppose any government policy that aims at solving, even if partially, the problem of social and racial inequalities.

This commonplace opinion is deprived, however, of both a sense of reality as well as of a sense of justice. The opponents of affirmative action policies recognize there's a problem - even if they don't grasp it completely - and their proposed solution is to do nothing about it. That is a consequence of a limited interpretation of the issue, reducing it to an economic matter. It is that old, conservative idea that the pie must grow in order to be divided among more people, accordingly exclusively to their merits.

The idea, held as a universal and undisputable truth by the Brazilian middle- and upper-classes, mostly white, is based on false premises and defended only by those who are in a comfortable position to do so.

Poverty is closely linked to race, in Brazil. A recente study by Ipea concluded: "poverty in Brazil has a color, and it is black." Due to poor formal education, the underprivileged tend to continue in that situation throughout their lives. Added to that structural problem, there's the cultural one too. In equal conditions, a black person's wage is lower than his/her white counterpart.

In the long run, it is obvious that the public school system must improve and thus offer better opportunities to the Brazilian poor - most of whom happen to be black.

But, while we prepare the road for the next generations, something must be done for those young poor - and black - Brazilians who pay the price for society's neglect towards public education and the poor. Something must be done, furthermore, to repair the historic injustice suffered by the black Brazilians. When slavery was legally abolished by the Brazilian State in the last quarter of the 19th century, the African-Brazilians were left unassisted, on their own - they were socially marginalized.

It is a cynical position to oppose official measures to help out sectors of Brazilian society who have historically been looked down at by the ruling elites.

Affirmative action policies are not, in an ideal world, something to be aspired to. It is, however, a pragmatic and fair response to accumulated social troubles. It is a policy that aims at social justice and better wealth distribution. Although such policies might, at times, present some flaws, the benefits outweigh the drawbacks. Only when we live in a country in which a poor black person has the same opportunities as a white middle-class person, will we be living in a truly democratic and republican society - but until then, there is a long road ahead.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Verticalização: Bom ou Ruim?


A Verticalização das alianças eleitorais estão em discussão há algum tempo. A questão é: ela é importante? Por quê? Como? E para quem?

Os partidos eleitorais tomam posições imediatas, levando em consideração a conseqüência imediata da adoção daquela medida para o coletivo. O Coletivo maior, ou seja, a sociedade e seus interesses, são postos a margem e o debate torna-se eleitoreiro e, pior, imediatista.

Este fator é um dos principais motivos pelo qual o Brasil não avança mais do que poderia; por ignorar a adoção de medidas transformadoras e que sacodem o status-quo. Pior do que verificar um aumento pífio do PIB nacional, ou um ligeiro aumento na taxa de desemprego, é constatar a não-evolução da classe política brasileira e sua falta de interesse em tomar decisões em pró do povo que a elegeu.

O que é a Verticalização? Por que somente agora ela volta a cena (se bem que esse confronto já estava previsto)? Será ela uma medida transformadora?

Particularmente, acho uma pena estarmos voltando à discussão desse tema. Penso que essa discussão faz parte de uma coisa maior, de uma Reforma Política que, neste e em outros governos, foi ignorada.

Ações pontuais quando a situação é crítica é muito válida. Principalmente se por trás há uma discussão de um projeto mais amplo e abrangente. No entanto, no caso da Verticalização, vemos um monte de políticos pensando já em seus futuros em Outubro e ignorando um todo maior do qual a verticalização faz parte.

E nós somos os bestas que temos que aturar todo dia notícias sobre a verticalização nos jornais. De um lado, uma classe política corporativista e egocêntrica; do outro, um Tribunal fazendo-se de justiceiros. O final disso tudo, nós já podemos imaginar...

domingo, 5 de março de 2006

O não-carnaval de Brasília

Algumas pessoas têm me perguntado como é o Carnaval de Brasília. A resposta é simples: não é, ele não existe. É o não-carnaval de Brasília.

Nesses dias, me lembrei do Carnaval de 2002, quando passei bem longe das ladeiras de Olinda, nas alturas andinas do Carnaval de Oruro, "patrimônio cultural da humanidade" declarado pela Unesco (te cuida, Olinda!). Fui lá com a mente aberta, tentando ao máximo evitar comparações e curtir a festa. Foi depressivo. As marchas de instrumento de sopro e os desfiles ao estilo do Carnaval carioca - numa versão muito mais simples, sem nada disso de patrocínio da PDVSA - tornaram inúteis meus esforços de relativismo cultural. É bonito, é simpático e tal, mas, lo siento, aquilo ali não é carnaval. No máximo, uma parada alegre.

Carnaval mesmo, e aprendi isso desde cedo, é o Carnaval de Olinda. Tendo pais foliões (já saíram até de anjinhos no Jornal Hoje, há alguns Galos da Madruga atrás), fui bem escolado. Mas seria, independentemente disso. Me dei conta, aqui em Brasília, tendo contato com pessoas oriundas das várias regiões do país, que poucos lugares no Brasil atribuem ao Carnaval tanta importância quanto o pernambucano. Até o fato de eu dizer "brincar carnaval" foi motivo de comentário - me senti o próprio aborígena: "Olha só, como ele fala, que engraçado".

