quinta-feira, 24 de setembro de 2009

4 meses

janela da cozinha


Nunca me interessou vir pra Inglaterra. Tirando o aspecto histórico, literário e cinematográfico – ou seja, coisas totalmente teóricas e não palpáveis – nada me dizia a Inglaterra. Não sei bem porquê… Talvez por cenas como aquela de Snatch. O personagem Avi decide ir pra Londres (aqui). Alguém indaga: “Londres?”. E Avi: “Yeah, London. You know, fish, chips, a cuppa tea, bad food, worse weather and Mary fucking Puppins” (Pra vovó Ivandete, que não fala inglês – na época dela se aprendia francês, ou era latim? “É Londres, tá ligado? Peixe, batata frita, uma xícara de chá, comida ruim, clima pior e a porra da Mary Poppins”). Essas tiradas, além de engraçadas, refletem e ao mesmo tempo reforçam uma certa visão que se tem da Inglaterra. Cinzenta, fria, desagradável... A imagem que se tem da Inglaterra, no imaginário popular mundial, é a pior possível. Como esse diálogo de “Snatch” tão bem captura. Quando Avi volta pros Estados Unidos, o agente da aduana pergunta se ele tem algo a declarar. Resposta: “Yeah: don’t go to England!” (“Sim: não vá pra Inglaterra!).

Para piorar, a única vez que vim pra Londres, foi há mais de dez anos, em 1995, em viagem de família. A capital inglesa era a primeira parada europeia de uma viagem que começou no Oregon, na Costa Oeste dos Estados Unidos! Decalagem de horário: 8 horas! Para frente! Chegamos aqui em pleno dia, quando, mentalmente, era tarde da noite. E como íamos ficar pouco tempo na cidade, tínhamos que aproveitar cada momento... Deixamos as coisas no hotel e fomos pegar o ônibus turístico. O sol quente do verão na cabeça, e o que eu mais me lembro dessa viagem foram as pescadas que eu, Diogo e Letícia demos durante todo o percurso. Fora isso, só me lembro de duas outras coisas: o chuveiro do hotel era minúsculo, no meio do quarto... a gente tomava banho encaixotado, mal podendo se esfregar senão derrubava a “caixa”. E o museu da tortura... macabro! Pra piorar, de Londres, iríamos pra França e Itália...

Desde então, nunca tinha voltado aqui. Mais por falta de vontade do que de oportunidade.

Por tudo isso, Londres tem sido uma bela surpresa. Cada vez gosto mais daqui. São muitas cidades numa mesma cidade. Talvez por isso que o nome seja no plural: Londres! Cada semana é uma descoberta.

Tem um bar que toca forró toda quinta-feira – um dos músicos é o filho de Geraldo Azevedo. Tem um monte de brazucas, mas tem vários gringos também. Noutro lugar, no “Ain’t nothing but the blues”, toca blues de primeiríssima qualidade, ao vivo. Outro “pub” que eu fui, o “Hole in the wall” (“buraco no muro”), tem um das últimos fliperamas da cidade e tem o charme de ficar em baixo do trilho de trem – de vez em quando rola aquele som do trem: “vuco-vuco-vuco”. Tem um pub perto aqui da minha casa que anuncia, orgulhosamente, ser o local de nascimento (“the birhplace”) da banda Iron Maiden. Os pubs são verdadeiras instituições inglesas. Todo bairro, quase toda rua tem um. E quando dá seis horas da tarde, eles ficam lotados. É regra, depois do trabalho, as pessoas irem tomar umas “pints” no bar, antes de voltar pra casa. O inglês típico tem o seu bar de costume. Eu não tenho o “meu” pub. Ainda estou na fase exploratória. Uma coisa bem típica aqui é o “pub crawl”, em que se vai de bar em bar, tomando uma “pint” em cada um. Um trajeto típico é seguir a Circle Line, a linha circular do metrô, e descer em cada parada, ir no primeiro pub que encontrar, tomar uma “pint” e voltar pro metrô pra ir até a próxima estação e repetir fazer tudo denovo. Até fechar o círculo (se conseguir). E tem os jogos. Por exemplo, se pegar o copo com a mão errada (tem que segurar com a direita, aparentemente), então tem que virar o copo. E no metrô, não pode se segurar em nada – e se cair, vira uma pint inteira no próximo boteco. Brincadeira de inglês. Mas fechar o círculo é façanha que só os profissionais do copo são capazes de realizar. Ainda não cheguei lá. Continuo explorando os pubs. Essa semana fui a um, o Power’s Bar, que tem blues ao vivo. Antes, tinha ido a outro, o Ain’t Nothing But The Blues. Cerveja boa e música ao vivo de primeira.

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Em agosto teve o famoso carnaval de Notting Hill. A festa existe desde os anos 60 e, originalmente, começou como protesto de migrantes caribenhos contra o preconceito racial. Com o passar do tempo e a melhoria das relações raciais, o aspecto político foi ficando de lado e só restou mesmo a parte da gréia. Hoje, a festa é o maior evento de rua da Europa. Eu tinha ouvido coisas negativas – de brasileiros, dizendo que não era lá essas coisas e de ingleses, que em geral acham a festa “perigosa”. Ambos estão errados. É uma festa aberta e divertida. Esse, sim, é o verdadeiro carnaval multi-cultural: tem reggae, música eletrônica, samba, rockabilie... Com algumas vantagens em relação ao nosso período momesco. No topo da lista, destaco o fato de você brincar carnaval o dia inteiro e sair limpinho, sem uma gota de suor! Isso é uma das coisas que mais incomoda em Olinda: sair todo molhado, sem saber se é meu suor ou o alheio, ou se é o mijo que sacudiram no copo descartável. Tem também semelhanças: houve um momento que me movi involuntariamente, sendo levado, literalmente, pela multidão, no melhor estilo olindense. Já a violência a que os gringos aludiam... coitados. No final da festa, houve uma correria, eu e meus amigos nos protejemos entre os banheiros químicos. Perguntamos a outro folião o que estava ocorrendo. Alguém havia dito que tinham jogado uma garrafa. Ah, rapaz! Na minha terra, quando tem tumulto, é bala mesmo! Assim é muito bom, dá uma emoçãozinha, mas logo tudo se resolve. E você sabe que, na pior das hipóteses, só vai levar uns pontinhos na testa – e isso, eu já tenho!

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auto-retrato no espelho do elevador


Depois que voltei da viagem pra Barça e Lausanne, não voltei para o mesmo trabalho de panfletagem que tinha. Fui pra outro. Distribuir panfletos da pizzaria Domino’s, anunciando sua nova pizza Chicken Tikka com molho de manga, de casa em casa, colocando-os nas caixas postais alheias. Ou seja, distribuidor de lixo. Era um trabalho extenuante. Cinco horas por dia, sem intervalo para nada, andando sem cessar, subindo e descendo escadas de prédios, depositando entre 800 e mil panfletos por dia. O lado bom é que conheci partes da cidade que de outro modo jamais conheceria. Regiões residenciais que nunca teria tido a oportunidade de conhecer. Vi todo tipo de habitação inglesa, das mais elegantes até as mais chinfrins. E ainda dava umas espiadas nos apartamentos e casas das pessoas, por pura curiosidade mesmo, através do buraco na caixa de correio. Senti os mais diversos cheiros e odores, alguns que remetiam à minha infância, outros ao meu período oregoniano, outros a restaurantes indianos, e outros que é melhor nem mencionar! O lado negativo: é chato pra cacete e fisicamente exaustivo.

Depois de duas semanas de trabalho, avisei, conforme o contrato, com duas semanas de antecedência, que teria que sair, pois iria me mudar pro sul da cidade. A mulher me disse que eu não precisava voltar e que terminariam o meu contrato logo ali. Minha vontade foi de abraçá-la. Mas, como ela achasse que estava me punindo, pensei duas vezes... vai que ela voltava atrás, se eu demonstrasse satisfação... fiquei na minha.

Minha conclusão, depois dos dois trabalhos de verão que tive: jamais poderia ser imigrante ilegal. Chiei com uns trabalhos que pagavam ligeiramente acima do salário mínimo, com horários decentes e relações trabalhistas legalizadas. Não teria sobrevivido as condições árduas que os ilegais enfrentam. Nunca é demais agradecer ao tataravô que migrou pro Brasil e, por acidente do destino, ficou em Recife. Grazzie mille!

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Aqui na Inglaterra está a maior onda natureba. Todos os políticos, de todos os partidos, estão atualmente “ecologicamente” conscientes. Todos se preocupam com o tamanho de sua “pegada ecológica” (a quantidade de carbono que suas atividades cotidianas emitem). O prefeito, por exemplo, pedala para o trabalho. Tem um outro político que reduziu o consumo doméstico de energia. E por aí vai. Mas está se chegando a um ponto que beira o ridículo. As pobres das vacas estão prestes a tornarem-se inimigas número um da camada de ozônio. A quantidade de carbono que ela emite durante um ano é equivalente à poluição gerada por um carro. Agora danou-se. A pobre da vaca não pode nem peidar em paz! O que propõem os verdes? Rolha?!

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Fui ao meu primeiro jogo de rugby. Pra minha surpresa, é divertido! Não é mais uma excentricidade francesa! É empolgante e cheio de ação. Só não sei bem torcer direito. Decorei os principais gritos: “Take him down!” (Derruba ele!), “Come on!” (Vamos!), e um outro que me fugiu à memória agora! E eu nem sei o contexto adequado para utilizá-los... Pelo menos já tenho o time, que é o mesmo do pessoal que me levou, por gratidão. E também porque tem uma ligação com nossa terra. O time se chama Harlequim. Achei bastante adequado eu torcer pra esse time.

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Aos poucos vou encontrando as minhas coisas por aqui. Por exemplo, achei o meu supermercado. É o supermercado dos meus sonhos. Me lembro quando a Sadia lançou a linha de produtos HotPocket. Fiquei muito feliz, pois desde que saí de casa – que, aliás, nunca foi uma casa em que o ato de cozinhar fosse muito estimulado – que cozinhar sempre era um problema. Me senti contemplado, como público alvo, dessa nova linha de produtos. Prático, rápido e não é a pior coisa do mundo. Nada que um bom e velho ketchup Heinz não posso dar um jeito. Pois bem, aqui tem uma loja inteira de produtos “práticos, rápidos e que não são as piores coisas do mundo”. Se chama, muito sugestivamente, Iceland. E eu já fiz o meu cartão de fidelidade!

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Próximo relato, novidades. Casa nova, início de curso e o começo da brincadeira.


minha casa vista pelos fundos

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Comentando o preconceito

comentários do Facebook ao texto abaixo


Alexandre Cavani Rosas
Caralho, Bernardo. Que comentário mais mainárdico desse teu amigo.
Damn!

Guilherme Rocha
Já eu pensei que o vídeo da candidatura Rio2016 tinha sido preparado exclusivamente por computador. Tipo quando empresas de videogame recriam cidades para destrui-las em seus jogos.
Não tem mistério, o Rio tem uma beleza de outro mundo, mas um tour virtual pela cidade sem ver favela é piada.
no mais, adorei o teu texto.

