quinta-feira, 22 de junho de 2006

MAIS NOTAS DE LEVE
Vi trecho de uma entrevista com Parreira no qual ele disse que show é ganhar. É por isso que, desde o último jogo contra a Austrália, decidi que não torcerei mais por este treinador. Eu gosto de futebol! Gosto de ver equipes, dentro de seus estilos, jogando bola. A Alemanha com seu jogo físico e alto; a Inglaterra com bolas altas, chutes potentes e talentos individuais característicos; a Argentina com seu rápido toque de bola, marcação intensa e talentos individuais típicos da escola sul-americana; a Costa do Marfim (infelizmente, desclassificada), com seu toque rápido, jogo para frente e de muita garra... cada um dentro do seu estilo, ganhando de 1x0, perdendo de 2x1 ou vencendo de 6x0. O Brasil joga o futebol de 1994, sendo que então nós não tínhamos o talento que temos hoje. Show é ganhar jogando bola, seu técnico de merda! Enquanto o Brasil não sabe o que é isso, torcerei para as equipes que têm ganho com moral: Espanha, Argentina, Alemanha, Inglaterra...
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E o poeta Bial? Tão lindas suas poesias no Jornal Nacional. Chego a me emocionar com suas palavras e, mais ainda, com sua voz... Tudo muito profundo!
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Fui à Parada Gay em São Paulo neste sábado. Parece as virgens de Olinda, sendo que de verdade. Fiquei chocado com os transexuais e com a quantidade de menininha de 14 anos se pegando. Nos trios, um bando de bicha-louca dançando e se divertindo.
Legal que no Brasil nós tenhamos espaço para este tipo de manifestação. Não fosse o excesso de putaria... acho que a luta pelo respeito fica um tanto arranhada do jeito que a Parada acontece. Talvez eu que seja careta... Mas acho que o Movimento precisa se dar um pouco mais de valor e se levar mais a sério.

terça-feira, 13 de junho de 2006

NOTAS DE LEVE

Assisti esta noite à entrevista com Heloísa Helena no Roda Viva. A idéia de ter um partido de esquerda novo não me é antipática. No entanto, a semelhança de seu discurso, mascarada de não elitista e socialista, com a visão de partidos conservadores é incrível. A adoção do termo "mensalão" e "aero-lula" chamaram minha atenção.
Enfim, ser candidato como Heloísa Helena, que sabe que jamais será eleita, é muito fácil: tudo pode! Tudo é possível! Orçamento e relação com demais partidos é balela! Tudo parece muito fácil... os mais ingênuos devem se perguntar: "Realmente, tudo é tão simples, por que ninguém fez isso antes?".
Houve trechos interessantes na entrevista. Um, único, aliás. Quando ela falou de sua política de segurança pública. Todo o resto foi patético. Simples demais! Fácil demais! Explicação, zero, sobre como as coisas seriam feitas e com o apoio de quem ela as faria.

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Me impressiona como o nosso atual presidente é desrespeitado. Senadores ameaçam agredi-lo, ex-presidentes o chamam de "fanfarrão"... falta classe e, sobretudo, saber criticar. Por que estão tão agressivos, todos? Por que essa falta de respeito? Algo justifica?

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E o sorriso de William Bonner toda vez que ele chama Fátima Bernardes lá na Alemanha??? Que coisa linda, né?!, não fosse ridículo!! Sinceramente...

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Meu palpite para o jogo do Brasil, logo mais: 2 x 1, Brasil. Já cravei dois jogos no bolão do trabalho! Argentina 2 x 1 Costa do Marfim e Itália 2 x 0 Gana. Vamos que vamos... Na minha Copa, a final é Itália e Brasil. Itália campeã. Que eu esteja errado!

domingo, 11 de junho de 2006

No Brasil, tudo é Uma Merda
Antes de começar, gostaria de convocar algum jornalista ou comunicador em geral para fazer uma autocrítica de sua classe de trabalho com o objetivo de defender ou explicar o a situação do quadro de comunicadores em nosso país.

Como dito anteriormente, quando falávamos do caso de como a política é tratada na mídia, a forma superficial e incompleta. Trata-se o assunto sem atender de modo responsável o papel de informar à população. Apenas repetindo o que já foi dito, política limita-se à questão eleitoral.

A informação, quando tratada comercialmente é deturpada e atende aos interesses comerciais do grupo comunicador. De uma forma geral, notícia ruim vende mais; escândalos são mais atraentes; frases de efeito editadas repassando uma idéia diferente da que aquele que a disse gostaria. Por outro lado, notícias positivas vendem menos. Falar bem não dá audiência nem, muito menos, gera polêmicas; logo, são notícias menos presentes nos telejornais e programas afins. Isso vale para política, economia, esporte...

A mídia esportiva, por exemplo, serve para duas coisas: informar resultados e falar mal.Por mais que tenhamos casos de dirigentes que se esforçam para transformar o ambiente num espaço mais profissional, o foco da mídia permanece nos viciados em práticas que, aos poucos, tornam-se ultrapassadas.

A mesma coisa na economia. Prever quadros ruins e negativos, políticas más para aquele momento, enfim, gera mais polêmica. Não adianta se baixamos os juros, indicando uma tendência de, aos poucos, haver mais baixas. Vamos ouvir que embora tenha baixado algo, deveria ter baixado mais, etc, etc, etc.

É como se houvesse uma campanha pesada da mídia para fazer crer a população que nada no Brasil presta e que não há solução para nossas mazelas.

Apesar do momento crítico por qual passa nosso Congresso é importante dar espaço para a pequena parcela deste grupo compromissada com o povo e com a melhora, em algum aspecto, de nosso país.