No ano passado fui passar o Carnaval em Recife - por razões outras que não a data festiva, diga-se. Finalmente caiu a fichinha: eu não sou folião. Fui para Olinda no sábado de manhã. Às 16h já não agüentava aquele apertado, aquele calor, aquele melado que era mescla de suor meu com o alheio e mais outros líquidos que é melhor nem saber, aquela zoada, aquele empurra-empurra que destrói qualquer livre-arbítrio remanescente do controle social. Na terça-feira à noite tentei mais uma vez, afinal, é carnaval. Fui ao Recife Antigo - ou Bairro do Recife, como preferem os puristas. Chegar lá requer todo um planejamento, mas tudo bem, afinal, é carnaval. Estando lá, depois de uma dose de vodka começo a curtir, até me perder da minha turma no meio da multidão. Sem problema, outra dose de Absolut. Tentativa de roubar o celular do meu pai, que eu tinha, contra as recomendações maternas, pego emprestado, frustrada pela minha determinação. Mas minha dose caprichada de Absolut se foi pelos ares e meus joelhos ficaram afolosados. Assim foi o fim - melancólico, é verdade - do meu último carnaval.

E quando eu saía de lá, contra o fluxo infinito e contínuo de foliões alegremente alegres, eu pensava - como é que eu nunca tinha me dado conta antes de isso não é pra mim? Minhas melhores lembranças do Carnaval de 2005 foram o dia que passei com meu afilhado na piscina na casa do meu tio em Maria Farinha, e ter visto "Sideways" com um amigo no Tacaruna. Enquanto isso, meu irmão passou todos os dias - todos! - da folia em Olinda. Não concebo isso. Só tem uma explicação: sofri, durante anos a fio, lavagem cerebral intensa. A pressão para se gostar dessa festa, em Pernambuco, é incrível. Vem de todos os lados. Mídia, amigos, família. Todo mundo tem que brincar carnaval, todo mundo tem que estar alegre, saltitante, e frevar sempre que tocar o tararã-na-nã-na-nã... Tal qual a aldeia de Asterix na Gália dominada pelos romanos, eu me rebelei: em Pernambuco todos brincam Carnaval... Todos? Não! Uma pequena aldeia resiste...

Odeio me fantasiar, odeio gente suada - ainda mais desconhecida - me tocando, não suporto cerveja quente, detesto refeição anti-higiênica no meio da rua e debaixo de sol de rachar côco, acho o Eu Acho É Pouco um saco (talvez perca uns 20 amigos por adimitar isso publicamente!), e o único bloco no qual eu sairia, não por acaso nunca sai (o Bumba Meu Ovo)... O melhor mesmo do carnaval é, depois do fato consumado, ler o relato de Cecília e ver as fotos, no blog dela (www.aportadarua.blogspot.com). Me dou por satisfeito. Ela é, para aqueles que não conhecem esse blog, a Danuza Leão da minha geração!

Este ano, estava no lugar certo. Não senti a menor saudade do caos de Olinda. E curti a tranqüilidade típica de Brasília, que ficou ainda melhor já que quaisquer foliões que possam existir nessa cidade tinham ido para o seu devido bloco, trio ou escola, em Recife, Salvador, Rio, ou seja lá onde se tenha esse tipo de manifestação cultural. Curti a bucolidade brasiliense, indo para as aulas (sexta, sábado, segunda, terça, quarta...) normalmente e, no tempo livre, lendo literatura ou indo ao cinema. Ano que vem convido a todos os meus amigos a passarem o não-carnaval mais tranqüilo do país aqui comigo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

E se fizermos nossa própria pauta de notícias?

A imprensa, ao basear-se em critérios deturpados ou deturpantes acerca de o que é notícia, dá muito mais ênfase às más notícias, em detrimento das boas. A "Carta Capital" (www.cartacapital.com.br) dessa semana nos traz um exemplo de que não tem que ser assim, dando destaque, em matéria de capa, à nova lei aprovada na Câmara (PL 4776/2005) que estabelece um novo modelo de exploração de florestas na região amazônica.

O projeto de lei (PL) é resultado de três anos de intensos debates públicos entre o Governo e os vários agentes sociais e econômicos com interesses na floresta, em todo o território nacional. É inovador, portanto, na forma como foi concebido: não foi imposto, de cima para baixo, mas sim exaustivamente negociado com os diferentes setores envolvidos.

A grande inovação, no entanto, é a concepção ecológica moderna, conseqüente e progressista que apresenta. Busca-se a preservação do meio-ambiente, levando em conta as necessidades de desenvolvimento econômico das populações nativas. O PL de Gestão de Florestas Públicas torna possível a concessão de áreas florestais (nunca maiores que 2500 hectares), por meio de licitações públicas e do pagamento de "royalties", para a exploração sustentável. Mais: a cada área concedida a uma empresa, ao Governo cabe oferecer o dobro de terras para uso comunitário ou familiar ou para unidades de conservação. Frise-se: não se trata de "concessão de terras" e sim de "concessão de usos de florestas".

O PL é ambicioso e abrangente (recomendo a leitura do artigo da revista). Prevê o engajamento de Estados e municípios, que ganharão verba com as "royalties" e passarão a ser agentes diretamente interessados na preservação da floresta - o que não ocorre atualmente. Há também o fortalecimento das instituições estatais da área ambiental, por meio de concursos públicos e maior responsabilização.