Paulina Roig Lira
hard to believe in such "nazi" comment...
e o video mostra um rio que nunca vi, realmente fabricado. Uma pena, pois e realmente uma cidade muito bonita. Porem fingir que as favelas nao existem e um pouco demais!

João Lima
a maior ignorância é, depois de tanto (colonização, miscigenação, etc), ainda ter alguém que acredita em pureza e pior, defende a separação. Esse teu amigo advogado está reprovado em história, ética, lógica, sociologia... e vive às custas de um povo, pobre e miscigenado.
boa berna, mande brasa!

Tchelo Guedes
ta na hora de tu rever suas amizades...

Jorge Santos
mais uma coisa, lembra ao amigo carioca que o Rio não está nem entre as 100 melhores cidades em IDH do Brasil.. Niterói e Macáe não as únicas no estado.. pq será?

Diogo Loureiro Jurema
burro, limitado, preconceituoso, prepotente, arrogante, sem-vergonha, elitista. devia morrer de uma bala perdida pra deixar de ser tudo isso, porque esse daí, só nascendo de novo.

Joao Filipe Muniz
Pelo menos ele teve a coragem de externalizar que pensa sobre a desigualdade regional, se ele mostrar argumentos razo... Saiba maisáveis tem todo o direito de pensar desta forma. Realmente há um forte fluxo migratório para o eixo Rio - SP; e algumas interpretações da legislação tributária nacional afirma que recursos que seriam destinados ao estados mais ricos acabam indo parar no NE.
Não acredito que as olimpíadas deva ser uma medida compensatória para tal fenômeno, que vai muito alem deste argumento encontrado em diversas obras acadêmicas, mas é bom ter gente pensando assim por que a gente aprende a não ser tão idiota e mesquinho com os outros sem precisar nunca na vida passar por um papel deste.
Ahhh, se um dia as olimpíadas de verão forem no Brasil, acredito que o rio seria o local.

André Bandim
pipo, com todo o respeito, há formas menos hostis de educação para a generosidade. e veja bem, se sofrer preconceito fosse sinônimo de crescimento pessoal e tolerância, o nordeste seria um templo de paz e amor :)


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Quando o preconceito se torna explícito

O preconceito, de qualquer ordem, é muitas vezes velado. Mesmo quando está latente, é dissimulado, disfarçado. Nem por isso menos sútil. Apenas não oficial, público, proclamado. Talvez envergonhado. Mas sempre presente.

Eu nunca fui pessoalmente destratado (por ser brasileiro no exterior, ou nordestino no Brasil). Com algumas exceções. Uma vez, uma curitibana, fazendo intercâmbio comigo na França, depois de me ver me comunicando com a comunidade anglófona, a latino-americana e com os brasileiros, dominando as três línguas (inglês, francês, espanhol), além da língua nativa, ela tentou fazer um elogio: "você tirou o preconceito que eu tinha contra os nordestinos". Em outras palavras: viu alguém que fala muitas línguas (como isso, por si só, impressiona os imbecis!), e pensou, "ah, os nordestinos não são todos burros" (como se aprender língua fosse indicativo de capacidade intelectual e não, como tudo no Brasil, de minha classe social e as oportunidades que tive por conta disso).

Mas o preconceito maior não é revelado por anedotas pessoais. Se fosse por isso, eu nem notaria. É uma questão histórica, mesmo. Afinal, o descaso com que a periferia do centro econômico e político do país sempre foi tratada não é fruto do acaso ou castigo divino.

Tem quem julgue Paulo Henrique Amorim "radical", entre outras coisas, porque ele costuma caracterizar a elite brasileira como "branca e racista e separatista (no caso de São Paulo)".
E aí ouço uma história de um tio meu. Ouviu pessoalmente de Serra, nos anos 90, quando o convidou para uma inauguração de uma empresa em Pernambuco (vou ser bem vago para não comprometer ninguém). "A resposta: do Nordeste, eu não quero nem a água de côco". Dia desses, PHA publicou este post aqui. Lá afirma: "o preconceito contra os nordestinos é a agenda secreta de 2010".

Também muito da crítica ao Presidente Lula vem carregado de preconceito de classe e, no sul-sudeste, preconceito de origem também.

E se ainda há quem duvide, aí a Internet permite o registro definitivo quando um racista deixa de lado a máscara usual e assume seu verdadeiro ódio sócio-regional.

Me refiro a uma troca recente de mensagens via Facebook com um conhecido meu lá do Rio. Tomo a liberdade de publicar aqui porque as mensagens não foram privadas. Foram postadas pelo autor em seu próprio "mural" do Facebook, sem qualquer constrangimento. Eu fiz um comentário a um vídeo promocional da candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos (veja aqui), que ele havia postado. Eu comentei, em tom jocoso, que haviam "photoshopado as favelas". Daí seguiu-se essa troca:


Rogerio Campos
Bernardo, nao photoshoparam nada, inclusive pq o projeto Rio 2016 tem mt de inclusão social. Minha cidade é simplesmente bonita mesmo, foi mal se Recife nao tem 1 decimo do charme e tampouco vai receber uma olimpiada!

03 de setembro às 12:54
Bernardo Jurema
haha
ei po, isso né uma competição não, velho. não precisa levar qq crítica pro pessoal não! o vídeo dá uma maquiada na cidade... normal.
aliás, eu sou contra olimpíadas, copa etc em recife. nuzman e ricardo teixeira vão encher as burras de dinheiro público... :(
e o brasil inteiro, os pernambucanos inclusive, apoiam o rio2016. financeiramente, inclusive, por meio dos nossos impostos da grana federal que vai bancar esse negócio. lembre-se disso.

Rogerio Campos
Ah Bernardo, que PIADA! Os Estados do Sudeste (basicamente Rio-SP) bancam o nordeste há séculos, desde que o Rio virou a capital do Brasil... Talvez, de fato, essa olimpiada seja a 1a oportunidade do Rio (e sua populacao) recuperar uma pequena parcela de todos os impostos nossos que vao pro ralo aí por esses bandas...Isso sem contar o fluxo migratorio classico que tantas mazelas trouxe e ainda tras ao eixo RIO-SP...



Algo assim serve para nos lembrar que o racismo à brasileira, sempre dissimulado porém latente, às vezes emerge de forma bruta, nua e crua. E torna plausível a história de Serra. E dá credibilidade à assertiva de PHA ("elite branca, racista e separatista"). E explica o ódio que certos setores nutrem em relação ao Presidente Lula e ao povo ao qual ele se assemelha e com quem compartilha um caldo de cultura e de valores, para vergonha desses setores minoritários (brancos, racistas e separatistas).

Mas é um alento saber, por outro lado, que vivemos um momento de transição, em que investimentos públicos do Governo Federal, numa monta sem precedentes na História do país, estão transformando essa realidade - exemplo eloquente são as ecolas técnicas federais.

O comentário do advogado, que postei acima, além de historicamente errado, é extremamente preconceituoso. E eu disse isso a ele. E o adverti: nunca repita isso pra um nordestino, porque pega muito, muito mal... Essa linha de raciocínio, eu expliquei, é análoga aos críticos da imigração latina nos Estados Unidos, turca na Alemanha e árabe na França...

Eu disse mais: desde que o Rio virou capital do Brasil que o resto do país manda impostos pro centro e recebe muito pouco em retorno... o que, aliás, explica as inúmeras revolstas independentistas que aconteceram tanto ao sul quanto ao norte, durante o Brasil Colônia e o Brasil Império. Sem contar que disperdício de dinheiro público não é exclusividade de nós, atrasados nordestinos... inclusive porque, historicamente, sempre recebemos menos, proporcionalmente. Engraçado um fluminense falar isso... um estado que teve os Garotinhos governando... E o fluxo migratório, que trouxe "mazelas", trouxe também a mão de obra barata que tornou possível o desenvolvimento industrial dessa região do país.

Só agora esse processo histórico está sendo revertido, com as políticas do governo Lula. Nunca houve tanto investimento no Nordeste, e por isso mesmo, a nossa região tem crescido acima da média nacional. E não por acaso, pela primeira vez em décadas, desde os princípios do processo de industrialização brasileira, o fluxo migratório se reverteu. Tudo isso graças a uma série de políticas como essa aí das escolas técnicas, graças a uma visão holística do país, graças ao respeito a todos os brasileiros, de qualquer origem social ou regional. Tudo isso, em suma, graças a um governo que não tem vergonha do seu povo, muito pelo contrário: é seu reflexo mais puro:




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Agora que penso que talvez não seja por acaso que os melhores presidentes da História do País, Getúlio e Lula, sejam um gaúcho e o outro pernambucano!

sábado, 29 de agosto de 2009

Época revela: revolta da Ilha de Bananal nunca aconteceu .


Alugém deve ter finalmente lido um livro de História do Brasil na redação da Época!



Uma banda dessas da nova geração, a Móveis Coloniais de Acaju, está envolvida numa polêmica com a revista Época. A banda brasiliense contava que um suposto evento histórico que teria ocorrido em Tocantins no século XVIII seria a referência para o nome do grupo - veja aqui. Os meios de comunicação passavam a história adiante, sem fazer o trabalho jornalístico mais elementar, que é a apuração do fato. E, assim, a revolta da Ilha de Bananal tomava ares de fato histórico.

A ficha caiu essa semana. "Descobriram" que a tal revolta nunca havia ocorrido... Para justificar o mau jornalismo praticado pela revista - que não verificou a origem do nome, e aceitou acriticamente a versão oficial da banda sem, assim, identificar a brincadeira - a revista decidiu expor a banda. Fez o que a imprensa tupiniquim é mestra em fazer, levantou o dedão inquisitor em riste e acusou-a de "falsificação", aquilo que era apenas uma brincadeira, que aliás provou que tinha total sentido. Essa história mostra que os interesses corporativos das empresas de comunicação são apenas uma parte do problema do mau jornalismo praticado no Brasil. Um outro elemento é a incompetência, pura e simples, de alguns profissionais nas redações.

Veja aqui a "denúncia" da Época. Tem espaço pra debate e comentários ao final do texto.

P.S.: Daqui a pouco os brilhantes jornalistas da Época vão descobrir e denunciar mais uma farsa! A Banda de Joseph Tourton!!! Quem foi esse cara?! Foi mesmo um aviador?? Ou terá sido o fundador da Pilar!? Merece esclarecimento, já! Chamem a Época pra esclarecer esse escândalo!

P.S.2: Quando li a... como chamar isso? Matéria? Reportagem? Editorial?... enfim, quando li o texto da época descendo o cacete na banda de Brasília, tinha dois comentários de leitores criticando a postura da revista, com argumentação bem articulada. Voltei lá e não só os comentários haviam sido apagados, como o espaço para comentar foi desativado.

domingo, 16 de agosto de 2009

Um e-mail pra Danuza

numa manhã ressacada de domingo, escrevi esse e-mail pra Danuza Leão, em resposta à sua coluna dominical (que posto ao final da mensagem).