A mesma coisa no caso do esporte: temos casos absurdos de eternos dirigentes de clubes e federações os quais se mantêm no poder por interesses obscuros. No entanto, há casos como a Federação Paulista de Futebol, a c-Confederação Brasileira de Vôlei e o clube Atlético-PR, os quais são referências de gestão profissional e visionárias em suas áreas.

O ruim, entretanto, é mais vendedor e, por isso, mais presente na mídia. Mas, e onde fica a responsabilidade do veículo de informação e dos profissionais da informação? Continuaremos a promover a idéia de que somos todos corruptos?

E a auto-estima do brasileiro?

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Dia de alvi-rubro

Quem não passou por um em algum momento da vida? Pois é, alguns de vocês já sabem, outros vão ficar sabendo agora. Na semana passada, eu vivi o meu próprio dia de alvi-rubro. Morri na praia. Não passei no concurso do Rio Branco, para o qual tenho me preparado há em torno de um ano.

Fiquei muito triste. É sempre uma chateação quando não se consegue atingir um objetivo almejado. Por outro lado, sempre tive consciência dessa possibilidade. Mas nunca estamos totalmente preparados para o fracasso. Nessas horas, o apoio da família, mesmo longe, é imprescindível. Além desses, ainda pude contar com a força de velhos amigos distantes, que por skype, msn, telefone ou e-mail mandaram mensagens bonitas de encorajamento. Igualmente importante foi a ajuda dos amigos mais recentes, daqui de Brasília, que tornou a experiência menos dolorosa, mais tolerável.

Decidi não voltar a Recife agora, e retomar os estudos pro ano que vem desde já. Na semana que vem volto ao curso preparatório e à rotina de leituras. Essa semana tirei pra re-organizar minha vida - arrumei uma bicicleta, comprei um filtro, vou providenciar uma cadeira mais confortável. Também tenho lido literatura - acabei de ler um livro que ganhei de presente, "O amanuense Belmiro", do escritor mineiro Cyro dos Anjos. Escrito em forma de diário, lembra "Memorial de Ayres", só que refletindo a sociedade brasileira dos anos 30. É uma leitura que flui, muito agradável. Além de literatura, tenho saído com amigos pra beber e socializar - antes de voltar à abstinência auto-imposta.

E o melhor anti-depressivo de todos - Lost. Em uma semana, já vi toda a primeira temporada e estou na metade da segunda. Já tinha ouvido tanto falar desse seriado. Mas desconfiava... sou cético em relação a esses fenômenos de massa... Sabe aquela tirada "toda unanimidade é burra"? Pronto... Mas meio que levado por um amigo, comecei a assistir... O negócio vicia. É bom mesmo. Um programa bem feito, bom roteiro, bons diálogos, ótimo elenco e uma capacidade incrível de manter a curiosidade. É mais um desses programas que só mesmo a TV americana, com sua concorrência intensa, é capaz de produzir (impensável um programa semelhante num mercado televisivo monopolizado e pouquíssimo segmentado como o brasileiro). Enfim, estou no décimo episódio da segunda temporada. Nada de spoilers, hein!

Pois é isso. Já estou assimilando o baque, limpando a poeira dos ombros e olhando pra frente. Na semana que vem volto às aulas e aos livros, consciente dos meus méritos e também das minhas fraquezas. O resumo dessa história toda é que eu estava bem preparado para as duas primeiras fases, que passei bem, mas nem um pouco para a terceira. Alguém aqui me disse que se preparar para concurso é como carregar uma bolsa por um longo e tortuoso caminho, e ir enchendo-a de pedras no percurso. Quanto mais se caminha, mais pesada a bolsa vai ficando, mais estragada também, e mais difícil se torna carregá-la. Mas quando se chega ao objetivo final, as pedras viram pepitas de ouro... É trabalhar para que o ano que vem eu tenha melhor sorte - de rubro-negro!

Mas antes disso... O que vai acontecer em Lost?! Onde estão Michael e Walt? Para que servem aqueles números naquele computador? Que porra é a Dharma Initiative? Que fim levou o Desmond? Eis meus maiores questionamentos imediatos!

domingo, 28 de maio de 2006

Tendência de alta

A cúpula da campanha do candidato oposicionista Geraldo Alckmin assume discurso de que a campanha ainda não começou, e que, a partir da exibição da propaganda eleitoral, será possível "desconstruir" o Presidente Lula.

O grande problema dessa perspectiva é que ela não leva em conta um fator essencial. O Governo Lula sofreu, nos últimos 12 meses, a maior campanha difamatória - e sem entrar aqui no mérito da questão - jamais enfrentada por um governo na história recente do país. Tratou-se, ademais, do primeiro escândalo na era da internet. Ou seja, a suposta "desconstrução" vai retomar uma mensagem que já foi bombardeada pelos meios de comunicação insistente e incessantemente. Não será nenhuma novidade para o eleitorado, que a essa altura já tem conhecimento de todas as denúncias.

O PT e o Presidente Lula, por seu turno, terão a ocasião de passar a sua versão dos fatos, algo que não tiveram no decorrer da "crise". Alkmin, ao não adotar um discurso novo, vai atingir a fatia do eleitorado que já está disposta a votar nele - os pouco menos de 20% dos eleitores. Lula, por outro lado, terá a possibilidade de convencer os céticos e os decepcionados, ao mostrar o que o seu governo tem feito. E o eleitor de Lula, os cerca de 45% do eleitorado, tende a ser sólido. Lula tem margem para crescer mais, porque seu discurso não foi o predominante durante a campanha difamatória. Alkmin vai repisar uma estratégia que já se mostrou falha, ao atacar o Presidente Lula. E vai perder por conta disso.
Cobertura deturpada

A cobertura política da imprensa brasileira em geral é muito ruim. Restringe-se a Política à política eleitoral-partidária. Há uma miríade de blogues noticiosos e as páginas políticas dos jornais diários são numerosas. Quantidade não é qualidade. E, então, fica-se só na política como campeonato de futebol. Parece agora a cobertura de Copa do Mundo, inventando-se notícia, achando chifre em cabeça de cavalo. A briga interna na aliança PSDB-PFL, as eternas disputas entre as diversas facções peemedebistas, o fato de o Presidente se declarar ou não candidato à reeleição são todos temas de menor importância. Mas não a julgar pelo espaço que têm na mídia.