No ano passado, pela primeira vez em mais de dez anos, houve uma queda no desmatamento. O que mostra que o Ministério de Meio-Ambiente (MMA), da ministra Marina Silva, está no caminho certo.

Esse caso do MMA é emblemático deste governo, e desmente o discurso da oposição raivosa, composta pela direita oportunista e pela esquerda inconseqüente. Esta reclama que o Governo Lula não é de esquerda: engana-se, em sua cegueira ideológica. A história desse PL mostra que para que ações progressistas sejam alcançadas, num país plural, democrático e conservador, como o nosso, faz-se necessário muita negociação.

A direita oportunista-golpista acusa o Governo Lula de não ter projeto. É desmentida pelos fatos. O projeto de governo popular significa que os programas governamentais sejam construídos coletivamente. Este governo deu início às conferências temáticas, nas áreas de saúde, educação, meio-ambiente, mulheres, negros, entre outros, incluindo os movimentos sociais e populares e ONGs no processo de elaboração de políticas públicas - algo inédito no país. Ao mesmo tempo, a sociedade civil organizada torna-se mais fortalecida, e o governo, mais democrático.

O projeto tucano-pefelê, imposto goela abaixo da sociedade brasileira, nos anos 90, sem maiores debates públicos, consistia na alienação do parque industrial nacional e no esfacelamento do Estado brasileiro. Grande projeto.

O projeto ora em execução é construídos com a sociedade e passa pelo fortalecimento do Estado nacional. Muitos serviços públicos, quando não extintos ou precarizados, no governo anterior, passaram a ser prestados por terceirizados. O atual governo reverteu essa tendência.

A retomada da popularidade do Presidente Lula se deve a fatores de ordens as mais diversas. O fato de ser o seu governo o mais aberto à participação direta de movimentos sociais e populares é um deles, sem dúvida. O PL 4776/2005 é emblemático de um fenômeno que ocorre em outras áreas do Governo Lula. É importante que todos aqueles que se dizem de esquerda atentem para este fato, e não sigam, cegamente, a pauta determinada pela grande imprensa.

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Trabalho duro e sorte - ou, cinema e a vida

Engraçado como a experiência de ver um filme pode mudar consoante o momento de nossas vidas em que o vemos, o que pode nos levar a gostar mais ou menos do filme, ou a dar mais ênfase a algum aspecto em detrimento de outros. Tudo por conta das circunstâncias específicas em que estejamos vivendo. Somos condicionados pelo nosso contexto, como diria um certo sociólogo (que não sou eu).

Uma semana antes das provas das primeira e segunda fases do concurso, assisti o documentário "What the bleep are we?" (www.whatthebleep.com). Resumindo (e muito), o filme mostra como no passado paradigmas tidos como a verdade absoluta pela humanidade foram provados falsos pela ampliação do conhecimento científico (o mundo é plano, o Sol gira em torno da Terra...). Baseando-se em física quântica, o filme propõe reflexão sobre novos parâmetros para a realidade. A mensagem final é que nós somos co-autores do mundo, que não existe independentemente de nós. Nós somos capazes de fazer o nosso futuro, e a realidade é aquilo que nós escolhemos que ela seja. Claro, tudo isso fundamentado cientificamente.

Gostei muito do filme. Por um lado, porque é bom, informativo, inusitado. Feito de forma didática, não é restrito aos iniciados. É provocante, faz pensar em vários assuntos. Por outro lado, acho que gostei mais pelo momento em que vivo. Estava a uma semana das provas. Fazer concurso não é uma experiência divertida (não recomendo a ninguém... principalmente se for concorrer comigo! Até nossas piadas giram em torno disso, horrível.) Ao contrário, emocionalmente é complicado. Esse filme foi inspirador. Em outras circunstâncias, porém, teria ele me tocado tanto?

No dia antes das provas (na sexta-feira), assisti "Match Point", o novo de Woody Allen. Filmaço. Não tem nada a ver com o Allen a que estamos habituado - exceto pela certeza de que se vai ver um bom filme, característica que permanece. Trata-se de um thriller psicológico, passado em Londres. S. Johanson consagra-se como a atriz mais gostosa da atualidade. E, já que N. Kidman decidiu só fazer filme borocochô ultimamente, é a melhor atriz gostosa em atuação (perdendo, talvez, apenas para Naomi Watts). Não vou falar muito sobre o filme para não estragar as surpresas que ele apresenta para o espectador. Mas, em termos de valores, é complementar ao filme que eu havia visto anteriormente a este (o documentário). Sua mensagem é, ok, trabalho duro é fundamental... mas sorte é indispensável!

Depois de meses de preparação para o concurso (trabalho duro), caíram algumas perguntas sobre "Os sertões", que eu estava lendo (sorte). Se bem que tem aquele jogador de baseball que falou algo como - "incrível, quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho". Talvez, mas o incrível é o quanto eu gostei desses filmes, e me pergunto até que ponto isso se deu em decorrência do que eu estava passando. Em tempo, ficam as sugestões desses dois ótimos filmes - principalmente se você estiver trabalhando duro por um objetivo, e precisando de um pouquinho de sorte.
Diplomacia e sociedade civil

A relação entre diplomacia e sociedade civil passa, no mais das vezes, desapercebida em meio ao forte apelo midiático dos encontros de chefes de governo. Em países como o Brasil, de democratização recente, a organização da sociedade civil é ainda mais incipiente e desigual, o que torna sua participação em negociações internacionais ainda mais problemática.