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----- Mensagem encaminhada ----
De: Bernardo Jurema
Para: danuza.leao@uol.com.br
Enviadas: Domingo, 16 de Agosto de 2009 14:53:18
Assunto: um abraço desde londres

prezada danuza,

gosto muito das suas colunas. suas observações sobre o quotidianos são pertinentes e perspicazes. vc tem um estilo e um domínio da língua que fascinam.

como assinante e leitor da folha, só queria expressar que o único momento que acho graça involuntária da sua coluna é quando você aborda a política.

pra começar, você faz um julgamento mordaz que alguém que você admite nem conhecer. então não fale, ora.

infeliz, também, comparar a ministra dilma a "general da ditadura". logo ela, que foi presa dos 19 aos 21 anos e que foi barbaramente torturada pelo nosso regime autoritário (que é chamado, pela empresa onde você trabalha, de ditabranda. talvez tenha sido branda pros Frias, mas não pra dilma!). achei de mau gosto a comparação, além de historicamente incorreta.

e não vejo tanta bravura na dona lina. muito legal sair fazendo denúncia (sem provas!), quando se tem metade do senado te apoiando, sem contar o apoio em massa do nosso oligopólio midiático (folha, estado, as globos, abril). vá ver onde estar o "bravo" caseiro francenildo, usado covardemente pela oposição/imprensa, e hoje desempregado (nignuém quer um funcionário que vai depois sair falando pelos cotovelos, o que viu ou acha que viu, pro primeiro curioso que bater em sua porta).

e comparar dilma a collor? francamente. olha a biografia de um de outro. olha o poder econômico de um e de outro. dilma é uma "self-made woman". leia o perfil dela na piauí do mês passado. collor é um filhinho de papai, crescido em brasília, cheirador de cocaína, herdeiro de fortuna nordestina etc.

o medo de regina, eu te explico agorinha: medo de um presidente retirante nordestino, feio, que fala errado, maior líder popular do país, que construiu o partido mais orgânico da américa latina. em outras palavras, medo de povo, tão típico de certos setores de nossa sociedade casa-grande & senzala.

essa lenda da ocupação da máquina não é embasada em fatos. o que houve foi a primeira transição no brasil desde 1964! os grupos políticos pouco se alternaram desde então. quando o pt foi eleito em 2003, foi a primeira vez que o PFL (ex-arena, lembre-se) estaria alienado do poder federal! isso sim é ocupação de máquina! lembro que naquele ano, tinha funcionário com cargo comissionado na Fundação Joaquim Nabuco (em recife), indicados por marco maciel, que ocupavam o posto havia DÉCADAS. transição democrática é isso mesmo. quando outro partido receber a confiança do povo brasileiro, nem se preocupe, danuza: serão seus aliados que ocuparão a máquina administrativa. entendo sua confusão: temos pouca experiência democrática no brasil, e esse negócio de troca de grupo no poder é algo novo para nós.

por fim, é tão engraçado gente feito você, que ADORA petista - desde que saiam do partido. Marina é uma grande figura pública deste país. quando foi ministra, perdeu TODAS as batalhas no congresso, pois a bancada ruralista é a mais forte por lá. Nunca vi NINGUÉM do que hoje a defendem entusiasticamente a defenderem naquelas ocasiões. Se isso não for oportunismo, não sei o que é. e digo mais, diz muito da importância do PT o fato de que alguém com a trajetória de Marina tenha construído sua carreira no PT. Por que será que não surge alguém assim nos outros partidos? reflita sobre isso.

Mas não se anime muito. sabe qual o impacto que marina vai ter na candidatura de Dilma? Zero. Viu a datafolha hoje? viu a popularidade do governo lula? e isso a despeito da tentativa sistemática do oligopólio midiático de criar escândalos em série e nível federal e de proteger e até promover o governo tucano de são paulo (e esconder o do RS!).

Enfim... achei fraco seu artigo hoje. evite falar de política, danuza. exceto se for pra falar das roupas dos políticos, aí vc volta pro que sabe falar.

um leitor seu... e petista! hehehe

um abraço desde londres,

--
Bernardo Jurema


***
São Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009



DANUZA LEÃO

Quem tem medo da doutora Dilma?
Ela personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora


VOU CONFESSAR: morro de medo de Dilma Rousseff. Não tenho muitos medos na vida, além dos clássicos: de barata, rato, cobra. Desses bichos tenho mais medo do que de um leão, um tigre ou um urso, mas de gente não costumo ter medo. Tomara que nunca me aconteça, mas se um dia for assaltada, acho que vai dar para levar um lero com os assaltantes (espero); não me apavora andar de noite sozinha na rua, não tenho medo algum das chamadas "autoridades", só um pouquinho da polícia, mas não muito.
Mas de Dilma não tenho medo; tenho pavor. Antes de ser candidata, nunca se viu a ministra dar um só sorriso, em nenhuma circunstância.
Depois que começou a correr o Brasil com o presidente, apesar do seu grave problema de saúde, Dilma não para de rir, como se a vida tivesse se tornado um paraíso. Mas essa simpatia tardia não convenceu. Ela é dura mesmo.
Dilma personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora de escola que, quando se era chamada em seu gabinete, se ia quase fazendo pipi nas calças, de tanto medo. Não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura.
Ela tem filhos, deve ter gasto todo o seu estoque com eles, e não sobrou nem um pingo para o resto da humanidade. Não estou dizendo que ela seja uma pessoa má, pois não a conheço; mas quando ela levanta a sobrancelha, aponta o dedo e fala, com aquela voz de general da ditadura no quartel, é assustador. E acho muito corajosa a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, que está enfrentando a ministra afirmando que as duas tiveram o famoso encontro. Uma diz que sim, a outra diz que não, e não vamos esperar que os atuais funcionários do Palácio do Planalto contrariem o que seus superiores disserem que eles devem dizer. Sempre poderá surgir do nada um motorista ou um caseiro, mas não queria estar na pele da suave Lina Vieira. A voz, o olhar e o dedo de Dilma, e a segurança com que ela vocifera suas verdades, são quase tão apavorantes quanto a voz e o olhar de Collor, quando ele é possuído.
Quando se está dizendo a verdade, ministra, não é preciso gritar; nem gritar nem apontar o dedo para ninguém. Isso só faz quem não está com a razão, é elementar.
Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula; Regina foi criticada, sofreu com o PT encarnando em cima dela -e quando o PT resolve encarnar, sai de baixo. Não lembro exatamente de que Regina disse que tinha medo -nem se explicitou-, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior, mas Deus é grande.
Minha única esperança, atualmente, é a entrada de Marina Silva na disputa eleitoral, para bagunçar a candidatura dos petistas. Eles não falaram em 20 anos? Então ainda faltam 13, ninguém merece.
Seja bem-vinda, Marina. Tem muito petista arrependido para votar em você e impedir que a mestra em doutorado, Dilma Rousseff, passe para o segundo turno.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Terceiro Mês

Sempre tive dificuldade em entender argumentações geograficamente deterministas sobre a qualidade de vida dos lugares. É comum, por exemplo, atribuir-se a suposta “joie-de-vivre” do brasileiro à afabilidade do clima tropical; ou, por outro lado, supor ingrata a vida acima do trópico de câncer. Bobagem. Sou gente, não planta. Portanto, mais relevante do que o clima meteorológico é o clima social. A frieza e o cinzento que caracterizam o clima da Inglaterra não encontram paralelos no âmbito das relações sociais. Estas têm se revelado abertas, tolerantes, hospitaleiras, plurais, respeitosas – por vezes até mesmo calorosas. Em suma, e acima de tudo, as relações sociais são harmoniosas. Vivo numa sociedade pacífica.

Apesar de não ser essa a minha primeira experiência fora do Brasil, é a primeira na qual tenho plena consciência da liberdade de que desfruto aqui. Entre a guerra tropical e a paz chuvosa, fico com esta última, porque, sendo gente, é o clima social o que me importa.... Pelo menos enquanto o inverno não chega! E como disse um dos meus companheiros de casa: não existe clima ruim, existe roupa inadequada.

***

Outro dia comi um cavalo, na Suíça. É um prato popular, mais acessível, inclusive, do que carne de vaca. Além de ser mais barata, é melhor de se comer, é mais macia. Fiquei pensando porquê não adotamos, no Brasil, esse hábito alimentar. E não me refiro ao consumo involuntário do comeu-morreu no Arruda. Não existe nenhuma razão racional que justique a proscrição da carne de cavalo. Resolveríamos, dessa forma, dois problemas sérios: a pobreza de uns e a fome de outros (que geralmente são os mesmos, uns e outros). Geraríamos renda, de um lado, e alimento, do outro. E, de que quebra, ainda resolveríamos um problema de segurança pública, os cavalos soltos pelo meio da rua de grandes cidades brasileiras. Partindo desse princípio, poderíamos adotar, também, hábitos culinários coreanos, incluindo cachorro na nossa dieta: mais fonte de renda, mais fonte de calorias e nutrientes. E menos vira-latas nas ruas. Viajar é bom. Bastou uma só refeição e eu já resolvi boa parte dos problemas urbanos brasileiros.

***

O Brasil está na moda. Por onde tenho passado, uma coisa é clara, o Brasil é popular. Essa popularidade transcende classes sociais. Varia a motivação: futebol, música (de bossa nova e Villa Lobos até Calypso e Ivete Sangalo, com tudo o que tem no meio), a “alegria do povo brasileiro” (carnaval, mulatas), caipirinha, praias, surf, capoeira... Isso nem é novidade. Meus pais contam histórias de como, quando eles viajavam pela Europa na era pré-União Europeia, o fato de serem brasileiros abria portas, literalmente, para o ingresso deles nos diferentes países europeus. A novidade, hoje, é o aspecto político também. O Brasil é muito admirado pela estabilidade política (relativa), pelo crescimento em plena crise, pelas políticas públicas progressistas. Só não é popular na extrema esquerda europeia, que prefere preferir a Venezuela (a União Soviética dessa geração, guardadas as devidas proporções). Os árabes também nutrem profunda identidade com relação ao povo brasileiro. Em um trem, certa vez, um líbio de origem popular me explicou que os brasileiros e árabes são povos irmãos. Como evidência disso, ele falou: olha Ronaldo, Roberto Carlos, Romário: eles têm cara de árabe. E apontou o bom relacionamento do presidente Lula com o presidente Kadafi. Isso foi em 2004. Mais recentemente, na África, ser detentor de passaporte brasileiro também é um facilitador de interação social. Na California, no ano passado, um funcionário do metrô, ao saber minha origem, se disse fã de “Cidade de Deus” e do seriado “Cidade dos Homens”. Ainda lá, capoeira é a nova ioga. Nada mais cool. E caipirinha, tanto lá (na América) quanto cá, na Europa, já é comumente escrita com “nh”. Por que não estamos usando essa imensa popularidade do Brasil, que transcende classe social, barreiras étnicas ou religiosas? O Brasil é querido e admirado no mundo todo e por todo mundo (talvez menos no Bolívia, até hoje traumatizada com a perda do Acre – embora a elite de esquerda ainda adore Chico Buarque e inveje o PT e a elite conservadora prefira Caetano e tenha saudades de FHC, pessoas em todos os pontos do espectro político têm um disco de Roberto Carlos). Como nós podemos usar esse “soft power”, afinal é o que nos resta e que é, inclusive, mais eficiente do que o “hard power”. Ela está aí, é um dado da realidade. O desafio é como transformar essa popularidade natural, que não é fruto de nenhuma política de Estado, em diretriz política para atingir os objetivos estratégicos do Brasil.