A que se deve isso? Provavelmente, à inexperiência da sociedade brasileira com o sistema democrático-representativo. No debate público, não há questões mais substantivas, não se discute políticas públicas, ou se as discute perifericamente, superficialmente. As armações partidárias prevalecem sobre as disputas de interesse nas articulações políticas para a implementação ou não de políticas públicas. A grande imprensa empresarial assume o discurso de que a popularidade do Governo Federal se baseia no Bolsa Família (o que é uma simplificação grotesca da realidade), mas não discute a fundo em que consiste tal política, seus efeitos concretos para a população atendida, suas falhas.

Trata-se de algo bastante danoso, porque reduz política à mera disputa pelo poder político e, assim, dá razão aos céticos, contribuindo para o descrédito do sistema político-partidário e da democracia representativa. Enquanto a imprensa não amadurece e fica nessa cobertura à la Caras, é importante que busquemos fontes alternativas de informação.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

De pesos e medidas

Algo de muito, muito grave, sem precedentes, acaba de acontecer no Estado de São Paulo. Uma organização clandestina, cuja renda advem de tráfico de drogas e roubos, submeteu a população de uma Unidade da Federação a um estado de guerra, de ataque terrorista. O maior, o mais rico Estado brasileiro. O local onde se concentram as bases industrial e financeira da nação. As autoridades públicas perderam o controle da situação, que perdurou enquanto assim o desejaram os líderes do grupo criminoso semi-mafioso. E o Governador Lembo (PFL) garante, em entrevista, visivelmente incomodado diante dos questionamentos insistentes e do estarrecimento geral, que tudo "está sob controle" e que "não se preocupa com o futuro".

As populações ficaram alarmadas. Quer dizer, alguns mais que outros. O terror, finalmente, chegou aos grandes centros urbanos onde se concentra a riqueza nacional. Saiu da periferia. Chegou ao centro. Ao centro da cidade, e ao topo da agenda pública. O descontrole da segurança pública saiu da favela e, inopinadamente, invadiu os lares dos cidadãos das classes média e alta. O terror saiu da esfera do tolerável - dos pobres - e foi cruamente exposto entre a "opinião pública", ou os "formadores de opinião". Aqueles que ganham acima de 20 salários mínimos, e, em geral, são brancos. (E não é mais aquele roubo de trânsito, seqüestro relâmpago, essas coisas quotidianas, normais). Enfim, atingiu diretamente aqueles que, de fato, importam.

Os ataques terroristas terminaram apenas quando a advogada do líder do "movimento", Maroca, foi até o presídio, em avião da Polícia Militar de São Paulo, acompanhada de altas autoridades do Governo do Estado de São Paulo. Após a conversa entre a adovagada e seu cliente, as rebeliões nos presídios e o terror generalizado cessaram. Tudo volta ao normal, após o acordo. Em seguida, o Governo paulista "dá o troco", e a Folha de São Paulo nos informa na manchete do dia que "Polícia prende 24 e mata 33 em 12h". São 24 e 33 "suspeitos". A punição coletiva oficial prende e mata pretos e pobres, em geral inocentes, sempre anônimos, sempre da periferia - os suspeitos usuais. Tudo volta ao normal. E a Polícia Militar do Estado de São informa a população que não pode revelar a lista com os nomes dos "suspeitos" sumariamente executados. Os defensores de direitos humanos não têm voz nos meios de comunicação, afinal, a Polícia Militar de São Paulo tem uma reputação ilibada em relação aos direitos humanos dos mais pobres.

A imprensa brasileira, por sua vez, diante de tal contexto de caos, trata o assunto de forma muito responsável. Cheia de cuidados e zelo no tratar dessa "tragédia". A grande preocupação é "não politizar o debate". No congresso, os líderes do PSDB se exaltam com indignação pelo fato de o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro (PT-RS), ter constatado o óbvio, ao afirmar que "o governo Alckmin, o governo paulista, preferiu negociar com criminosos a aceitar a ajuda do governo". Na imprensa, ao contrário, ouvimos vários comentaristas e “pré-candidatos” afirmarem que "o problema é nacional" - ainda que nem na cidade do Rio de Janeiro, a cidade do tráfico de drogas, algo mesmo parecido com isso tenha acontecido. O problema é da “sociedade brasileira”. É de todos nós, tentam convencer-nos.

Esse cenário desolador, de falência total do Estado, ocorre num estado que é governado pelo mesmo partido – o PSDB – há não menos que 12 anos. Oito dos quais sob a liderança de um mesmo governador – Geraldo Alkmin – cujos principais subordinados da área de segurança pública continuam servindo sob o governo-tampão da coalizão PSDB-PFL.

Mas a imprensa não vai, não quer politizar algo que é, por natureza, político. O que ocorre é conseqüência direta de políticas públicas que foram adotadas, ou deixaram de ser, pelos administradores públicos nos últimos anos... na última década. É o grande legado da gestão tucano-pefelê ao Estado de São Paulo, é a grande obra, o grande projeto social – a privatização radical da segurança pública.