A fraqueza da sociedade civil indica que o processo democrático se encontra ainda em vias de consolidação. Implica, ademais, menor grau de representatividade dos setores sociais, mormente aqueles com menor poder econômico. Em geral, esse é o caso dos países da terceira onda democrática, grupo ao qual pertencem quase todos os países da América Latina, o Brasil inclusive.

O processo de negociação internacional é complexo, entre outras, por dar-se em dois níveis: interna e internacionalmente. No nível doméstico, o governo busca o consenso. Concomitantemente, negocia-se no nível internacional. Ao fim, o acordo entre governos deve ser ratificado domesticamente, em geral pelo Poder Legislativo, em cada país. Todo governo negocia no plano externo condicionado pelas pressões advindas tanto na instância legitimadora como do eleitorado ou da base social de apoio.

Esse processo negociador complexo em dois níveis torna-se tanto menos flexível para o governo quanto mais democrática for a sociedade. A falta de participação da sociedade civil organizada leva, conseqüentemente, à elitização das negociações internacionais, favorecendo os grupos de maior poder econômico.

Quando países com graus de abertura democrática bastante diferentes negociam, o contraste põe em evidência o ponto em questão. O Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) foi assinado na primeira metade da década de 1990 por Canadá, Estados Unidos e México. Os dois primeiros já dispunham de relações comerciais especiais. Tratava-se de incluir o vizinho do sul. Neste, o projeto de liberalização comercial encontrou pouca resistência nas esperas poíticas concorrentes pela ratificação, a despeito de certos setores sociais mexicanos temerem os efeitos econômicos potencialmente distorcivos da iniciativa. Prevaleceu a vontade dos segmentos econômicos organicamente ligados aos detentores do poder político. Nos Estados Unidos, por outro lado, o Governo Clinton enfrentou acirrada disputa política. Diversos grupos sociais ligados a interesses ambientais ou trabalhistas, assim como vários setores econômicos, principalmente o agronegócio, receavam os efeitos da integração comercial com um país mais pobre e com legislação que não protegesse tanto o o meio-ambiente e os direitos trabalhistas quanto a americana. O Nafta foi aprovado no Congresso Nacional americano por pequena margem de votos.

Maior grau de influência popular sobre a elaboração e a execução da política externa brasileira é algo desejável porque, embora venha a tornar mais difícil o trabalho do Governo e do Itamaraty no âmbito das negociações internacionais, aproxima-la-á do verdadeiro interesse nacional. Apenas na medida em que a sociedade civil brasileira atinja níveis mais elevados de organização, o déficit democrático das negociações internacionais tenderá a diminuir.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

mombojó vem aí

Sem formulazinha de sucesso, sem forçações de barra piegas, sem invencionices pedantes, sem rebuscamentos cabeçóides. O novo disco da Mombojó mostra um som mais maduro, coeso, com identidade e personalidade próprias. Uma mesma música tem "climas" ou passa sensações as mais diversas. São, a um só tempo, divertidas, tocantes, alegres, emocionantes, românticas. Atentos à música que se faz no mundo, não por isso renegam suas origens. Vemos aqui novamente a riqueza de influências musicais que marcou o primeiro disco, dessa vez melhor apresentado (tecnicamente falando). O disco é multidimensional, assim como o grupo, e rotulá-lo seria impossível, porque reducionista.

Resumindo a razão da qualidade - e decorrente reconhecimento de crítica e público - do trabalho da banda: ela é contemporânea, ligada à sua época. Isso em todos os aspectos.

Um diferencial da Mombojó é que sua contemporaneidade e originalidade não se restringem à música que fazem. Ao contrário, são uma continuidade, extensão - estão presentes tanto no estilo de vida dos seus integrantes, relaxados, alegres, intelectualmente autônomos, sem preocupação com padrões de qualquer ordem, quanto, sobretudo, na atitude profissional. São engajados politicamente - em 2002 participaram voluntariamente da campanha do partido político que apóiam (num tempo em que política ainda é visto por alguns como algo "careta"). E, agora, ao assinarem com a Trama, mantém a postura independente. As músicas da banda estarão sob o "copyleft" (em contraposição ao "copyright" tradicional), o que significa que baixar, copiar, utilizar as músicas de Mombojó não consistirá em crime (desde que se cite a fonte).

"Eu quero mudar o mundo, mesmo que não ganhe nada com isso", diz um refrão de umas das músicas novas. Em tempos de FSM, nada mais atual. E, se mudar a indústria musical, atualizando-a, ainda que não mude o mundo, já é um bom começo.

O disco será lançado em abril. Fiquem atentos: vai dar o que falar. O binômio música boa - atitude progressista continua sendo a marca da banda.

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Contextualizando, Mombojó faz parte de um movimento mais amplo, que começa lá atrá com CS&NZ e a mundo livre s/a. É um movimento cultural cuja atitude vai de encontro ao discurso do oprimido, do fraco. Diante de novas circunstâncias ("globalização", ou qualquer nome que se quiser chamar), há grupos que, frente ao novo, ao desconhecido, têm medo e, numa mentalidade conservadora, adotam discurso tradicionalista, de defesa contra a suposta ameaça externa (o discurso quasi-xenófobo de Ariano Suassuna é o arquétipo intelectualmente melhor acabado desse caso).