***

São impressionantes os paralelos entre os governos Obama e Lula. Cada vez mais isso fica evidente. Nem falo das próprias eleições de cada um deles, que são simbólicas e inerentemente significativas em si mesmas, pelo que representam em suas respectivas sociedades. Mais importante que isso é que ambos se caracterizam como governos de ruptura de grupos no poder e de visão de mundo. Isso se reflete na abordagem aos problemas mais iminentes, no tipo de oposição que vêm enfrentando e no tipo de críticas que recebem. Observando agora os primeiros meses do governo Obama, escuta-se muito do mesmo que se dizia, e ainda se diz, sobre o governo Lula. Só que em inglês. As críticas, por exemplo, dirigidas ao Geithner pela esquerda americana são muito semelhantes às críticas que setores da esquerda ainda fazem a Meirelles (ambos são representantes dos bancos). A crítica à política externa de Obama poderia muito bem ter saído da boca de Arthur Virgílio (defende “sanções econômicas” e retirada do embaixador brasileiro de La Paz - leia aqui) ou Diogo Mainardi (e o preconceito social: “Lula é semi-analfabeto” - veja aqui), ao invés de Newt Gingrich (defende o uso de ingerência interna para desestabilizar o Irã - leia aqui) ou Glenn Beck (preconceito racial: “Obama is a racist” - veja aqui)... Se eu traduzisse o que fala um e dissesse que é o oturo, ninguém nem perceberia – a postura beligerante, preconceituosa e raivosa é a mesma.

As políticas adotadas, caracterizadas pelo pragmatismo acima de tudo, também são semelhantes. A reforma do sistema de saúde pode ser análogo ao Bolsa Família, pelo que representam em termos de inclusão social. O “stimulus package”, série de investimentos públicos com o intuito de estimular a economia aumentando a demanda, é equivalente ao nosso PAC. Novamente aqui, as críticas que recebem são muitas vezes idênticas, só mudando a língua. Obama oficialmente acabou com a “guerra contra o terror”. Em seu lugar, adota uma postura mais multilateral, que leva em conta os interesses dos outros países, respeita o diálogo e as instituições internacionais e vê o desenvolvimento econômico e social como a forma mais eficaz de combater o terrorismo. Em outras palavras, Obama adotou a diplomacia lulista... Desde que entrou no governo, Lula é obsecado por bio-diesel e etanol. Agora, uma das prioridades de Obama é fazer da economia verde um dos motores da economia americana. Não quero dizer que Obama esteja imitando Lula. Não se trata disso. Mas são governos que, em suas respectivas sociedades, representam uma mudança de rumo, uma ruptura com a situação vigente. Além disso, ambos são governos que adaptam suas ideologias à realidade (e não vice-versa). E que enfretam oposição feroz e intransigente pela defesa do status-quo.

Há uma diferença, porém, em favor dos americanos: a clareza do debate. Lá, o conflito é mais explícito e é mais público. No Brasil, a gente fica refém do moralismo denuncista, que camufla as verdadeiras questões de fundo por trás das disputas político-partidárias. Nos Estados Unidos, por outro lado, há uma pluralidade maior de vozes no debate e há um debate público de fato. Por mais tosco que seja, e muitas vezes é, o debate ocorre. E ele existe em torno de causas. O Partido Republicano não fica acusando Obama de ser ladrão ou bandido. Questionam suas políticas. Exemplo disso é agora a briga de Obama pela reforma do sistema de saúde. Obama quer fazer o SUS lá. É como se, para implantar o Bolsa Família, Lula tivesse que enfrentar uma votação no Congresso Nacional. Sorte nossa que no nosso sistema político ele não tinha que fazer isso. Nunca iria passar. Mas aqui, quando se quer combater o sucesso da admnistração, a oposição muda o assunto – é incapaz de articular um discurso coerente que ofereça à sociedade uma alternativa ao Governo Lula. Não se sabe como se posiciona a oposição em relação às grandes questões do governo Lula (distribuição de renda, crescimento do Nordeste, política externa, etc.) – a gente não sabe porque eles nunca falaram. Sabemos que eles são contra “roubo” (e quem não é?), mas não sabemos o que propõem para tratar disso, até porque eles também estão sujeitos a isso (alô RS, alô Cuiabá). Enquanto isso, ao norte do Rio Grande, os conservadores distorcem os fatos, apelam a sentimentos racistas da população, criam factóides (certos comportamentos da direita são análogos – se nós temos a Abril - leia aqui, eles têm a Fox News - veja aqui). Mas se posicionam claramente: são contra a reforma do sistema de saúde. Se Obama conseguir aprovar algum projeto de reforma, a população poderá julgá-lo se estava correto ou não. O conflito é explícito.

Minha aposta é que vamos observar lá algo parecido com o que ocorreu aqui; o governo Obama é a versão Herbert Richards do governo Lula. O primeiro ano do governo vai ser duro, os ataques da oposição são coordenados com grupos de interesses arraigados e muitas vezes abaixo da cintura; há uma óbvia articulação entre grupos políticos e empresas de comunicação (republicanos e FoxNews, tucanos-pefelistas com a Abril e as Organizações Globo); a popularidade vai cair bastante (já está caindo) e chegará ao ponto em que sua legitimidade será posta em questão (já está sendo); mas, mais adiante, o povo vai sentir uma melhora na qualidade de vida, consequência das políticas públicas adotadas, e Obama terá índices lulistas de apoio popular. Será?

***

Estava em Lausanne no dia 1º de agosto – a data da festa nacional da Suíça. Conversei, nesse dia, com um amigo suíço:

Eu: no ano passado, estava nos Estados Unidos no 4 de Julho. Agora estou na Suíça no Primeiro de Agosto.
Ele: ...
Eu: o que isso quer dizer?
Ele: que você tá viajando muito.
Eu: ...

***

Tendemos a generalizar a Europa aí no Brasil. “Fulano tá na Europa”, ou “vou passar férias na Europa” ou “Sicrano tá tão europeizado”. É um erro. A Europa é uma colcha retalho, às vezes bem mal remendada (que o diga a ex-Iugoslávia!). Inglaterra, França, Alemanha (os três maiores países da UE) têm mais diferenças entre si do que, digamos, Argentina e Venezuela ou Chile e Colômbia. Se alguém que mora em Portugal disser que mora na Europa, ria. Alto. Sinto informar-lhe, mas em Portugal se está mais perto da África do que da Europa (em mais de um sentido; e não vai aqui nenhum juízo de valor; trata-se, tão-somente, de uma constatação). Viajar na Europa, às vezes, parece dar razão às piores conclusões do determinismo geográfico. Quanto mais descemos, mais bagunçado vai ficando. Recenemente, fiz uma viagem e pude constatar essa variação. De Londres, peguei um trem até Paris. Já no metrô de Paris se percebe a diferença. Tinha passado um mês e meio em Londres e o metrô, apesar de constantemente lotado, é tranquilo e ordenado. Logo no caminho da estação até onde eu ficaria hospedado, e já tinha um doido berrando no vagão ao lado. De Paris, voei para Barcelona. Lá, quando ia subir a escadaria pra sair da estação, ouvi um tumulto do lado de fora. Corri na direação do barulho. Encontrei a maior barafunda. Uma gritaria, um corre-corre, um calor húmido... por um momento me senti na Conde da Boa Vista em plena ação da PM contra os ambulantes. E, mais adiante, tinha o foco do conflito: três pessoas sangrando, atormentadas, sendo socorridas por policiais. Impossível deduzir o que ocorrera. Vi uma mulher especulando com um amigo o que teria acontecido. Me aproximei e perguntei o que era. Resposta: “no lo sé”. O que é isso? Lei do silêncio? Estou no Coque? Depois de uma semana de sol e bagunça tropicais, fui embora. Lausanne acaba com a tese do determinismo geográfico. É um imenso contraste sair da Inglaterra ou da França para a Suíça. Os dois primeiros parecem pobres e decadentes diante do terceiro. A Suíça é como um clube privado exclusivíssimo, cujo ingresso é precedido por árduo e longo processo e que, mesmo assim, raramente é definitivo. (Seguindo essa analogia, a Espanha é o piscinão de Ramos dos branquelos europeus, que descem para se bronzear um pouquinho). Adquirir cidadania suíça é algo raro. Soube de um “português” que mora lá desde que tem 5 anos. Hoje tem uns 30 e ainda é “português”. Na Suíça tudo é muito arrumadinho, tudo é no lugar, tudo tem cheiro de araucária. Exceto as pastagens, que têm cheiro de bosta de vaca mesmo (mesmo sendo as vacas melhor alimentadas do mundo, a bosta delas cheira igualzinho à bosta da vaca magricela da Zona da Mata pernambucana).

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mês dois (e meio)

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”New York Herald Tribune! New York Herald Tribune! New York Herald Tribune!”




Nem havia completado um mês de Reino Unido e já estava totalmente integrado, juridicamente falando. Já tenho “CPF” (National Insurance Number), casa, telefone, conta em banco, trabalho... Tudo rápido, fácil e prático. Tudo muito anlgo-saxão?