É a mesma imprensa que responsabilizou exclusivamente e antes de qualquer processo legal que seja, que não hesitou em responsabilizar sumariamente, que não abriu mão de fazer ilações para encriminar o maior partido de esquerda do Brasil, o único com ligações orgânicas aos movimentos sociais, o PT, por tudo, sozinho - nos "informam", unânime e inequivocamente, que se tratou do "maior escandâlo de corrupção do país". Ainda que o crime cometido tenha sido, pasmem, lançar mão da mesma tática de arrecadação de fundos para eleições que os demais partidos. Apesar de os fatos virem à tona justamente porque as instituições estão funcionando melhor - a Polícia Federal investiga e prende criminosos, inclusive políticos; a Controladoria-Geral da União passou a funcionar de forma autônoma; há CPIs instaladas no Congresso Nacional.

O desrespeito para com o Presidente da República, Lula, fundador do PT, e oriundo, ele próprio, dos movimentos sociais, não vê limites. A capa da maior revista em circulação – e a que mais, segundo os acadêmicos da área de comunicação, desrespeita os mais elementares princípios do bom jornalismo – no país, estampa-o com um chute no traseiro por ter se portado de maneira serena e responsável numa delicada negociação internacional. Essa mesma empresa de publicações faz denúncia gravíssima contra o Presidente Lula e seus mais próximos assessores, e ela mesma reconhece que suas fontes são duvidosas (isso depois de mais de um ano de ferrenha oposição numa sistemática campanha denuncista, como "os dólares de Cuba", cuja apuração nunca foi levada adiante).

O que ocorre em São Paulo é um escândalo jamas visto no país. E ocorre não porque as instituições estejam funcionando - mas por seu extremo oposto, a sua inépcia crassa. Mas a responsabilidade, nesse caso, é do partido dos donos dos principais meios de comunicação, cujo candidato à presidência é o ex-governador do Estado de São Paulo, o qual governou durante oito anos, e que no ano passado foi escolhido o candidato favorito dos empresários, segundo a capa de revista voltada à categoria e de propriedade da mesma semanal acima citada. Mas supor que as holdings proprietárias dos meios de comunicação atuem de modo a defender o grupo político que representa seus interesses é coisa de chavista desvairado que quer "desunir" o país, nos dizem, repetidas vezes, esses mesmos meios de comunicação.

E agora entendemos porquê a "opinião publicada" ficou tão assustada com a proposta de um Conselho Nacional de Jornalismo – assim como há o Conselho Nacional de Justiça, que acabou de pôr fim à prática do nepotismo no Judiciário. Não – o Quarto Poder não aceita contra-pesos ("checks and balances", como ensinou Montesquieu). "É anti-democrático", "é stalinista" (seja lá o que isso signifique!). E agora entendemos a razão da discrepância gritante do tratamento dispensado, pela imprensa empresarial, a uma crise e à outra.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Se lembrem do que eu escrevi II

Em texto sobre o referendo do desarmamento que escrevi no ano passado, concluí com os dois tipos de sociedade representados por cada uma das opções oferecidas. Os recentes acontecimentos no estado de São Paulo, tragicamente, são uma prova contundente da idéia. Passado o horror, é importante que saibamos que o que está ocorrendo não é fruto do acaso, mas conseqüência direta de políticas públicas equivocadas adotas.

Eis o que escrevi em Outubro:

"Trata-se, enfim, de decidirmos, no próximo dia 23, que tipo de sociedade queremos legar aos nossos filhos, sobrinhos, netos e bisnetos. De um lado, o do Não, uma sociedade individualista, regida pela mentalidade do “cada um por si”, que está se matando progressivamente, e cuja violência começa cada vez mais a transbordar das periferias pobres em direção aos centros urbanos abastados. De outro lado, o do SIM, uma sociedade que, apesar de todos os problemas, tenta dar um primeiro passo, ainda que incipiente, na direção de uma solução coletiva – para todos –, e não privada – para poucos."


O que estamos vivenciando em São Paulo é resultado do modelo de sociedade que as pessoas, conscientemente ou não, legitimaram no referendo. Não deveriam se surpreender.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Se lembrem do que eu escrevi

Todo esse debate público em torno da questão boliviana me fez lembrar de um texto que postei aqui no blogue em Novembro/2005 sobre a política externa de Lula. Muito interessante relê-lo e constatar como ele continua atual:Link

"The policies adopted under the Foreign Affairs minister Celso Amorim administration don’t follow the domestic politics electoral calendar – and perhaps that is what conservatives fail to realize. The foreign policy agenda is drawn up for the long term. Brazil is on the move towards the occupation of more space in the international public arena. What to layperson may seem as a defeat is, in fact, a step forward into a new level of engagement in international politics."

Se alguém se interessar, é só pedir que eu traduzo o texto para disponibilizá-lo em português. Quem quiser ler ou reler o texto, escrito em inglês, é só clicar sobre o parágrafo acima.

sábado, 13 de maio de 2006

Você não lerá essa notícia no seu jornal diário

Em mais uma atitude que atesta o caráter democrático do Governo Lula, o ministro Celso Amorim foi ao Senado para esclarecer a questão boliviana.

Eis o relato de uma amiga minha, jornalista lá no Congresso Nacional, que esteve lá e viu a audiência:

"Você deveria ter visto a audiência pública do Ministro Celso Amorim no
Senado. Ele dizia justamente tudo isso que o jornalista diz nessa
matéria
...mas ainda falou da história da Bolívia e traçou um histórico dos
contratos de gás entre Brasil e Bolívia. Ele falou que de R$ 1 bilhão
investidos pelo Brasil na Bolívia 95 % foi feito entre 1996 e 2002. De 2003
pra cá a Pretrobrás investiu apenas R$ 100 milhões no país. Enfim, ainda
disse que a cordialidade de Lula com Morales nada tem a ver com doutrina e
sentimentalismo, mas sim de diplomacia comercial com um país da América
Latina. Pois, hoje, a exportação do Brasil para América Latina e Caribe
supera o que é feito para Europa.