Esse movimento, do qual Mombojó é herdeiro, surgido nos anos 90, mostra que não tem que ser assim. Pernambuco, apesar de ser a "periferia da periferia" (econômica, cultural, política), tem sido um celeiro de criatividade artístico-cultural. Não estão preocupados em pregar valores, ao menos não os tradicionais. Não revindidicam representar, ou se apropriar de uma cultura, mas expressar várias, livre de amarras. Transcendem fronteiras culturais. Trata-se de cosmopolitanismo sadio, que, aberto ao mundo, não renega suas raízes, mas tampouco se fecha nelas, no que seria um provincianismo doentio e retrógrado - não estranho a alguns dentre nós.

Tomando emprestado conceitos da literatura, Mombojó, a um só tempo, evita o romantismo idílico da música regional, e foge a um parnasianismo estilístico artisticamente estéril, que se preocupa apenas com a forma em si (a música eletrônica pela música eletrônica, por exemplo). Sua música é um todo coeso - conteúdo e forma são uma síntese do amálgama do grupo, expressão autêntica e autóctone do septeto.

nós na rede

eu quero uma rede,
pra nos balançar.
mas não posso furar
essa parede.

o quarto é alugado,
e quando eu sair
(se tiver pra onde ir)
tenho que deixar tudo arrumado.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

canto nenhum

Não agüento mais esperar a morte
Vou sair por aí, tentar a sorte
Vou cantar o amor, escrever poesia
Qualquer coisa que me dê 3 minutos de alegria.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Internet Governance

The debate over Internet governance is rather recent and indicates its wide-ranging scope and economic, social and political implications. It is not surprising, therefore, that 175 countries met at the World Summit on the Information Society (WSIS), in Tunis, a couple of weeks ago, to discuss the issue, among others.

According to press reports, the meeting’s most relevant fact was the movement, led by several countries, that is pressing for some kind of international legislation over Internet governance. The group, formed by countries such as Brazil, China, Iran, India and Cuba, argues that no one country in particular should control the Internet; instead, they claim, there should be an international authority, under the United Nations umbrella, to rule it.

As it was reported by the media, it seemed yet another round of the struggle between developed and developing countries. In fact, it is the consequence of technical and historical misconceptions.

The reason why the infra-structure that makes the world wide web possible is located in U.S. territory is the fact that this technology was financed, created and mainly developed there. Furthermore, it was conceived with the very idea that it should be an autonomous system.

So, what are the real motivations behind this lobby group? For democratic countries, like Brazil, it is probably due to backward ideological reasons. But for authoritarian regimes, such as China, Iran or Cuba, it seems obvious that it’s political purposes. The free flow of information in the web goes against these (and others’) regimes’ political interests. And such countries exert great power with the U.N. bureaucracy.

It seems reasonable that there should be some sort of international accountability for Internet governance. The question is whether the U.N. is the solution. Perhaps a more appropriate institution to oversee it would be the World Trade Organization. First of all, its members are, in general, freer, more open societies. Secondly, the WTO has proven to be fair and effective to rule global commerce and disputes.

Given the decentralized, uncontrolled nature of the net, it is arguable, to say the least, whether Internet governance should be an issue at all in a U.N. summit. If countries really intend to find solutions and empower their citizens, there are other measures that can be taken, and which the U.N. could help.

On one hand, Internet access should be more democratic, more widespread around the world. Brazil’s “Digital inclusion” program, which offers computers at a low cost to poor families is a creative and simple idea that goes in the right direction.

On the other hand, the use of open-source software must be encouraged. First, because it requires much less of taxpayers’ money; secondly, because it makes information technology more readily available for the population; and thirdly, open-source software impends the appearance of scientists and knowledge-based inventiveness and development. Again, Brazil is a good example to the world, as the federal government, as several local governments as well, have done by opting out of the expensive copy-righted software and adopting open-source ones.

What must be clear is that any real attempt to make the web more democratic does not demand more or new bureaucracies to oversee it; instead, it requires that more people have the means (intellectual and material) to access the net.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

2 sonhos


1. Disputa entre João Paulo (PT) e Marco Maciel (PFL) para o governo do Estado. Com JP ganhando, claro. Seria emocionante. Como em 2000. De quebra, Luciano Siqueira no Senado.


2. Filmagem da história da briga entre a família de Antônio Conselheiro, os Maciéis, e os Araújos, no interior do Ceará do século XIX, na qual aquela foi massacrada por esta. Sob a direção de Steven Spielberg. Roteiro: Euclides da Cunha. Seria um filmaço.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Vamos Debater?
Todo tipo de debate, desde que minimamente qualificado, é importante para todos que discutem. Absorver um pouco de uma realidade que não é a nossa e buscar entender seus motivos, suas posições e valores nos transforma em pessoas mais sensíveis a uma verdade que não é a nossa. Discutir é bom, independente de ser política, futebol ou mulher; ao contrário do que muitos defendem, essas coisas são, sim, discutíveis.

Podemos cair no “tudo é relativo”, mas conhecer as relatividades, as diversas posições possíveis com relação a determinado tema, é isso que nos faz crescer como pessoas.