O emprego, tudo bem, não é nenhum emprego dos sonhos... No final das contas, fiquei com um típico emprego temporário de verão: distribuição de panfletos. No caso, para a academia mais cara daqui, a GymBox. As três filiais ficam todas em áreas chics (ou “posh”, porque estou na Inglaterra e não na França!): Bank, Holborn e Covent Garden. Eu faço panfletagem para a da Bank. A vantagem desse trabalho é que é flexível. São três turnos de duas horas cada, de segunda a sexta, e eu vou mais ou menos quando eu quiser. Tenho direito a usufruir da academia também (sauna incluída). E posso viajar quando quiser. Mas o trabalho é ingrato. É sem sentido, na verdade. Se a gente analisar racionalmente, nunca pegaria panfleto. Que tipo de informação inestimável e imprescindível você receberia na rua que não poderia obter, você mesmo procurando? Quem é que recebe um panfleto e diz, “ora, nem tinha pensado nisso! Vou lá pagar 100 libras esterlinas por mês e fazer ginástica nessa academia caríssima!”? Mas, de algum modo bizarro, funciona: há quem pegue os panfletos. Tentei, nessas últimas semanas, identificar um padrão. Será que tem algo que eu possa fazer para ser mais eficaz? Cheguei a algumas conclusões. Asiáticos do Leste quase nunca pegam panfletos; negros quase sempre pegam; quando mulher distribui, muito mais homem recebe panfleto; quando homem distribui, não se observa preferência (conclusão: homem é mais besta que mulher, porque acha que a mulher vai dar algo mais que o panfleto!); turistas são presas fáceis e ótimo pra esvaziar estoque (pegam tudo!). Existem, também, diferentes maneiras de negar. Tem o grosseiro, que faz careta e bufa alguma palavra incompreensível; o delicado, que agradece encarecidamente pelo panfleto oferecido, quase como se eu estivesse fazendo-lhe um favor pessoal; tem o discreto, com um leve movimento circular da mão em sentido horário, com o braço colado ao corpo; tem o que despreza, ignorando solenemente a minha existência; teve um com humor mervaliano-pai: grunhiu algum desaforo incompreensível; e teve o outro com humor mervaliano-pai: foi se aproximando, gesticulou como se tivesse a intenção de pegar o panfleto e, na hora H, se esquivou, rindo; tem o über-simpático, que tá carregado de coisas – pasta, sacola de compras, livros, o escambau –, com as duas mãos ocupadas, geralmente falando ao telefone, e, mesmo assim, dá um jeito pra levantar o dois dedos para que eu encaixe o papelzinho; tem o indeciso, que vem olhando de longe, chega perto, avalia, pega, lê, hesita, e, por fim, quando eu já comemorava ter me livrado de mais um papelzinho, vai e devolve. Aliás, isso quebra a regra implícita da panfletagem. Ninguém força ninguém a pegar papel na rua, mas se você pegou, não devolva! Nós somos distribuídores de lixo! Não coletores: para esse serviço, existem outros profissionais. Isso tem que ser respeitado. Quando alguém vem devolver, a vontade que tenho é de virar as costas e andar na direção contrária. O que mais me irrita é quando a pessoa ainda vem com argumento ecológico: vou devolver pra preservar a natureza. Engane a outro. A árvore já foi destruída muito tempo antes de virar aquele panfleto. Se você quer mesmo ajudar, o melhor a fazer é pegar o máximo possível de panfletos e levar para um posto de reciclagem! Me devolvendo, apenas significa que darei a outra pessoa que irá jogar no chão... Mas concluindo, a verdade é que não existe técnica para distribuição de panfleto. É uma conjunção de fatores que faz com que uma pessoa pegue ou não. Se o dia estiver lindo, estivermos mais distante do epicentro do setor financeiro, for horário de almoço, a pessoa distribuindo for uma mulher e quem receba for um homem, jovem, negro, tranquilo, sem pressa e, talvez, interessado em fazer ginástica, as chances são que ele pegará o panfleto. Eu apostaria nisso...


Aliás, aqui aposta é coisa séria. Desde que Michael Jackson anunciou que faria os 50 concertos aqui, até a sua morte recente (provavelmente vocês devem ter ouvido falar, a menos que tenham passado as últimas semanas passeando em Marte), as chances de que todos os shows seriam realizados diminuiu drasticamente - veja aqui. Quando teve a recente eleição para se decidir o presidente da Câmara dos Comuns (os deputados aqui), o repórter tinha, a seu lado, um quadro-negro indicando a cotação dos favoritos de acordo com as mesas de aposta!


Falando em dia lindo... Embora aqui estejamos em pleno verão, os dias tendem a ser frios e chuvosos. Hoje mesmo, são quase duas da tarde e está fazendo em torno de 19 graus. E nublado. Creio que talvez por essa razão o povo inglês é tão simpático. Eles já acordam sabendo de uma coisa: o tempo vai ser ruim. O que vier é lucro.


Até agora, as impressões que tenho do país são as melhores possíveis – noves fora o clima. Sei que vou chatear algumas pessoas dizendo isso, mas Caetano Veloso tem razão. Em London, London, ele resume muito bem isso aqui:


“I’m wandering round and round, nowhere to go”


Voluntariamente ou não, perambular sem rumo pelas ruas da cidade é algo sempre agradável e interessante.


“I cross the streets without fear”


Mudar de país requer também uma mudança de mindset (mentalidade)... Andar nas ruas de Londres é agradável, entre outras razões, porque não sentimos nenhum dos medos tão típicos das grandes metrópoles brasileiras. Sem medo de violência, da truculência do trânsito, sem medo de gente, em suma. Caminhar pelas ruas de Londres é uma viagem através do tempo e dos lugares do mundo. Vagar distraidamente, observando as diferentes paisagens urbanas, sem receios, sem nenhum dos muitos medos que me definem como brasileiro. Sem medo, tampouco de ver. De ver uma cena de miséria africana ou de ver o Atacadão de Presentes no lugar de onde era o Marista. Ando alguns quarteirões na região de Bank, por exemplo (o centro financeiro da cidade), e passo pelo império romano, depois entro numa ruela que remonta à Idade Média, em seguida passo por uma construção vitoriana e, mais adiante, por um centro cultural modernista.


“Everybody keeps the way clear”

“And people hurry on so peacefully”


Enquanto isso, ao meu redor, tem uma muçulmana vestindo a burka e falando no seu I-phone, e logo ali passa um casal de punks coloridos, e um judeu cruzou comigo e vários sikhs, todos com turbante e com o mesmo estilo de barba, passam também por mim. E passam por mim todas as tonalidades de cor de pele, todos os tipos de chapéus e idumentárias religiosas ou étnicas, homens, mulheres e todos os gêneros existentes entre os dois, e ouço várias línguas serem faladas, e vários sotaques de inglês. E apesar do número imenso de pedestrers, a multidão flui. À vezes, dentro do metrô, é tanta gente, mas tudo funciona. Na escada rolante, sempre as pessoas se mantém à esquerda, deixando o caminho livre para quem quer usar a escada como, hmmm, uma escada e não como elevador. E não há tumulto, não há bagunça, o caminho sempre aberto e “as pessoas se apressam pacificamente”.


“While my eyes go looking for flying saucers in the sky”


Sempre achei esse trecho da música viagem de Caetano. Hoje eu entendo. Eu vivo “olhando pro céu a procura de discos voadores”... na verdade, olhando por aviões. Já cheguei a avistar cinco ao mesmo tempo! Mas o mais comum são dois ou três.


“A group approaches a policeman, he seems so please to please them”


Eu vivenciei esse trecho. Saindo de uma estação de metrô (Canary Wharf), precisava pegar um ônibus. Os dois policiais viam as pessoas meio perdidas, tentando se orientar no mapa, e eles mesmos tomavam a iniciativa de oferecer ajuda, indicando para onde as pessoas deveriam seguir.


“Green grass, blue eyes, grey sky, God bless

Silence, pain and happiness”


Tem muitos parques e áreas verdes e de lazer na cidade. Bastou um princípio de raios de sol conseguir abrir caminho por entre as nuvens, e os gramados ficam coalhados de branquelos de olhos azuis, adquirindo parte da dose anual de vitamina D. O padrão aqui é céu cinzento, mesmo. Não é exagero nem modo de dizer. O vento que chega aqui está recém saido do Polo Norte!


Eu estou morando no bairro Leytonstone. É a última estação da zona 3 na Central Line do metrô. Estou a 30-40 minutos de metrô da London School of Economics, ou 1h30min de bicicleta. Ou seja, longe demais. Aqui está legal por enquanto. Mas deve ser temporário. O meu bairro é multi-cultural. Não me refiro àquele multiculturalismo provinciano de Recife (que acha que diversidade cultural se resume a côco, frevo e maracatu). Multiculturalismo, mesmo. No meu bairro tem gente de todo canto. E se reflete no comércio. As lojinhas na minha vizinhança são etnicamente divididas. Tem a do turco, a do indiano, a do búlgaro, a do paquistanês... mas os clientes são os mais variados. O turco é preferido porque geralmente é mais barato. De acordo com o site Upmystreet, que consultei quando estava procurando onde morar, o meu bairro é de classe-média e com tendência esquerdista. Resumo do meu bairro : nível de renda familiar é média, o de interesse em assuntos da atualidade é alto, o de educação é alto, o de casas com prestação é médio, o de famílias com crianças é médio e o de casas com satélite é baixo. Aqui se encontram populações metropolitanas de colarinho branco com alta concentração de minorias étnicas, ainda de acordo com o site, mas também com minha prórpria vivência. Eu me adequo ao perfil das estatísticas do bairro. Sou uma minoria étnica, afinal de contas. Os habitantes do bairro tendem a ler The Guardian, The Independent ou The Observer, jornais de linha editorial esquerdista. Em geral, as pessoas aqui não têm carro, pois usam o sistema de transporte público.


Estou na região do leste da cidade. As instalações das Olimpíadas serão por aqui. A cidade está em pleno processo de construção e reforma. “Demolir, escavar e projetar” é o lema. A região é tida como mais desvalorizada e é onde se encontram alguns dos bairros mais pobres. Mas é também aqui onde estão as áreas mais boêmias da cidade.


Queria fazer relatos mensais. Mas esse veio atrasado. O problema é Londres. Coisas demais acontecendo e minha curiosidade por conhecer a cidade é imensa. E ainda o trabalho, fisicamente extenuante. Mas que recompensa. Graças a ele, estarei indo visitar Letícia e Diogo! Até o próximo relato!


Eu já sabia disso (Noé tinha falado), mas estou constatando empiricamente. Embora haja trechos da cidade que são um canteiro de obras (principalmente no Leste, em função dos Jogos Olímpicos), a maior parte das obras são de reformas de prédios antigos, e não de construção de novos. Esse aqui está todo empacotado.


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Não é o Vassourinhas! Trata-se da estreia mundial do filme “Harry Potter 5”.

domingo, 28 de junho de 2009

Relatos de Brasília - 8

Vou postar aqui, pra deixar registrado, os relatos dos meus primeiros meses em Brasília, enviados por e-mail para amigos e familiares antes da existência desse blogue.


e foi-se o primeiro serviço

Mon Apr 18, 2005 9:45 am

primeiro serviço

pois é, este fim de semana ocorreram as primeira e segunda fases do
Concurso. Confesso que quando cheguei ali na frente da Faculdade de
Tecnologia da UnB, deu um nervosinho... Mas passou rápido. Lá dentro da
sala, nova sensação estranha. Ficar enfileirado feito gado, todo mundo
calado, sem poder fazer nada, olhando pra nuca da frente ou pros
fiscais mais adiante, esperando por 15 minutos (eu acho) que parecem
não acabar nunca... realmente, foi bizarro. A prova em si é cansativa.
Foram 45 questões objetivas (escolha múltipla e Certo/Errado) e 5
discursivas. A inexperiência de fazer provas de concurso pesou. De um
lado, isso é bom, porque vi que meu maior problema não foi tanto o
conteúdo. Principalmente História Mundial, eu estava tranqüilo;
Geografia, menos tranqüilo, ainda mais com os textos de Milton Santos.
Aliás, qual é a desse cara? O seu lema é "por que facilitar quando eu
posso complicar?". Já cheguei até a desenvolver teses racistas mas
melhor não entrar nisso (sarcasmo, viu galera? por favor...). Enfim,
resumindo esse dia: Não fiquei totalmente satisfeito, mas é como disse
minha mãe, quem tem que ficar satisfeito não sou eu e sim os que vão
corrigir.