Os sendaores da oposição (Arthur Virgilio , por exemplo) só faltaram babar!"

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Honestidade tucana

"Tribunal de Justiça nega liminar para abertura de CPI da Nossa Caixa
da Folha Online

O desembargador Reis Kuntz, do Tribunal de Justiça de São Paulo, negou hoje liminar pedida pelo PT pela abertura da CPI da Nossa Caixa na Assembléia Legislativa. O partido entrou com um mandado de segurança com pedido de liminar questionando o regimento da Casa para abertura de comissões de inquérito. O mandado ainda deve ser julgado pelo tribunal nos próximos dias."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u78514.shtml

Os tucanos enchem a boca sempre para afirmar que a gestão do Chuchumbo em São Paulo é honesta, pois nunca se provou nada contra ela...

Claro!!!! Nunca se investiga porra nenhuma. A PM de SP é partidária - só vai atrás do PT. A Justiça é conivente - sempre o tucano tem razão, parece ser a legislação do Estado de SP. E a Assembléia Legislativa de SP é apêndice do executivo (melhorou um pouco depois da briga PFL-PSDB).

Assim, até Maluf seria "honesto"!

Aliás, é a mesmíssima tática que garante a "honestidade" de Roriz aqui em Brasília, ou a de Jarbas lá em Pernambuco... ou ACM, na Bahia; Jereissati no Ceará; os Sarney, no Maranhão; os Cunha Lima, na Paraíba...

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Veja bem

Duas coisas ficaram claras se analisarmos a cobertura midiática sobre a suposta crise boliviana. De uma lado, a grande imprensa lança mão de uma pauta ideologizada, passando por cima dos fatos. Dá-se a editorialização da notí­cia sem maiores constragimentos. Por outro lado, afora cí­rculos restritos da sociedade, a grande maioria da população, que não consome gás natural (e aliás nem sabe o que diabo é isso) e que não lê jornal e não faz a menor idéia de onde fica a Bolí­via, não está nem aí­ para essa "crise". O que indica uma discrepância gritante entre a imprensa (porta-voz da elite?) e os reais problemas da população. Seria isso sinal de irrelevância, até certo ponto, da imprensa no Brasil?
Uma dúvida... que se auto-responde

Como é que a Globo demite o competente e equilibrado Franklin Martins e mantém o imbecil e propagador dos preconceitos da classe-média, profeta do senso-comum do Arnaldo Jabor??

ahh... talvez minha resposta esteja na minha pergunta.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Uma crise forjada - a notícia é outra

Eu não ia escrever aqui até depois das provas. Mas não consigo ficar calado - estou impressionado com a maneira como a grande imprensa está repercutindo a entrevista do ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira. Fica parecendo que as pessoas não leram a entrevista. Deram destaque ao fato de que Marcos Valério tinha como objetivo arrecadar R$ 1 bi e que o presidente Lula fazia parte da cúpula do PT. O primeiro ponto diz respeito a algo que teoricamente iria ser feito, mas não foi. O segundo, é a constatação do óbvio. É o império da não-notícia.

Outros pontos muito mais substanciais da entrevista simplesmente têm passado batido. Acho natural que a oposição tente propagar uma versão que lhe seja favorável - está apenas cumprindo seu papel. Mas à imprensa caberia destrinchar a entrevista e identificar o que é mais significativo, e não jogar o jogo da oposição, que, com água na boca, já volta a falar em "impeachment", único meio de que dispõem para tomar a Presidência do PT. A sanha da oposição e a parcialidade da imprensa ficam claras na maneira sensacionalista e desinformativa como essa entrevista tem sido repercutida, e explicam o fato de que, um ano após a "a maior crise política do país" (como querem nos fazer crer), não se tenha aprovado no Congresso Nacional uma reforma político-eleitoral que sane as falhas sistêmicas que tornaram possível os problemas de que tomamos conhecimento.

Ao repercutir a entrevista de forma truncada e tendenciosa, a Imprensa ajuda a oposição na sua tentativa de forjar uma crise artificial, porque fundada em dados falsos ou deturpados, para que atinjam seus objetivos eleitorais ou golpistas. Este, sim, é o verdadeiro escândalo.

Por que a Imprensa não dá ênfase a outras questões mais relevantes levantadas na entrevista? Não sei. Mas, para que a crítica seja construtiva, seguem algumas sugestões de pontos que deveriam ter mais destaque.

- Afirma-se que Marcos Valério planejava arrecadar R$ 1bi, por meio de esquema no Banco Central, de onde é ex-funcionário. O esquema furou, deixando o PT refém (termos do Silvio) de MV, pois precisava pagar as dívidas (irresponsavelmente contraídas).Ou seja, MV não alcançou seus objetivos porque o BC agiu de forma correta. Como o presidente da Controladoria Geral da União, Jorge Rachid, disse em entrevista à imprensa, isso aí não é novidade. Sempre se fez esse tipo de corrupção por meio de licitações viciadas. A verdadeira notícia, por trás da pseudo-notícia, é que agora essas coisas estão vindo à tona, sendo apuradas, investigadas, divulgadas. As instituições estão funcionando, e a CGU, o Ministério Público e a Polícia Federal estão investigando e a imprensa, divulgando.

- MV agiu sozinho, por conta própria, para enriquecimento próprio, e não para "pagar mensalão".

- "não há santo nessa história toda, nem na direção do PT, que pagou o pato todo", diz Pereira, na entrevista.