Entender os motivos de uma mulher que decide prostituir-se como meio de vida e sensibilizar-se por seus direitos de cidadã não é menos legítimo do que se nos referíssemos a outra classe, como a de uma doméstica, ambulante, juiz ou deputado. Quem define o que é e deixa de ser moral? Quem define, e baseado em quê, o que é e não permitido? E o que é permitido, por que o é? Em benefício de quem e de quantos?

Embora seja necessário um aprofundamento do debate sobre a regulamentação da prostituição no país, a idéia de garantir os direitos de cidadãs marginalizadas me é simpática. Evidentemente que não podemos regulamentar se for para causar o que aconteceu em Berlim: uma jovem desempregada estava ameaçada de perder seu seguro-desemprego por ter recusado um emprego cujo requisito, entre outros, era o trabalho sexual. Não podemos exigir que todos tenhamos vontade de vender nosso corpo, mas podemos garantir o poder de escolha.

A prostituta, hoje, é uma escrava urbana. Elas prestam serviços a uma elite, garantem a sustentabilidade de um cafetão e não têm muita coisa em troca ou de benefício social referente à atividade que praticam. Por quê?

Antes de defender a regulamentação da prostituição, defendo que paremos para pensar sobre a situação desta classe e sensibilizar-nos quanto a suas necessidades sociais. Afinal, elas são gente; gente da gente, como a gente.

As reivindicações do grupo são em favor dos benefícios sociais, como têm os autônomos, para a classe. Elas poderiam funcionar como autônomas ou como funcionárias de bordéis. O interessante é regulamentar a profissão de modo que elas não sejam mais vítimas do poder financeiro dos cafetões. Regulamentar para tornar este serviço, inclusive, mais seguro: para prestadores de serviço e seus consumidores. É você saber seus direitos e deveres nesta relação, reduzir a violência nesta atividade e inserir a classe à sociedade.

É melhor discutir do que ignorar uma realidade que existe desde sempre. Já há países dando esse passo a frente, como Holanda e Alemanha, e provando que a regulamentação dessas atividades dignificam a pessoa garantindo-a seus direitos de cidadã.

O mais me chamou atenção na enquête realizada foram os 7,69% que dizem não estar nem aí para a regulamentação. Estes ignoram uma necessidade que, obviamente, não é a sua; e assumem uma posição avessa, inclusive, à discussão do tema.

domingo, 22 de janeiro de 2006

Hostilidades

1. Estava eu indo fazer meu cooper diário, aproximando-me do Parque da Cidade. Vestia uma camisa vermelha, das eleições de 2004, estampada com os nomes de Luciana Azevedo (Vereadora 13813) e João Paulo (Prefeito 13). Ia eu, correndo sossegadamente, quando um velho barrigudo passa numa velha bicicleta e, ao curzar por mim, solta: "O PT morreu". E segue pedalando. Covarde. Nem tive tempo para reagir. Foi-se.

2. Novamente, estou eu no meu cooper habitual, à época com meu cabelo longo e a barba crescendo. Espero o sinal fechar para atravessar as seis faixas do Eixo Monumental. Nisso, passa uma kombi, a alguns metros, cujo cobrador grita, de súbito: "Homem da caverna!". Passei um bom tempo rindo sozinho.

3. Outra vez correndo, outra vez indo na direção do Parque. Uns jovens num Chevette anos 80, ou seria 70? - não entendo de carros -, passam por mim, outra vez no Eixo Monumental (Brasília tem uns nomes assim, meio estranhos, pretensiosos, pedantes, ou todas as opções acima). Um deles grita, agressivamente: "Viado!". Não entendi essa aí, até agora.

4. Nos primeiros metros da corrida diária, no descampado que tem no caminho para o Parque, deparo-me com um vira-lata. Em geral, mantenho distância de animais de rua - são sujos, aprendi desde cedo em casa. Mas esse era lindo - preto, brilhante, saudável. Esbocei uma aproximação, estendi a mão. Interpretei uma reação favorável da parte do bicho: ele acelerou seus passos na minha direção. Interpretei errado. Aqueles belos caninos brancos definitivamente não era um sorriso! Ele começava a correr atrás de mim. E mais: ele não estava só. Era uma manilha de vira-latas. Eram três, no total. Três animais selvagens, correndo atrás do transgressor (eu!) que invadia o território deles. De súbito, senti-me num programa do Discovery Channel, e eu não era o predador. Desde que comecei a correr, esse foi o dia em que realmente tinha razões concretas para fazê-lo. E como corri.

5. A alguns metros do meu bloco, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Maria (ou alguma variação dessas palavras, não necessariamente nessa ordem), tem, novamente no caminho para o Parque da Cidade, um gramado com umas árvores, em geral não muito altas (porque não muito antigas). Uma das coisas que me fascina em correr é a variedade incrível de pássaros que sempre vejo no caminho. Tem um com uma cauda longa que se abre em forma de "V" quando ele voa. Sempre achei lindo esse bicho. Até que, nesse dia, observei que um deles vinha descendo em minha direção. Descendo velozmente. Muito velozmente. Na verdade, velozmente demais. A ficha demorou alguns segundos para cair. Mas era isso mesmo - ele dava vôos razantes sobre minha cabeça - eu era realmente o alvo. Corri feito um louco. Passada a ameça da Natureza, olhada básica em volta, retomada do ritmo de cooper, aquela cara de tacho do tipo "não aconteceu nada, imagina", sorriso amarelo, e segue em frente. E o pensamento inevitável - "ainda bem que não estava em Recife - com certeza alguém conhecido teria visto a cena". Mas também, lá só tem pardais.