O sistema é o seguinte. Dos 10,000 candidatos, os 600 melhores nas
objetivas terão suas questões discursivas avaliadas. Desses, 300 terão
a prova de português (segunda fase, realizada no domingo) corrigidas. E
desses, uns 100 passarão para a terceira e última fase, que selecionará
os 32 finais. De qualquer modo, não resta dúvida que foi um bom treino
e, talvez sendo meio Polyana, me prepara melhor para o próximo concurso.

Algumas lições importantes. Fui bem à vontade: havaianas, camiseta leve
e bermudas. Me dei bem porque não sofri com o calor intenso. No sábado
use a camisa do Iteci e no domingo a de João Paulo Prefeito. É uma
espécie de supertição pragmática. Eram as camisas de malha mais leve
que eu tinha, e ao mesmo tempo, quem sabe tragam um pouco de sorte
(tudo vale!). Outra lição - serenata do amor não é um bom lanche porque
derrete facilmente no calor e aí fica seboso. Mas o granola de mel foi
uma boa idéia porque, além de não derreter, segundo Buí é bom pro
raciocínio. Então tá.

O resultado final sairá só no dia 7 de junho... Até lá, vou ficar
estudando para a terceira fase.

***


O pior da história

Acho que JK foi o pior presidente da História. Não tinha nada que
inventar de transferir a capital do Rio (o Rio!) para um deserto
descampado, no meio do nada, inacessível, de clima instável... um
quadradinho em Goiás... Ora, não é à tôa que isso aqui não tinha
habitantes! Queria desenvolver o interior??? Faz como Nevada,
liberaliza a prostituição, o jogo, o casamento.... Seria melhor uma Las
Vegas aqui. E de quebra eu estaria morando no Rio (no Rio!!).

***

Posso até não passar no concurso, mas me sinto imbatível no Master.

***

O homem-aranha não daria certo em Brasília. Ele só iria poder atuar no
setor bancário ou no de hotéis, e entre um e outro ainda teria que
pegar um busão, porque Peter Parker é liso pra caralho.

***

CREDO QUIA ABSURDUM.
(acredito nisso justamente porque é um absurdo)

é o meu novo lema de vida.

***

Cena num ônibus.
Um cara ao lado, lendo "Dossiês de Sinceridade", de Paulo Coelho. Por
um momento pensei: "Que bom, ele está lendo!". Mas logo mudei de
idéia: "Que horror! Ele está lendo Paulo Coelho!".
Preconceito meu? É. Ou não.

***

Na exposição "História da Pré-História", no CCBB, uma mãe fala pra
filha, olhando pequenas esculturas aborígenas de figuras humanas:
- Olha, que mulher gorda. Que peito grande.
Ao que a filha, de uns 7 anos, responde:
- Parece o de vovó.

Saí de perto pra rir à vontade.


***

Hoje tem promoção no cinema ao lado da minha casa. Vou ver uns 3
filmes. Semana que vem retomo os estudos pra valer.
Ah, e semana que vem vai ter show da Mombojó por aqui. Depois eu conto
como foi.

***

abraços a todos.
BJ


Relatos de Brasília - 7

Vou postar aqui, pra deixar registrado, os relatos dos meus primeiros meses em Brasília, enviados por e-mail para amigos e familiares antes da existência desse blogue.

Eu odeio perdigotos.

Tue Mar 29, 2005 8:20 am

nunca mais tinha mandado notícias, então aí vai um monte de megabites.

abraços-
BJ


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analogias

Eu adoro analogias. Ajuda muito a entender melhor as coisas, ao trazer
idéias abstratas para um campo mais próximo da nossa realidade.
Pra vocês entenderem melhor como estou me sentindo, com a próximidade
das provas das primeira e segunda etapas, vou usar uma analogia. Me
sinto como um candidato em vésperas do primeiro turno das eleições e
muita gente acha que ele pode passar pro segundo turno (ou seja, no meu
caso, na terceira fase do concurso), mas isso depende que não cometa
nenhum deslize perante os eleitores (ou seja, que eu faça boas provas)
para que tenha uma boa votação (boas notas).

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Eu odeio perdigotos.

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Rede Bobo

Na quinta-feira passada dei uma entrevista para a Globo. O tema era o
concurso do Rio Branco. O que me dá mais medo é o quão ridículo eles me
farão parecer. Bom, se bem que ser entrevistado para matérias temáticas
cujo objeto não é você, entrevistado, é algo necessariamente ridículo.
Porque você é um instrumento através do qual o jornalista vai passar o
seu (o dele!) ponto-de-vista. Você pode falar o que quiser -- mas você
vai dizer o que o cara quiser. Edição faz milagres (tem um episódio dos
Simpsons jóia sobre isso).
Mas eu topei. O filho do dono do curso estava agoniado, ninguém queria
ser entrevistado. Frescura da porra. Eu disse a ele, "olha, se ninguém
quiser ir, eu não me incomodo". Ninguém quis. Ora, tem alguém querendo
ouvir, gravar, transmitir a MINHA opinião sobre um assunto...! Ôxe, eu
não me incomodo, não... A gente vive atrás disso na vida - querendo ser
ouvido. hahaha. E ainda por cima é Renato Machado quem vai fazer a
chamada para a matéria! Se bem que eu preferia que fosse a Cláudia
Bomtempo... E eu entendo alguma coisa o assunto; essencialmente repeti
os argumentos que utilizei naquele texto que repassei pra vocês -- não
sei se era isso que ele queria ou esperava ouvir.
Nessa coisa de entrevista, me lembro da Escola Recanto, em 1986.
Primeiras eleições democráticas pra Governador ("o povo quer / aquele
que fez mais / Arraes, Arraes, Arraes / 86 só vai dar Arraes"). Teve
eleições entre os alunos e eu era candidato a Senador, eu acho. Ia ser
entrevistado por aquela morena do NE/TV, Mônica Silveira. Aquele monte
de gente, pirralhas sobretudo, mas mais velhos do que eu na época, ao
meu redor. Câmara na frente, microfone apontado na minha direção. Ela
pergunta: "Vai votar em quem?". Pensei um pouco e respondi,
taxativo: "Arraes". Risada geral, inclusive da repórter. Eu não saí na
TV. Não disse o que ela queria ouvir. Foi minha primeira experiência
com o jornalismo. Pedagógico.
O repórter me disse que a matéria sairia no dia seguinta, na sexta-
feira. Acordei com uma ansiedade danada.... que leseira. Já eram 7:55
e "minha" matéria não tinha saído ainda. Fiquei pensando em Vovô, que
devia estar puto, na frente da TV desde as 7h, pronto pra apertar o
Rec. Ia passar o último bloco, última chance...
Não saiu na sexta. Meu estrelato foi adiado. Provavelmente para a
próxima semana. Ou então desistiram da matéria. Eu mesmo acho o assunto
requentado. Aprendi que esse tipo de matéria se chama "matéria fria".
Na quinta-feira a mãe de um jogador tinha sido liberada do seqüestro.
Mais "quente" e talvez por isso minha matéria voou. Deve ficar pra
preencher uma eventual falta de notícias durante essa semana.

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"Rebelem-se seus vermes"
(pixado num muro do DF)

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Páscoa

Ontem foi Páscoa. Fui almoçar na casa de uma amiga de uma tia minha.
Foi legal. Tinha lá uma americana eleitora de Bush (eu conheci uma,
existe mesmo!!!!). É surreal conversar com um representante dessa
espécime. A comida, preparada pelo ex-Chef do Chez Georges, Romero, foi
espetacular, indescritível em palavras. O filho da dona da casa
(Ingrid) é assessor de Cadoca na Câmara. Mais uma dose de Johnny e eu
contava sobre os muros pixados! hahaha. A noite terminou com a gente
morrendo de rir com "Pânico na TV!". "Silvío Santos" e Repórter Vesgo
prestam um grande serviço ao jornalismo brasileiro. Quem não os
conhece, não perca: domingo, às 18:30, na Rede TV! (é muito melhor do
que Faustão, eu garanto).

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"LisoTur - big surprises"

marca e slogan sugestivos de uma companhia de ônibus paraguaia ou
uruguaia de turismo, que eu vi estacionado na frente de um hotel aqui.

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Herói

Ao sair do filme "Herói", após a recuperação da embriaguez estética
proporcionada pela beleza da fotografia, a primeira pergunta que vem à
mente é: ok, é lindo, mas quem é mesmo o herói?
Nossa ignorância em relação à história e cultura oriental vai ter que
acabar. Por muito tempo, modernidade e, mais recentemente, globalização
eram tidos como fenômenos necessariamente ocidentais. Com a emergência
da Índia e da China como potências econômicas, certamente cada vez mais
estaremos expostos à produção cultural vinda de lá. Essa nova situação
trará à tona do cenário mundial, hoje predominantemente ocidental,
valores orientais.
Esse filme é sem dúvida um prelúdio de algo que se tornará bastante
normal num futuro próximo. Cada vez mais nos defrontaremos com esse
tipo de ambigüidade ou divergência moral -- como se diz "get used to
it" em mandarim?
Uma dica. A história do filme é bastante simples. Às vezes vale à pena
deixar de ler as legendas e contemplar a fotografia do filme. Talvez
você faça isso naturalmente sem nem perceber. Não vai perder muito do
filme se fizer isso, ao contrário.

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"O mito é o nada que é tudo"
(F. Pessoa)

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merda gramaticalmente correta

Na última aula do professor de gramática, ele concluiu agradecendo,
todo aquele blá blá blá típico. E no final, ele disse que torcia para
que todos ali presentes passassem no concurso.
Diante das 32 vagas oferecidas, os bem mais de 50 estudantes se
estourarem de rir com tamanha forçação de barra.
Ele se deu conta da besteira que falou, e deu um sorriso amarelo...

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a Humanidade

No programa do Ratinho, semana passada: em que ano foi proclamada a
Independência do Brasil?
As respostas dadas pelas participantes: 1931, 1950 e 1750.
A última ganhou R$ 1,000 porque chegou mais perto.
E eu fiquei me perguntando o que a platéia estava aplaudindo.
Isso quase abala o meu otimismo na Humanidade. Quase.

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De esquerda

Estou de saco cheio de ouvir dizer que "o PT não é mais o mesmo" ou que
o governo Lula não é "de esquerda". Não tem nada mais babaca e inócuo
do que críticas dessa natureza.