-"MV se tornou tão grande que o próprio tesoureiro, Delúbio Soares, perdeu o controle da situação". "MV estabeleceu canais próprios com petistas e não-petistas. Tem muita gente, muitos partidos (estão envolvidos). Só que tudo caiu na nossa conta". "Ele só sabia de três ou quatro deputados do PT. O resto, que recebeu no Banco Rural, não era esquema do Delúbio. Tudo que foi sacado não tinha a ver com o Delúbio. Quem mais sacou? Há muita hipocrisa".

- Quando estorou o escândalo, MV disse à cúpula do partido que tinha três opções: entregar todo mundo, e derrubar a República (porque envolveria gente graúda de TODOS os partidos), ficar quieto e acabar como PC, ou o meio-termo". Ele optou pela última.

- Pereira diz, ainda, que o MV não tinha acesso ao Planalto. E exime o Presidente Lula de responsabilidade sobre os fatos. Uma vez que MV agia autonomamente.

- "Quando o PMDB veio, em abril, e já estava tudo ocupado no governo, fiquei com o abacaxi. E muitos da base aliada de fato não entraram por questão ética, os ministros do PT são sérios. Não me conformo de o PT pagar todo o pato". "Se investigassem a fundo realmente, veriam isso. E o Governo nada fez de errado. Mas não há interesse porque quase todo mundo está envolvido. Foi uma grande mística (a distribuição dos cargos). De 7.900 pessoas que se inscreveram no sistema que eu montei para toda a base aliada, com cargos e perfis técnicos, ficaram mais de 90% de fora".

- "A verdade do PT não tem como ser digerida pela mídia. Como Delúbio consegue, com assinatura dele mesmo, R$ 50 milhões? (...) Ele não é corrupto. Não é. Quem decidia tudo isso? (...) Atrás do Marco Valério deve haver cem Marcos Valérios. É um mecanismo, e que agora continua no país". Somente o Observatório da Imprensa deu ênfase a esse aspecto, até aqui totalmente negligenciado, mas crucial. Afinal, a corrupção não é possível apenas com agentes públicos. Mas pela cobertura da crise, parece que até que foi o caso. A corrupção só acontece porque existem (muitos) agentes da iniciativa privada envolvidos. A entrevista lança luz sobre este fato. A Imprensa, fora os meios alternativos, convenientemente trata esse aspecto de forma, digamos, discreta. Talvez não queira melindrar seus patrocinadores.

* * * *

Ao fim da matéria, a repórter d'O Globo descreve a situação financeira de Sílvio Pereira, considerado um dos "corruptos" envolvidos na "quadrilha" dos 40... Cada um que tire suas conclusões.

"No ano passado, foi revelado o caso que ele chama de seu único “grande erro”, o Land Rover que ganhou de presente e devolveu depois de descoberto.

Desde 1994, tem um apartamento de dois quartos no bairro Bela Vista, de classe média, que vale cerca de R$200 mil, uma casa em Ilhabela, de R$400 mil, um carro e dois terrenos. As declarações de imposto de renda mostradas por ele à repórter não revelam evolução patrimonial. Sonha agora em montar um restaurante e uma pousada em Ilhabela, mas acha que não terá freguesia enquanto o escândalo não for esquecido. Segundo ele, tem vivido de uma pequena poupança, e da ajuda dos irmãos:

- Tenho cortado gastos. "

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Tá ruim? Deixa assim!

Em post recente, Diogo toca em questão relevante - a questão das drogas. Ele contextualiza bem o problema, ao demonstrar que a sociedade brasileira trata-o assim como trata todos os outros desafios que assolam o país - de forma superficial. Faltou acrescentar hipócrita.

Atualmente, o uso de drogas é tido como ilegal e dá cadeia. O usuário é criminoso. A ilegalidade da droga acarreta, por sua vez, uma série de conseqüências nefastas. Aumenta o preço da droga, ao interferir na oferta, tornando-a uma atividade economicamente atrativa. Força o usuário a se colocar em situações de risco para obtê-la. E marginalisa o viciado, negando-lhe o direito a atendimento médico adequado, impelindo-o ao roubo para manter o vício. Dá margem, ademais, para a cultura paternalista, onde o pobre preto vai preso, enquanto o branco classe-média fica solto mediante o pagamento de suborno ao guardinha.

A política repressora é um desastre. Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, o maior defensor dessa abordagem retrógrada. Aí está a maior população carcerária do mundo, a maioria por consumo e tráfico de drogas, e, não obstante, é o maior consumidor de drogas do mundo. É nessa política ineficiente que a legislação brasileira se inspira.

Existe alternativa. A política liberalizante, adotada no Canadá, em muitos países europeus e, inclusive, em alguns estados americanos, tem mostrado resultados interessantes.

No Canadá, o médico pode recomendar o uso medicinal da cannabis sativa para o paciente. Alguém diagnosticado com, digamos, infecção intestinal, pode fumar maconha. Ela abre o apetite e afina o sangue, resolvendo dois problemas, sem químicos ou efeitos colaterais. O Governo canadense envia ao paciente um guia de como instalar o aparato necessário para o cultivo da maconha.

Na Suíça, existem narcossalas onde o viciado pode ir drogar-se de forma segura. Lá, o Governo disponibiliza assistência médica e oferece tratamento, caso desejado. Senão, apenas podem injetar drogas (pesadas), com seringas novas e limpas. Assim, não têm que lidar com traficantes, não precisam marginalizar-se socialmente para manter o vício, não correm o risco de contrair doenças graves. É bom para os viciados, que têm sua qualidade de vida melhorada; para suas famílias, que não passam pelo drama da marginalização do parente querido; e para a sociedade, que vê a criminalidade relacionada ao tráfico reduzida.