6. Caminhando no meu bloco, indo almoçar. Duas crianças vêm na direção contrária. Uma delas, de uns cinco ou seis anos, me olha, pára um segundo e exclama - "ai, um lobisomem!" - e sai correndo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Fuck-up

if you wanna be a fuck-up

just be it, i don't care

but my life is fucked up enough

without you being there

so if you wanna be a fuck-up

please be it elsewhere

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

A Folha de Coca – uma causa emblemática

A discussão sobre a política repressiva americana contra a folha de coca é emblemática de uma política externa intervencionista. A intenção dos gringos, assim como antes ao combater o Comunismo, depois o narcotráfico e hoje o terrorismo (ou ambos, como na pobre Colômbia), não é nunca resolver o problema, mas sim perpetuá-lo para justificar a política de interferência nos assuntos internos de países em desenvolvimento, mantendo-os assim sistematicamente dependentes econômica e politicamente.

A luta pela soberania política da Bolívia, por exemplo, passa justamente pela possibilidade de manter uma tradição milenar – o uso da folha de coca – que virou droga justamente nas mãos do “homem branco”. Para que a folha de coca vire uma droga, são necessárias toneladas de folhas que devem passar por um rigoroso e complexo processo químico, que requer químicos que a Bolívia nem sonha em produzir... A produção e comercialização da cocaína exige muito dinheiro, a importação de precursores, influências, contatos internacionais que estão fora do alcance das vítimas da política repressora anti-drogas norte-americana – os pobres agricultores bolivianos, peruanos, equatorianos (que muitas vezes são cooptados para o narcotráfico por pura falta de alternativa – alternativa essa que talvez existiria se parte dos recursos utilizados na repressão fossem dirigidos ao incentivo de novas culturas ou na pesquisa do uso medicinal da folha de coca). No entanto, os produtos químicos vêm – adivinhem de onde! – de países desenvolvidos como os Estados Unidos, por exemplo. Por que não se combate a base do problema? Porque o fato de a cocaína ser ilegal a torna mais cara. E a importação desses produtos gera divisas importantes para essas empresas sediadas nos países ricos. “It’s the economy, stupid!”, como diria Clinton. Além do que, a folha de coca não é a única fonte de cocaína (Wara wara e Chiuchi Coca são outras fontes encontradas nas florestas amazônicas, e dizimá-las seria impossível).

A folha da coca tem muitas propriedades; ela poderia ser explorada para fazer inúmeros medicamentos que melhorariam a qualidade de vida da humanidade, ou pelo menos do povo sofrido da Bolívia: anti-diabéticos, digestivos, tônicos, antialcoólicos, anti-tumorais, oftálmicos, hipertensivos... A lista é imensa, não pára aí. Imagine só, a folha de coca como base disso tudo. A patente seria latino-americana. Os royalties não iriam para nenhuma multinacional norte-americana ou européia. Um absurdo, de acordo com o modelo econômico vigente. Nossa gente não pode produzir esse tipo de coisa! Nosso papel no modelo é prover o sistema com mão-de-obra barata e desqualificada e ser mercado consumidor dos produtos manufaturados vindos de lá longe. Que ousadia essa, hein, querer criar nossos próprios remédios!

A folha de coca era usada na avançada medicina Inca como anestesiante. As folhas também são usadas até hoje para se prever o futuro, como no Brasil se usam búzios (imagine a revolta na Bahia se os americanos chegassem lá proibindo o uso dos búzios!). Quando os espanhóis escravizaram os indígenas dos Andes, forçando-os ao trabalho em condições sub-humanas, era a folha de coca que os dava força e sobrevida. A folha de coca “engana” a fome e afasta o cansaço. Além disso, ela é boa para a digestão e para a respiração (uma questão importante quando se vive em um país onde muitas cidades estão bem além dos 4,000 metros acima do nível do mar), e ainda está para se inventar um melhor remédio contra o zorojchi (o mal-estar causado pela altitude que aflige nativos e turistas).

O resultado é que a política interna da Bolívia é pautada basicamente pelos americanos. “La Embajada” (que dispensa a especificação da nacionalidade, que já está implícita) age como uma instituição política. Congresso e Governo são tão importantes quanto La Embajada. E La Embajada tem poder de veto. Determinado deputado que não votar como gostaria La Embajada pode ser punido gravemente: perdendo o visto para passar as férias com a família em Disneyworld. Esse é o resultado extremo de uma política que atinge a todos os países em desenvolvimento – o que muda é apenas o grau, não a natureza da interferência.

Se o Governo americano tivesse como objetivo real o combate aos males sociais do narcotráfico e de seus efeitos na saúde de seus cidadãos, a política deveria ser outra. Para começar, deveria ser focada na sua própria casa. Os norte-americanos – e isso já é lugar-comum afirmar – são os maiores consumidores de drogas do mundo: maconha, cocaína, heroína... Existe uma lei econômica básica que qualquer manual de Introdução à Economia irá ensinar: onde há demanda, existirá oferta. É simples assim.