Que o PT "não é mais o mesmo" me parece óbvio. Primeiro, ele mudou de
posição no jogo político, e de oposição passou a ser situação. Seria de
surpreender , portanto, se ele permanecesse igual a antes. Aliás, muito
dos erros na condução política do PT-Federal, a meu ver, se devem ao
fato de que alguns quadros do PT ainda não se deram conta disso (muito
dos erros se devem a burrice e/ou inexperiência de ser governo,
mesmo... viva a alternância).
O PSDB e o PFL também cometem erros no papel de oposição. Normal. Estão
todos aprendendo.
Além disso, o PT completa 25 anos e seria estranho, anacrônico, se
continuassem com posições iguais às daquele tempo. O PSTU e o PSOL
preencheram essa lacuna política, representando essas posições
retrógradas, tanto que optaram pela dissidência (mais fácil que a
tentativa de construção), e têm a representatividade que merecem. O
mais curioso é ver adversários de longa data cobrando "coerência" do
PT... Como assim? Mas era supostamente dessas idéias que eles
discordavam! É sintomático ver Heloísa Helena, ACM e Artur Virgílio
juntos contra o PT.
Em relação ao segundo ponto, muita coisa me irrita. Geralmente as
pessoas que fazem essa crítica se referem unicamente à gestão macro-
econômica. Essa é justamente a área mais díficil de mudar rapidamente e
de forma segura. Qualquer decisão abrupta poderia ter efeitos
catastróficos e quem mais sofreria, como sempre na História, seriam os
mais pobres (não por acaso é nas classes populares que Lula tem mais
apoio). Noves fora os números positivos nessa esfera, me parece um
tanto limitado se restringir o "ser de esquerda" meramente à questão
econômica. Existem políticas públicas extremamente progressistas sendo
adotadas em outras áreas. O Ministério das Cidades é
algo totalmente novo -- pela primeira vez temos políticas públicas
para as cidades sendo formuladas a nível federal, para racionalizar os
investimentos públicos. A política ambiental do governo está sendo
transversalizada, em detrimento das tradicionais e medíocres políticas
verticais (fato reconhecido até pela oposicionista revista "Primeira
Leitura"). Na Sáude, questões polêmcias têm sido corajosamente
abordadas, contrariando fortes interesses conservadores:
descriminalização do aborto, instituicionalização de narcossalas,
liberalização e financianmento de pesquisas com células-tronco. Há uma
revolução silenciosa de "bancarização" do povo, processo inédito e
importante de inclusão social. Órgãos do governo devem passar a adotar
o software livre em todas as esferas, inclusive nos computadores
subsidiados a serem vendidos para famílias de baixa renda -- o que
coloca o Brasil na vanguarda virtual do mundo com essa política de
inclusão digital. Temos políticas afirmativas na Educação (que é o que
se pode fazer no curto prazo), enfrentando setores reacionários; a
Reforma Universitária está sendo discutida em público; e vem aí um
fundo para o ensino fundamental - é pouco, mas ainda estamos na metade
do mandato. Na Cultura, a grande mudança seria a Lei do Áudio-Visual
(Ancinav), que iria democratizar e descentralizar a distribuição dos
incentivos fiscais (até hoje a iniciativa privada decide como aplicar o
dinheiro público através das leis de incentivo -- uma aberração); o
projeto teve que ser postergado por conta da forte mobilização dos
interesses arraigados que se beneficiam do status-quo -- Rede Globo à
frente, Arnaldo Jabor de bedéu. Há um grande envolvimento da sociedade
civil organizada em várias esferas do governo, e muitas ações adotadas
pelo governo vêm do envolvimento direto de movimentos sociais.
Mas tem algo ainda mais fundamental. Dois anos é muito pouco tempo. Em
termos históricos, é um nada, é uma vírgula, no máximo uma nota de roda-
pé. Qualquer análise taxativa sobre esse governo agora é, no mínimo,
precipitada (no máximo, é má-fé). Tem um ex-professor universitário e
atualmente consultor da União Européia, Roger, muito amigo dos meus
pais. Ele está trabalhando aqui em parceira da UE com o Ministério de
Planejamento. Conversamos, entre outras coisas, sobre isso. Ele conta
que o que ele mais diz aos colegas dele no Ministério é: "calma, calma,
calma". Lembrando a experiência francesa com Mitterrand, ele destaca
que para se julgar o Gov. Lula, só após os oito anos de seu governo. O
Lula, o PT, o Brasil merecem e precisam desse tempo de crédito.
Finalmente, aos que criticam as alianças, só posso dizer que há, nessa
crítica, um viés autoritário, anti-democrático. Foi uma escolha do
povo, através das eleições livres, que Lula governe com as forças
políticas que estão representadas no Congresso Nacional. para o bem ou
para o mal, o Governo tem que negociais e compôr. Natural. Desejável.
Democrático. Claro, há limites. Se Ciro Nogueira entrasse na Esplanada,
eu vomitaria. Mas até agora as composições estão dentro dos limites do
aceitável. Uma das qualidades desse Governo é internalizar conflitos,
colocar no seu seio setores conflitantes (Marina e Rossetto X
Rodrigues, Furlan X sindicalistas, por exemplo). E tem saído coisas
interessantes desses atritos. Como a lei dos Transgênicos.
De mais a mais, o Governo tem aprendido com o seus erros,
aparentemente. E como já disse o Zé Dirceu: "a paciência é
revolucionária". E olhe que ele tem autoridade para dizer isso!!!
Parafraseando um famoso slogan pacifista: "Give Lula a chance" !

**

Relatos de Brasília - 6

Vou postar aqui, pra deixar registrado, os relatos dos meus primeiros meses em Brasília, enviados por e-mail para amigos e familiares antes da existência desse blogue.

gramática-cinema-céu-chuva

Sun Mar 6, 2005 2:14 pm

Aproveitando a oportunidade, mando mais novidades.
Bom, novidades mesmo não... Não há muitas. São escassas já que não
faço muita coisa durante a semana fora do itinerário casa-rodoviária-
biblioteca-rodoviária-curso-casa.

Semana passada estudei a Gramática Portuguesa. É muito interessante,
mas também muito chato. ALém do que, é um pouco como saber a
composição química do diamante: tira a beleza. Por exemplo, estudando
fonética, você pára pra pensar como deve abrir o véu palatino de
Marisa Monte quando ela canta "soildãããããão..." E eu não quero nem
imaginar como deveria ter sido o véu palatino de Louis Armstrong!
Na mensagem anterior, me empolguei demais e falei que tinha me livrado
dos shoppings... Foi só empolgação, mesmo. Continuo passando lá todos
os dias, pois é lá onde janto antes do curso.

E ontem mesmo fui ao cinema. Ontem fui tomar uma cerveja depois do
curso com Marinho, meu ex-vizinho aí em Recife (é engraçado isso de
morar fora de Recife, pois saio com certas pessoas que, normalmente,
nunca sairia em Recife. Amanhã mesmo vem uma prima minha pra cá, e
vamos nos encontrar - nunca nos encontramos em Recife que não seja no
almoço na casa de vovó nos domingos!) Mas como ia dizendo, depois da
cerveja, à noite fui ao shopping, ver um filme. Fui ver "Mar Aberto".
Confesso que não estava muito animado, não. O cartaz, o título, a
temática e o fato de ter ganho o Oscar - nada disso me atraía. Mas
segui a sugestão de MAteus, e fui ver. Achava, confesso, que seria um
dramalhão, aquela coisa meio novela mexicana, com um pouco mais de
classe. Grata surpresa. QUe filme maravilhoso. É CINEMA. EMocionante,
inteligente, simples, honesto, profundamente humano. A atuação dos
atores é bem convincente. Os personagens são críveis, são pessoas que
poderiam totalmente existir. Você se identifica. È muito bom. Saí do
filme e decidi ver outro. ENtrei em "Menina de Ouro". Eu não gostei do
último filme de Clint Eastwood. E ter visto M. de ouro logo depois de
Mar Adentro foi MUITO interessante. A diferença é cruel. Mar Adentro é
tudo que Menina de ouro não é! O filme de Eastwood é uma farsa, uma
enganação. É oco, superficial, forçado, previsível, óbvio. Não
emociona. Fico me perguntando o que explica o sucesso de crítica e
público de um filme que é, na melhor das hipóteses, medíocre. Acho que
é porque o cinema clintiano é o equivalente a Jota Quest no
cinema: "Fácil, extremamente fácil..."... É acessível, e esquecível.
Mar adentro provoca, incomoda, fica na sua cabeça. O de clint, não
(ainda bem). Enfim, recomendo a todos Mar A dentro. Vale a pena. A
única coisa que presta mesmo no filme de eastwood é a fotografia. AS
paisagens são muito, tipicamente americanas. O clima criado é
profundamente americano. Lembra pinturas daquele cara (como é mesmo o
nome dele, Guila?) Edward alguma coisa: o diner, o posto de gasolina,
etc. Sò isso.

Esqueci de falar uma coisa de Brasília. Eu vinha querendo falar, mas
sempre esquecia na hora de escrever. Lin me lembrou bem - o Céu de
Brasília é algo excepcional. ALguém me disse que o céu daqui é o mar.
È imenso e contemplativo. No fim da tarde, o céu se transforma. Luzes
e cores de várias tonalidades surgem dos lugares mais inesperados. Uma
obra de arte, uma pintura.É uma das coisas que mais gosto é olhar o
céu de Brasília. Mas não posso olhar muito pra não ser atropelado.
haha. No horário de verão nesse momento eu tava no curso - no quarto
andar. Era massa. E aqui ainda tem horizonte (a PaulOOtavio ainda não
o destruiu, como Moura Dubeux fez aí né!).

Descobri uma coisa que é pior do que Brasília para o pedestre.
Brasília quando chove. LEvei uns banhos danado essa semana. E a água
vem de cima, dos lados, de baixo... É foda... Definitivamente, essa
cidade não foi feita pra pedestres.

Bom, é isso. Espero em breve poder mandar mais notícias.
Escrevam também.

abraços a todos.

BJ



Relatos de Brasília - 5

Vou postar aqui, pra deixar registrado, os relatos dos meus primeiros meses em Brasília, enviados por e-mail para amigos e familiares antes da existência desse blogue.


contagem regressiva

Mon Feb 28, 2005 4:45 pm

Olá pessoas!
Finalmente, notícias.

Cheguei de Recife há pouco mais de duas semanas. E a chegada foi cheia
de novidades. Aumento no aluguel (parcelas do IPTU); máquina de barbear
pifou (estou ficando barbudo); walkman pifou (estou ouvindo menos
rádio); e comprar um celular pelas vias legais é difícil e frustrante.
Mas a notícia mais esperada e a única boa foi que o Edital tinha sido,
finalmente, publicado.

Com isso, começou a contagem regressiva. Essa informação é importante;
antes, não saber quando e como seriam as provas e as fases gerava uma
incerteza muito grande - o que, além de ser ruim psicologicamente, não
permitia um planejamento estratégico de estudo. As primeira e segunda
fases serão nos dias 16 e 17 de Abril, respectivamente, e abragerá
História Mundial e do Brasil, Geografia e Português. A lista dos
aprovados (acho que serão 300) nestas fases sairá em meados de Junho. A
terceira, e última fase, ocorrerá nos últimos fins de semana de junho,
até o primeiro fim de semana de Julho (2 e 3) e abrangerá o resto das
disciplinas: Questões Internacionais, Inglês, Francês ou Espanhol,
Direito, Economia, História. Será mais ou menos assim. A lista final só
sairá em meados de Agosto.

Cheguei aqui de volta, depois de duas semanas de Recife, e já entrei no
ritmo normal de estudo. Estou agora focando mais nas matérias das
primeira e segunda fases.