E no Brasil? Nem se discute essas coisas. O conservadorismo hipócrita que prevalece por aqui faz com que lança-perfume, cigarro e bebidas alcóolicas, drogas que dispõem de fortes lobbies que as defendem, sejam socialmente aceitos (às vezes até incentivados). Mas outras drogas ditas ilícitas, não pode. Por que? Pelo mero fato de ser ilegal. Ora, que sejam legalizadas! Nada mais natural do que a atualização das normas jurídicas aos novos tempos.

A abordagem liberalizante é não só filosficamente mais correta, ao propiciar maior liberdade aos indivíduos, ela é mais eficiente, ao reduzir os danos sociais causados pelas drogas. A única coisa que nos mantém distante dela é o debate truncado, gerado pelo atraso cultural do Brasil, onde medidas compensatórias são vistas como racistas, gays como aberração, aborto como assassinato, assassinato como "direito de defesa"... E, assim, continuamos a perceber que o Brasil tem problemas, e como solução propomos manter tudo do mesmo jeito!

segunda-feira, 17 de abril de 2006

interpretação de texto


quando puxas-me ao teu seio,
e fico ali, te sentindo, bem no meio,
sei que a vida é bela, apenas sei-o:
quando estou ali, tudo leio.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

A força da força nas relações internacionais

A idéia de que a base das relações internacionais seja a força é muito tentadora para regimes autoritários e intelectuais de raciocínio simplório. Trata-se, no entanto, de uma má interpretação do Realismo por parte daqueles que pensam a política externa e contraproducente para aqueles que têm que executá-la.

O pensamento realista tem suas raízes no "Estado de Natureza" hobbesiano, qual seja, a crença de que o Homem é essencialmente egoísta e, conseqüentemente, vive em um estado permanente de guerra. Baseando-se nessa premissa, realistas estendem essa lógica para as relações entre Estados nacionais, uma vez que são compostos de indivíduos.

Esse raciocínio está ultrapassado, pois tem se mostrado equivocado ou insuficiente no decorrer da história. Hoje, Realismo é menos ideológico e mais pé no chão. Segundo K. Waltz, é o "sistema anárquico" que define o comportamento estratégico do Estado, seguindo a lógica do equilíbrio de poder entre as nações; as regras que regem os humanos, considerados individualmente, são irrelevantes, pois eles não vivem em um sistema anárquico.

O modo como é organizada as Nações Unidas comprova essa questão. Não existindo um governo central sobre todas as nações, a ONU institucionalizou a ordem existente: a nível global, uma vez que não há o monopolista da força, tem-se a tendência à anarquia; é no melhor interesse de todos os Estados-nação que prevaleça o equilíbrio de poder, no qual pólos de poder devem coexistir. Este é o sistema multipolar, que se realiza no Conselho de Segurança da ONU - constituído de cinco potências nucleares.

Algumas pessoas, ao tentarem questionar o pensamento realista contemporâneo, defendem a idéia fora de moda de que a força seja o principal fator nas relações internacionais. Citam, como exemplo, a atual guerra no Iraque. Afinal, dizem eles, os Estados Unidos foram à guerra contra as decisões do CS, apenas porque era poderoso o suficiente para fazê-lo. São incapazes de perceber que, para isso, o Governo americano montou sua própria "coalizão dos voluntariosos" (não consegui pensar uma melhor tradução para "of the willing"... alguém aí tem alguma idéia?), numa tentativa, frágil, de prover de legitimidade as suas ações.

Isso é importante: os atos realizados pelos Estados precisam ser sentidos, em alguma medida, como legítimos diante tanto dos agentes políticos e sociais domésticos como da comunidade internacional. Por si só, força não basta para garantir essa legitimidade, essencial para a sobrevivência do Estado, que é seu objetivo último.

(traduzido do inglês)

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Lições de Gilmar

Foi numa conversa com Gilmar, no último domingo (09/04), que eu compreendi exatamente o significado do resultado da mais recente pesquisa Datafolha de intenções de voto para presidente.

Não, Gilmar não é professor de Ciência Política. Aos vinte e tantos anos, retirante do sertão baiano, ele mora numa favela em uma das Cidades Satélites que compõem o entorno de Brasília. Trabalha como empregado doméstico na residência dos meus parentes daqui, há oito anos. O chefe da família para a qual trabalha é um proeminente cirurgião plástico no DF, que atende a várias personalidades artísticas e políticas do país, em sua clínica, e cidadãos comuns, no hospital público onde também atua. Graças ao seu trabalho árduo, vive confortavelmente numa ampla casa no Lago Sul, o bairro mais prestigioso da cidade, e provavelmente o metro quadrado mais caro do Brasil.

Gilmar me falou o seguinte, quando perguntei porquê votaria em Lula para presidente: "Ele [meu patrão] diz que o povo tinha muita esperança em Lula, mas ele não mudou nada. Eu discordo. Acho que mudou sim". Pergunto em que sentido houve mudança. Gilmar explica: "Há uns três anos eu morava só com minha mulher. Hoje, com a mesma quantia daquele tempo, eu sustento a mim, a ela, ao nosso filho e à minha irmã, e ainda sobra. O arroz, o feijão, tudo está mais barato. Foi Lula". Insisto se ele percebeu alguma outra mudança: "Na favela onde eu moro, tem serviços que antes não tinha. Por exemplo, as ambulâncias [refere-se ao SAMU]. Tem dentista. A Polícia Federal também está prendendo muita gente - não era assim não antes. Sem contar que tem muita coisa que o Governo Distrital [estadual] diz que é sua, mas que é verba Federal."

Ou seja, para pessoas como o patrão de Gilmar, realmente pouca coisa, ao menos perceptível, ao seu alcance, mudou. Mas, para gente como Gilmar, que é a maioria desse país, houve mudanças sensíveis, que os afetam diretamente.