A Bolívia é apenas um caso extremo. Mas vivemos tal problema no Brasil também. Seguindo a diretriz da política repressiva norte-americana, nós aqui não avançamos em nada no combate ao narcotráfico. A experiência no mundo nos mostra que a política liberalizante é a mais eficaz. Essa é a tendência nos países mais modernos. Suíça, Inglaterra, Portugal e Holanda à frente já implantaram políticas descriminalizantes com resultados concretos bastante positivos. O Brasil poderia muito bem voltar-se para esses exemplos bem-sucedidos, adaptando-os à nossa realidade social, econômica e cultural. Num país como o nosso, com o clima propício, o estudo da cannabis sativa poderia ser aprofundado, buscando-se o desenvolvimento de medicamentos. Qual universidade brasileira faz isso? Até nos Estados Unidos existem universidades estudando a maconha.

A política americana poderia ser tachada de burra, caso o objetivo deles fosse realmente combater o uso e a produção de drogas. Como não se trata de uma questão de saúde pública, e sim de uma questão de dominação política e econômica, se pode dizer que se trata de uma política muito inteligente de manutenção da dependência dos países em desenvolvimento mundo afora. Essa política de intervenção só deixará de existir quando: 1) nós, povos dependentes, fizermos valer nossa autonomia e levarmos a cabo uma política que atenda aos NOSSOS interesses e não aos dos outros e 2) os eleitores dos Estados Unidos se der conta de que são os políticos que eles elegem que implementam essas políticas que afetam a vida de, digamos, camponeses de Cochabamba.

O cultivo e a pesquisa da maconha no Nordeste brasileiro e da folha de coca na região andina, para ficar nesses exemplos próximos, podem oferecer uma alternativa econômica viável à política repressora que gera tantos conflitos sociais e aprofunda as dificuldades econômicas. Podem ser, em suma, um mecanismo de mudança da realidade social de uma parcela excluída do processo de produção agrícola.

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Escrevi esse texto no primeiro semestre de 2002, ao voltar de uma viagem de um mês na Bolívia. O texto foi motivado numa conversa com um amigo, na qual eu relatava os problemas dos cocaleros - que, aliás, interferiram na minha viagem -, ao que esse amigo respondeu algo como "mas e o que é que eu tenho a ver com isso?". Na hora, não respondi. Escrevi esse texto. A resposta na hora deveria ter sido: tudo! Apesar de terem-se passado alguns anos, o texto permanece bastante atual, por isso compartilho-o aqui com os 5 leitores do blog.

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Hoje, no caminho de volta durante meu cooper, cruzei com a comitiva de Evo Morales, em visita oficial ao Presidente Lula como presidente eleito da Bolívia. Não sei definir bem porquê, mas fiquei emocionado. Acenei, mas ele conversava com alguém e não me viu. As voltas que o mundo dá... Em 2002, quando estive por lá, nunca imaginava que o veria em Brasília, quatro anos depois, muito menos como presidente da Bolívia!

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Acho interessante aproveitar a oportunidade para recomendar - viagem pela América do Sul! Uma coisa que me chamou a atenção foi que praticamente não tinha brasileiros na Bolívia e no Peru. Já no Pantanal do MS, na fronteira com a Bolívia, o pessoal da pousada onde eu fiquei me tomava por israelita -- praticamente não passam brasileiros turistas por lá, muito menos de Recife. Por que isso? Países vizinhos, como Bolívia e Peru, estão bem ao lado. É possível chegar a La Paz de São Paulo, por terra, em dois dias de viagem, entre trem e ônibus. Esses países são relativamente baratos para o brasileiro, o que torna a viagem bastante acessível. São países seguros, tranqüilos para se viajar. Têm uma história pré-colombiana riquíssima, paisagens belíssimas, arquitetura colonial inspiradora. No entanto, os brasileiros não viajam por aí. Quando têm a oportunidade, vão-se para os Estados Unidos ou para a Europa - onde o custo da viagem é muitíssimo mais elevado. Quando muito, vão para Buenos Aires. É importante que os brasileiros descubram a América do Sul. Tem muito o que ver e o que conhecer, bem ao nosso lado, e por preço acessível. É também importante para criar uma mentalidade de comunidade, algo que, a despeito dos eforços do Mercosul, ainda está longe de acontecer. Espero que o texto acima apresentado sirva para atrair a curiosidade sobre esses países que conhecemos tão pouco, mas que compartilham conosco mais do que fronteiras fluidas, e sim uma história e formação sócio-cultural em comum. Antes de olhar longe acima, ou do outro lado do oceano, que tal conhecermos melhor nossa própria vizinhança? Fica a sugestão.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Adeus Ano Velho


Um passo a frente, em direção à justiça e à defesa do patrimônio brasileiro foi dado pelo Governo essa semana. Os arquivos da ditadura serão gradualmente liberados e, desta forma, o Brasil não mais esconderá seu passado sombrio, e sim, expô-lo-á de modo que seus cidadãos encarem-no e não repitam a ignorância e brutalidade de outrora.

É desta forma que terminamos um ano e entramos noutro: com justiça à história e às vítimas de alguns de seus protagonistas.

Um 2006 de justiça... num ano de debates eleitorais que não embarquemos em injustiças. Que preservemos a razão, o bom senso e nosso lado humano.

No ano de Copa do Mundo, que esse Brasil tão fravorito saiba ser humilde.

E que nós, que construímos dia-a-dia esta dosiciedade, tenhamos mais e mais conquistas, e mais e mais realizações e todos os âmbitos...