Minha estada em Recife foi muito proveitosa. Vi um monte de gente que
eu queria ver. Também foi interessante (porém cansativo) receber meus
pais de intercâmbio. Acho que Recife superou as expectativas deles.
ELes gostaram muito. QUer dizer, nos três primeiros dias, depois de
vários passeios legais (incluindo Atellier de Brennand, Olinda, passeio
a pé pelo Bairro do Recife, show de bossa nova...) eles estavam
gostando muito. Depois do quarto dia (na casa do meu tio em Maria
Farinha) eles acharam DO CARALHO. haha. As fotos, quem estiver curioso
para vê-las, é só ir na página de fotos da família -
http://br.photos.yahoo.com/bernajurema . O passeio que eu gostei que só
foi ir da casa da minha avó na Boa Vista até o Marco Zero. Foram também
minha mãe com duas amigas da Austrália e Noé - aliás, o passeio não
seria o mesmo sem Noé, um almanaque ambulante do Bairro do Recife, um
verdadeiro privilégio. As cenas do passeio de barco pelo Capibaribe
também revelam um Recife que conseguiu manter sua poética, sem ser
poluído pelos monstregos erigidos pela Moura Dubeux e quetais. (sem
saudosismo de um tempo que eu nem vivi, hein!).

Por aqui, eu sigo descobrindo a cidade, pouco a pouco. Este fim de
semana descobri a estrada dos tijolos amarelos (ahhaha) para a minha
autonomia cultural na cidade! Tem um ônibus que sai de perto de onde eu
moro e leva, gratuitamente, até o Centro Cultural Banco do Brasil.
Muito útil isso, já que o transporte público não chega até lá. Pena
que, aparentemente, eu fui o único não-funcionário o usufruir o
serviço. Mas usei bem! Só neste fim de semana vi um filme israelita
(casamento arranjado) um alemão, sobre um fim de semana de Hitler nos
Alpes, uma exposição sobre a História da Pré-História brasileira e uma
peça, Hamlet. Chega de shopping center!

Falando nisso, é um traço bem marcante da cidade. Shopping centers. A
cidade quase não tem espaços públicos coletivos de lazer. Fora o famoso
Parque da Cidade (que a partir de certa hora é um centro para
bizarrices sexuais, tarados e coisas do tipo), os espaços públicos são
privados - os shoppings. Lá as famílias de classe média e média alta da
cidade vão passear, ver peças de mamulengos e shows voz-violão (na
praça de alimentação), exposições, a maior bolsa do mundo, o mundo de
Tainá, etc. Lembra demais os Estados Unidos. Aliás, aqui há uma
americanização muito intensa, ainda que muito superficial. É um
consumismo MUITO grande de tudo - roupas, carro, religião. Não é um
americanismo na sua essência, mas aquilo que a cultura americana tem de
mais vulgar, banal. Não é à tôa que aqui há tanto fanatismo religioso,
seitas e um problema de drogas muito grande, principalmente entre
jovens de classe média alta. Na verdade os pobres só vêm pras "asas"
pra trabalhar. Em geral, moram bem longe, marginalizados nas cidades
satélites.

Eita, tenho que ir nessa. Queria continuar escrevendo mais daqui a
pouco começa minha aula.

Abraços a todos e mandem notícias.

BJ

Relatos de Brasília - 4

Vou postar aqui, pra deixar registrado, os relatos dos meus primeiros meses em Brasília, enviados por e-mail para amigos e familiares antes da existência desse blogue.


janeiro - 2005........

Wed Jan 26, 2005 3:46 pm

Olá pessoas.

Finalmente vos escrevo. Esse mês foi de lascar. Como sabia que iria
passar o período do carnaval em Recife, estudei pra caramba pra curtir
as festas e relaxar, sem peso na consciência. Resultado: estou cansado
que só, às vezes acho que meu cérebro vai dar tilt. Mas por outro lado,
existe a perspectiva de que o concurso só aconteça lá pra Junho. Ou
seja, posso ficar mais tranqüilo e terei oportunidade de ler mais
coisas. A bibliografia é monstra, e se as provas fossem agora em Março,
eu não teria lido nem um terço do recomendado. Pelo menos agora, com
esse provável adiamento, poderei pelo menos atingir um terço da
leitura.

Boa parte do mês foi tomada pela polêmica do Inglês, que ocupou páginas
de jornais, minutos de telejornais, capas da revista, linhas valiosas
de colunas de articulistas que aparentemente estavam sem assunto para
falar. Ô polêmicazinha bêsta! Um bando de gente desinformada falando
qualquer besteira para ocupar espaço. O diplomata, dono do meu
cursinho, prevê que este ano, por conta dessa exposição exacerbada na
Imprensa, terá um número recorde de concorrentes. Há previsões, no
Itamaraty, que passe dos 10,000 o número de candidatos. Muitos dos
quais, aliás, enganados pela falsa idéia, propalada pela Imprensa, de
que o concurso "está mais fácil". Vão pagar 100 reais de inscrição e
vão quebrar a cara.

Pra vocês terem uma idéia, esse foi o grande acontecimento do mês!
Hahaha... Meu cotidiano é extremamente previsível. Ah, houve uma
mudança. Parei de comer pastel com caldo, por R$ 1,00, na Rodoviária,
devido a apelos pela minha própria saúde. Geralmente, agora tomo um
suco de laranja com pão de queijo, e às vezes acompanhados de um
capuccino, quando o cansaço tá grande - aliás, esse é um novo hábito,
tomar capuccino. Às vezes tomo até dois por dia! Enfim, do café, no
Conjunto Nacional, pego o ônibus até o Senado. Lá, fico até umas 18h.
Volto pra Rodoviária e de lá ando até o Brasília Shopping, onde faço um
lanche e sigo pro meu curso, que acaba às 22h. Chego em casa morrendo
de sono. Nesse mês, todos os fins de semana fui no sábado, depois da
aula de Direito, pra casa de Vanessa (prima do meu pai). Prefiro passar
o fim de semana lá, porque não fico sozinho na minha kit submobiliada.

Nos domingos, geralmente, vou ao cinema. Esse mês vi "O
Grito", "Alexandre", "Entreatos" e "Desventuras em Série". Este último
é muito engraçado, o elenco é genial e os diálogos espertos (Fiquem até
o final, porque a animação dos créditos é massa e conta a história dos
personagens). E "Entreatos" é obrigatório para qualquer um que queira
entender o Brasil hoje. É uma aula de Ciência Política e de História do
Brasil. "O Grito" é igual ao outro filme desse diretor, "O chamado". E
dá um medo danado -- ainda mais porque depois tive que voltar andando,
à meia-noite, pra minha kit, pela selva de concreto deserta que é esta
cidade.

Fim de semana passado fiz um passeio turístico. Fiz o tour no Palácio
do Planalto. Foi muito interessante ver onde as decisões do Governo são
tomadas, onde os chefes-de-Estado são recebidos, onde as reuniões do
primeiro escalão acontecem, como é o gabinete de Lula (tem a TV dos
meus sonhos lá... E tem um mapa-múndi lindo).

Semana que vem chego aí, bem no dia do aniversário do meu irmão, e no
dia que também chega João. Duas coincidências muito felizes. Devo ficar
até Março. Quando voltar, pretendo cuidar mais do meu conforto aqui.
Como achava que as provas já seriam a partir de Março, não comprei nada
pra me proporcionar algum conforto. Os três móveis mais a mini-TVzinha,
todos, foram emprestados por Vanessa. Em Março vou mudar isso. Preciso
de espelho, saboneteira, estantes, almofadas, som... Quero tornar meu
lugar mais meu lugar e não apenas um lugar pra se dormir, que é o que é
até agora.

Estou ansioso pra chegar logo aí, depois desse mês extenuante estava
mesmo precisando disso. Também estou curioso pra receber meus "pais de
intercâmbio" (razão pela qual estou indo pra Recife), que pela primeira
vez estão indo conhecer o Recife (e o Brasil). Passarei uns 4 dias só
de guia, tentando mostrar o que essa cidade tem de melhor, escondendo
as coisas muito feias (espero não ver nenhum tiroteio!), e tentar fazê-
los entender como é que pode essa cidade ser tão querida!

Também devo fazer um curso de Português nesse meu mês aí.
Tradicionalmente, essa é a matéria decisiva -- e com as mudanças este
ano, a disciplina teve seu peso aumentado. Preciso estar craque em
análise sintática.

Todos se cuidem, fiquem bem e espero encontrá-los quando chegar aí. Até
breve.

Um abraço,
bernardo

Relatos de Brasília - 3

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semana 5 - Relato 4

Sun Dec 5, 2004 5:17 pm

Finalmente, notícias...

Não tem muitas novidades não.... Meu cotidiano não tem surpresas.De
segundo a sexta é kit-Senado-Curso-kit. Arrumei um café da manhã na
rodoviária: 1 real, um caldo de cana + um pastel. Nessa rotina, se
aprende a se extrair prazer do trivial. Meus passeios, meus momentos
de lazer, são esses percursos. Ah, e também lá no Senado, no
itinerário até o restaurante da Câmara, principalmente nas terças e
quartas. É interessante ficar vendo um monte de gente que eu só lia os
nomes no jornal...
Nos fins de semana dá pra relaxar mais... Ir ao cinema e encontrar
pessoas. Hoje vim almoçar aqui na casa de uma amiga das antrola da
minha mãe. Ela e a família ficaram muito contentes de me conhecer.
Talvez volte aqui mais vezes.
Lá no curso começou o período de boatarias.... Ninguém sabe quando
começam os exames, nem se inglês vai cair fora do peneirão, nem um
monte de coisas... Mas já tem um monte de teorias...
Ontem fui ao cinema. Fui ver Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. É
ótimo. Queria falar dele mas não dá. QUem gosta de Cinema, não perca.
Quem gosta de PAris, idem.
Semana passada foi o Festival de Cinema Brasileiro. Só fui dois
dias... E o ponto alto mesmo foi o filme de Kléber. É um curta, muito
criativo, autêntico, bem feito. Eu e a platéia gostamos muito. Quem
quiser ver, www.portacurtas.com.br. Se chama Vinil Verde.
Hoje de manhã, antes da faxina semanal, dei uma caminhada pelo meu
bloco (agora não moro em bairro... é bloco!) e achei uma lavanderia
pras minhas roupas e um lugar pra consertar minha bicicleta. Êba.

QUeria escrever mais... mas é lasca estar na casa dos outros e ficar
teclando.
Outra novidade dessas últimas duas semanas é que eu re-entrei no
Orkut...
Pronto, contei as coisas mais importantes... Ou seja: viram como minha
vida aqui é previsível e sem grandes emoções?! A menos que eu comece a
contar sobre a II Guerra Mundial, a Guerra do Paraguai, análise
sintática ou que a demanda agregada é que exerce influência sobre a
oferta e não vice-versa....

abraços a todos.
e dia 18-12 eu chego aí (e fico até o dia 03-01)

BJ



ps
obrigado aos que me mandaram emails individuais. Gostei muito. Eles
ajudam bastante, estimulam, dão uma força. E é sempre bom saber de
apesar de estar sozinho no momento, não sou sozinho e tem umas pessoas
por aí que se preocupam. Valeu. Qd der eu respondo, qd não der vai
esse email galeroso assim mesmo!