Gilmar ainda me contou: "Em 1994 eu votei em Fernando Henrique. Ele também foi um ótimo presidente. Para mim, o Plano Real foi o melhor plano que já teve". Nos ensina, assim, outra lição - como já disse aquele assessor de Bill Clinton, "it's the economy, stupid". O voto do povão, que batalha para se manter, tende a ser muito mais pragmático e realista do que o da classe média e alta, que pode se dar ao luxo de ter ideologia ou coisa que o valha.

Obrigado pela aula, Gilmar.

domingo, 9 de abril de 2006

Surpresas e tendências - nova pesquisa Datafolha

Se eu fosse cartunista, faria a seguinte ilustração para representar o atual momento político brasileiro. O Presidente Lula entrega à oposição a cabeça de Palocci, com uma mão, e com a outra limpa, com o guardanapo, a saliva escorrendo da boca dela. É o que a nova pesquisa de intenções de votos do Datafolha, publicada hoje na Folha de São Paulo, indica.

Nas últimas semanas, o Governo tem sofrido com a pesada artilharia oposicionista e seus meios de comunicação. Alkmin, já assumido como candidato tucano, tem andado pelos quatro cantos do país. Garotinho tem se dedicado à briga interna do PMDB. O quadro era todo favorável a uma subida do ex-governador paulista, à queda do Presidente Lula e à estabilização de Garotinho. Não é o que aconteceu. Pelos números do Datafolha, Lula oscilou dentro da margem de erro, de 42%, da última pesquisa, em março, para 40%; Alkmin caiu de 23% para 20%; e Garotinho subiu de 12% para 15% (a margem de erro é de 2%). Num quadro sem Garotinho, Lula apresenta condições vencer logo no primeiro turno.

Essa nova pesquisa indica que a tática da oposição conservadora, de desestabilizar o governo e desmoralizar o PT, não funcionou. Isso em parte se deve ao fato de que as denúncias e acusações de corrupção e incopetência, vindas da dobradinha PSDB-PFL, não colou. Se deve, também, ao fato de que a maioria dos eleitores de Lula, a despeito de terem tomado conhecimento do caso Francenildo, mantiveram suas intenções de voto. Uma parcela simplesmente não achou o acontecido grave o suficiente; outra, talvez tenha visto que antes de demonstrar um defeito, o affair mostra uma virtude do Governo - a de punir os seus (a PF tem feito seu trabalho sem partidarismo). Resumindo, enquanto a oposição quis marcar como o grande diferencial desse governo a corrupção, parte significativa do eleitorado não viu esse como o fator distintivo, e sim o fato de que, nesse governo, se sabe, se investiga, se pune. Não se sabe de mais casos de corrupção porque seja este o governo mais corrupto que já se teve, como quer fazer crer a oposição direitista, e sim porque nunca a Imprensa foi tão vigilante e também porque a natureza mesma do governo é mais aberta - esta parece ser a mensagem das ruas.

A tendência indica Lula firme e forte na disputa. Alkmin, por sua vez, está em apuros. Desde ontem, blogues políticos já falam abertamente na substituição de sua candidatura pela de Serra. E Garotinho se cacifou ainda mais, com esses novos números, na disputa interna peemedebista.

A oposição conservadora tucano-pefelê parece não entender o recado. Continuará com a atitute agressiva, apelando para questões morais, ao invés de discutir politicamente. Miram, agora, no Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos - o objetivo é derrubá-lo. Seguem agindo de maneira mesquinha, visando objetivos eleitorais, no Congresso Nacional - o Orçamento 2006 ainda não foi aprovado, e, assim, ficam no papel o inédito aumento aos servidores públicos (todos os setores serão beneficiados, recebendo maior aumento aqueles que ganham menos) e o salário mínimo mais alto dos últimos anos.

Colhendo os frutos do aperto fiscal dos últimos três anos, o Presidente Lula tem uma série de políticas públicas favorecendo diversos setores sociais - essa semana foram anunciados aumento e benefícios aos aposentados. Vem mais coisa por aí. Ou seja, a tendência é que siga estável ou suba ainda alguns pontos.

Se a oposição não mudar sua atitude sangüinolenta, teremos uma campanha suja, feia, sem substância, mas que, por isso mesmo, talvez se resolva logo no primeiro turno. Serão eles tão burros assim?

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Medo é o problema do Brasil??



Estará o medo nos tornando em seres socialmente irresponsáveis? É tanto medo que esquecemos de tratar o problema e, sim, apenas as conseqüências que o problema cria.
Sabemos que a violência é um problema, mas como a tratamos senão pela força? Que tipos de políticas são criadas ou defendidas pela sociedade civil no que se refere à legalização das drogas, ao uso de armas de fogo, à questão das fronteiras?... Lidamos com o problema “violência” não pela raiz. Tratamos o assunto sempre de forma superficial e punitiva; jamais na base e de forma educativa.

Falando em violência, você é a favor da legalização das drogas? Regulamentar esse mercado não é um meio de aumentar o controle, reduzir o tráfico ilegal por traz disso e arrecadar impostos para o governo?

Há poucas semanas assistimos gravação de MV Bill nas favelas do Rio. É a violência refém da violência. Ninguém ganha; todos só perdem. São crianças desamparadas; são poucas pessoas lucrando muito em cima de um comércio ilegal. Há seis anos tramita uma projeto de lei no Congresso propondo nova política de drogas apostando na prevenção, tratando a dependência como caso de saúde público, ao invés de polícia, e na reinserção social de dependentes. Desde abril de 2005, entretanto, que o projeto está esquecido pelos congressistas.

Diante das indagações acima e dos fatos, você é a favor da descriminalização das drogas?